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Não preciso ser iluminada pelo brilho do luar para que a transformação tenha início, apenas preciso saber que minha algoz está lá, linda e nívea, fria e cruel, e certamente ela estava, pois logo a dor começou a aumentar, mesmo que o humano não viesse, poderia me livrar daquela prisão sozinha, míseras tábuas de madeira não conseguem me deter, só tenho de esperar pelo ponto alto da dor seguido de uma força que não sou capaz de controlar.

Vejo os primeiros raios prateados adentrando o local pelas frestas da madeira tapando a janela, começo a gemer, no começo são sempre gemidos tímidos causados por um incômodo, com o passar dos minutos ia tornando-se um pesar tão intenso que ao mesmo tempo que desfalecia dava-me forças sobrenaturais.

Caio ao chão rasgando a branca camisola que estava vestindo, assim como da outra vez que fui capturada, minhas garras arranhando o chão deixando novamente minha marca naquele terrível lugar, respirar estava tornando-se uma tarefa difícil, meu peito parecia estar sendo esmagado por uma carruagem, era atormentador ouvir o ruído de meus ossos alinhando-se na forma do esqueleto de um lobo.

Olhei fixamente para a janela, não podia mais esperar por aquele imbecil, nunca poderia ter pensado na hipótese de confiar num camponês, teria de correr em direção à liberdade, não me importaria se algumas lascas de madeira iriam me ferir, a dor que vinha de dentro para fora era maior que qualquer ferida.

Era impossível tentar se concentrar quando todo o seu corpo está se modificando e isto é extremamente doloroso, fitei aquela janela e corri em direção à ela, saltei atravessando as tábuas fazendo com que se partissem em muitos pedaços, pude sentir alguns arranhões em meus braços e pernas, mas era irrelevante. Para meu espanto, caio sobre aquele rapaz de penetrantes olhos celestes.

___ Olá ___ disse ele encarando-me esbaforido.

___ Me ajude... ___ sussurrei roucamente, pois a luta entre a fera e a mortal dentro de mim estava acabando com toda a minha vitalidade.

___ Claro! Venha por aqui.

O garoto ajudou-me a levantar e, apoiada sobre seu ombro, levou-me em direção à mata, soltei um estridente grito de sofrimento, não consegui mais manter-me de pé, assim caindo sobre a mãe terra, o aldeão tentou ajudar-me, mas arranhei seu braço e novamente esforcei-me para dizer-lhe:

___ Fuja daqui se não quiser se devorado...

___ Não se preocupe comigo, está livre agora, bela criatura!

Ouvi seus rápidos passos em direção à vila, logo comecei a contorcer-me, lágrimas involuntariamente corriam por meu semblante, sinto o fervor, a indomável fera lutando para sair.

As nuvens abriram caminho para a lua cheia, sua luz iluminando meu corpo dolorido, olhando-me com zombaria, rindo de minha agonia infindável, o local onde aquele maldito animal arranhara-me naquela inesquecível noite era o que mais queimava de todas as partes do meu ser.

Ah, não posso acreditar, finalmente o insuportável latejar em minha cabeça, a pressão causada pela dor, a visão turva, a fraqueza extrema, a respiração ofegante, era como se tivesse prestes a morrer, entretanto, creio que era mesmo isso que acontecia, a mortal bruxa solitária que vaga sob a luz do sol morre lenta e dolorosamente para que a forte e sedenta criatura noturna nasça uma vez mais iluminada pelo lascivo luar. Adeus, corpo humano, nos vemos ao amanhecer...

Acordei às margens do lago negro, nua, levantei-me com dificuldade e senti uma terrível dor, percebi que meu braço estava ferido, havia um punhal cravado nele. Lentamente comecei a retirá-lo, precisava ter paciência, pois o tormento era grande, porém pensando bem, se num rápido movimento aquela maldita arma branca fosse retirada, a dor seria quase imperceptível.

Criei coragem e usei as forças que ainda habitavam meu corpo e num ato retirei o punhal atirando-o um pouco distante de mim, o sangue fugia rápido e se o ferimento não fosse fechado creio que sofreria com a hemorragia ou até morreria por sua causa.

Lavei o local com a água negra do estranho lago, pus-me de pé e com a outra mão pressionando o buraco da ferida, vagarosamente segui até minha morada, mancando e tentando manter-me ereta.

Quando cheguei, antes de vestir-me, lavei novamente o profundo corte com água e sabão, passei uma mistura pastosa que fiz com ervas medicinais colhidas no interior da floresta e com uma faixa enrolei e amarrei o machucado para que pudesse cicatrizar, daqui algumas horas terei de verificar e fazer outro curativo.

Havia perdido muito sangue, estava fraca demais para caçar, tive que beber sangue misturado com vinho, fiquei o dia todo deitada, a cabeça parecendo que ia explodir, estranhos enjôos, o som de meu estômago roncando, a dor por todo o corpo e ainda estava cheia de marcas e arranhões graças àquele camponês cretino que descontara toda a sua ira sobre mim, espero tê-lo matado.

Passado-se três dias, fui até o lago negro carregando faixas de pano e a mistura de ervas em um cesto, inclinei-me perto da margem, desenrolei a faixa e lavei com aquela negra água o restante da pasta que havia no local da ferida para que estivesse limpa quando refizesse o curativo, eis que tenho uma surpresa.

O ferimento havia cicatrizado! Como isto era possível? Em apenas três dias um corte extremamente profundo que não parava de sangrar fechara completamente restando apenas uma tênue cicatriz, será que a força da estranha criatura que habita meu interior era tão grande que ajudara na cura fazendo com que restasse apenas uma nítida e desventurada lembrança do que acontecera? Gostaria de saber... ***

Na semana seguinte o pesadelo se repetira, estava novamente trancafiada naquela prisão de madeira, isto estava tornando-se patético!

Desta vez ao despertar, deparo-me imediatamente com aquela figura odiosa daquele desgraçado chamado Jimmy, estava olhando para mim, estava desapontada por em nenhuma destas noites ter conseguido destroçá-lo como merecia.

