Notas iniciais
“Atrás da família, por trás do castelo, A agora mulher olhava, espiava; Pois do mau que antes fugia, que lhe era flagelo, Agora lutar contra ele tentava.”

Bianca deixou o pergaminho de lado, largou a pena de ganso e respirou fundo. Aquele era o segundo pergaminho, e ela não sabia se teria um terceiro. O que pretendia fazer iria mudar sua vida, fosse para o bem ou para o mau. Ela olhou de relance para a tinta que secava no couro gasto. As letras curvas e apertadas de sua mão formavam um pequeno texto.

“Consegui informações com Odreir, o velho comandante de meu pai. Ele falou algo sobre um nobre estar bastante interessado nas rotas e atividades de Sérgio logo antes de ele sumir, e há algum tempo Olvar, meu... Um nobre conhecido da família, apareceu aqui interessado no nome DiLaluna. Desconfio que ele tenha algo a ver com tudo isso, e pretendo descobrir isso esta noite.”

Parecia bom o suficiente. Ou, ao menos, bom o suficiente para uma carta de despedida. Quase acrescentou algo no final como “Se eu não escrever mais”, mas achou aquilo bobagem. Acreditou que aquilo era bobagem. Afinal, ela voltaria, não é?

A jovem olhou para as próprias mãos. Estavam tremendo. Ela suava frio de expectativa. O que planejava fazer ia muito além de simples conversas num balcão, além de seduções aleatórias, além até mesmo de se disfarçar para entrar em um edifício de acesso restrito. Talvez não valesse a pena. Era mais fácil deixar tudo como estava e seguir com a vida.

O rosto de Olvar apareceu de relance na mente de Bianca, o olhar de desprezo fitando ela, a atitude superior de alguém que avalia um objeto para vender. O nobre com certeza iria importuná-la, e o destino que ele reservara à pobre mulher com certeza iria se concretizar se esta fosse a vontade dele.

Não! Qualquer coisa deve ser melhor do que os planos daquele monstro! Eu preciso tentar. Eu vou invadir o castelo!

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Uma figura sombria observava a multidão se movimentando apressada pela rua de lajotas. O sol do fim da tarde enviava as réstias de luz por sobre as muralhas do lado oeste da cidade, fazendo com que várias casas projetassem suas sombras sobre as ruas. O ar estava frio, mas não havia vento, o que deixava a temperatura perto de amena. Pessoas conversavam na rua, lojistas gritavam as últimas ofertas do dia, um cachorro latia em algum lugar. Logo os trabalhadores iriam para as tavernas ou para suas casas.

A figura estava oculta pela escuridão de um beco, onde poucos entravam. Tinha forma humanoide, mas vestia um robe azul escuro e uma capa cinzenta pesada, e o rosto estava coberto por um véu – exatamente igual ao que usavam no deserto ou nas Terras Devastadas mais ao norte. Aquilo não era incomum, já que as clérigas da deusa da morte se vestiam assim, e frequentemente aventureiros e exploradores do norte chegavam a cidade. Escondidos sob aquela capa e o robe, de uma forma que fosse de fácil acesso, estavam várias armas e ferramentas cuidadosamente escolhidas.

A rua movimentada passava diretamente na frente dos portões que davam acesso ao castelo. Não exatamente à fortaleza, mas à parte administrativa, onde os arquivos, documentos e papéis oficiais normalmente ficavam guardados – ou ao menos era isso que Bianca achava. A jovem não tivera acesso a nenhum tipo de planta, nem pudera fazer planos elaborados. O medo de que Olvar voltasse com um pretendente a forçara a agir rapidamente prematuramente, mas a verdade era que estava com medo. Medo de falhar. Medo de não tentar. Medo de...

Ela respirou fundo. Esse disfarce era novo, ela precisava agir como outra pessoa. O grande problema era entrar, depois disso deveria ser fácil. Pelo que ela conseguia ver, havia dois guardas no portão, depois disso um simples lance de escadas e pronto. Teria entrado.

O portão parecia ser pesado, mas se abria para fora, de forma que era só puxá-lo. Haviam correntes e cadeados pendurados em um deles, o que indicava que, por enquanto, eles estavam abertos. A porta no fim das escadas era de madeira maciça reforçada, e não havia como dizer se estava ou não aberta. Só há um jeito de descobrir.

Era hora de pôr o plano em ação. Respirando fundo e tentando acalmar o coração que batia freneticamente, Bianca imitou o pio de um mocho em alto e bom som. Ouviu quase imediatamente vozes zangadas se elevando em resposta, mas resistiu ao impulso de olhar na direção do tumulto e prestou atenção nos guardas.

Provavelmente já cansados de seu turno de vigia, os dois guardas olhavam distraidamente o tumulto, com um misto de desconfiança e interesse. As pessoas a rua também paravam para assistir, formando um círculo ao redor de dois homens que discutiam calorosamente. Claro, Bianca sabia que a discussão era simulada, mas não deixou de notar como era incrível o que as pessoas faziam por algumas moedas de ouro.

