Diário de Rosalya

15 Parque de diversões


Quando fechei a porta, virei rapidamente para meus pais.

— Tá bom, já podem começar a falar! — disse eu, gesticulando com as mãos — Por que me deixaram sair? Estão preparando um castigo pior?

— Credo, Rosa! Como pode pensar isso dos seus pais? — disse minha mãe, se aproximando.

Cruzei os braços esperando resposta.

Ela suspirou antes de dizer.

— Ouvi o que disse para Leigh, no quarto. Sobre se sentir sozinha.

Ah. Então era isso.

— Por que não nos contou, filha?

— B-bem… Eu.. Não sei… — confessei. Não esperava que soubessem disso. E nem sei o motivo de esconder isso deles. — E-eu só… Não sei mesmo… — a voz fraquejou. Senti as lágrimas se acumulando novamente no canto dos olhos. Minha mãe me abraçou, como se esperasse essa reação e quisesse me acalmar de alguma forma.

— Você não está mais de castigo! Mas peço para que a partir de hoje nos avise quando for sair. E, por favor, se voltar a se sentir assim, nos conte — disse meu pai — Nós só queremos o seu bem, Rosa!

— Obrigada! — falei, emocionada. Ele me abraçou em seguida.

(...)

Após borrifar o perfume, conferi o visual uma última vez no espelho. Usava uma salopete jeans justa por cima da camiseta branca, e um all star preto. O cabelo estava solto, com uma faixa preta em cima.

— Rosa, o Leigh chegou! — gritou minha mãe do andar de baixo.

— Já vou! — gritei de volta, colocando os brincos.

Era noite, mas fazia calor. Então não me importei em pegar um casaco.

Desci rapidamente as escadas. Leigh estava perto da porta de entrada, vestia um casaco estilo vitoriano por cima de uma camisa preta. Abriu um sorriso quando me viu.

— Não voltem muito tarde! — disse minha mãe.

— Não voltaremos, senhora Champoudry— garantiu, ele.

(...)

— Para onde vamos? — perguntei já do lado de fora de casa.

— Abriu um parque de diversões aqui perto, pensei que seria legal irmos lá. A não ser que…

— A não ser que?

— Você tenha medo de montanha russa.

— Tá brincando? — sorri — Se eu entrar em uma, não saio mais.

— Compartilho do mesmo sentimento! — sorriu de volta.

Leigh se aproximou de um carro azul escuro e o destrancou.

— Não sabia que você dirigia! — falei, surpresa.

— Geralmente só o faço em ocasiões especiais.

Adentramos o carro. No início, a viagem correu bem, mas com o passar do tempo percebi que Leigh estava inquieto.

— Tá tudo bem? — perguntei.

— S-sim! Por quê? — disfarçou ele.

— Não parece. Tem certeza que não há nada de errado?

— P-por que acha isso?

— Você não para de batucar os dedos no volante. E também está vermelho. Tem enjôo de carro?

— Quê? Não! — sorriu — Na verdade queria dizer algo, mas desisti.

— Sério? O que quer falar?

Ele relutou por alguns segundos antes de dizer.

— Você está linda.

Seu rosto pareceu mais vermelho ao emitir aquelas palavras. E o meu também. Não pude esconder um sorriso.

— Obrigada! Você também está bonito.

— Obrigado.

Aos poucos a imagem da estrada foi substituída por luzes, muitas luzes de brinquedos como a roda gigante.

— Chegamos!

Após ele estacionar o carro, pagamos os ingressos e entramos.

O lugar era o esperado de um parque de diversões: luzes, brinquedos, crianças e algodão doce.

— Olha! — apontei para uma barraquinha de tiro ao alvo.

— Quer tentar?

— Sim! Vamos! — o puxei para a barraca. — Quero jogar! — entreguei uma ficha para o moço da barraca.

— Você tem direito a cinco tentativas. São cinco patinhos, só ganha prêmio acertando três ou mais patos! — disse ele — Três patos equivalem a algum brinde daquela fileira! — apontou para uma prateleira repleta de chaveiros e bolhas de sabão. — Quatro patos ganha daquela! — apontou para outra prateleira com jogos de tabuleiro e pelúcias médias. — Se acertar todos, ganha daquela fileira! — apontou para uma fileira com ursos de pelúcia gigantes.