___ Estava esperando você acordar, não queria que morresse estando inconsciente.

Não disse nada, apenas o encarei séria, porém paciente, o homem então começa a andar de um lado a outro, como um predador cercando sua presa, aposto que era isso que pensava que eu era... Sua presa indefesa.

___ Você parece um bicho do mato... Mas pelo contrário, é muito esperta!

Obrigada, meu caro, pena que não posso dizer o mesmo.

Ele então parou de cercar a cama e sentou-se à beira do colchão, com seus olhos repousados sobre meu corpo hirto, porém podia ver uma certa gota de receio por estar tão próximo, será que como todos os camponeses, este também temia-me apesar de seu semblante tentar transmitir tanta coragem?

___ Já que é tão esperta quanto a julgo por que não diz alguma coisa? Qualquer coisa... Sei que pode me ouvir e me entender, vamos! Fale.

Não iria lhe dirigir uma única palavra, Jimmy esperou por alguns poucos segundos, como eu detesto a paciência dos mortais, se é que pode se dizer que possuem esta virtude! Não conseguem esperar nada por muito tempo, acabam zangando-se ou desistindo, não conseguem ter fé ou força, por isso são uma raça fraca.

O aldeão deu-me um tapa que fez meu corpo pender para um lado caindo sobre travesseiros, seus dedos entrelaçaram e puxaram meu cabelo, pude ouvi-lo sussurrando em meu ouvido:

___ A vontade que tenho é de estourar seus miolos, filha do diabo!

Pude ouvir o sangue pulsando dentro de suas veias, a fúria o corroia, a vontade de acabar comigo o consumia, estava com raiva, muita raiva e tentava descontá-la em mim, eu estava com fome, muita fome e estas atitudes só faziam meu apetite aumentar.

Os humanos são hilários, roubam, estupram, matam, fazem qualquer coisa para terem o que querem e ainda se dizem donos da razão, pensam que estão acima do bem e do mal, adoram dizer que são filhos de um deus justo que salva os bons e pune os maus, mas na verdade quem são os vilões e heróis? O que é o bem e o que é o mal neste mundo?

Não faço questão de entender estes seres vazios e com almas pútridas, qualquer um que algum dia tentou deve ter caído num desventurado desatino, pois é uma raça que mente, manipula, envenena com suas viperinas línguas, cobiça, inveja, uma espécie fria, realmente me orgulho por não ser igual a eles, apenas na aparência, mas por dentro eu apenas tenho meu mais puro e inocente anseio de estar nos braços de minha imaculada Morte.

Senti seus grossos dedos desprenderem-se de meus cabelos seguido de um barulho metálico, escuto então sua voz ordenando que me virasse, eu o fiz e vi sua arma apontada para minha cabeça, se uma bala saísse pelo cano de ferro, certamente iria atravessar meu crânio causando um buraco bem entre meus olhos.

___ Quero olhar nos olhos da maldita criatura que tem perturbado a paz desta vila durante anos!

Encarei-o séria, porém pacificamente, não teria medo de nada que fizesse ou dissesse, se era chegado meu momento, teria de aceitá-lo e ir calada para junto de minha deusa.

___ Tom não está aqui para salvá-la, adeus, vadia!

Fechei meus olhos e respirei fundo, então era este o meu tão esperado fim? Era assim que tudo terminaria, pelas mãos de um ser estúpido e grotesco? Por que quisestes assim, Morte? Seja como for, tomara a sua decisão e eu a aceito de todo o coração, não importa a maneira na qual deixarei este mundo pérfido, apenas uma coisa importa, virás buscar-me e logo estarei em teus braços.

Eis que ouço um uivo, era de um de meus guardiões, poderia reconhecer a um milhão de quilômetros, pois agora era como se fôssemos um, sou uma fera canina que ainda não sei que nome dar à ela, mas sei que se parece muito com um lobo.

Um uivo incomum que se seguiu fino e perturbador durante alguns segundos, parecia ser um alerta, algum tipo de aviso que cruzara a brenha até chegar aos meus ouvidos, então eu soube... Aquela não era minha hora de ir...

Abri meus olhos e direcionei-os para Jimmy, que assustou-se e disse:

___ Seus olhos... Estão amarelos! Você está se transformando!

Num movimento rápido retirei a arma de suas mãos arremessando-a para bem longe, tapei sua boca no momento em que iria gritar e o atirei contra uma parede, em questão de segundos e por incrível que pareça sem dor alguma, minhas unhas tornaram-se garras e meus dentes presas.

Com lentos passos fui me aproximando e minha fome ia aumentando ao sentir o cheiro do pavor que saía de seus poros e ouvir o som de seu coração batendo várias vezes por minuto, ajoelhei-me diante dele e com uma voz trêmula, ele indaga:

___ O que vai fazer comigo?

Com um de meus dedos selei seus lábios dizendo:

___ Shhh... É uma surpresa!

Arranhava todo o seu corpo e lambia seu sangue. O sangue de um otário desprezível, mas que tinha um ótimo sabor de medo, arrancava pequenos pedaços de seu corpo enquanto o ouvia gritar, seus gritos me excitavam, despertavam a indomável fera que até então estava adormecida.

Sua morte foi lenta e dolorosa, assim como merecia, tudo que queria fazer eu fiz a ele, deliciando-me de cada um de seus gritos, usufruindo de toda a sua dor, eis que não pude mais suportar, enfiei a mão em seu peito arrancando seu coração, não me canso de recordar seu olhar assustado ao fitar o órgão ainda pulsando em minha mão, até que ouço seu último suspiro.

Bebi seu sangue, ah o sangue humano não é nada comparado ao sangue animal ou a uma taça de vinho, é tão melhor, mais puro, mais sápido, como era doce a vingança, aquele desgraçado precisava disto!

