Diário de uma Espiã
2 Descoberta
Notas iniciais
Bianca deixou o pergaminho de lado, largou a pena de ganso e suspirou. Embora estivesse em dificuldades, seu pai a havia criado para ser uma dama, e era isso que ela pretendia. Ao contrário de sua irmã, Bianca pretendia deixar um registro completo de suas aventuras, começando com aquele pergaminho.
Este será o meu diário. Só espero que ninguém tenha realmente que lê-lo.
O objetivo principal de tudo isso era, caso ela tivesse o mesmo destino de seu pai e sua irmã, alguém — qualquer um — ao menos soubesse o que ela estivera fazendo e pudesse fazer justiça. Afinal, aquela era a noite; a noite em que tudo começava, a noite em que ela pretendia começar sua investigação... A noite em que sua vida poderia mudar.
A jovem se espreguiçou, desconfortável com a pouca luz que a vela fornecia, tremulante por causa da brisa suave da noite. Economizara o máximo possível de seu trabalho como garçonete — o que não era muito — para que pudesse se preparar. Pretendia achar sua irmã e seu pai antes que atraísse atenção da corte, que com certeza iria querer casá-la o mais rápido possível para saldar dívidas. Afinal, ela ainda carregava o nome diLaLuna, mesmo sendo a última, e isso daria algum poder ao seu futuro esposo.
Bianca balançou a cabeça numa tentativa de afastar esses pensamentos. Não estava pronta. Era muita responsabilidade. Preferia arriscar a vida procurando sua família do que ser forçada a carregar aquele fardo sozinha. Esse era seu maior medo. Política.
A vela finalmente se apagou, e Bianca ficou pensando no escuro, sozinha, encarando o nada. Tentava sobrepujar o medo, aquele sentimento que tanto a incomodava, que a conhecia tão bem, e que ela também conhecia. Finalmente, se levantou e foi se trocar. Era hora de Bianca DiLaLuna dormir e Aifa acordar.
–--
A noite estava clara e límpida, sem nenhuma nuvem no céu. O vento frio do norte estava calmo, mas ainda era o suficiente para fazer um casaco necessário. Como sempre, as casas estavam praticamente vazias, enquanto as tavernas se enchiam dos homens que tinham trabalhado o dia inteiro e das mulheres da noite. Os sons de música, talheres e vozes altas ecoavam em cada esquina, mostrando que a cidade ainda vivia mesmo tão perto do inverno.
Aifa — ou Bianca, se fosse retirado aquele disfarce — olhou para fora por entre a porta entreaberta. Ninguém nas ruas. A vantagem de morar no distrito médio da cidade era este: os nobres não passavam por lá por nojo, e a classe baixa não passava por medo. Nervosa, Aifa tocou as orelhas postiças, sentindo como eram mais pontudas que as suas. Verificou com um pequeno espelho a cor do cabelo, antes escuro como a noite, agora da cor do fogo ardente; os olhos antes verdes, agora azuis como o céu da manhã. Perfeito.
A jovem saiu rapidamente, tomando o cuidado de fechar a porta e esconder a chave embaixo de uma pedra de calçamento. Repassava rapidamente a história que tinha inventado caso precisasse. Sou Aifa, uma elfa aventureira. Estou atrás de trabalho que me dê fama e fortuna. Sou Aifa, uma elfa aventureira. Estou atrás...
Enquanto repetia isso mentalmente, Aifa se dirigiu para o posto da guarda local. Já conversara com aventureiros por tempo suficiente para saber que era lá que conseguiam trabalho — e, claro, era lá que ela poderia conseguir alguma informação. Não devia ser difícil, ela vestira a velha armadura de couro de seu pai, tomara o cuidado de retirar a insígnia da guarda, e carregava uma besta de mão e uma adaga na cintura. Não tinha nem certeza se a besta funcionava, mas aquilo deveria convencer o suficiente para que os guardas não a expulsassem.
O edifício do posto da guarda, uma torre dois ou três andares mais alta que as casas ao redor, logo estava à sua frente, com sua grande bandeira esvoaçando ao vento, fazendo parecer seu símbolo, um dragão branco em fundo azul, quase real. O edifício era de pedra lapidada, um tanto velho, mas tão sólido quanto um castelo, feito na época em que a cidade de Avyrotar era apenas um entreposto militar. As seteiras — únicas janelas daquela torre — brilhavam com a luz refletida das velas e candelabros do interior, e guardas estavam postados nas portas com grandes alabardas e uniformes azuis.
