Diário De Uma Bruxa
3 Capítulo 3
Acordei indisposta e com muita dor de cabeça, decidi permanecer um pouco deitada. Estava pensando no falecimento daquela criança, não sinto remorso algum pelo que fiz, a Morte provavelmente quis testar-me e tenho que passar em todos os seus testes, por mais frios e doentios que sejam.
O que será que aquela garotinha e sua mãe faziam nesta floresta? Talvez estivessem perdidas... Devem ter entrado em busca de alimento ou água e nunca mais saíram, suas almas ficaram para sempre vagando por todo este lugar morto, sejam bem-vindas à Morte, minhas caras!
Pude ver que meus guardiões estavam repousando na entrada da caverna, os olhos cerrados, estavam exaustos por conta da noite que se passara, pobrezinhos! Fazem de tudo para protegerem-me e na noite anterior, uma estranha e feroz criatura levou três de meus belos lobos cinzentos, era realmente uma pena!
Fiz um chá com ervas medicinais e tomei, depois de algum tempo esta infernal dor de cabeça finalmente fora-se embora, enquanto aguardava, fiquei deitada procurando relaxar e não pensar em nada que pudesse preocupar-me, isto funcionou.
Enquanto descansava, percebi que o céu entenebrecera e o silêncio matinal fora quebrado por ruídos estrondosos de raios e trovões, até ouvir o som da chuva caindo sobre a terra seca e fenecida, este clima está tão estranho e confuso ultimamente, creio que sejam as famosas chuvas de verão ou sei lá o que.
Esta chuva enfeitiça, quando ela começa o sono vem, comigo não podia ser diferente, adormeci despertando somente à tarde, ainda chovia forte, como farei uma fogueira para assar um daqueles peixes?
Verifiquei o cesto, ah era repulsivo! Aquele odor empesteara toda a caverna, demoraria um século para sair apenas com aroma de ervas florestais! Estavam frios, malcheirosos, meu estômago estava começando a roncar, não havia outra alternativa.
Vesti minha capa e segui até o lago, levei apenas um peixe comigo, lavei-o bem naquelas águas sombrias, com uma de minhas adagas eu o cortei ao meio e comecei a comer sua carne retirando os espinhos. Aposto que era mais um teste seu, senhora Morte, mas não irei desistir agora.
O peixe tinha um gosto muito salgado, às vezes amargo, às vezes azedo, mas na maioria muito salgado, a carne fria e quase sem gosto algum e o cheiro embrulhando-me o estômago, mas eu o comi, não poderia deixar de fazer meu desjejum. Ainda bem que levara apenas um, tinha certeza que não agüentaria comer mais, quase não suportei comer este.
À noite a chuva havia parado, aproveitei para sentar-me num tronco velho e caído ao lado da entrada de meu lar, quase todas as noites eu me sentava ali para observar o céu, a lua, as estrelas, ouvir o som do vento sussurrante e até as algazarras feitas pelos malditos aldeões, farreavam até tarde, porém desconhecia o motivo de tanta alegria e comemoração.
A linda lua cheia vagando pelo escuro céu cinzento, escondendo-se por detrás de densas nuvens negras, brincando comigo. Como era bela, como era lúrida e como eu adoraria tocá-la, nem que fosse apenas uma vez, em toda a minha nefanda existência neste mundo desprezível.
Eis que ouço estranhos sons por entre as árvores, levantei-me imediatamente e meu olhar ficou atento ao meio da floresta, meus companheiros repetiram minha ação logo depois de mim e além de seus olhos, suas orelhas arrebitadas não paravam de se mover, como se pudessem captar barulhos inaudíveis por meros mortais, infelizmente como eu.
Os ruídos eram semelhantes a galhos se partindo sob pés que caminhavam pela mata, passos inquietos e incertos, rápidos e cuidadosos, até que os lobos começaram a rosnar, seus focinhos apontando para apenas uma direção, segui e espantei-me, novamente aqueles olhos grandes e amarelos.
Meu coração a bater mais forte, tenho certeza de que aquela coisa sentia o cheiro do medo, tentei acalmar-me, mas era impossível, meus guardiões latiram ferozmente para mim e praticamente empurraram-me para o interior de meu refúgio, afastei-me lentamente para dentro, entretanto, sem desviar minha atenção daqueles estranhos olhos dourados. Os lobos rosnando e mostrando seus dentes afiados, a criatura não parecia temê-los, eis que aos poucos ia saindo das trevas e o luar fora iluminando-a, no início parcialmente, depois por completo.
Era uma criatura terrível! Era tão semelhante aos meus lobos, orelhas, focinho, presas, garras, mas estranhamente também era semelhante a um ser humano, o corpo, as patas, a cabeça era mais incomum, metade lobo, metade homem, poderia dizer que era um homem lobo, era horrível, nunca havia visto algo assim antes.
Um de meus guardiões tentou atacá-lo, mas apenas com um golpe com uma das patas, o enorme animal atirou meu leal companheiro para longe. Sem pensar duas vezes corri para dentro da caverna, a criatura tentou perseguir-me, mas os lobos a impediram atacando-a compulsivamente.
Não fiquei para ver aquele terrível monstro ser devorado aos poucos pela minha fiel alcatéia, adentrei ainda mais meu recanto. Era uma longa caverna, até mesmo eu desconheço seu mais profundo interior, creio que sempre tive medo de explorá-la mais a fundo, não sabia-se o que poderia encontrar ali, mas sempre dormi tranqüila sem nada a temer.
Este era o momento, peguei minhas adagas, sem elas acredito que já estaria sem vida, pois já salvaram-me inúmeras vezes, corri para o interior daquela fortaleza de pedras, cada vez mais as paredes iam ficando estreitas, o meu medo era quando deparasse com um muro alto e intranspassável e aquela criatura estivesse bem atrás de mim.
Enquanto corria pelos labirintos rochosos, meus pensamentos estavam confusos, não sabia se aquele era mais um teste ou se a Morte mandara um de seus mensageiros para buscar-me. Sempre acreditei que minha morte seria doce por tanto almejá-la, mas a senhora será cruel comigo, não é, Morte? Preciso sofrer meus últimos minutos de martírio terreno para depois passar a eternidade livre e tranqüila ao teu lado, se for assim, aceito meu destino.