Todo o quarto estava pintado com o seu sangue e seu refugo, entre as manchas avermelhadas estavam as marcas de minhas garras das vezes anteriores em que estive aqui, os lençóis antes brancos agora estavam escarlates, lembrou-me tanto meu amado e seguro recanto. Cansada, aconcheguei-me ao lado do cadáver daquele camponês cretino e cai no sono sem pensar em nada.

À tarde ao acordar, vejo Tom sentado sobre o colchão, estava cabisbaixo e parecia triste, de repente ele me direciona seu olhar sem luz inquirindo:

___ Por quê?

Levantei-me e friamente respondi:

___ Não faz diferença.

Rapidamente o jovem também se levanta alterando a voz ao seu aproximar de mim:

___ Faz toda a diferença! Ele era meu pai...

Aquilo não mudou nada em mim, não havia me arrependido do que fiz e creio que nunca irei me arrepender.

___ E você o chamava pelo nome?

___ Nunca fomos próximos, mas eu...

___ Você o amava ___ conclui sua frase.

O rapaz fora até a porta, abrindo-a e falou:

___ Saia, está livre.

Não pensei duas vezes e sem nada a dizer, corri para fora daquele casebre em direção à minha querida floresta. Não entendi o sofrimento de Tom, Jimmy era um homem perverso, merecia morrer, por que a dor? Os mortais são tão idiotas ao se apegarem tanto uns aos outros.

Fico imaginando o que fizera quando parti, será que deitou-se ao lado do corpo destroçado de seu impiedoso pai, chorando feito uma criança com medo do escuro? A culpa não foi minha, não tinha idéia de que era seu pai, mas em todo o caso, o que está feito, está feito, não há como voltar atrás.

O céu escureceu e a chuva veio, vou até lá fora, ah como é bom sentir a frieza de suas gotas sobre meu corpo quente, leve toda a mortalidade que impregna minha pele, lave minha alma de toda a humanidade com a qual eu tive que conviver por alguns momentos.

Chove... As lágrimas de um alguém que ainda dormia e sonhava, gélidas e doces lágrimas de chuva caindo sobre mim, chova! Chova em mim! Chova neste maldito mundo que mata e odeia, consome e pranteia, chova e chore... Implore e morra!

Vou até o lago negro para banhar-me, havia manchas de sangue por todo o meu corpo e por mais que eu adorasse este tom carmesim sobre minha pálida tez, o cheiro não era muito agradável.

Quando retornei ao meu lar, deparei-me com o jovem mortal olhando para mim, ainda chovia muito e suas lágrimas quentes e salgadas misturavam-se com as gotas frias e doces, em seu semblante, uma triste expressão de angústia, nada fiz a não ser encará-lo calada, eis que ele diz:

___ Pensando melhor, eu nunca o amei realmente, obrigado.

___ Não lhe fiz um favor, apenas salvei a minha vida.

___ Sei que foi por vingança também.

___ Ele merecia, assim como merecem todos os homens.

___ Então tudo e todos merecem a morte pra você? Não há nada nem ninguém nesse mundo que valha a pena?

Desviei meu olhar e segui para dentro de minha caverna, seria inútil alimentar um diálogo com aquele garoto tão estranho. Algo corroia-me, a dúvida em saber por que ele se aproxima tanto de mim, não teme meus guardiões, muito menos minha presença, parece que está satisfeito com tudo isso.

Entrei para me secar, fazia frio naquela tarde, até que algo roubou minha atenção, aquele camponês estava entrando em meu recanto, rapidamente corri até a entrada e gritei:

___ Como te atreves a adentrar meu santuário?!

___ Estarei profanando seu santuário com minha presença?

___ Certamente.

___ Seus deuses não permitiriam a presença de um mero mortal?

___ Pare de caçoar do que não conhece!

___ Eu conheço você.

___ Nunca irá conhecer.

___ Sim, conheço.

Ele fora invadindo meu lar pretensiosamente e com um toque de zombaria em seus olhos, aquilo estava enfurecendo-me, se não saísse imediatamente não responderia por meus atos, porém não sei o que me deu, ao invés de enfrentá-lo como sempre fiz com todos os aldeões, afastei-me, havia medo e insegurança dentro de mim, por quê?

___ Eu conheço seus medos, eu sinto eles à flor da sua pele.

___ Pare... Não se aproxime... ___ dizia eu apenas jogando palavras ao vento, pois estava nervosa, a presença daquele estranho camponês despertava-me isto, não sabia por que.

___ Eu conheço suas dores e consigo senti-las quando olho para você.

___ Pare! Vá embora daqui!

Eis que suas mãos agarram meus braços e puxam meu corpo para perto do seu, sua força estava sufocando-me, onde estava minha parte fera para defender-me? Senti-me ainda mais débil perto dele, se não estivesse segurando-me certamente cairia, pois assim como mágica minha vitalidade desaparecera transformando-me num desestruturado e frio cadáver.

___ Eu sou como você...

Após dizer isso, algo terrível acontece, aquele abominável ser dá-me um beijo, não posso crer, não posso aceitar que isto acontecera, não tinha forças para livrar-me de seus lábios muito menos de seus fortes braços, ele segurou-me por alguns segundos até arranhá-lo e o fazer se afastar.

Sentei-me em minha cama de costas para ele, estava nervosa com o que acabara de acontecer, os fatos não estavam sendo processados corretamente em minha mente assustada e confusa, procurei respirar fundo, até que ouvi seus passos aproximando-se de mim, rapidamente peguei uma de minhas adagas e apontei para ele.

___ Não se aproxime de mim, ser sórdido e maculado!

Aquele desgraçado arriscou mais alguns passos, então empunhei a adaga e gritei com sanha:

___ Saia daqui antes que eu enterre este gume em teu peito nefando, mortal!

Ele então sorriu, como se estivesse novamente zombando de minha ira e disse:

___ Adeus, bela criatura.

Virou-se e sumiu floresta adentro, não sei o que houve com aquele rapaz e nem quero saber, por mim meus guardiões o matariam lenta e dolorosamente, assim como matei seu pai, Jimmy.