Aifa engoliu em seco. Era a primeira vez que fazia aquilo, e o nervosismo estava tomando conta de seu corpo e mente, transformando-se em pânico. Uma vozinha na sua cabeça começou a gritar que tudo ia dar errado, que ela seria descoberta e presa pelo resto da vida. Aifa forçou-se a seguir em frente, pondo no rosto o sorriso mais encantador que conseguia.
Felizmente, Avyrotar era uma cidade tanto de elfos quanto de humanos, e Aifa era melhor naquilo do que conseguia admitir. Ela achou que teria de explicar sua vinda até o posto da guarda, mas bastou um olhar de um dos guardas para que ele abrisse a porta e acenasse para dentro com descaso.
– Outra aventureira, pelo jeito. Ali dentro, do lado esquerdo, no mural. Veja se tem alguma missão que lhe agrade, elfa. Se tiver dúvidas, fale com Golmur.
Aifa congelou o sorriso, surpresa, e se deteve por um momento. Não esperava que fosse tão fácil entrar, afinal, aquela torre sempre pareceu tão protegida, tão proibida, tão... inexpugnável. Ela esperava resistência, espadas desembainhadas, arqueiros a postos, gritaria. Mas não houve nada disso, apenas um gesto descuidado e só.
Respirando fundo, Aifa entrou na torre. O cômodo que se revelou era grande, mas pouco mobiliado. Não havia janelas ali, e quase toda a luz provinha de tochas presas às paredes. Numa das paredes, um mural enorme mostrava vários papéis oficiais, pôsters de foras da lei e anúncios de trabalhos para aventureiros. Diretamente do outro lado, logo na frente da escada de pedra, estava uma mesa de madeira rústica, onde um oficial escrevia seus relatórios da noite com uma pena de ganso. Um outro homem contava algumas moedas, provavelmente um aventureiro. O cheiro forte de carvão queimado impregnava todo o ambiente, e o único som que podia ser ouvido além do tilintar das moedas era o barulho áspero da pena no pergaminho.
Aifa se aproximou do mural fingindo ler os trabalhos destinados a aventureiros, enquanto pensava na melhor forma de abordar o oficial. Terei que ser sutil... Talvez dizer que trabalho para o rei? Não, ele vai querer provas. Um dos nobres, talvez?
– Ei! — A voz grave fez o coração de Aifa pular antes de ela virar a cabeça. Quem falava era o aventureiro que contava as moedas, mas felizmente ele se dirigia para o oficial. — O anúncio dizia quinhentas moedas. Faltam cem aqui!
O oficial olhou com evidente desprezo para o homem, e Aifa tratou de desviar o olhar e continuar sua "leitura" do mural, mas continuou ouvindo atentamente.
– Vai reclamar por cem moedas? Vocês, aventureiros, já ganham muito mais do que deveriam! — o barulho de algo sendo jogado soou pelo ar. — Tome suas malditas cem moedas e suma daqui! Ouro nunca é suficiente para vocês!
Aifa estava abismada. Ela ganhava uma moeda de prata por semana — não muito, mas o suficiente para sobreviver. Mesmo seu pai ganhava apenas doze moedas de ouro por mês, e com isso eles já conseguiam manter a casa, comprar comida e roupas novas. Quinhentas moedas... Aquilo dava para comprar uma casa.
O aventureiro grunhiu algo e foi embora. Agora era a hora. Se Aifa queria descobrir alguma coisa, precisava agir imediatamente. Com seu sorriso armado no rosto, a elfa virou-se para o oficial.
– Com licença...
– Sim, apenas os anúncios no mural estão disponíveis; e não, não adianta insistir por mais. — o homem nem sequer ergueu os olhos do que escrevia para falar com ela.
– Eu... — Aifa engoliu em seco. Aquilo era mais difícil do que ela pensava. Estava tremendo quando falou, mas felizmente sua voz soou firme. — Eu só queria uma informação, mais nada. Sobre um de teus soldados.
Agora o homem ergueu os olhos, analisando-a de cima a baixo. Obviamente gostou do que viu, pois largou a pena e abrandou a carranca de pouco caso.
– E qual soldado seria, senhorita...?
– Aifa. — elfos normalmente não apresentavam o sobrenome. Que bom que papai me ensinou isso. Ela se aproximou da mesa, apoiando uma das mãos e tomando uma postura mais relaxada. — Procuro por Odreir, acho que este é o nome. Podes dizer-me onde ele se encontra?