— Tá bom!

— Pronta?— Me entregou cinco bolinhas. Assenti com a cabeça, animada.

— Então pode começar! — apertou um botão e a fileira de patinhos se moveu da direita para esquerda.

— Boa sorte, Rosa! — disse Leigh.

— Vamos ver quem acerta mais — pisquei para ele.

Mirei no primeiro patinho e... Acertei!

— Isso! — Comemorei.

Mirei no segundo e acertei novamente!

— HA! Segura essa, Leigh! — me gabei e ele sorriu.

Mirei no terceiro patinho e... Errei.

Então seria um jogo de tabuleiro. Monopoly, talvez?

— Droga!

Mirei no quarto e errei de novo.

Aaaaaaah! Nada de tabuleiro.

— Pelo jeito não vai ser muito difícil te superar! — Leigh provocou.

Patinho sem vergonha.

— Agora só resta uma bolinha, Rosalya… — começou, Leigh.

Voltei a focar nos patinhos, não podia perder a concentração.

— … se gabar antes da hora… — continuou falando, mas não prestei atenção.

Foco, Rosalya, foco!

— … sirva de lição para outras situações como aquela vez que… — palestrava, Leigh. Palestrou e me desconcentrou também.

— Já chega! — falei estressada e joguei a bolinha nele com força.

A bolinha voltou rapidamente em minha direção, mas abaixei e, por ironia do destino, ela acertou um patinho.

— HAAAAA QUE SORTE! — comemorei — Toma essa, Leigh! Acertei! HAHAHAHAHA!

Leigh sorriu e foi em direção a barraca.

— Quero ver fazer melhor! — brinquei.

— Você que pediu — disse com uma confiança na qual nunca pensei que ele tivesse. — Aqui, senhor, vou tentar! — entregou uma ficha.

— Boa sorte, garoto! — disse o senhor, e se direcionou a mim — Garota? Venha escolher seu brinde!

Olhei as opções. Seria algum chaveiro ou bolhas de sabão? Qual a melhor escolha?

— Acho que vou querer aquele ali! — apontei para a prateleira, mas o senhor não me ouviu, estava concentrado no jogo de Leigh.

Leigh me encarava sorrindo vitorioso. Um recado que dizia, através do semblante, "eu venci". Restava apenas uma bolinha e um patinho.

— Essa é para você, Rosa! — ele disse, novamente com aquela confiança. Meu coração fraquejou.

Então mirou no pato e… Acertou!

— Então, como fui?

— Eu aceito a derrota! — confessei — Mas aposto que não me vence no carrinho bate-bate!

— Apostado! — sorriu.

— Senhor, quero as bolhas de sabão!

— Claro! — me entregou um chaveiro roxo de polvo. Abri a boca para contestá-lo, mas ele foi mais rápido e se direcionou ao Leigh — E o senhor, qual vai querer?

— Hmm, não sei. Qual você gosta mais, Rosalya?

— Acho que aquele urso combina com você! — brinquei.

— Tudo bem! — riu — Escolho o urso, então! — disse ao senhor, depois voltou a atenção a mim — Vou procurar algo, pode ver como está a fila do bate-bate enquanto isso?

— Posso sim!

Só precisava me lembrar onde ficava o maldito carrinho. Era para a esquerda? Ah! Acho que estava depois do carrossel!

Após passar o carrossel, percebi que não era o caminho certo. Andei na direção oposta para retornar ao ponto de partida, mas na volta avistei Leigh, e ele não estava sozinho. Carregava consigo um urso gigante de pelúcia e dois algodões-doces.

— Para você! — me entregou a pelúcia. Ela era branca e tinha um lenço roxo no pescoço, lenço parecido com o que Leigh usava.

— Aah sério?! — perguntei, surpresa.

— Sim — respondeu com o rosto avermelhado.

— Aaaaah obrigada, seu fofo! — dei um beijo em seu rosto.

— Isso também — esticou um dos algodões-doces.

— Que amooor! — sorri. — Obrigada, de verdade.

— Não precisa agradecer… — murmurou.

Tentei pegar o doce, mas o urso era grande demais para segurar com somente uma mão.

— Aah! Não consigo comer segurando isso aqui!

— Ah, eu te ajudo! — disse ele com o rosto coradíssimo antes de colocar um pedaço do algodão na minha boca.