O nojo que estava em mim era tão grande, indescritível, repentinamente transformara-se em ódio, um enorme e terrível ódio, não pude suportar, cai esmorecida no frio chão e debruçada sobre a cama pus-me a chorar. Perdão, querida Morte, isto é demais para minh’alma, tive que libertar toda a dor e fúria que sufocavam-me, perdoe-me, por favor.

Num acesso de cólera quase destruí tudo que havia em minha morada, parecia um animal enjaulado, sem controle e sem sanidade, num violento frenesi, eis que a racionalidade, com muito custo, volta a dominar-me, apenas eu sairia perdendo se destruísse o altar que fiz para minha adorada Morte.

Sai floresta adentro para esfriar minha cabeça, levei uma de minhas adagas comigo para no caso daquele humano odioso estar ainda em meu lar, se o visse novamente, acabaria com sua vida, assim como o fez com a minha.

Surpreendentemente encontrei um veado no meio da floresta, estava comendo a relva ao redor de uma árvore, não estava com fome ou sede, porém precisava saciar minha vontade de matar acompanhada da dor e do ódio. Creio que o pobre e inocente animal que nada tinha a ver com meus obscuros sentimentos nem ao menos vira o que foi que o apunhalou e o mordera violentamente até sua vida se esvair.

Dei vários golpes com minha adaga em seu corpo, gritava na esperança da raiva ir embora, entretanto, ela só tinha a aumentar, seu sangue puro e inocente espirrava em minha face cegada pelo ódio, mal sabia o que estava fazendo, parecia que nem ao menos estava ali, diante daquele animal.

Parei somente quando notei que o havia esquartejado, por um momento senti-me mais aliviada e tive até pena daquela criatura que de nada tinha a ver com meus problemas, mas alguém tinha de pagar pela minha dor e fora este pobre veado, sem me controlar, novamente pus-me a chorar, desta vez ao lado de seu cadáver.

Aquele aldeão não tinha o direito de fazer isto comigo. Há tantos anos guardando-me intacta para a vinda do Anjo da Morte, para aconchegar-me eternamente em teu terno peito cheio de piedade, agora tudo estava perdido, aquele humano violara meus votos de castidade.

Quebrara tantas regras aproximando-se dele, dirigi minha voz a um mortal e toquei seus lábios, por quê? Perdoe-me, Morte, eu pequei, mas nem tudo está perdido, ainda sou aquela virgem imaculada de que necessitas, ainda tenho pureza em meu corpo e prometo que até meus últimos dias manterei isto, até que tu tenha-me somente para ti.

Por noites tentei esquecer o ocorrido, mas era impossível, isto estava martelando minha cabeça, dilacerando meus sonhos, despedaçando minha alma, não conseguia esquecer e o ódio somente aumentava, ódio de tudo, do que havia acontecido, dele, de mim mesma, como pude deixar que isto acontecesse? Como?!

Escondia-me na escuridão, nada, nem mesmo minha doce e ebúrnea algoz poderia me ver chorar, eu estava aqui, lutando comigo mesma, contra meus próprios tormentos, meus medos, minhas dores, e a imagem daquele aldeão estava em minha mente, cada dia mais viva do que no dia anterior, sua voz, seu cheiro, o calor de seu corpo, tudo era tão nítido, não podia ser verdade.

Ele não tinha medo de mim, não tinha medo de me olhar, me tocar, dirigir-se a mim, por que não? Havia algo em seu olhar, algo sombrio e misterioso, algo que não conseguia saber o que era, seus atos eram doces, porém existia uma certa amargura por trás de seus lindos olhos celestes, eu sei disso, conseguia sentir quando se aproximava, certamente ele não era como os outros.

Estou vivendo uma estranha maldição, sinto que tudo está se perdendo, está mudando. Tudo parecia tão perfeito para mim, a melodia fúnebre do vento que assoviava ao pé de meu ouvido, a chuva que caía fria sobre meu cálido corpo, a companheira solidão, a noite obscura... O meu mundo, a minha realidade está desfazendo-se bem diante de meus olhos, consigo sentir que tudo vai se acabar um dia.

As ilusões, as mentiras, as lágrimas, as agonias, tudo era perfeito, o sublime sonho de ser diferente está esvaindo-se por meus dedos, logo voltarei ao lânguido pesadelo de ser uma mera mortal que só sabe chorar... ***

Estava eu em minha caverna, picando ervas para preparar um chá, meus nervos estavam à flor da pele, sentia as batidas violentas de meu coração, precisava me acalmar, foi então que ouço um ruído e vejo um coelho morto, sangrando diante de meus pés, com a testa franzida, olhei para a entrada da caverna.

Tom, aquele maldito humano estava lá, lutuoso e encanecido quanto a luz do luar, encarava-me como se visse um fantasma, talvez fosse realmente isso que eu era, um fantasma antigo que há tantos anos atormenta a vida frívola daqueles camponeses. Comecei a sentir o cheiro do sangue daquele animal e a fome veio atentar-me.

___ Aceite, como prova de minhas sinceras desculpas.

O encarei por alguns segundos e então voltei a picar as ervas em uma tigela de porcelana, ouvi seus passos adentrando novamente meu lar, porém não fiz absolutamente nada, sim! Fui fraca, mas já percebi que não consigo dominá-lo, ao invés disso, ele me domina, odeio esta estranha força que ele consegue ter sobre mim, todavia, seria tola ao tentar lutar contra ela.

___ Por favor, fale alguma coisa.

___ Vá embora.

Alguns instantes em silêncio, até que ele começa a abrir um estranho sorriso e dizer:

___ Sei que não quer que eu vá.

___ Não, não sabe ___ num acesso de raiva atirei a tigela contra uma das paredes de rocha fazendo com que se partisse em mil pedaços, por culpa daquele humano eu havia perdido um ótimo utensílio doméstico.

___ Sim, eu sei, conheço você.

___ Como me conhece?

Não me respondeu, pegou o coelho e aproximou-o de mim.

