Diário de uma Espiã

1 Prólogo - Bianca diLaluna


Tudo começou numa manhã fria, mais ou menos dois anos depois de minha mãe ter morrido num assalto em plena luz do dia. Meu pai, Sérgio diLaLuna, nunca se perdoou, pois ele era da guarda da cidade, mas fez o melhor para criar minha irmã e eu. Os tempos eram difíceis. O salário de papai mal dava para nos alimentar, e ele tinha que trabalhar em turnos dobrados, muitas vezes triplicados para que pudéssemos ter algum conforto. Eu tinha apenas 15 anos, não entendia o que acontecia, e papai sempre fazia todas as minhas vontades. Deuses... Ele até dava um jeito de comprar um vestido novo quando eu pedia. Não sei como ele arrumava o dinheiro, mas sei que ele era um cara honesto.

Minha irmã, Julia, era cinco anos mais velha. Ela entendia melhor que eu o que estava acontecendo, e queria ajudar, mas papai dizia que ela precisava cuidar de mim. Eles brigavam bastante, mas papai nunca deixava eu ouvir. Julia frequentemente saía a noite e voltava só de manhã, com algum dinheiro. Mais tarde entendi como ela conseguia, e porque papai ficava tão bravo.

A vida já era difícil o suficiente, mas há um ano, duas semanas antes de eu fazer 16 anos, aconteceu algo terrível. Papai estava em mais uma de suas patrulhas. Ele estava em algum lugar fora das muralhas com outros dois soldados, mas nenhum deles voltou. Eles simplesmente sumiram, sem deixar traços. Ou, pelo menos, foi o que as autoridades nos disseram. Eu lembro de chorar bastante, e de Julia falar que ia encontrar papai, não importando o custo.

Julia começou a sair todas as noites, e eu tive que começar a trabalhar. Consegui um trabalho numa pequena taverna, perto do porto, como garçonete. O salário era miserável, e o taverneiro frequentemente me tratava mal, mas eu não tinha escolha. Quase não via mais minha irmã mais velha, e quando a via ela estava com olheiras enormes ou hematomas, sempre cansada, e nunca me dizia nada mais que "Vou achar papai. Prometo."

Há mais ou menos duas semanas, Julia também sumiu. Ela já não ficava mais que algumas horas por semana em casa, mas sempre avisava quando ia sumir por mais de três dias. Desta vez não houve aviso, nem bilhete, nem nada. Ela simplesmente desapareceu. Começo a achar que a mesma coisa que aconteceu ao meu pai, aconteceu com ela. É a única resposta que consigo pensar. Mas tenho medo. Muito medo. Julia nunca me contou o que fazia, e eu não tenho nenhuma pista. Não quero ficar sozinha. Tenho que achar minha irmã, ou ao menos descobrir o que aconteceu com ela e meu pai. E, se houver um responsável por isso... Deuses, ele vai pagar. Vai pagar caro!