A discussão ficou mais acalorada e um homem empurrou o outro. Parecia que uma briga estava prestes a estourar. Os guardas saíram de seus postos, gritando ordens para dispersar. A discussão estava muito próxima do portão e, no fim das contas, eles eram mantenedores da paz. Bianca começou a andar a passos largos na direção do portão, ao mesmo tempo ansiosa para chegar o mais depressa possível e cautelosa para não chamar atenção. Sabia que os homens não arriscariam seus pescoços por algumas moedas, mesmo que de ouro, então não tinha muito tempo antes que os guardas voltassem aos seus postos.

A jovem chegou até o portão sentindo que seria pega a qualquer minuto. As pessoas não deram muita atenção, era mais interessante ver os guardas pacificando os dois briguentos do que ver uma mulher andando rapidamente pela rua. Bianca chegou até o portão e empurrou, notando, para seu alívio, que não havia rangidos por falta de lubrificação. Uma pequena brecha foi suficiente para ela passar e disparar como um raio para as escadas, na direção da porta de madeira maciça. O estalo do trinco cedendo foi como música aos ouvidos da jovem, que não perdeu tempo e passou pela porta, fechando-a atrás de si.

Bianca encostou as costas na porta e respirou fundo. Só agora notava que estivera prendendo a respiração o tempo todo e que suava frio. O medo de ser pega havia sido substituído pela excitação da aventura e o sabor doce de vitória prematura. Ela inspirou mais uma vez, tentando acalmar a turbulência de emoções no seu peito. Ainda não acabou.

A sala onde estava parecia mais um corredor extremamente grande. Várias portas estavam espalhadas a intervalos regulares nas paredes e, entre elas, esculturas e objetos de arte decoravam o local. Um tapete carmesim se estendia ao longo do corredor, que devia ter cerca de vinte metros antes de virar abruptamente para a direita e sumir no que parecia ser uma escada. O silêncio reinava solene, embora Bianca tivesse a impressão de que atrás de cada porta devia ter um ou dois guardas.

O triunfo exultante que sentira há apenas alguns segundos foi substituído por uma amarga constatação. Onde ia achar os arquivos que procurava? Claro, podia tentar porta por porta, mas as chances de encontrar alguém eram muito grandes para arriscar. Algumas portas tinham nomes cravados em suas superfícies de madeira, o que reduziria a busca, mas várias não indicavam sequer uma pista do que esconderiam em seus respectivos cômodos.

A jovem andou pelo corredor, eliminando rapidamente algumas portas — escritórios, despensas, salas de estudo. Pretendia ver todas as portas marcadas com nomes antes de tentar a sorte, na esperança de achar uma sala de arquivos ou biblioteca. Estava quase no final do corredor, perto da escada de pedra que subia para outro andar, quando uma das portas sem marcação se abriu abruptamente, revelando um homem de meia-idade que carregava dois livros. Ele parou, ainda com a mão na maçaneta da porta, visivelmente surpreso com a presença de Bianca.

– O que faz por aqui, jovem? — a voz do velho era baixa e comedida, quase um sussurro. — Quem deixou você entrar?

Agindo mais por instinto do que por consciência própria, Bianca puxou a pequena besta de mão de seu esconderijo na túnica e apontou para o homem. Viu os olhos dele se arregalarem e sua mão apertar com força os livros que carregava, e enxergou seu queixo cair um pouco de surpresa.

– Nem uma palavra! — a voz de Bianca soou firme, um tanto dura. Parecia ser outra pessoa falando. Entretanto, ela podia ver sua mão tremendo visivelmente, deixando a mira da besta um tanto instável. — Não grite nem chame ninguém, ou eu atiro! Juro que atiro! Apenas entre no quarto devagar.

Por um terrível momento, Bianca achou que o homem não fosse obedecer e, ao invés disso, chamasse por ajuda. Mas então ele largou a maçaneta e entrou de costas no quarto, com a moça seguindo-o logo atrás. Bianca entrou no cômodo e fechou a porta atrás de si, tomando cuidado para não desviar os olhos ou a besta do velho. Notava agora que o homem era calvo no topo da cabeça, de modo que o cabelo grisalho cobria apenas suas têmporas e nuca. Seu rosto era marcado por rugas de expressão, e ele vestia o uniforme branco e azul do governo. Provavelmente um escriba.

– Escute, minha jovem... — o velho começou a falar, mas calou-se quando Bianca aproximou a besta ao seu peito. Ele engoliu em seco e olhou para a jovem mulher, o pavor crescendo em seus olhos.

– Calado! — aquela voz dura tomava lugar da voz normal de Bianca, e ela estava começando a odiar isso. — Só fale quando eu deixar! Onde ficam os registros da guarda da cidade?

– Os registros... — o homem pareceu confuso. Provavelmente estava esperando que ela pedisse onde ficava o tesouro ou algo do tipo. — Claro, os registros... Estão aqui, só preciso procurá-los.

O homem pousou devagar os livros que carregava em uma escrivaninha. Bianca notou que ele estava bastante atrapalhado e, por um momento, sentiu dó do pobre homem, mas tratou de afastar aqueles pensamentos. Ela fez um sinal para que ele prosseguisse, enquanto reparava pela primeira vez no cômodo em geral.