O nome não era por acaso. Sérgio havia comentado que Odreir era o comandante-chefe, responsável pelos relatórios e bem-estar dos soldados naquela época. Claro, Aifa não tinha idéia de como ele era. De repente, um pensamento gelou sua espinha. E se este for o tal do Odreir?
Mas, pelo jeito, não era. O oficial ergueu uma sobrancelha e cruzou os dedos sobre a mesa. Seu olhar estava levemente mais interessado.
– Odreir? Por que quer saber?
Aifa se inclinou de modo insinuante para frente, até chegar com os lábios próximos de um dos ouvidos do oficial. Era um gesto comum entre os elfos, tão comum que era até esperado, mas Bianca sentia-se estranha fazendo isso. Devia manter o disfarce, mas talvez tivesse sido melhor não escolher outra raça. Não! Todo cuidado é pouco.
– Assuntos pessoais, caro senhor. — as palavras não foram mais que um sussurro. Aifa teve a impressão de ter visto o oficial tremer quando ela afastou o corpo e lançou outro sorriso. Estava confiante, o disfarce parecia estar funcionando.
– Claro, claro, senhorita Aifa. Meu nome é Jorei, a propósito. — o homem a observou com olhos lascivos e limpou a garganta, antes de voltar os olhos para um pergaminho em particular. Após alguns minutos — e várias olhadas dele para Aifa -, o oficial voltou a falar. — Aqui está! Odreir foi aposentado há um ano, mais ou menos. Deve estar passando suas noites em uma das tavernas aqui perto, revendo velhos amigos... Ei, aonde vai?
Aifa já estava se retirando; ouvira tudo que precisava. Frente à exclamação do oficial, ela parou, virou a cabeça e sorriu.
– Oras, eu avisei-te que meus assuntos eram com Odreir, não?
– Hã, mas você pode ficar um pouco mais, se quiser. Eu poderia conseguir mais informações sobre Odreir... Sobre quem quiser, na verdade. — O oficial agora se levantara e se aproximava devagar. Aifa se virou e andou lentamente até ele, de um modo sensual, e se pôs logo atrás, de modo que pudesse sussurrar diretamente em seu ouvido novamente.
– Talvez noutro dia, oficial... Com certeza noutro dia... — E então se apressou para sair daquele lugar.
O oficial, depois de alguns minutos apreciando o perfume de rosas da elfa, foi até a porta para observá-la sumir na multidão. Os dois guardas ainda estavam lá fora em suas posições, como estátuas vivas. O oficial falou para nenhum especificamente, sem nem menos olhá-los.
– Aquela elfa, Aifa... Despachem alguém para descobrir quem ela é, e onde vive. — Aifa não sabia, mas o oficial percebera como ela andava rígida demais para um elfa.
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Consegui! Consegui!
Bianca mal podia acreditar. Ela se passara por uma aventureira, uma elfa! Seu coração nunca tinha batido tão forte como naqueles minutos, achava que iria ser descoberta; a pena por se passar por um aventureiro (ou mesmo entrar na casa de guarda sem permissão) era de dois anos de prisão.
Achei que ele ia me descobrir, mas mordeu a isca! Agora posso procurar o tal Odreir.
Bianca pensava nisso enquanto caminhava para a taverna Lança Pequena: a preferida dos soldados. Não tinha esperanças de encontrar Odreir logo de cara, mas com certeza encontraria alguma pista. Afinal, disso ela entendia. Tavernas eram locais não apenas de divertimento e gozação, mas de informações, encontros e chantagem.
É claro, ela precisava ser cuidadosa, afinal, não gostaria de estragar o disfarce. Uma elfa aventureira era perfeita para entrar em locais onde uma simples mulher não poderia, mas uma taverna era de acesso comum a todos. Sendo assim, Bianca resolveu deixar Aifa dormir e interpretar outra pessoa; alguém mais comum e mais condizente ao ambiente de uma taverna. Um pouco antes de chegar à taverna, Aifa entrou em um beco, sem saber que olhos hostis a observavam de longe.
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Uma mulher humana, aparentando ter seus vinte anos, de face comum, pele escura e cabelos negros como a noite, se dirigia à taverna Lança Pequena. Rovanna vestia um vestido surrado de lã grossa e ensaiava um cambalear típico de bebuns. Claro que este era o novo disfarce e plano de Bianca: uma mulher que aparentasse estar bêbada poderia conseguir informações onde outra não conseguiria.