___ Sei que está louca para devorá-lo, por que não o faz?

Tentei resistir, mas passei alguns dias em completo jejum, a raiva era enorme que fazia-me perder a fome, estava com a barriga roncando, louca por um pedaço de carne e um pouco de sangue fresco, pobre fera que vive dentro de mim, estava implorando por aquele coelho.

___ Não tente resistir... Vejo no fundo de seus olhos, está faminta!

Não podia aceitar, não podia! Novamente fui fraca, um ser detestável e pútrido, peguei rapidamente aquela criatura e imediatamente comecei a devorá-la com voracidade, sua macia carne, seu doce sangue, ah como era bom sentir esse prazer novamente, meus dentes dilacerando suas vísceras, seu sangue atravessando minha garganta, ah delicioso regozijo!

Pude notar um enigmático sorriso em seus lábios, porém não dei muita importância, estava preocupada em saciar minha fome, meu desejo por carne e sangue, ao terminar, fechei meus olhos e respirei fundo, fora uma nobre refeição.

___ Sabia que iria gostar.

Nada disse a ele, apenas o encarei, até que falou apontando para o canto da boca:

___ Está... Com uma sujeirinha aqui.

Certamente, minha boca e meu rosto estavam sujos de sangue, quis ser irônico ao mencionar isto?

___ Deixe que eu limpo isso para você.

Afastei-me, porém não muito, havia encostado em uma das paredes da caverna, estava completamente sem saída, ele então olha fixamente em meus olhos e diz com uma voz branda e certa:

___ Não tenha medo.

Meu coração parecia que ia saltar por minha boca quando o jovem chegou bem perto de meu corpo, ele passou o dedo indicador em meus lábios banhados com o sangue do coelho e estranhamente levou à sua boca, franzi a testa num sinal de desentendimento, então indaguei:

___ Gosta de sangue?

___ Não, mas posso aprender a gostar... Por você.

Novamente passara o dedo em meus lábios e levara aos seus, até que segurou meu rosto com uma das mãos e lambeu-o, fechei meus olhos, era uma sensação diferente, meu coração estava disparado por tudo que estava acontecendo, minhas pernas estavam bambas, não sabia mais se estava com medo ou se era alguma outra coisa, só sei que era tudo tão estranho e novo.

Fizera isso algumas vezes, passara sua língua por minha pele suja de sangue, eis que quando ia tocar meus lábios, afastei-me, com um olhar carinhosamente perturbador e direcionado a mim, ele começou a acarinhar meus cabelos dizendo:

___ Está com medo?

___ Não quero nenhum tipo de contato com os mortais.

___ Não consigo manter o controle quando estou próximo a você.

___ Não chegue mais perto, saia daqui!

O empurrei fazendo-o afastar-se de mim, ele pegou uma de minhas adagas que estavam sobre a mesa de madeira olhando fixamente para meus olhos, se por acaso viesse tentando me agredir já estava preparada, porém não fora isso que fizera, pelo contrário, com o gume afiado ele cortara seu lábio inferior, apertou os olhos por alguns segundos, mas logo sua expressão voltara a ser natural, o sangue começou a sair.

___ Vamos, chegue perto, venha sentir o sabor do sangue humano ___ dizia dando passos calmos em minha direção.

Não havia para onde fugir, estava encurralada, tentei resistir dizendo para não chegar perto, porém quanto mais o aldeão se aproximava, mais o cheiro de seu sangue tão fresco me excitava acompanhado de sua voz tão macia quanto veludo acariciando meus ouvidos.

___ Não precisa ter medo...

___ Não, não se aproxime!

___ Prove... Desfrute... Sinta!

Não mais pude resistir, não conseguia mais lutar contra o desejo carnal, animal e o que mais fosse, minha parte humana e minha parte fera gritavam juntas, falavam mais alto, ambas agora eram uma só, brigando pelo mesmo objetivo, tendo a mesma conquista, uma vitória com sabor de fracasso, pois sentia que estava traindo tudo que me foi ensinado, tudo com o qual convivi e conheci, entretanto, nada mais importava...

Eu o beijei, não por ansiar por seus lábios, apenas para sentir o gosto de seu sangue que já estava enlouquecendo todos os meus sentidos, era difícil controlar-se quando alguém oferece-te sangue fresco de livre e espontânea vontade. Fora um beijo incomum, doce, puro, quente, como se sua vida estivesse em meus lábios e eu a estivesse usufruindo e desfrutando, provando e sentindo!

Com a adaga, Tom fizera um corte não tão profundo em seu pulso, mas sangrou, ele então fora aproximando o ferimento de minha boca, não havia como ir contra o desejo, o universo conspirava contra mim, poderia jurar que ouvia vozes dizendo para me render, desistir de lutar, pois seria inútil, a derrota já estava prevista.

As sensações que o sangue daquele rapaz despertavam em meu corpo eram sobrenaturais, um êxtase tão grande, um ardor que percorria todo o meu ser indo até o mais íntimo de minha alma, todavia, ele deteve-me e começou a se afastar, o nervosismo tomou conta de mim e indaguei sem nem ao menos pensar:

___ Aonde vai?

Calmamente, ele andou até sentar-se em minha cama de frente para mim e disse com uma voz lasciva:

___ Venha!

Após dizer isto, o rapaz rasgou sua camisa e fez um corte em seu peito, o aroma levou-me até perto de seu corpo, sentei em seu colo e comecei a chupar o sangue que escorria, lambia, mordia-o delicadamente e ao ouvir finos gemidos e alguns suspiros, aquilo excitou-me.

O camponês começou a beijar meu pescoço causando-me deliciosos arrepios que iam dos pés à cabeça, rasgou a camisola banhada com o sangue de seu negligente pai, nada fiz, somente deixei que sua língua percorresse meu pescoço até chegar em meus mamilos.

