Diário de 2070

5 8 de Fevereiro de 2070


Hoje foi meu primeiro dia no Laboratório De Ciências Ambientais de São Paulo, no setor 16B, por algumas horas fiquei trazendo e levando papeladas e pesquisas sobre o Antigo. Fiquei lembrando de meu mundo secreto, abaixo da casa de meu antigo professor.

Então, me toquei. Tive uma completa epifania. Como nenhum cientista havia pensado naquilo ainda? As lâmpadas, que transmitiam os mesmos nutrientes do sol! O maior avanço científico de 2030! Porque não podemos usá-las para criar um tipo de fazenda e, quando estiverem crescidas, a plantarmos na terra? Porque diabos ninguém pensou nisso?

– As lâmpadas foram extintas. — Explica minha prima, após eu mostrar-lhe minha ideia. — Sinto muito. — Ela vira a cadeira e continua sua pesquisa.

– Não podemos refazê-las? — Sugiro.

Ela bufa, vira sua cadeira novamente pra mim e responde:

– Isso vai muita água e muitos anos. E, me corrija se eu estiver errada, não temos nenhum dos dois.

– E se eu disser que tenho as lâmpadas? E um lugar onde podemos plantar?

Sua expressão muda para um misto de curiosa e assustada.

– Como é que é?

Eu fico vermelha. Falei sem pensar. Ela não pode saber. Mas agora que enfiara o pé na lama, terei de pôr meu corpo inteiro.

– Você pode ir comigo para esse lugar. Agora.

– Rita, você não está delirando, não?

– Não. Venha.

Eu a empurra na cadeira de rodas e a guio para fora do laboratório, passamos por um labirinto de portas e saímos do prédio, ando alguns quarteirões, viro algumas esquinas, cumprimento alguns guardas do governo, nervosa. Um deles nos para.

– Para onde as senhoras estão indo? — Ele era esquelético e careca, como todos, tinha muitas manchas na pele, olhos fundo e estava exausto, porém se mantinha ereto e carregava a arma com orgulho. Sua túnica, como a de todos os guardas, era verde.

– Dar uma volta, sabe apreciar o ar que pagamos para ter. — Respondo com um sorriso.

– Cuidado vem chuva hoje.

– Ácida? — Pergunto. O policial assente. E se vai.

Continuo andando, estamos a duzentos metros, quando meus joelhos fraquejam, e eu caio no chão.

– Rita?

– Estou bem. São só as minhas pernas. — Depois de parar de nadar e beber a água que ia e vinha no subterrâneo, havia diminuído minhas doses de água e vitaminas, sem intenção, o que me deixa pior, me enfraquece. Era só o começo.

Me levanto e a empurro para a casa de aço que eu herdara do professor. Para descer as escadas, eu tenho de carregá-la, o que é muito difícil e demoramos mais para descer, todos temos por volta de 30 á 35 kg, porém, como somos fracos, e como estou fraca, mal consigo carregar 25 kg, que é o peso dela. No Antigo, as pessoas se exercitavam para ganhar massa muscular, mas não lembro como, e tinha a ideia de fazer isso.

Descemos Até o subterrâneo, eu sento ela na cadeira que tinha junto a mesa de pesquisa. Ela simplesmente não tem uma reação definida, passa trinta minutos enquanto eu vou buscar frutas para ela, e copos de água.

Ela toma água e come, maravilhada com o gosto e com o fato de beber o quanto quiser. Tomamos 5 copos de água direto cada uma, antes de falar alguma palavra.

– Se o governo souber que você tem isso aqui, será morta por traição. É uma fonte intacta de água potável! Sabe o que é isso? Todos os litros que correm por aqui daria para sustentar a população! Incrível como a poluição não atingiu ele ainda! Rita, você poderia... Me por dentro dele? — Ela está tão entusiasmada, tão nervosa, que não nego, eu a ponho no rio, e a deixo de pé, e ela segura na margem do rio, acariciando a grama ao redor. — Você está criando um mundo verde debaixo do mundo cinza. — Seus olhos brilham com cada palavra. — Deve haver mais água, temos de dar um jeito para ajudar os outros! Mas temos de voltar ao laboratório por ora. Depois pensamos nisso.

Esperamos nos secar, para, relutantes, voltar ao laboratório, me sinto renovada, limpa, porém, quando o sol escaldante toca minha pele, me sinto agredida pelos raios ultra-violetas, nem as partes cobertas pelas túnicas continuaram seguras de tal sensação.

Ficamos no laboratório fazendo diversas pesquisas, depois fomos embora, lá pelas dez e meia da noite, depois da chuva ácida que causa graves estragos no chão principalmente. Pelas casas serem de aço, não as afetou. Aquele aço era de todos os transportes que tiveram de ser extintos.

Em casa minha mãe já havia comido seu jantar sintético, após comer uma fruta, sinto nojo do que comemos. E recuso tomar minha dose de água hoje, disse que já tomara uma dose pequena no laboratório, e que ela poderia tomar a minha ou guardar.

Meu pai chegou e me contou outras histórias de quando era pequeno. E quando eu era menor, lhe perguntava por que a água havia acabado, hoje, já sei a resposta.

A culpa é do progresso que sujou águas limpas e poluiu os ares. Nos matando. A água acabou pela arrogância do ser humano.