A taverna estava cheia, como de costume. Pessoas — elfos, humanos e anões — saíam e entravam a todo momento, alguns em grupos grandes. O ar cheirava a fumaça e cerveja barata. As mesas de carvalho estavam quase todas cheias e os garçons e garçonetes se esforçavam para atender a todos. Por uma fração de segundo, Rovanna sentiu pena por eles, afinal, ela sabia o quão difícil era aquela vida. Foco! Não posso me dar ao luxo de sentir qualquer coisa agora, ou estrago o disfarce. Se bem que um disfarce de uma mulher bêbada não era muita coisa.
A jovem se aproximou do balcão e pediu um pouco de vinho (na verdade balbuciou algo como "Mim dá vinho!"), enquanto aguçava os ouvidos para captar algo — qualquer coisa — que fosse útil. Incrivelmente, dentro de poucos minutos, uma frase a surpreendeu.
– Odreir, vá para casa, você está bêbado! — E um estouro de risadas logo depois.
Rovanna se virou para a direção da conversa, incapaz de controlar sua curiosidade. Um grupo de soldados sentava-se numa mesa no canto da taverna e ria de um velho veterano. O velho — que devia ser Odreir — falava alto e gesticulava, obviamente contando uma história. Tinha cabelos grisalhos e desordenados, barba por fazer e usava um uniforme da guarda sujo e desbotado. Parece que este não se limpa há anos!
– É sério, rapazes! — A voz de Odreir era rachada e um tanto aguda, o que fazia lembrar uma gralha. — Eram três orcs, e eu lutei contra eles! Salvei meus homens aquele dia, sim salvei!
– Claro! — Disse um dos soldados em tom zombeteiro. — E os derrotou armado apenas com uma adaga e sua coragem, aposto! — Todos em volta explodiram em gargalhadas, mas Odreir obviamente não ligou. Estava muito bêbado, e achava que todos estavam gostando de sua história.
– Mas é óbvio! Uma adaga cega, era tudo que eu tinha!
Enquanto os guardas ouviam e riam jocosamente da história, Rovanna se aproximou devagar. Tomara um pouco de álcool para ser mais verossímil em seu disfarce, mas sentia-se um pouco tonta. Se bebesse apenas mais um pouco, talvez não precisasse mais fingir que estava cambaleando. Só espero que não tenha exagerado.
Odreir estava exatamente de costas para Rovanna enquanto ela se aproximava, e agora levantara para contar sua história, balançando sua caneca de um lado para outro e espirrando cerveja por todo canto. Os guardas provocavam as garçonetes que passavam quando não estavam rindo dos absurdos da história, e alguns puxavam as mulheres que estavam servindo para seus respectivos colos, para depois falarem algo obsceno enquanto elas se levantavam protestando. Uma cena bastante comum em tavernas, suponho, mas me enche de desprezo.
Rovanna ignorou os outros guardas e calculou seus passos. Precisava ser perfeito. Num momento, quando Odreir abria os braços para descrever o tamanho exato de um dos machados que quebrara com os dentes, ela "tropeçou" na direção dele, algo que esperava que todos percebessem como um efeito do álcool. Como previa, os anos treinamento de Odreir serviam de alguma coisa, pois ele teve presença de espírito suficiente para agarrá-la antes que ela caísse.
– Oh, cuidado aí, mocinha! O velho Odreir não tem mais... — Ele parou para observá-la melhor, obviamente gostando do que via. — Mas vejam só, parece que um anjo caiu dos céus!
Ignorando o cheiro forte de cerveja e suor que emanava do homem como uma aura, Rovanna fingiu focalizar o olhar (embora o cômodo parecesse girar um pouco). Tratou, também, de dar seu sorriso mais tolo.
– O sinhô é gentil... E bastanti forte! — ela fingiu tentar levantar e não conseguir. Seu coração batia forte, não tinha muita certeza se o que fazia ia dar certo. Afastou os pensamentos, levemente consciente de que Odreir ajudava-a a sentar. — Acho qui exagerei um poco no vinho.
Odreir sorriu para Rovanna, revelando vários dentes tortos ou quebrados, além de extremamente amarelados. O cheiro de cerveja barata ficou ainda pior com o seu bafo, tanto que a jovem sentiu seu estômago revirando. Percebeu, sem muita surpresa, que Odreir a colocara em seu colo.