Novamente um corte, um pouco próximo ao pescoço, enquanto saboreava seu sangue, sentia extremo prazer ao sentir suas habilidosas mãos acariciando e apalpando suavemente meus seios. Mais uma vez nos beijamos, o lábio inferior dele ainda sangrava e aquilo dava ainda mais sabor ao beijo.

Fui totalmente tomada pela luxúria e pela fome, mas que fome seria esta? Fome por carne ou por sexo? Não sabia ao certo... Procurei não pensar em minha sublime deusa, não sabia se estaria decepcionada comigo por ter entregado meu corpo intocado a um odioso mortal tão banal quanto os demais.

Comecei a pensar que não seria punida por tal pecado, pois nada nem ninguém impediu que o ato se consumasse, meus guardiões não apareceram e nem mesmo minha amada algoz surgira para atrapalhar o formidável momento de puro prazer.

Apenas fiquei parada, deixei que controlasse tudo por mim, o garoto sabia o que estava fazendo, eu o senti dentro de mim, a princípio um estranho incômodo, mas que logo fora esquecido com seus toques frios e delicados e o sabor de seu sangue quente escorrendo por minha boca.

Assim como numa dança, eu o deixei conduzir direto à luxúria, lentos e suaves movimentos, suas mãos grossas, porém sensíveis não saíam de meus seios, acariciando e apalpando, poucas vezes percorreram as demais partes de meu corpo, meus olhos fechados para sentir melhor, sensações que nunca havia tido antes.

Era algo estranho e delicioso ao mesmo tempo, um incomum prazer banhado com sangue, seu sangue, soltava alguns finos gemidos e o ouvia suspirar, a dor de sangrar e ter meus dentes cravados em sua carne não lhe incomodava, pelo contrário, creio que sentia ainda mais prazer com isso.

Tom, um garoto que parecia ser comum e idiota como todos os outros daquela maldita vila, provou que era diferente, de um jeito estranho e enigmático, conseguira meu corpo humano, conseguira meu corpo fera, ambos exalando desejo e regozijo. Entreguei-me a ele sem pensar, no meu primeiro momento de prazer.

***

Na manhã seguinte, acordei sem ninguém ao meu lado, apenas o cheiro da pele dele impregnando meus lençóis, haviam algumas manchas de sangue também, ah aquele perfume de sua tez e de seu rúbido líquido viscoso, os momentos que passamos prevalecerão em minha mente.

Durante algumas semanas aquele jovem não mais apareceu, começo a acreditar que fui usada, fora apenas uma diversão, algo banal e irrelevante, não posso crer! Como pude deixá-lo fazer isso comigo?! Entreguei-me de corpo e alma àquele cretino e o que fez? Ele me traiu, fez-me abandonar e ignorar tudo ao qual sempre fora fiel para explorar novos prazeres, os prazeres pérfidos da carne, tudo isso para me deixar...

Por noites a dor e o arrependimento me consumiram, não conseguia nem ao menos olhar para mim mesma, como pude ser capaz? Deixei-me levar por um humano como os outros só para cobrir meus olhos com o véu da ilusão, como pude ser tão fraca, tão inútil, tão tola?! Não posso acreditar, não quero acreditar!

Perdoe-me, Morte, perdoe-me, por favor, perdoe-me por trair-te, por toda a minha vida fui fiel a ti e aos anjos caídos que seguem-te cegamente, perdoe-me porque pequei, escolhi uma noite de luxúria humana à uma noite de devoção a ti, não consigo me perdoar, tenho que ser punida, mereço isto!

Com o passar dos dias a fome e a sede me deixara, estava sentindo uma enorme melancolia que impedia-me de comer ou beber, a dor da transformação nem mais incomodava-me durante as noites, o martírio e a culpa ardiam como as chamas do inferno dentro de meu pérfido peito.

És tu, Morte? Invadiste meu psicológico e agora faz-me sofrer por dentro, a tortura mais insuportável, que vem de dentro para fora, que não se pode ver nem tocar, mas sim sentir, e é isto que dói, é isso que machuca profundamente.

Fico remoendo na escuridão de meu refúgio todos os erros que fui capaz de cometer, minha fraqueza, minha tolice, minha ingenuidade, depois de tantos anos sendo hábil e esperta, deixei-me levar por um alguém tão... Tão...

Não sentia sua falta, não... Isto não era abstinência, mas queria que ao menos voltasse, dissesse o que sentiu, fizera tudo aquilo em vão? Cortou-se e me deixou mordê-lo a ponto de quase arrancar sua carne para somente possuir meu corpo uma única vez? Não compreendo.

Estava muito estressada e ferida, nada de que fazia dava tudo de mim, nada mais saía como devia, os remédios e encantamentos não surtiam efeito, as presas fugiam de mim e por várias noites fui dormir com o estômago roncando, minha cabeça latejava e esta insuportável vontade de deixar minha dor fugir por meu olhar rancoroso não ia embora.

Para minha surpresa, numa fria manhã de outono, ele surgira na entrada da caverna, o estranho era que sempre que surgia meus lobos desapareciam. Permaneceu parado durante algum tempo, quando o fitei, um misto de fúria e alívio começaram a borbulhar dentro de mim, queria que aquele camponês desse meia volta e sumisse de minha vista, por outro lado, queria que ficasse e até entrasse.

Ah por que isto estaria acontecendo? O que este humano tem de tão intrigante que prende minha atenção e me leva para cada vez mais perto dos sentimentos? Não posso crer em meus próprios pensamentos, as emoções estão falando mais alto, não posso permitir que isto aconteça, nada nem ninguém deteve-me e deixarei que um odioso mortal tenha poder sobre mim, nunca!

Estava despedaçando uma flor, usaria suas pétalas para um elixir que não revelarei a finalidade, tudo em torno de meus encantamentos nunca será desvendado, morrerá comigo. Comecei a esmagá-la entre meus dedos, uma estranha ira tomava conta de meu corpo, corroendo-me por dentro, apenas tomar conhecimento de sua presença tão próxima a mim já fazia meu sangue ferver.