Detive-me, não sabia mais se prosseguia ou se permanecia hirta apenas aguardando a chegada daquela criatura para destroçar-me enquanto grito de agonia a plenos pulmões. Estava tudo muito escuro, cada vez mais fundo, cada vez mais escuro, nem luz do sol muito menos da lua conseguiam alcançar aquele ponto, parei e esperei.
Algo dizia-me para voltar e foi o que fiz, corri imediatamente em direção à entrada, fiquei imóvel, o que vejo? Aquela coisa ia começar a devorar um de meus guardiões, mas deve ter ouvido-me chegar, fitou-me com seus grandes olhos raivosos, posso estar ficando louca, mas creio que tiveram um brilho ainda mais intenso quando pousaram sobre meu corpo apavorado.
Com passos lentos e macios, ele fora adentrando o recinto, meus olhos e os dele num confronto infindável e silencioso, pude perceber que aquele bicho não era tão irracional quanto julgava, ele podia sentir o meu medo, podia ouvir meu coração acelerado e aquilo parecia que o excitava, todavia, creio que o que o deixava ainda mais excitado era o fato de que, apesar de todo o temor que exalava de meu corpo, eu não recuava, nem por um instante e não ia fazê-lo. Se era este o meu destino, então teria de enfrentá-lo firme e forte.
Ele veio chegando cada vez mais perto, rosnando baixinho, a boca entreaberta, a vontade de me afastar estava ficando insuportável, mas teria de me controlar. Eu não acredito, tive de falhar, como sou tola e fraca! Num movimento causado pela adrenalina, peguei uma de minhas adagas e arremessei em sua direção, o animal estava perto, não havia como errar.
Acertei seu ombro, a criatura gemera por alguns segundos e depois fixou seu soturno e reluzente olhar sobre mim, parecia tremendamente furioso e com apenas um ágil e rápido salto, seu peludo e enorme corpo ficara colado ao meu. Pude sentir sua respiração quente e arfante tão perto de meu rosto, os olhos dele e os meus ainda permaneciam em guerra, um olhando para o outro num silêncio agonizante.
Eis que meus guardiões saltam e pegam-no pelos pés arrastando-o ferozmente para fora de minha caverna, num movimento reflexivo a criatura tentou agarrar-se em mim cravando suas garras em minhas pernas rasgando meu vestido. Os lobos o levaram para fora e o espantaram.
Aquele profundo ferimento começou a sangrar e a doer, logo depois um estranho calor começou a tomar conta do local da ferida, o calor ia aumentando, ardia e este estranho ardor começou a correr por todo o meu corpo. Gemi, contorci-me de dor, parecia que havia injetado ácido em minhas veias e estava corroendo-me por dentro.
Tudo começou a arder, minha cabeça começou a latejar, uma dor insuportável espalhando-se pelo meu corpo, o que seria isso? O que estava acontecendo? Esta dor estava insuportável, precisava de ajuda, minha cabeça... Parecia que havia uma tonelada sobre ela, não estava agüentando... Morte, faça parar, por favor, faça parar! Quando a dor atingira seu ápice, minha visão ficara turva no início, até que fora escurecendo aos poucos, eis que nada mais vi...
Por vários dias e noites permaneci em repouso sem comer absolutamente nada, tudo que colocava em minha boca, meu corpo encarregava-se de devolver, nada permanecia em meu estômago por mais que alguns minutos, nem ao menos o vinho descera, não conseguia entender o por que!
Aquele ferimento ardia tanto, trocava o curativo mais de quatro vezes ao dia e em poucos dias ele parecia já estar cicatrizado, o estranho era aquelas dores e sensações que iam e vinham. Uma forte dor de cabeça, não era de fome, pois nem meu estômago roncava muito menos aceitava algum alimento que ingeria, uma fraqueza extrema e mais dores pelo corpo.
Aquela criatura nunca mais aparecera nas noites que se seguiram, tudo pareceu-me tão tranqüilo ao lado de fora enquanto dentro da caverna estava eu, gemendo e contorcendo-me de intensa dor, devo ter pego algum tipo de infecção de ter deixado aquele corte exposto, deve ter sido isso. Será este meu destino, Morte, morrer de uma banal enfermidade?
Numa certa manhã, eu não mais estava suportando, meu estômago doía de tanta fome, mas nada caíra bem, o que faria? O que iria comer? Até que um cheiro vindo de dentro da floresta enfeitiçou-me, um cheiro forte de carne suculenta, carne fresca e deliciosa! Esqueci minha capa e minhas adagas, sai às pressas percorrendo a floresta em busca daquele aroma tão delicioso, até que me deparo com algo surpreendente...
Avistei um cervo comendo flores, estava sozinho, tinha absoluta certeza, o cheiro era dele, da carne dele, pelo odor devia ser um cervo macho, filhote, de aproximadamente três semanas de vida, deve ter-se perdido da mãe, oh pobrezinho!
Estranho... Eu podia sentir o cheiro da sua pele, podia ouvir atentamente as batidas tranqüilas de seu coração e ver de longe as veias através de seu pelo, o que estava acontecendo comigo? Não importava naquele momento, minha única preocupação era de que estava faminta e precisava daquele cervo, há dias não sinto tanta vontade de comer como naquele instante!
Esperei pacientemente o momento certo, sem me importar em como o mataria, eu apenas o queria para mim, só e todo para mim. Esperei durante um tempo, ele estava tão calmo, procurei não fazer barulho para não assustá-lo, já cacei cervos antes e são difíceis de serem capturados quando se assustam e começam a correr, precisava ter muita cautela.
O filhote estava tão próximo de mim, se chegasse mais perto sentiria minha presença e provavelmente fugiria, era este o momento de atacar. Inexplicavelmente dei um enorme salto sobre-humano e cai perfeitamente sobre seu pequeno corpo rapidamente quebrando seu pescoço para que não se debatesse nem lutasse.
Pude ouvir aos poucos seu tênue coraçãozinho desacelerando as batidas, até não escutar mais nada, estava morto enfim! Minha fome era tanta que nem ao menos o levei até minha caverna, devorei-o ali mesmo, com um galho perfurei sua pele abrindo-o, quebrei seus ossos, a primeira coisa que fazia questão em saborear era seu coração.
Ah, seria impossível descrever o sabor, a sensação, sua carne era tão macia, suculenta, era ainda melhor crua do que se fosse assada numa fogueira, tinha muito mais sabor, não conseguia parar de comer, era mais gostosa a cada mordida e o seu sangue era tão doce, tão puro, um ótimo acompanhamento, creio que roí até seus ossos, mas não era para menos, estava delicioso!