– Tem que tomar cuidado, mocinha. Vinho demais e logo cairá e machucará este lindo corpinho.
Os outros soldados não davam muita atenção ao acontecido. Em tavernas era extremamente normal que prostitutas se aproximassem daquele jeito — na verdade, Rovanna fora até sútil. Tentando ignorar a repugnância que apenas aumentava em relação ao veterano soldado, Rovanna envolveu-o com um dos braços e pegou uma caneca de cerveja com o outro, embora tomasse o cuidado de não se aproximar muito — apenas o suficiente para parecer interessada.
– Realmenti, muito gentil... Eu tava ouvindo suas história, você parece quasi um cavalhero do rei. Mi conta mais!
Como Rovanna pensou, Odrei desatou a falar, tentando impressiona-la. Agora era apenas uma questão de tempo e álcool para conseguir a informação que queria.
–--
Bianca acordou sentindo os olhos queimando por causa da claridade. Virou para o lado em seu colchão de palha, tentando esconder-se do sol forte. Sua cabeça latejava, seus olhos pulsavam e seu estômago parecia um mar revolto. Sentia a garganta seca, mas não tinha a menor disposição para levantar.
Após o que pareceu ser uma eternidade, Bianca conseguiu reunir coragem suficiente para se levantar. Imediatamente se arrependeu mais do que qualquer coisa em sua vida. Teve a sensação de que haviam derrubado uma armadura de batalha completa em sua cabeça quando o latejar explodiu em um milhão de cores diferentes. Ela cambaleou e sentiu que ia cair, mas felizmente conseguiu se apoiar na parede do quarto. Ficou lá até o quarto parar de girar ao seu redor.
Caramba! Quanto eu bebi? O que... aconteceu ontem?
Por um momento a ansiedade tomou conta da jovem DiLaluna. Parecia que as memórias da noite passada haviam sido apagadas. Ela lembrava-se de conversar com Odreir, de fazê-lo falar com mais bebida, de talvez ter bebido um pouco para manter o disfarce, das mãos do veterano...
Um arrepio subiu pela espinha de Bianca. E se eu fiz algo que vou me arrepender? O que eu fiz?
Ela decidiu que precisava de um banho imediatamente. Ainda vestia seu disfarce de bêbada, algo que parecera uma boa idéia na noite anterior, mas que agora parecia extremamente estúpida. Se apenas ela tivesse mantido o disfarce de Aifa.
A água logo ficou morna para a tina e Bianca começou a se esfregar. Sentia-se suja. Imunda. Lembrava-se de estar sentada no colo de Odreir, do cheiro forte de cerveja vindo de seu bafo, do cabelo oleoso. A jovem começou a se esfregar com mais força, agora chorando de frustração.
A idéia de espionagem não parecia mais uma estratégia tão boa. Ela ouvira estórias dos bardos — pessoas que se infiltravam em fortalezas cheias de perigos, heróis que descobriam conspirações e as derrotavam, tudo pelo bem das pessoas e do reino -, mas os bardos não contavam como tudo isso era cansativo, perigoso e repugnante. As estórias só mostravam o brilho e glória, não o trabalho duro.
Enquanto se enxugava, e já se sentindo menos suja, flashs de memória começaram a voltar lentamente. As histórias absurdas de Odreir. As garrafas de cerveja e vinho que vieram cheias e voltaram vazias. As mãos quentes do soldado a apalpando.
De repente, Bianca se encheu de alívio. Lembrava-se de Odreir ter, uma hora, bebido tanto que desmaiou, ela ter abandonado o seu corpo inerte e voltado para casa. Claro, não lembrava como havia chego, mas nada acontecera. E melhor, ele falou! Ele falou algo sobre meu pai! Agora, o que era mesmo?
Ela tentou se lembrar enquanto se enxugava e se vestia para o dia. Era seu dia de folga, e de qualquer forma ela só trabalhava no turno da noite. Poderia descansar e se recuperar, além de planejar seus próximos movimentos.
TOC TOC.
O barulho de algo batendo na madeira a fez ter um sobressalto, além de ameaçar fazer a dor de cabeça pior. O banho ajudara, mas ainda havia um leve latejar. É apenas a porta. De repente, ela foi inundada de um medo terrível, fazendo com que seus braços ficassem tão frios quanto a neve. Não lembro de como cheguei. E se me seguiram?
