Diário de 2070
4 4 de fevereiro de 2070
Apenas nesses últimos dias, minha pele havia melhorado, estava menos seca, e eu parecia mais nova, comia as frutas das árvores, já li sobre várias delas, e sabia distingui-las e sabia quais eram mais doces, e se estavam maduras. Nessa semana, eu vacilei, alimentar-me de frutas e beber água o quanto eu queria, me deram melhoras drásticas, se não fosse pelas túnicas, eles já teriam suspeitado de algo.
Então, eu me toquei, não posso mais fazer isso como estava fazendo, tinha que manter a descrição. Foi o que eu fiz, então passei mais tempo lá lendo debaixo daquela árvore, do que bebendo ou comendo. Porém, não tive como resistir a uns mergulhos rápidos antes de voltar para o mundo real.
Em casa, conversava com minha mãe e meu pai, que estava um pouco doente. Meu pai me contava como era sua infância, e a infância de seu pai, e minha mãe o censurava de vez em quando. Então, cansado das censuras de minha mãe, pegou minha mãe e me levou até meu quarto, lá, ficamos sentados na minha cama e ele começou a contar:
– Sabe, existia uma bebida que não era água, era um... Refrigerante.
Já havia lido num livro sobre esse refrigerante.
– Era muito bom! Porém, não era muito saudável, como a maioria das coisas naquela época, mas sabe, era bom! Meu pai ele saia com os amigos para nadar em represas, passar dias na praia e nadar e nadar... A água transparente das represas. Sabe, eu lamento muito por você não saber o que é sentar numa árvore e observar um lago, quando eu fazia isso, levava um livro. Eu comecei a gostar de ler aos 15 anos, para impressionar sua mãe, pois antes eu nem entrava numa livraria! Pena que os livros de hoje não são tão bons como os de antigamente, mas fico muito feliz que o seu professor tenha lhe dado tudo aquilo após sua morte. Não que eu tenha gostado da morte dele, mas... Você entendeu, não?
– Sim. — Eu sorri e olhei pra baixo.
Após alguns segundos de silêncio a porta do meu quarto se abre, e minha mãe entra devagar. Meu pai lhe dá espaço, para ela se sentar ao seu lado, e, segurando as mãos dele, ela contou:
– O Presidente acaba de ligar, e ele quer lhe dar um estágio no Laboratório De Ciências Ambientais de São Paulo. E pelo que parece, é no setor de sua prima.
O setor de minha prima é o setor 16B, lá é onde cientistas se esforçam para trazer a natureza ao devido equilíbrio. O estágio era muito difícil de se conseguir, num concurso participam 200 pessoas de 14 á 18 anos, e apenas uma ou duas — em casos raros, três. — passavam. E um convite para estagiar lá, feito pelo próprio presidente, levantava suspeitas antes mesmo de me alegrar por trabalhar com minha prima, porém, tinha de disfarçar.
– Meu Deus! Nem acredito! — Eu os abraço, mostrando alegria e entusiasmo. — Quando eu começo?
– Bom, estágio é coisa séria, e não é como escola, vai ser todos os dias, e você começa na segunda. — Respondeu minha mãe. — Agora, jovem cientista, está na hora de dormir, e você, amor, — falou virando-se para meu pai, — vá tomar remédios e pega um pouco de água, não o quero doente.
Os dois saíram de meu quarto, se despedindo com um um beijo em minha testa, eu os assisto saindo de meu quarto e me deitei para dormir, porém, não consegui. Fiquei pensando no estágio, em minha Nárnia particular. Até ouvir uma discussão de meus pais:
– Você tem noção do que está colocando na cabeça dela? Está criando um mundo que não existe mais! Não a alimente de esperanças tolas, nós vivemos em um mundo bom por um tempo, e não quero que ela sonhe com o que não pode ter!
– Quem diabos é você e o que fez com a minha mulher? Ela ainda está ai? — Ironizou meu pai.
– Está sim! Só que o problema é: Você está doente, se morrer, o que será de mim?
– Apaga essas preocupações de uma vez! Você não é a mesma que criou uma biblioteca secreta na própria casa! A mesma que se irritava com o silêncio perante a ditadura! Não é a mesma audaciosa pela qual me apaixonei! O que aconteceu com você?
– Eu tive uma filha! Isso aconteceu. Por isso a porta está sempre trancada, por isso te censuro, por isso sou cautelosa! Não tempos mais 17 anos! Não podemos reverter sozinhos essa situação. Me escute e pare com essas histórias! Agora, nosso passado não passa de um conto de fadas! De um mundo que não é real!
Após isso, não ouvi mais nada. Me virei para o outro lado da cama, tentando dormir, mas não consegui. Meus pais falavam baixo, de modo que eu não conseguia ouvir. Revirei na cama mil e mil vezes, o sono não me atingia, meus pensamento lotavam minha mente. Corri para a minha estante e reli mais um de meus trechos favoritos de A cadeira de Prata:
"Mas quatro crianças brincando podem construir um mundo de brinquedo que dá de dez a zero no seu mundo real. Por isso é que prefiro o mundo de brinquedo. Estou do lado de Aslam, mesmo que não haja Aslam. Quero viver como um narniano, mesmo que Nárnia Não exista."
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