Lavei minhas mãos e minha boca no lago e retornei ao meu abrigo, estava exausta e com a barriga cheia, deitei-me para fazer digestão, uma moleza tomou conta de meu corpo, meus olhos pesavam e ardiam, comecei a bocejar e a espreguiçar, não demorou muito para que o sono me tomasse por completo.
Despertei ferozmente à noite sentindo uma pontada em meu peito, fui cambaleando até a entrada de meu recanto, olhei fixamente para o céu e vi... A lua cheia, alguma coisa fez-me arrepiar dos pés à cabeça. Retornei ao interior para lavar meu rosto e vejo meu reflexo na água de uma das minhas tigelas, meus olhos... Meus olhos estavam amarelos e brilhantes, como?
Senti uma profunda dor percorrer meu corpo e involuntariamente com um golpe atirei a tigela longe fazendo a porcelana pálida partir-se em mil pedaços. A dor somente aumentava, algo dentro de mim parecia querer libertar-se, mas o que?
Percebi que meus dentes tornaram-se presas pontiagudas e afiadas, assim como minhas unhas, que tornaram-se cortantes e enormes garras, o martírio aumentava a cada minuto, tornando-se terrivelmente insuportável. O que estava acontecendo comigo? Ao sentir minha cabeça latejar, coloquei minhas mãos no rosto e com apenas um toque senti que minhas orelhas também modificaram-se, tornaram-se pontudas, semelhantes as de meus lobos.
O que, diabos, estava acontecendo comigo? O que significava tudo isso? Estava apavorada e confusa, meu coração acelerava-se a cada vez que notava algo diferente em meu corpo, tantas coisas juntas, o medo, a dor, o desespero e tudo parecia aumentar compassada e equivalentemente.
A dor na cabeça era a mais cruel, era maior que a que corria por meu corpo, semelhante a daquela noite em que a criatura atacou-me fazendo-me sangrar, parecia que estavam tacando pedras em meu crânio, estava doendo tanto, tanto, tanto...
Rastejando como uma morta-viva, cheguei até o chão da entrada da caverna e vi... A lua estava ebúrnea, redonda, brilhante, alta e majestosa num céu negro e sem estrelas, a dor aumentara quando meus olhos a fitaram, senti-me fraca, a cabeça pesando mais que qualquer coisa, tudo ficou turvo e confuso, até que num determinado instante, nada mais vi.
Acordei nesta manhã, nua às margens do lago negro, olhei para o meu reflexo e percebi minha boca manchada de sangue, lavei-a. Minha cabeça e meu corpo doíam muito, parecia que tinha sido massacrada por algo enorme e pesado, voltei vagarosamente para meu recanto, demorei um pouco, pois meus passos eram incertos, estava fraca e sonolenta.
Ao chegar, deparei-me com os trapos do que um dia fora um vestido, eu o havia rasgado daquela maneira? Como? Era um ótimo vestido de um excelente tecido, não rasgaria tão fácil, a menos que... Garras fortes e afiadas tenham feito isto. Será que aquela criatura viera visitar-me novamente noite passada?
Estava tão cansada e confusa, não conseguia pensar em nada, pois minha cabeça estava explodindo, apenas arranjei roupas limpas e procurei descansar um pouco, não demorou muito para que pegasse no sono.
Acordei nesta tarde ouvindo o nítido ruído das batidas de um coração, saltei de minha cama e depressa segui o som das pulsações, eis que avisto um maldito camponês, como sempre invadindo a terra que por direito é minha, minha e da Morte.
Estava com uma espingarda e andava cautelosamente, tinha quase que completa certeza de que era à mim que ele estava caçando, espreitando por entre as árvores, tentando descobrir meu esconderijo, acertar uma bala bem no meio de minha testa ou em meu coração e por fim, exibir meu corpo como um valiosíssimo troféu. Que desgraçado!
Podia ouvir claramente as batidas de seu coração, o sangue correndo por suas veias, a respiração lenta, relutando para não quebrar o silêncio que rondava sombriamente e reinava supremo nesta floresta abandonada, eis que um barulho ainda mais alto toma conta de meus ouvidos, o de meu estômago vazio.
Há alguns dias, seria loucura ter este tipo de reação, mas agora parecia-me mais do que natural, porém ainda achava estranho... Será que finalmente tornei-me uma fera? Será que finalmente matarei a parte humana que antes julgava impossível de matá-la em mim? Creio que só havia uma alternativa para a parte fera dominar por completo todo o meu ser...
O aldeão ainda não havia notado a minha presença, rápida e silenciosamente subi no topo de uma das inúmeras árvores adormecidas para sempre e ali fiquei observando, esperando pelo melhor momento para atacar.
Estava ficando insuportável apenas fitá-lo de uma distância, que poderia ser pequena, mas que parecia torturar-me, aquele cheiro de carne macia e suculenta exalando por seus poros, o som de seu coração batendo calmo.
O homem ainda não percebera-me ali tão perto, estava ficando impaciente, não tinha ainda muita habilidade para controlar meu corpo, minha força, a fera que aos poucos despertava dentro de mim, descuidei-me deixando um galho se partir, aquelas árvores eram tão frágeis, não era para menos, estavam mortas há muito tempo, antes mesmo de nascerem já encontravam-se sem vida.
O galho tocou o chão fazendo-o assustar-se e por reflexo olhar para cima encontrando meus olhos sedentos e atentos a ele, saltei de imediato sobre o humano arremessando sua espingarda para longe, pude ouvir um tiro saindo feito trovão, porém sem um certo destino. Tentei segurá-lo sob meu corpo, mas parecia impossível, apesar de eu ser uma fera, infelizmente ainda pertencia ao que os mortais chamam de sexo frágil, não podia demorar-me mais ou aquele desgraçado fugiria buscando ajuda.
Segurei fortemente sua cabeça mordendo seu pescoço, bem onde o som do sangue correndo tão profundamente era nítido, ele gritou, debateu-se, lutou, tentou escapar de minhas presas e garras afiadas, mas fora inútil, toda a sua rebeldia liberava adrenalina o que tornara o sangue dele ainda mais saboroso. Em pouco tempo, não havia mais um único sopro de vida em seu refugo, finalmente estava morto e era só meu!