Parecia um tipo de biblioteca com toques de escritório. As paredes eram na verdade grandes estantes, todas elas abarrotadas de livros. Não havia janelas, de modo que a única iluminação vinha de um grande castiçal de metal preso no teto. A escrivaninha onde o homem mexia apresentava diversos montes de papel escrito cuidadosamente organizados, assim como várias penas, potes de tintas e canetas-tinteiros. Havia uma cadeira estofada atrás da escrivaninha e outras duas na frente, provavelmente para atender convidados. O velho homem remexia freneticamente nos papéis; gotas de suor se formavam em sua careca.

– Ande logo! Só quero os registros desta época, no último ano!

O homem olhou para Bianca de relance e assentiu, murmurando alguma coisa. Achou um papel com uma escrita miúda e correu os dedos sobre ele. Enquanto fazia isso, falou naquela voz comedida, mas claramente abalada.

– Jovem, seja lá o que queira, não vale a pena maltratar um velho para obtê-lo. Pense bem no que faz.

– Calado! — a besta subiu até apontar diretamente para a cabeça do homem. Entretanto, Bianca abrandou o tom de voz para a próxima frase. — Faça o que eu mando e nada lhe acontecerá. Minha luta não é com você.

O homem pareceu soltar um suspiro de alívio momentâneo e baixou o papel. Observou a jovem humana por um momento antes de voltar a falar, demorando-se na besta que ela segurava.

– Os registros estão na sala dos arquivos, no andar de cima. Agora, por favor, deixe-me...

Ele não conseguiu terminar a frase. Duas batidas rápidas soaram na porta de madeira maciça atrás de Bianca, fazendo-a dar um pulo de susto. O homem também se sobressaltou, mas felizmente manteve-se calado.

– Ei, Jeod! Estamos fechando por hoje! Já é hora. — uma voz imperativa falou do outro lado, talvez um guarda.

Bianca pulou para a parede ao lado da porta, de forma que não ficasse visível a quem estivesse na porta. Ainda apontado a besta na direção do velho homem, ela sussurrou rispidamente.

– Livre-se dele! E não tente nenhuma gracinha!

O velho engoliu em seco mais uma vez enquanto duas novas batidas, desta vez mais vigorosas, fizeram a porta estremecer.

– Vamos, Jeod, não tenho o dia todo! Está aí?

Jeod se aproximou da porta e a abriu devagar, ciente de que Bianca apontada a besta para suas costelas e ouvia tudo o que dizia. Aparentava estar muito nervoso; sua voz tremia um pouco quando cumprimentou o guarda.

– Ei, Jeod, parece que viu um fantasma. Tudo bem contigo?

– Sim, tudo c-certo, meu jovem. Só preciso de m-mais alguns minutos. S-sabe como é, m-meus livros...

– Ei, calma amigo! — Bianca viu a manopla de ferro do guarda atravessar a porta e pousar no ombro de Jeod. Ela segurou a respiração, crente de que o guarda ia entrar na sala. Seu coração acelerou descompassadamente. Porém, o guarda não se mexeu, apenas continuou falando. — Até parece que realmente viu um fantasma. Pegue seus livros e vamos, ainda tenho que fechar o segundo andar.

– V-vá na frente, jovem. Vou apenas r-resolver algumas questões e j-já te sigo.

Por um momento, Bianca pensou ter visto os olhos de Jeod se voltarem para ela, um movimento tão rápido que deixava dúvidas se realmente havia acontecido. Uma sensação de urgência se apoderou dela, ao mesmo tempo em que um nó de tensão se formava em seu estômago. Ela viu o guarda colocar um pé dentro do cômodo e empurrar Jeod para o lado e soube que tudo estava perdido. Sentiu sua mão tremer e seu dedo deslizar no gatilho da besta, e antes que pudesse se controlar o zunido agudo do disparo preencheu o ar.

– Que merda é essa? — o grito alto do guarda veio acompanhado de mais meia dúzia de palavrões. Bianca havia errado, claro; a seta passara entre os dois homens e se cravara na superfície da porta. Aproveitando a surpresa do guarda, Bianca deu um salto e o empurrou, passando pela porta e entrando no corredor como um raio.

A jovem só teve um momento para olhar na direção da porta de saída e ver outros dois guardas fazendo o trabalho de trancar tudo. Enquanto eles se viravam e gritavam para que parasse, Bianca disparou na direção das escadas na esperança de achar uma rota de fuga. Seu coração dava a impressão de estar querendo sair pela garganta, o barulho do sangue bombeando pelo seu corpo parecia martelar em seus ouvidos, e ela sentia o suor frio molhando a roupa embaixo do robe.

A escada levava para outro corredor bastante similar ao de baixo, exceto que no final deste havia uma grande janela, com um vitral ricamente adornado representando algum herói do passado ou deidade.

Notas finais
Olá. Agradeço por ter aguentado até aqui. E, se está aqui, é seguro assumir que esteja gostando, não? Peço desculpas por estar curto, eu tenho pouco tempo para me dedicar. Mesmo assim, espero que tenha gostado. Agradeço novamente, e qualquer comentário construtivo é bem-vindo.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.