Ela caminhou até a porta lentamente. Percebeu que as armas de seu pai estavam jogadas em um canto; ao menos isso ela lembrara de pegar de volta. Cogitou pegar a besta para se defender, mas poderia não ser nada de mais.
A batida na porta soou novamente, desta vez mais apressada. Uma voz pomposa e arrogante se ergueu, a voz que só um nobre consegue ter, cheia de escárnio e superioridade.
– Bianca! Abra a porta, querida! Já passam das onze!
Bianca suspirou, visivelmente irritada. Reconhecera a voz de imediato: seu tio Olvar. Não irmão de seu pai ou sua mãe, apenas alguém que era bastante próximo da família, e que ascendera em poder rapidamente após o desaparecimento de Sérgio DiLaluna. Bianca nunca desconfiara realmente dele por ele sempre estar trazendo presentes, embora não tratasse ela e a irmã Julia exatamente bem.
Com um pouco de esforço devido à cabeça ainda latejante, Bianca foi até a porta e a abriu. O homem parado na porta se vestia com roupas de cetim verde e amarelo e usava botas e luvas de couro de qualidade. Uma pesada capa de peles estava presa por um broche finamente trabalhado em ouro em seu pescoço. Tinha o rosto marcado por rugas de expressão, e seu semblante era de descaso, como sempre. Sempre tenho a impressão que ele se considera superior a tudo e a todos.
Sem nenhuma cerimônia, Olvar entrou na casa, quase empurrando Bianca de lado. Apesar da pomposidade, ele era alto e parecia forte, o que lhe dava um aspecto um tanto intimidador. A voz monótona e cheia de superioridade do nobre ganhou um tom de repreensão enquanto ele observava a casa — paredes, móveis, piso, tudo.
– Pelos deuses! Olhe só que bagunça! Não te ensinaram a manter uma casa arrumada? E o que é isso? Lama? Que absurdo! Onde tem andado para enlamear o piso deste jeito? Parece uma simples camponesa!
Bianca levou a mão à fronte, tentando de alguma forma conter o latejar de sua cabeça que só piorava com aquele sermão. Ela nunca gostara realmente de Olvar, e agora ele parecia insuportável. Entretanto, era melhor não interrompê-lo, normalmente ele vinha, falava o que tinha que falar, deixava algo e ia embora.
– E olhe só para você! — agora Olvar parara de observar a casa e examinava Bianca. — Despenteada! Sem adereços! Vestido simples! Pelos infernos, terei que aumentar o dote para casar você desse jeito!
A última frase demorou alguns segundos para ser processada na mente de Bianca. Ela olhou estupefata para Olvar, sem ouvir o sermão que ele continuava a fazer. Sem perceber, a jovem estava verbalizando seus pensamentos.
– Espere, casar? Que história é essa?
Olvar parou de falar e olhou para ela como se ela fosse uma criança retardada.
– Não espera manter essa casa sozinha, não é? Eu estou arranjando um bom homem para você, assim pode continuar como tenho certeza que seu pai a criou. Talvez até seja uma dama da alta sociedade! Imagine só! — um breve sorriso apareceu em seu rosto, tão breve que era quase impossível ver a expressão irônica que veio junto com ele. — Não precisa agradecer, querida! Devo isso pela amizade com seu pai.
– Não! Eu não posso casar! — Bianca sentia as lágrimas subindo a face e a garganta apertando. — Meu pai vai voltar, e minha irmã! Eles vão me ajudar quando voltarem!
– Bianca, Bianca... — Olvar balançava a cabeça, parecendo triste. — Você não pode viver no passado, querida. Um bom marido vai manter a casa DiLaluna em pé, e vocês podem até ascender à nobreza. Pense nisso! Não é o que seu pai iria querer?
Bianca olhou para Olvar. Ele parecia triste, mas era uma emoção fingida. Havia mais ali no meio. Uma fagulha de raiva apareceu no coração de Bianca e ela sentiu as bochechas esquentarem.
– Não!
Olvar a encarou, o semblante se tornando perigosamente sereno, como o de um senhor quando não acredita que seu servo o desobedeceu.
– O que foi que disse?
– Eu disse que não! — Bianca se aproximou dele, as mãos fechadas em punho ao lado do corpo. Ele era pelo menos uma cabeça maior que ela, e a jovem odiava o fato de ter que olhar para cima para conversar com ele. — Meu pai vai voltar, e eu não quero casar!