Bebi seu sangue, goles e mais goles saciando minha sede, o que antes causava-me repulsa, agora por mim era almejado e sutilmente apreciado, sangue puro e viscoso era tão importante quanto água, acho que não mais preciso deste nefando líquido incolor e inodoro, o que precisava, ansiava, sonhava, buscava com tanta força e ardor, era sangue... Rubro e adocicado.
Com apenas um golpe rasguei sua pele quebrando todos os seus ossos, um a um até finalmente chegar ao seu coração. O pérfido coração de um caçador que se tornara caça, esta era a lei da selva, a sobrevivência do mais forte e quem era forte agora, seu inútil? Eu! Apenas eu...
Enquanto desejaste meu corpo eu devoro o teu! Era a primeira vez que saboreava o gosto da carne humana e, sinceramente, decepcionei um pouco, sempre acreditei que era saborosa, porém o que desceu pela minha garganta fora uma massa dura e amarga.
Não era pra menos, os humanos são tão odiosos e desleais que suas maldades e pecados penetram na carne dando este sabor tão grotesco, entretanto, creio que minha parte fera amenizava este gosto terrível tornando a carne suportável a ser apreciada. Levei seus restos para meus guardiões, eles também precisavam saborear a vingança mesmo que de nada tivessem ajudado.
Ao chegar em meu amado lar, deitei-me em minha cama, estava exausta, agora entendo os predadores, passam dias procurando por alimento, não dormem nem perdem o foco, chegam a serem prisioneiros da própria fome e após conseguirem o tão almejado banquete podem dormir o sono dos justos. Claro que eu os entendo, sou um deles agora, penso como um predador, espreitando, observando, esperando pelo momento certo...
Estava tudo tão confuso e estranho, por dias e dias a dor que tomara meu corpo não me abandonou um minuto sequer, tudo doía, deveria ser por causa das mudanças... Quando minhas orelhas doíam era porque estavam ficando pontudas como as de um lobo, quando minhas mãos doíam era porque minhas unhas estavam tornando-se garras, minha boca e maxilar doíam porque meus dentes estavam tornando-se presas, às vezes minha visão ficava turva e minha cabeça latejava insuportavelmente e eu tinha certeza, de que quando mirava meu reflexo no espelho via meus olhos com um certo tom amarelado e reluzente.
Nas noites que se seguiram as dores eram intensas e contínuas, acompanhadas das tão severas mudanças, pensei que apenas quando a lua surgia me transformava numa estranha e sedenta fera, mas não, durante o dia também sofria uma espécie de metamorfose, porém menos dolorosa, não conseguia entender, ainda não consigo, nem sei ao menos relatar estes incomuns fenômenos nestas vazias páginas, apenas digo que é confuso e terrível.
Numa noite fui até à entrada de minha caverna olhar na encanecida face de minha linda algoz, a dor já ia aumentando mesmo antes do sol se pôr, o sangue borbulhava como se meu corpo estivesse sendo consumido por pérfidas chamas, as garras, as presas, meus olhos... Ah meus brilhantes e amarelados olhos!
Tentei resistir um pouco mais naquela noite, vi pelos grossos e longos semelhantes à pelagem de um lobo cinzento crescer por meu ebúrneo e desnudo corpo, gritava e contorcia-me sobre a terra fria, ouvia o som de meus ossos modificando-se, a espinha alongando e curvando-se, como aquela dor era insuportável e impossível de se resistir, até que não mais pude contê-la, tive que me entregar completamente ao sofrimento, olhei uma vez mais para a lua que parecia sorrir, gozando de meu martírio que chegava a escorrer por meu rosto, até que a escuridão tomou meus olhos...
Despertei numa cama... Uma cama com lençóis brancos como a neve, um travesseiro macio como penas de cisnes, um verdadeiro quarto, pequeno, com uma mínima janela pela qual a luz do sol entrava timidamente. Sem perder mais tempo observando o local onde estava corri até ela na tentativa de fugir, para meu azar estava muito bem selada, pude ver através do vidro, estava revestida por afiadas lâminas do lado de fora, seria inútil tentar fugir, gastaria uma força necessária e ainda sairia ferida, estava presa.
Onde estava? Não sabia ao certo, mas algo me dizia que era a vila, ah aquela maldita vila! Percebi que estava vestindo uma camisola branca, devem ter capturado quando voltei à minha forma humana, sempre que isto acontece estou nua, de nada consigo me lembrar, será que fizeram algo comigo?
Fiquei andando de um lado para o outro naquele minúsculo lugar, aquelas paredes impedindo-me de sair, parecia que iam aproximando-se umas das outras, o quarto tornava-se cada vez menor enquanto minha fúria só tinha a aumentar, estava nervosa e confusa, comecei a socar as paredes de madeira deixando as marcas de minhas garras por todo o local, contive-me ao ouvir o som metálico da fechadura. Isolei-me em um canto o mais longe da porta, será que eram os camponeses? Estariam armados até os dentes? O que fariam comigo?
A porta se abriu, dois homens entraram, fixei meu olhar em ambos, eram altos, fortes, pele queimada de sol e traziam armas de fogo em suas mãos e facas escondidas em suas botas e cintos, podia ter mais do lado de fora, estava fraca pelas tentativas frustradas de fugir, de nada adiantaria atacá-los, eles certamente dominar-me-iam e sabe-se lá o que fariam a mim, apenas permaneci hirta e taciturna.
___ Veja quem acordou, Tom!___ disse um deles com um sorriso cretino estampado na face.
O camponês veio se aproximando, pude notar que ele possuía uma cicatriz que ia de um pouco próximo de seus olhos até seu pescoço, creio que ela continuava até seu peito, mas suas vestes impediam-me de vê-la.
___ Então você é a bruxa que tem aterrorizado nossa vila...
Não respondi, não responderia a nada do que me perguntassem, deixaria que pensassem que sou um ser irracional para que ao se descuidarem, eu possa finalmente atacar e fugir deste horrível lugar, a raiva que aquele mortal sentia de mim naquele momento fazia com que as batidas de seu coração aumentassem, isto despertava meu apetite, embora o ouvi dizer que durante a noite, ainda na forma animal, eu havia devorado uma de suas vacas restando-lhes apenas duas.
___ Como se transformou naquele animal?
Nada disse.
___ Fale! Que tipo de bruxaria você fez pra se transformar naquela besta sanguinária?!
Não iria dirigir-lhe uma palavra sequer.
