Diário de uma mortal.
3 Funeral
Notas iniciais
Estava acostumada com funerais com chuva. Aquele, inexplicavelmente fazia sol. Na verdade, tudo naquele funeral estava diferente. As pessoas riam, o sol brilhava, e o morto não estava. Acho que eu era a única pessoa que espalhava a melancolia por onde passava, e que estava realmente de luto.
Kamila me deixou sozinha antes mesmo de entrarmos no colégio. Típico. Ela fora se encontrar com o mais novo amante, o Professor Vitor. Sabia que cedo ou tarde toda aquela tristeza pelo término do namoro acabaria. Coisas de Kamila.
– Por que não vai se divertir como as outras pessoas? – disse-me uma voz estranha e grave. Sem encará-lo respondi:
– Isso é um funeral. Que razão eu tenho para me divertir?
– Não acha que o morto iria querer todos felizes?
– Não. Acho que ele iria querer justiça.
– Justiça?
– Sim! Ele foi assassinado de forma brutal. Ele gostaria que fossem atrás do assassino, não que ficassem se embebedando no enterro dele. O Professor Paulo era um homem muito sério. Um dos meus professores favoritos, para ser sincera.
O estranho sentou-se ao meu lado. Mantive a minha posição e perguntei-lhe:
– Quem é você?
– Seu futuro Professor favorito.
– Por que acha isso?
– Também tenho sede de justiça e...
– Não, você não tem.
– Como?!
– Se tivesse estaria em luto e não se embebedando como os outros. Com licença.
– Você não vai nem perguntar o meu nome?
– Amanhã saberei de qualquer forma, não saberei? Pouco me importa saber agora.
Deixei o estranho sentado e caminhei pela cidade pensativa. O Professor Paulo era um homem tão bom. Por qual motivo alguém faria isso com ele? E a polícia? Por que ela não estava procurando provas?
Acabei chegando ao local em que o Professor Paulo foi assassinado. Decidi que eu mesma investigaria. Desde aquela noite ainda não tinha chovido, ficaria fácil encontrar provas.
Fiz como tinha aprendido nas séries policiais da TV. Primeiro: cuidado onde toca, isso pode alterar a cena do crime. Segundo: fotos. Bem, na falta de uma câmera, tirei fotos com o celular. Pulei a parte de colher digitais, já que eu não teria o equipamento necessário para analisá-las. E a parte do corpo, obviamente porque o corpo não estava mais lá. Comecei a procurar por pistas, e tudo o que eu achei foram folhas e galhos de árvores, jornais velhos e mais nada.
Já em casa, baixei as fotos do meu celular no computador, e observei-as. Não tinha absolutamente nada, a não ser as marcas de sangue do professor. Estava quase desistindo quando percebi que a lixeira da praça estava inclinada. Havia algo ali!
Movida por uma curiosidade sem limites, voltei à praça. Lá, procurei a lixeira e levantei-a com cuidado. Havia um jornal enrolado. Peguei-o e coloquei-o dentro do meu casaco. Já estava tarde e fazia frio. Com a lanterna do meu celular, iluminei a lixeira e vi mais marcas de sangue. Percebi um desnível na grama da praça, que poderiam facilmente sugerir pegadas e decidi segui-los.
Estava certa, eram realmente pegadas. E elas deram para uma árvore. Analisei-a e percebi que havia algo enterrado próximo à raiz. Na falta de uma pá, prometi a mim mesma que voltaria no dia seguinte. No entanto, começou a chover e eu não saberia voltar àquele local e nem poderia perder a possível chance de encontrar uma prova. Praguejando contra o tempo, arregacei as mangas do meu casaco e comecei a cavar com a mão.
Não demorou muito e eu encontrei aquilo que poderia ser a prova. Retirei o excesso de lama que tinha se formado nela por causa da chuva e percebi que era um livro. Fiquei meio decepcionada. Esperava ser ossos, chaves ou até mesmo galinhas mortas para um ritual satânico. Respirei fundo e coloquei-o dentro de meu casaco, longe do jornal para não molhá-lo.
Comecei a caminhar vagarosamente até a minha casa, quando ouvi o barulho de passos atrás de mim. Caminhei mais rápido e olhei para trás. Era um homem encapuzado, Eu estava sendo seguida. Olhei em volta e me percebi sozinha. Já tinha passado da hora do toque de recolher. Desesperada comecei a correr, e o homem fez o mesmo. Eu tinha que dar um jeito de escapar daquilo. Eu não queria morrer.
Corri com todas as minhas forças e com todo o meu fôlego, até que para a minha sorte um carro de policia parou em meu caminho. O policial iria começar a me dar um sermão devido ao toque de recolher, mas eu não pensei duas vezes, entrei no carro e dei meu endereço, junto com a promessa que eu não faria mais aquilo.
Olhei uma vez para trás e com a ajuda da claridade de um relâmpago, pude ver que o estranho estava lá, escondido e ainda me olhando como um caçador que acabou de perder a presa. Arfando, não olhei mais para trás. Eu estava segura e indo para casa.
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