Depois de semanas tão distante, agora resolveu dar as caras, queria se divertir novamente às minhas custas? Enganar-me, seduzir-me com seus olhos enigmáticos e atrair-me com o aroma de seu lascivo sangue, desta vez não iria ceder, não iria deixar que dominasse meu corpo e minha mente.

O jovem fora adentrando com passos lentos e tímidos o interior de meu recanto, aquilo deixou-me impaciente, mas por mais terrível que seja, nada poderia fazer para evitá-lo, meus guardiões nunca estavam aqui quando ele estava por perto, minhas forças fugiam por meus poros quando este estranho rapaz se aproximava, eu não compreendo...

___ Como vai?___ o som de sua voz excitava-me, seu cheiro começou a possuir todo o lugar, maldito aldeão!

Não lhe dirigi uma única palavra, discretamente percebi que sentara-se em minha cama e ficara me observando, aquilo me deixou ainda mais apreensiva, o que pretendia com aquele olhar silencioso e cheio de mistério repousado sobre meu corpo tão tenso?

Não conseguiria presumir por quanto tempo ele permanecera hirto e taciturno, quinze minutos, meia hora, duas, três, quatro horas até, não faço idéia, somente sabia que a paciência que exalava era impressionante, vagarosamente conseguiu chegar até mim e cada vez mais estava conseguindo conquistar um espaço onde ninguém jamais ultrapassara em toda a minha inútil existência.

Desastrosamente deixei a tigela com todo meu serviço cair quebrando-se e espalhando todas as pétalas esmagadas pelo chão, imediatamente ele se ofereceu para ajudar-me, nossas mãos se tocaram ao tentar recolher os cacos, tentei ser rápida, mas acabei cortando um de meus dedos com os cacos de porcelana, afastei-me e verifiquei o corte, não era profundo, mas não parava de sangrar.

___ Não precisa se comportar como se não me conhecesse.

___ Não conheço.

___ Até que enfim falou alguma coisa!___ exclamou ele abrindo um sorriso.

Pressionei o ferimento para que o sangue parasse, mas aquela aguda dor estava enraivecendo-me, pequenas dores eram difíceis de suportar, pois incomodavam, maiores feridas eram mais prazerosas.

___ Deixe-me ajudá-la.

Distanciei-me, mas fora em vão, o garoto segurara meu braço e levara meu corpo para perto do seu, olhando-me fixamente levou meu dedo ensangüentado até seus lábios e lambeu meu ferimento, isto era incomum e adorável ao mesmo tempo.

___ Seu sangue é doce.

Fui novamente fraca deixando que tocasse minha boca num profundo beijo, rapidamente o desejo tomou conta de nossos corpos e ele então começou a despir-me violentamente, atirou-me na cama e sem muito esperar penetrou-me.

A cada momento que seu libido aumentava, suas mãos pressionavam ainda mais meus seios, aquela mínima dor era insignificante, a luxúria dominou-me, ah como era deliciosa aquela sensação, algo estranho e indescritível, fazia-me suspirar, gemer, contorcer-me como se não pudesse suportar tanto prazer adentrando meu corpo.

Uma das coisas boas de ser mulher é que nas relações sexuais pode-se chegar ao orgasmo inúmeras vezes enquanto os homens têm apenas uma única chance disto ocorrer. Não consegui contar quantas vezes apertei o lençol entre meus dedos e gemi intensamente, para melhorar isto, Tom cortou seus pulsos e deixou que seu sangue caísse e escorresse por todo o meu corpo. Fora um momento de prazer banhado em sangue...

Chegamos ao clímax juntos, estávamos exaustos e arfantes, como se houvesse ganhado uma guerra, ele derramou seu corpo sobre o meu e adormeceu, também estava exaurida, não iria tentar me livrar de seus fortes braços e de seu apertado abraço de serpente, e foi assim que peguei no sono, aquecida sobre as asas desse estranho e corajoso anjo. ***

Quando acordei eu o vi sentado numa cadeira de madeira velha que ficava esquecida em um canto de minha morada de pedra, vesti uma fina camisola branca e cheguei um pouco perto daquele rapaz, seus olhos celestes fixos na entrada de meu lar, até que levanta e volta-os a mim.

___ A lua cheia surgira dentro de poucas horas.

___ Então sugiro que vá embora ___ disse a ele.

___ Por quê? Não quer me machucar?

Nada disse, mas meus olhos revelavam a verdadeira resposta, realmente não queria fazer mal algum a este mortal, oh céus mas por quê?

___ Vou ficar.

___ Quer morrer?

___ Você não vai me ferir, muito menos me matar.

___ Como tem tanta certeza?

___ Porque... Eu sou como você...

Aquelas palavras gelaram todo o meu corpo fazendo meus olhos arregalarem, não podia acreditar em que estava ouvindo, minhas forças fugiram por meus dedos e parece que um gato comera minha língua, pois nada conseguia dizer, não podia acreditar... Necessitei de alguns minutos para entender o que havia acabado de ouvir, não podia ser real, não...

___ Então é você?... ___ aquela indagação saiu como se desse um último suspiro de vida, pois custou-me ter voz o bastante para dizer algo.

___ Faria qualquer coisa por você.

___ Por isso que os lobos não o atacavam...

___ Eu sou como você, eu sou você, você sou eu, somos um.

Minhas pernas ficaram bambas e se não me apoiasse sobre minha mesa de madeira certamente cairia ao chão, tudo fazia sentido, tudo era tão claro e cruelmente certo.

___ Somos seres amaldiçoados a vagar sozinhos pela Terra, mas agora ficaremos juntos, seremos fortes e nada nem ninguém poderá nos deter!

De costas para ele, reclinada e com dificuldade em respirar tentei recuperar-me deste golpe certeiro, a raiva consumia-me e fazia meu sangue borbulhar, não podia crer em tudo isso, eis que avisto minhas adagas sobre a mesa, discretamente peguei-as e voltei meus olhos para seu semblante friamente inexpressivo, pude ver a imagem daquele desgraçado que um dia se chamou Jimmy refletida em seu olhar.