Depois de um tempo de tentativas em vão, o homem perdeu a paciência apontando uma arma para minha cabeça, fitei seus olhos vingativos como se tivesse desafiando-o a puxar o gatilho, meu silêncio o enfurecia cada vez mais, assim como minha calma diante de sua exaltação.
___ Não vai abrir a boca, não é? Então vai direto pro inferno, bruxa maldita!
Permaneci imóvel e tranqüila, realmente não estava com medo, ameaças de nada valem para mim, estava quase puxando o gatilho, uma bala estava quase fugindo pelo cano de ferro até acertar diretamente meu crânio e minha morte ser rápida, eis que o outro o segura dizendo:
___ Não, Jimmy, não faça isso!Admirou-me sua atitude estranha, confesso que aquilo fora inesperado e senti-me confusa diante de sua ação.
___ Por que não fazer?! Há anos tentamos capturá-la, essa maldita bruxa, vadia servidora de satanás, e agora que a temos em nossas mãos... Por que não fazer?
___ Não faça, Jimmy, não agora.
___ Não agora?___ disse olhando para o outro com uma expressão desentendida.
___ É. Faremos isto mais tarde, deixe-a aqui padecendo de sede e fome até estar quase sem forças, vamos fazer isso diante de todos, afinal, os aldeões precisam saber que esta noite finalmente estaremos seguros e livres de todo o mal que nos acompanhou durante anos.
O mortal que atendia pelo nome de Jimmy fitou-me, pude ver a cólera consumindo suas entranhas, até que abaixa o revólver, porém sem tirar os olhos de mim, após observar-me em silêncio durante alguns segundos, ele disse:
___ Tem razão, nossos irmãos e amigos precisam contemplar este momento... Finalmente livres e seguros.
Saiu rapidamente do quarto, o outro demorou um pouco para segui-lo, antes de sair lançou-me um estranho olhar, seus olhos tão azuis quanto o céu sem nuvens traziam um enigma, algo que não conseguia entender, muito menos desvendar.
A porta fora trancada novamente e ali fiquei por não sei quanto tempo, com fome, com sede, com raiva. Meu corpo todo doía como se toneladas de pedras estivessem sobre mim, quando isso iria ter fim? Oh, querida Morte, por que fazes isso comigo? Por que queres que sofra tanto antes de ir ao teu encontro?
Sem meu diário e minha pena sentia-me sozinha e perdida, precisava relatar meu pesar, compartilhar com o universo meus sombrios pensamentos e acima de tudo, eternizá-los numa mísera folha de papel em branco. Tinha medo de nunca mais poder escrever, perdendo assim, todos os meus sentimentos e pensamentos que tomavam conta de mim naquelas horas que passavam tão vagarosamente.
Estava deitada respirando calmamente, se fosse possível deceparia minha cabeça, pois não suportava mais a dor que lancinava-me, eis que ouço o barulho enferrujado da maçaneta, corro para um dos cantos mais distantes do quarto e lá fico encolhida aguardando quem poderia ser, acreditava que era aquele maldito camponês chamado Jimmy, nunca mais esquecerei seu nome, muito menos sua cretina face.
Para minha surpresa, era o humano moreno de olhos azuis e trazia com ele um prato de comida. O que fazia aqui e por que viera? Ele entrou fechando a porta silenciosamente, presumi que tivesse vindo escondido do outro, caminhou até um pouco perto de mim colocando no chão um prato e um jarro cheio de vinho, ele então disse-me afastando-se:
___ Coma.
Não mexi nenhum músculo sequer, nem os de meus olhos, mas senti que os dele penetravam em meu corpo como se quisesse descobrir o que estaria se passando dentro de minha cabeça.
___ Está tudo bem, eu não vou te machucar.
Sabia que não, agora eu era mais forte, mais ágil e arisca, ninguém era páreo para mim e nada poderia me parar, entretanto, deixei que acreditasse que era frágil e indefesa apesar de ser aquela fera sanguinária durante a noite, de dia era apenas uma mortal fraca e oprimida com medo dos camponeses.
Alguns minutos se passaram de agonizante silêncio, até que Tom fala novamente comigo:
___ Quando a lua surgir fuja pela janela, retirei todas as lâminas enquanto todos se ocupavam com suas tarefas.
Franzi o cenho transmitindo-lhe meu desentendimento e confusão.
___ Não vou deixar que Jimmy lhe faça mal algum, nem ele nem ninguém desta vila ___ respondeu o rapaz ___. Quando o sol estiver se pondo, todos estarão ocupados com a cerimônia para a sua execução, encarregar-me-ei de despistar os vigias, poderá voltar tranquilamente para a floresta sem que ninguém a veja.
Creio que ele pôde ver a desconfiança no fundo dos meus olhos então falou com uma voz suave e reconfortante:
___ Pode confiar em mim, eu não vou te machucar, dentro de poucas horas estará livre e segura, adeus.
Eu o vi caminhar até a porta e antes de trancá-la, lança-me um último olhar dizendo:
___ Coma, precisa ter forças quando a noite chegar.
Ouvi o barulho da chave dentro da maçaneta, seus passos distanciando-se do quarto, não consigo entender por que aquele aldeão faria isso para mim, por que queria libertar-me? Ver-me livre para que a noite chegasse e eu me transformasse naquela terrível criatura que obviamente voltaria a atacar seu vilarejo?
Observei que no prato havia apenas carne crua, o cheiro era de galinha, corri imediatamente em direção ao prato e devorei toda aquela suculenta e apetitosa carne seguido de goles e mais goles do mais doce vinho que já tomei em toda a minha existência. Senti a dor de cabeça me deixando e minhas forças retornando, precisava repousar, pois em poucas horas estaria livre e segura.
A dor era uma espécie de despertador, acordei sentindo como se fosse facadas em todo o meu corpo, olhei em volta, o quarto estava tornando-se escuro, havia apenas uma tênue penumbra, o momento era chegado, precisava partir antes que viessem com armas e correntes, tomei uma certa distância e olhei fixamente para a janela, não sabia se as lâminas ainda estavam lá ou não, de qualquer forma teria que arriscar, naquele momento fugiria e voltaria para meu lar ou morreria tentando.
Os olhos grudados no vidro da janela, podia se ver meu concentrado semblante refletido, a respiração branda, silêncio... Concentração era algo essencial naquele instante até contrai os punhos e com o olhar fixo, pus-me a correr em direção à liberdade.