Fui tão surpreendida com o gesto, que quase engasguei.

— E-está tudo bem? — perguntou, mas quem não parecia bem era ele. Sua cara estava tão ruborizada que achei que fosse derreter.

— T-tá sim! — respondi envergonhada. — Ah, não achei o bate-bate, você sabe onde fica?

— Não. — sorriu — mas podemos encontrar.

Caminhamos por alguns minutos enquanto comíamos o algodão. Terminarmos no exato momento que o bate-bate foi avistado.

Quase não havia fila.

— Seguinte, quem bater mais no carrinho do outro, vence! — falei animada.

— Combinado!

— Se prepara para perder!

— Vou pegar leve com você. — piscou, sorridente. — Não seria cavalheiro magoar tanto uma moça.

— Já tá dando desculpa? — provoquei — Não tem problema ser fraquinho.

— Haha! Boa sorte, Rosalya!

Entramos nos carrinhos, coloquei o urso do meu lado. Após o soar de uma buzina, os brinquedos passaram a se mover.

Ignorando a existência das outras pessoas, concentrei-me em desestabilizar o Leigh. Bati freneticamente meu carrinho no seu para não dar chance dele reagir, vez ou outra ele conseguia retrucar, mas ainda sim era pouco.

Apesar do espírito competitivo, ambos riam muito. Leigh realmente estava pegando leve, não sei se por um ato de misericórdia ou porque ele era ruim no brinquedo, mas não foi difícil levar a vitória.

— Eu. Você. Empatados! — fiz sinais com as mãos para elucidar.

— Você é forte, preciso admitir. — disse, ofegante.

— Vamos de montanha russa agora?

— Vamos!

— Quem chegar por último é a mulher do padre! — gritei antes de correr.

— Ei!

A montanha russa era daquelas que, quando andamos, não sabemos se estará inteira no final do trajeto (o que, na minha opinião, a torna ainda mais legal).

— E agora? Roda gigante? — sugeriu ao sairmos.

(...)

A vista do alto era muito bonita — e não me referi apenas à paisagem.

Sim, o lugar era lindo, dava para ver várias luzinhas, o céu limpo, a noite deslumbrante… mas não era só isso.

Leigh fazia parte da vista bonita. Nós estávamos sentados frente a frente, então pude o ver observando pela janela.

— Meu Deus, que lindo… — sussurrei.

— Sim, a noite está bela! — disse ele, e eu congelei. Não sabia que havia escutado. Virou em minha direção antes de continuar — Muito bela.

Meu coração acelerou ao passo que observei seu rosto enrubescer.

— Temos de vir aqui mais vezes! — sorriu e voltou a atenção para a paisagem.

Fomos em outros brinquedos e comemos cachorro quente quando saímos da roda gigante. No entanto, a caminho de outra atração, avistamos uma máquina de doces.

— Quer algum? — perguntou ao inserir dinheiro na máquina e apertar um botão.

Um pacote de balas caiu. Era o último daquelas balas, especificamente.

— Ué, achei que esse aqui fosse meu! — brinquei, pegando o pacote.

— Ah, é que essa é a minha preferida… — coçou a nuca — Você pode escolher outra, se quiser!

— Hum, acho que não! — sorri, me afastando aos poucos.

— Mas… — tentou dizer.

— Se quiser isso aqui — chacoalhei — Vai ter que pegar!

Ele então entendeu a provocação.

— M-mas posso comprar outro doce para você!

— Nã-na-ni-na-não! Quero esse! — falei antes de correr.

— Você não tem jeito! — ouvi longe.

Fugi o mais rápido possível com um urso gigante e um saco de balas, mas ainda sim foi lento o suficiente para Leigh me alcançar.

Avistei um chafariz e, como último recurso de fuga, tentei me esquivar nele. Porém, Leigh segurou meu braço no último instante. Acabei me desequilibrando e caí na fonte, o levando junto.

— Meu Deus! — disse, em choque.

— Meu Deus! — disse ele, aparentemente surpreso também.

Nos encaramos por uma fração de segundo e, como se combinada a sincronia, rimos da situação.

Mas o riso durou poucos minutos. Mais especificamente durou o tempo exato de dois funcionários chegarem.

Notas finais
Espero que tenha gostado! Beijinhos da Tia Manda ^3^