O rosto de Olvar passou de incredulidade para escárnio novamente.
– Você não entende, Bianca... É jovem ainda, e avoada como sua irmã! Seu pai não vai mais voltar! Ele se foi! É a sua chance de garantir um futuro com algum recurso ou acabar como uma prostituta de rua!
– Não! Ele vai voltar! — A raiva de Bianca foi tanta que, sem perceber, ela tentou dar um tapa em Olvar. O homem foi rápido e, antes que pudesse reagir, ele havia segurado seu braço como uma tenaz de ferro.
– Agora escute aqui, pirralha! Tanto eu quanto você podemos ganhar com esse casamento, e eu não vou perder esta chance! — ele apertou o braço dela, fazendo com que Bianca começasse a chorar, tanto de dor como de frustração. — Seu pai era um tolo por não te casar mais cedo, e um tolo maior ainda por não te ensinar boas maneiras. Não seja como ele.
Bianca tentou se libertar, mas Olvar era forte. Sem muito esforço, ele a dominou segurando seus dois braços e a prendeu contra a parede. A jovem soltou um gritinho entre os soluços do choro e conseguiu dizer algo parecido com "me solte".
– Esta casa, o nome DiLaluna... Está encravado na nobreza. Com apenas um pouco de esforço, o nome de vocês poderia voltar ao que já foi um dia, antes de seus estúpidos ancestrais arruinarem tudo! — ele aproximou o rosto do dela. Um cheiro de amêndoas e orvalho emanava de sua boca. — Então, ouça com atenção Bianca. Como seu tutor legal, eu vou arrumar um marido para você e vou receber um título de nobreza junto com vocês. Está entendendo bem?
Na última frase, ele começou a torcer levemente um dos braços de Bianca, fazendo com que ela chorasse com mais vigor e concordasse com a cabeça. Depois de alguns segundos, ele a soltou e se afastou, deixando a jovem soluçando, encostada na parede, por alguns minutos. Ela finalmente teve coragem de erguer os olhos e o encarar, com a visão ainda embaçada.
Olvar a olhava de um modo diferente — o mesmo modo como Odreir a olhara na noite anterior e tantos outros antes dele. De repente, Bianca se sentiu extremamente exposta, como se Olvar a estivesse despindo com os olhos.
– Lembre-se, Bianca. — A voz de Olvar era controlada agora. — Há várias maneiras de eu me tornar um DiLaluna, tutor é apenas uma delas. — Ele chegou perto, erguendo o queixo da garota com a mão direita. — Estou sendo gentil. Não me desafie novamente.
Então, o nobre se virou e foi até a porta, falando com aquele tom pomposo e superior novamente.
– Tenho várias coisas para resolver, mas dentro de uma ou duas semanas vou voltar para você conhecer um de seus pretendentes. — Ele parou na porta e olhou por sobre o ombro na direção dela, com um ar de puro desprezo. — Queira estar com a casa em ordem e realmente apresentável, como uma verdadeira dama. E lembre-se do que conversamos hoje, Bianca DiLaluna!
Dizendo isto, ele saiu, fechando a porta atrás de si com um estrondo. Bianca ficou na sala, encostada na parede, chorando baixinho. Quando é que as coisas haviam ficado tão complicadas? Olvar — não o chamaria mais de tio, jamais!- aparecia uma vez por mês, mas nunca falara nada disso. Será que ele fez a mesma coisa com minha irmã?
O cérebro de ressaca de Bianca começou a fazer uma conexão vagarosamente, uma conexão que ela nunca tinha considerado e que a deixou horrificada. Ela se lembrava de algo da noite anterior, algo que Odreir havia deixado escapar.
– O velho Sérgio se metia demais nas coisas. Me admira que aquele nobre maldito não tenha feito ele perder o emprego.
Bianca enxugou os olhos. Ali estava sua pista. Era disso que precisava.
Olvar tem algo a ver com o desaparecimento de meu pai e minha irmã, tenho certeza! Eu tenho que descobrir o que! Tenho que agir antes que ele haja!
Ainda com algumas lágrimas escorrendo pela face, Bianca se levantou e foi até os armamentos de seu pai. Pegou a pequena besta de mão, a arma que mais gostava, mesmo não sabendo usar. A dor de cabeça parecia ter sumido; seu cérebro trabalhava a todo vapor.
– Olvar, eu não sou sua serva! Vou descobrir o que você fez e vou fazer você pagar! Eu juro!
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