Com um único salto, quebrei o vidro e caí sobre a grama do lado de fora daquela prisão humana, havia cortado-me por causa do vidro, mas nada tão sério, não podia ficar para verificar os ferimentos senão perderia um tempo valioso, imediatamente levantei-me e corri em direção às minhas queridas e amigas árvores mortas.
Não consegui chegar a tempo em meu lar, a dor fizera-me parar no meio do caminho, caí de quatro sobre aquele chão amaldiçoado, rasguei aquela camisola, minhas mãos enterravam-se sob o solo seco, ouvia o som de meus ossos modificando-se, minha espinha alongando-se, mais de mil massas de ferro batendo em minha cabeça, era um processo longo, lento e doloroso.
Ansiava pelo momento em que tudo era somente escuridão, o instante em que a dor atingia seu ponto mais alto fazendo com que desmaie e perca totalmente a consciência de tudo que estava ao meu redor, porém demorava e enquanto tinha de esperar, a dor maltratava-me como se a Morte quisesse que eu pagasse por todos os pecados que um dia fui capaz de cometer nesta minha podre e frívola passagem.
Finalmente, meu tão glorioso e esperado momento de tranqüilidade, tudo ficara negro, a dor era tão intensa que não mais doía, a cabeça pesava e pendia, então, eu a vejo... Linda, sublime, solene, ebúrnea e cruel... Minha querida algoz, Senhora da Noite, Deusa da Perdição, eu a vi... Banhando-me com teu ardoroso luar, até que morro mais uma vez na escuridão e no esquecimento.
***
Na manhã seguinte acordei no interior de minha caverna deitada em minha cama, como vim parar aqui? É tão ruim não conseguir lembrar de nada, apenas tendo a dor como vestígio de uma noite fantasma.
Levantei-me calmamente, pois minha cabeça latejava, a fraqueza tomava conta de meu corpo e meus olhos ardiam, quando esfreguei-os e olhei em volta, tive uma surpresa.
Em uma das paredes de pedra, estava escrito com sangue: SOU COMO VOCÊ! O líquido vermelho e viscoso escorria por fios das letras, quem teria feito isto? Após alguns segundos refletindo, uma luz invadiu minha mente, a criatura... Será que ela é humana? Ela esteve aqui, escreveu isto, o que pretende? Preciso saber...
Estava faminta, acho que não devo ter conseguido alimento algum na noite que se passara, até que o cheiro do sangue dos animais em minhas tigelas começou a atiçar ainda mais meu apetite. Em poucos minutos bebi todo o líquido contido nos recipientes de louça pura, sei que fui irracional por acabar com valiosos ingredientes de futuros encantamentos, mas eu precisava, estava morta de fome!
Passei a tarde toda procurando ervas e picando-as para alguma coisa que venha fazer futuramente, estava um pouco distraída pensando na notívaga criatura, certamente era humana, sentia que era ela que fizera aquilo, invadira meu lar e deixara sua marca para sempre ali. Como seria sua forma? Seria ela homem ou mulher? Ela sabe que me transformara, passara a mim seu vírus, envenenara-me com seu sangue, suor, saliva e agora... Eu sou como ela.
Preciso ser racional, não posso deixar meu lado selvagem falar mais alto, dominar-me por completo, preciso ser calculista e fria, a começar pela alimentação, meus instintos dominam-me e sem pensar ataco qualquer ser vivo que aqui vive, isto está errado, deste jeito em menos de um mês não terei mais alimentos e logo morrerei.
Às vezes penso que é isso que ela quer... Minha querida deusa Morte! Será que é assim que devo morrer, de fome? Oh, minha deusa, estou perdida sem tua compaixão, estou sozinha sem sua presença tão reconfortante, por que não me dás um sinal de que estás por perto?
Venha buscar-me cavalgando lentamente em teu cavalo branco, de todos os quatro cavaleiros, a única que quero és tu, minha amada! Com um único beijo tão álgido leve contigo minha desventurada alma errante, pegue minha mão, abençoe-me com você, eu a quero, eu a chamo, eu a amo, minha flor noturna, deusa da destruição, você... Só você... Morte.
Esta noite, algo diferente aconteceu, para minha tristeza e irritação, a lua não surgira, devia ser época de lua nova ou quaisquer outra de suas fases que não fosse a cheia, pálida, maravilhosamente fatal. Então seria assim, sem dor, sem lágrimas, sem gritos, sem vida... A pobre criatura dentro de mim adormecida não seria despertada, pelo menos não nesta noite.
Escondi-me em meu refúgio e lá fiquei, hirta e melancólica, a noite estava fúnebre e patética, tétrica até eu diria, silenciosamente insuportável, nada mais a fazer a não ser ter a vida daquela condenada mortal que sonhava com o dia de seu descanso eterno.
Andava de um lado para o outro tendo em meu peito um fio de esperança de que em algum momento a lua surgiria convidando-me a aproveitar a noite, faltava-me tudo, força, coragem, destreza, agressividade, as horas mortas se seguiam sem que nada acontecesse, apenas um terrível sofrimento invadia meu interior vazio.
E foi assim... Noites e noites sem luar, sem fúria, sem carne humana ou sangue descendo pela garganta, sem assassinatos, voltei a ser aquela coisa tão desditosa e comum que era, a vida voltava a machucar, a normalidade voltava a incomodar, o que eu mais odiava e repugnava era agora o que eu era... Humana.
Noites escuras e vazias, o céu repleto de nuvens sombrias, mas onde estava a lua? Por que não surgia? O que lhe acontecera?... Por dias tive que buscar alimento na nefanda vila de camponeses e pescadores, o lugar das involuídas criaturas que perseguem-me.
Num dia, estava sentada à margem do lago negro pensando em como foi bom ter a diferença dentro de mim, era mais forte e completamente poderosa podendo destruir ossos humanos com minhas próprias mãos. Fiquei com uma das mãos mergulhada sobre aquelas águas, parecia que perdera meu valioso membro, pois não podia avistá-la, aquela água era tão negra que era impossível ver o fundo do lago. Águas tão frias quanto o gelo, porém tão doces quanto mel, qual é o mistério por detrás deste lago e por que seu obscuro líquido não me afeta?
Algo então faz com que meus olhos percorressem a floresta, ruídos de galhos se partindo, levantei-me e fiquei atenta ao que poderia surgir por trás daquelas árvores, eis que surpreendo-me ao ver ele... O imbecil humano nomeado Tom, franzi a testa sem entender o que aquele camponês fazia aqui.
