Diário de 2070

6 3 de março de 2070


Após levar minha prima ao rio subterrâneo, havia desistido de me disfarçar. É horrível se sentir fraca e cansada o tempo todo, e essa sensação aumenta quando se tem a disposição um rio e frutas. Deixei meu cabelo crescer, parei de raspar o tempo todo, agora ele tem um dedo de altura, e sinto já uma mudança estranha e mínima. Minha mãe questionou, eu lhe disse que queria ver como meu cabelo é, e fazer uma pesquisa interessante sobre como ter cabelo ajudaria na luta contra doenças de pele e etc. Até agora descobri apenas que meu cabelo é preto. O que é estranho, pois nas fotos antigas meus pais eram louros. Os dois. Geneticamente eu deveria ser loira. Porém meu cabelo é preto. Talvez eu esteja mais adaptada e tenha mais melanina para proteger-me do sol escaldante. Talvez nossos corpos estejam se aperfeiçoando conforme passa as gerações, assim como ocorrera milhares de anos atrás. A espécie homo se adapta conforme vai passando as gerações. Minha pele e meus cabelos são mais escuros do que a de meus pais, minha pele é mais dura e áspera, talvez para proteção dos raios UV.

Realmente não sei.

Pesquisei sobre os treinamentos de massa muscular usados no Antigo para uma pessoa ser mais forte. E conclui que deveria começar a exercitar-me. De acordo com as pesquisas, no Antigo as pessoas se alimentavam de modo saudável e praticava esportes ou exercícios para o fortalecimento da massa. Muitos que não conseguiam pagar uma academia de exercícios, eles improvisavam pulando corda ou correndo. Levantavam sacos de... O que era mesmo? Ah, sim, uma semente, não sei direito, chamada arroz, era um saco de semente Arroz. algo assim, não lembro. Carregar peso fortalece músculos, assim como pular corda e correr. Anotei tudo num bloquinho que tenho.

Pular corda aparentemente é um exercício fácil. Você tem que pegar uma corda grossa e comprida, segurá-la com as duas mãos nas pontas, e girá-la de modo que se movimente ao redor do corpo, o objetivo é pular quando a corda chega aos pés. Parece simples. Tentarei amanhã, e pretendo exercitar-me assim todos os dias pela manhã. Antes das aulas e do trabalho.

Hoje, antes do estágio, passei o dia no rio subterrâneo. É engraçado quando sem têm mesmo que um pouco de cabelo. A água não escorre direto. Comi uma fruta e fiquei a examinar os projetos de meu falecido professor. Após ele, morreu mais cinco pessoas, e desapareceu uma família que não podia pagar pelas Zonas Ventiladas. Isso me entristece, mas se eu ficasse assim sempre que algo semelhante acontecesse, eu cairia na depressão, como tantos outros.Portanto mantenho-me insensível sempre que a tristeza vem bater à minha porta.

No laboratório, com minha prima, notei que ela tomava mais água, estava mais disposta e tinha mais força. Estranhei, porque ela fazia isso?

– Prima, você está bem? — perguntei, ao lado dela, sentada preenchendo algumas fichas.

– Melhor do que nunca, porque?

– Nada, você está diferente.

Ela sorri e encara outro cientista que se retirava daquela sala do laboratório, ela esperou ele sair, depois voltou-se para mim, com os olhos arregalados.

– Precisamos ir lá de novo. — Ela diz, seu olhar estava diferente.

– Não seria seguro eu levá-la o tempo todo. Visitas constantes de uma cientista na casa de um filósofo que era contra o governo? Não me parece seguro.

– Você vai sempre lá. E trabalha para uma cientista.

– Eu trabalho com uma cientista. E também sou a dona do lugar e era aluna dele. É normal eu ir lá. Não você.

Ela estreita os olhos, apoiada em sua cadeira, estava me analisando.

– O que esconde lá?

– Um rio e mato?

– Tem algo a mais. Se não, não manteria esse lugar só com você. Animais, talvez?

– Animais? Prima, por favor, vamos manter o foco.

– Esse assunto não acabou. — Ela me avisa virando-se para sua mesa.

– Acabou sim! Se falarmos muito nisso, o governo vai desconfiar, ou se esqueceu que as paredes tem ouvidos?

Ela se voltou para mim, mas sem movimentar a cadeira, abriu a boca para falar mas o som da porta da sala a interrompeu, um outro cientista voltava para pegar amostras.

– Dra. Silva, Rita, quero compartilhar com vocês uma ideia que tive hoje cedo.- O cientista falava andando em nossa direção. Girei minha cadeira para ficar de frente para ele que se sentava na cadeira da mesa seguinte. — A dessalinização tira muitos nutrientes da água, isto é um fato de nosso conhecimento.

– Certo. — Concordou minha prima, finalmente virando sua cadeira para olhá-lo.

– Mas e se recolocarmos esses nutrientes na água?

– Como sugere que façamos isso Dr.Menezes?

– Bem, moldando partículas e juntando as certas para formar os nutrientes que precisamos.

– Ou seja, brincar de quebra-cabeça? — Minha prima falava com certa rispidez, ela era a chefe deste laboratório, as ideias passam por ela, e normalmente são rejeitadas.

– Por que não? Pode dar certo. — Interrompo, o Dr. sorri para mim. Eu o compreendia, e moldar partículas é difícil, porém é algo que conseguimos fazer em dias desde 2023. — A tecnologia nos ajudará. Podemos tentar aos poucos.

– A questão aqui é que estamos falando de milhões de litros de água dessalinizadas. Vocês tem consciência disso? — Interroga ela, pouco feliz.

– Roma não foi construída em um dia, prima, e podemos começar fazendo pequeno, uma garrafa, duas, três. Depois para dezenas, e então centenas e por fim, milhares. É um bom início. e nem toda água dessalinizada tem de ser restaurada, a não restaurada, sem nutrientes, pode servir para voltarmos a tomar banho.

– Não se empolgue, Rita, nem você, Menezes. Faremos o experimento, se der tudo certo, necessitaremos da permissão do governo para aumentar a produção, e criação de máquinas adeptas para moldar partículas. E se conseguirmos, o processo será lento, e não teremos água suficiente.

O que ela quis dizer foi: Ser o experimento der certo, o governo nos cobrará muita água para realizarmos isso. E se pedirmos empréstimo, nunca conseguiremos pagar.

Menezes sorri e responde:

– Não custa tentar.