___ Acalme-se, não tenha medo, sou só eu.
Permaneci imóvel, porém mais calma, algo nele dizia que era inofensivo e idiota até, não sabia do perigo que estava correndo chegando perto demais, não digo por mim, mas por meus guardiões, eles matam toda e qualquer criatura que ouse aproximar-se de meu corpo.
___ Vim ver se estava bem ___ falou ele.
Percebera meu desentendimento diante desta frase, então continuou:
___ Ainda bem que está viva.
___ O que faz aqui?___ aquela frase saíra de meus lábios quase que sem pensar, somente com algumas poucas palavras eu destruíra todos os meus pesarosos anos de total silêncio e devoção. Senti que traíra tudo que conhecia, tudo que levou quase toda a minha vida para acreditar e seguir cegamente, sinto-me um alguém desprezível, mas algo naquele jovem dizia-me que nem este erro tão fatal que cometera havia feito com que a Morte perdesse sua fé em mim.
___ Pensei que não soubesse falar.
Aqueles olhos azulados fitos em mim deixaram-me um tanto encabulada, um estranho silêncio tomou conta da floresta, até que fora quebrado novamente por sua voz:
___ Respondendo à sua pergunta, vim porque estava preocupado e queria ver se estava bem.O homem tentou aproximar-se, entretanto, um passo que ele dera em direção a mim fora um passo que dei para trás para manter distância, deteve-se e encarou-me, creio que pensou que estivesse com medo dele, pobre tolo!
___ Ei, eu não mordo!___ disse ele com um sorriso incomum que logo desaparecera tornando seu aspecto sério, porém um tanto tranqüilo e ainda inofensivo. O dom de ter parte de uma fera vivendo bem dentro de mim deu-me esta incrível habilidade de apenas olhar dentro dos olhos de alguém e pressentir o medo ou algum tipo de ataque, quando olhei bem no fundo de seus olhos da cor do céu, não vi nenhuma das duas coisas, estava calmo e paciente, parecia não ter medo de mim, muito menos de meus guardiões, que por sinal, pareceu-me que nem ao menos notaram sua presença tão próxima a mim.
Ele dera mais um passo em minha direção, todavia, desta vez permaneci parada, o medo penetrara em meu corpo, isto era ridículo! Era ele quem deveria temer e não eu, mas por que estaria com medo? Não sabia ao certo e ao mesmo tempo estava nervosa, inquieta, entretanto, continuava hirta e fria como uma estátua de mármore.
O aldeão estava a quase um palmo de distância de meu rosto, poderia sentir sua respiração, olhando em meus olhos, ele disse:
___ Meu nome é Tom.
___ Eu sei ___ respondi.
___ Jimmy deve ter mencionado quando entramos no quarto naquele dia.
___ Vá embora.
___ Por que eu iria?
___ Aqui não é o seu lugar.
___ Por que não seria?
___ Esta floresta não é lugar para inúteis mortais como você.
Pus-me a andar, até que uma frase dita por ele fez me parar:
___ Mas é lugar para uma bruxa como você?
Ainda de costas para ele, respondi:
___ A floresta é meu lar, parte de mim.
___ E por que não poderia ser o meu lar? Parte de mim?
Sinceramente, eu não soube lhe responder, suas perguntas eram tão diretas e misteriosas, parecia que algo escondido por trás daquelas indagações queriam dizer alguma coisa, nenhum outro camponês faria o que fez, diria o que disse, havia algo naquele estranho jovem que surpreendera-me e causara-me incômodo.
___ Esta floresta é meu lar e sou parte dela ___ respondeu, ouvi os galhos partindo sob seus pés, estava novamente aproximando-se.
___ Nunca o vi aqui.
___ Nunca quis incomodá-la.
Passos lentos, sua voz chegando cada vez mais perto de meu ouvido.
___ Nunca ofereci-me para vir até aqui profanar o silêncio materno destas árvores mortas que dormem profundamente o sono dos anjos acompanhado dos demais aldeões, caçar-te e matar-te a sangue frio e por fim exibir-te como um glorioso e valioso troféu.
___ Sou uma bruxa.
___ Mas ainda é um ser humano, assim como eu.
Virei-me e enfurecida encarei seu olhar que parecia tão brando.
___ Não! Eu não sou como você!
Ia dar-lhe as costas e seguir direto à minha moradia, pois já estava farta deste diálogo, mas ele deteve-me segurando meu braço.
___ Sim, você é!
___ Sou bruxa e uma fera sedenta por sangue que todas as noites destrói aquela vila matando animais e pessoas que de nada valem para mim!
___ A lua não surge há semanas, não há mais ataques, agora você não passa de uma bruxa solitária e de alma amaldiçoada e vazia.
___ Não!___ disse desprendendo-me de suas mãos com todas as minhas forças.
___ Sim! É só isso que você é e mesmo que a lua volte e lhe faça aquele monstro, sempre será apenas uma garota perdida, sem alma e sem destino.
Corri o mais rápido que pude e sem olhar para trás, senti que aquele maldito humano não havia me seguido. Cheguei em meu refúgio e escondi-me bem lá no fundo, onde a luz do dia não me alcançava, onde nada nem ninguém poderia ver que fui fraca e deixei que tolas e frígidas lágrimas escorressem por meu semblante enfurecido. Como ele pôde me fazer chorar? Quem era aquele rapaz e o que de mim ele estava escondendo?
Não pude acreditar, as lembranças martelando minha cabeça deixando dolorosos pregos na memória que faziam doer e sangrar, a voz inalterada, porém poderosa daquele garoto, os olhos penetrantes, parecia que podia ver através de minha alma, desvendar cada segredo que mantive oculto até de mim mesma usando-os contra mim.
Nunca mais quero vê-lo novamente, algo nele me incomoda e me assusta ao mesmo tempo, onde estariam meus lobos para destroçá-lo fazendo com que não restasse nenhum refugo do que fora um dia?
Enquanto ele se aproximava de mim, pegava em meu braço, dirigia-me a palavra, nem um de meus guardiões surgiram com seus caninos e garras afiadas para atemorizá-lo, fora um silêncio mortal e sufocante, nem ao menos pude sentir suas presenças, o que acontecera? Por que não vieram?
Naquela noite, o tão esperado aconteceu, a lua ressurgira, ah minha tão adorada algoz voltara para mim! Estava alta, cheia, ebúrnea num céu límpido e sem nuvens, apenas ela iluminando meu corpo, que logo modificar-se-ia.
A dor... A tão querida dor voltou a afligir-me, tudo era fogo que ardia e queimava por dentro, a cabeça latejando, os ossos se reestruturando, a espinha se alongando e a dor lancinando, oh amada dor, voltaste para mim!
Teria que aproveitar cada segundo de martírio, depois de tantas noites com um mortal e fútil coração batendo dentro de mim, pude sentir novamente o extinto animal dominando-me aos poucos. Espero que ataque aquela maldita vila com todo o ódio e sede que habitavam meu ser e espero que arranque e coma o coração daquele humano desgraçado.
Ainda estava consciente, entretanto, sentindo muita dor, eis que pude notar algo movendo-se por entre as mortas árvores, olhos amarelos... Nítidos na escuridão de uma imaculada noite, era ela... A terrível e nefanda criatura, viera conferir o que fizera a mim, só poderia ser isto.
Após fitar seus olhos, a dor tornara-se insuportável, depois de tantas e tantas noites que se decorreram presa, a fera dentro de mim estava sofrendo para remir-se. Pude ver aquela criatura sair das trevas e ser iluminada pelo luar, era ela... Exatamente como na noite em que me ferira, era ela... A criatura que deveria amar ou odiar por me dar uma nova vida.
___ É você... ___ usei meu último suspiro para dizer aquelas palavras, estava fraca, a mutação sugava todas as minhas forças, a visão ficara embaçada, a cabeça latejando, pesando, pendendo em direção ao chão, tudo fora ficando escuro, não sabia ao certo o que iria me acontecer, se meu momento de partir era chegado, pois estava extremamente vulnerável, era uma presa fácil. Meus olhos fixos àquele animal e por fim eles se fecham, de nada mais me lembro e jamais irei lembrar.
No dia seguinte meu pior pesadelo, estava novamente na vila. ***
Observei tudo que estava ao meu redor, era o mesmo quarto, a mesma cama, os mesmos lençóis, as marcas de minhas unhas desenhando estranhas figuras no desespero de estar em cativeiro ainda estavam naquelas paredes de madeira. Senti que meu cheiro ainda estava naquele lugar, em toda a parte.
Os camponeses novamente conseguiram capturar-me aprisionando-me neste lugar, fora um erro meu ser tão fraca, como pude deixar ser uma presa tão fácil? Olhei para a janela, estava revestida com tábuas de madeira, seria um pouco mais difícil, mas quando a noite chegasse isto não impedir-me-ia de libertar a feroz criatura que vaga na noite soturna.
Para minha surpresa, Jimmy e aquele desgraçado camponês chamado Tom adentram o quarto, aquilo parecia um deja vu, a arma em punho, o olhar repleto de ódio repousado sobre mim e minha absurda calma enfurecendo-o ainda mais.
O homem nada disse durante alguns minutos, apenas andou ao redor da cama onde eu estava sentada seguindo-o com meus olhos, ele andava de um lado a outro sem tirar o olhar de mim, até que parou ao meu lado e continuou observando-me, até que dá-me uma surra que faz com que meu corpo despenque para um lado, minha cabeça foi amortecida pelo travesseiro branco com penas de ganso, porém notei um certo tom avermelhado e uma dor em meu lábio inferior.
Rapidamente o camponês pulou sobre mim golpeando-me várias vezes, eram socos, tapas e até seu pequeno revólver fora usado para atingir meu rosto e meu estômago. Estava fraca, com o corpo dolorido e faminta, era assim sempre que voltava à forma humana, porém naquele dia fora mais doloroso, pois havia tantas noites que não transformava-me.
Puxando meu cabelo e tendo minha face tão perto da sua, o mortal falara:
___ Olha quem está de volta ao cativeiro, Tom!
___ Jimmy, pare ___ disse o garoto tentando defender-me, ainda não entendia sua atitude.
___ Calado, Tom! Não compreendo como pode ter algum tipo de compaixão para com esse animal tão sujo e desgraçado!
O rapaz dessa vez nada dissera.
___ Olá de novo, sua vadia, como passara a noite em forma de fera, hein?
___ Jimmy...
___ Cale essa boca, Tom, ou meto-lhe um tiro em seu crânio!
O camponês voltara a fitar-me com seu olhar raivoso e cheio de rancor.
___ Não se lembra, não é, desgraçada? Então contarei a você, saiba que... Destroçara nossas duas últimas vacas leiteiras, lembra-se disto? Não? Pois foi isto que fizera, ah e sabe do que mais, você matou a sangue frio o meu filho e a minha esposa! Prostituta de satã, maldita vadia do inferno!
Mais golpes direcionados à mim, não podia fazer nada, se tentasse defender-me obviamente iria morrer, poderia não ser pelas mãos daquele desgraçado, mas por outras, não sou tola, sabia que havia muitos camponeses cercando aquele casebre onde me encontrava, além de gastar as poucas forças que possuía, teria uma morte lenta e dolorosa.
___ Não se lembra, não é, maldita? Como poderia? Era apenas uma criatura estranha e ordinária que destruiu vidas inocentes apenas por puro prazer! Mas isso vai acabar, esta noite.
___ Jimmy, não...
Jimmy então apontou a arma na direção daquele humano imbecil e aparentemente sentimental.
___ Abra a boca mais uma vez e não respondo por mim.
Virou-se novamente para minha direção e continuou:
___ Esta noite... Voltará para o lugar de onde jamais deveria ter saído, bruxa desgraçada!
Levantando-se, o mortal seguiu em direção à porta, novamente eu e aquele garoto ficamos sozinhos.
___ Não vou deixar que nada te aconteça ___ disse ele.
___ Tom!___ chamou Jimmy do lado de fora do quarto.
___ Até a noite ___ disse o jovem lançando-me um último olhar e trancando a porta ao sair. Sinto que esta noite ele faria o mesmo e me libertaria, porém ainda não consigo entender o motivo pelo qual faria isto por mim.
Passei a tarde toda com dores pelo corpo, as feridas causadas pelos golpes daquele maldito ainda ardiam e incomodavam, meu corpo dolorido pela noite passada, minha cabeça latejando, a fome e a sede castigando-me, nesta tarde ele não viera trazer-me nenhum alimento, começo a duvidar se viria à noite para me resgatar.
Anoitece...
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