___ Junte-se a mim ___ disse ele estendendo-me a mão.

___ O único ser ao qual você se juntará é o Anjo da Morte, meu querido.

Pude perceber sua testa franzir-se em sinal de desentendimento, então atirei uma de minhas adagas acertando seu ombro, o ódio queimava e refletia em meus olhos, como pude me deixar levar e ser enganada desta maneira? Fui fraca e em certo momento fui até fiel a ele e o que fizeste, enganara-me, usara-me e transformara-me num ser noturno e canibal! Agora iria pagar.

Com uma certa dificuldade, Tom retirou a adaga de seu ombro, seu sangue começou a fugir pelo ferimento, deu dois passos em minha direção, então atirei mais uma, esta acertando seu outro ombro, novamente ele repetira sua ação tirando a arma branca e atirando-a ao chão, tentou de novo se aproximar, porém fui mais rápida atirando uma terceira, esta indo diretamente em sua perna fazendo-o ajoelhar-se e gemer de dor.

Observei-o com muito esforço remover a adaga de sua perna, como um animal abatido ele estava ali... Tão indefeso e incapaz, como pensava que fosse, uma garota idiota na qual pudesse ter o corpo, a alma e até transformar-me num ser estranho e amaldiçoado pela lua cheia.

Mais uma de minhas prateadas adagas, o gume penetrara certeiro em seu estômago, seus gritos de martírio atiçavam ainda mais minha sanha, eu queria vê-lo sofrer, assim como sofri por vários dias e noites, quase morri inúmeras vezes, até tornei-me prisioneira daqueles abomináveis camponeses, tudo por culpa deste maldito...

Faltava apenas uma, uma... Esta seria a crucial, o momento que deixara para o fim, para fechar com chave de ouro este doloroso e cruel espetáculo estrelado por Tom, o humano ingênuo que pensou ter um dia dominado-me e acreditado que teria meu corpo e minha alma por toda a eternidade, pobrezinho!

___ Adeus, querido.

Após dizer-te isto, atirei a última adaga, direta e profundamente enterrada em seu coração, seus lindos olhos azuis fitaram-me, tive o privilégio de ver a luz deixá-los aos poucos, não havia palavras a serem pronunciadas, ouvi atentamente sua respiração tornando-se cada vez mais tênue até o silêncio reinar supremo.

Ele caiu ali, na minha frente, seu sangue se espalhou por todo o chão de minha caverna, finalmente meus companheiros caninos surgiram, o cheiro daquele líquido viscoso também o excitavam, entretanto, resolveram deixá-lo somente para mim.

Caminhei até perto de seu corpo ainda quente, ajoelhei-me diante dele e eis que olho para a entrada de meu santuário, o pálido e ardoroso luar já adentrava meu lar, naquela noite a transformação não demorou a acontecer, não houve dor, apenas um intenso prazer nada comparado ao sexo, na minha opinião, era até melhor.

Uivei para minha linda e nívea algoz e voltei meu olhar para o corpo do jovem aldeão, uma vítima ali aos meus pés, uma presa fácil, porém morta, não deveria ser desperdiçada. Minha parte fera falou mais alto e imediatamente pus-me a devorá-lo, senti o gosto de sua macia carne, minhas fortes presas rasgando sua pele branca, quebrando seus ossos, o doce sabor de seu sangue ainda quente descendo por minha garganta, fora a primeira e única vez na qual me lembro de algo após a metamorfose.

Amanheci às margens do lago negro, nua e humana, como sempre me lembrava, aproveitei para tomar um relaxante banho de água fria, o cheiro de sangue morto estava impregnado em minha pele. Um banho gélido, todavia muito revigorante, a frieza dizia-me que ainda estava viva, ainda podia sentir arrepios passando por meu corpo, um coração sobre-humano ainda batia sereno em meu peito chagado.

Ao retornar à minha moradia encontro o refugo do que um dia fora aquele humano espalhado pelo chão, peguei seu crânio, lavei-o bem para que não restasse um pedacinho somente de carne morta e podre e o coloquei para enfeitar minha mesa, bem ao lado das poucas tigelas de sangue que ainda restavam, assim sempre lembrar-me-ia dele e com seus dentes, fiz um lindo colar que para sempre levarei comigo. Não era isso que ele queria? Realizei então seu desejo, agora Tom estaria ao meu lado, por toda a eternidade...

Perdoe-me, Morte, por ter deixado que o pecado da carne me cegasse desta maneira, não tive intenção de trair-te! Aceito todas as punições que preparara especialmente para minha alma quando partir deste mundo insano, faça o que quiser comigo, só não deixe-me continuar nem mais um dia aqui, por favor...

Talvez este será meu castigo, não é? Quanto tempo irei permanecer neste lugar cruel? Por favor, não deixe-me envelhecer e perecer neste mundo nefando, não faça isso comigo, minha deusa! Aceito meu castigo, mas não demore a vir cavalgando em seu cavalo branco para enfim remir minha alma de todos os males terrenos.

Só tu podes ver a minha dor, querida Morte, podes enxergar o quanto estou sofrendo, o quanto estou torturando-me por dentro e por fora por ter me deixado levar por um humano qualquer, porém pensando melhor, não era um qualquer, ele era diferente, ele era um ser amaldiçoado pela noite, era seu filho, minha deusa, assim como eu também sou!

Será que fiz o correto matando-o daquela maneira? Poderíamos ter ficado juntos por todo o sempre esperando pacientemente por tua chegada, minha amada. Por que não me dás um sinal? Preciso de tua mão a me amparar, teus braços a me aconchegar, tua canção a me embalar, dai-me uma luz, minha deusa!

Estou confusa, perdida, desamparada e desiludida, o que será de minha banal existência? O que farei agora? Seguirei noites a fio como uma sedenta e irracional criatura e durante o dia uma inútil mortal? Será este o meu destino até o momento de meu fim? São tantas perguntas que faço a ti, Morte, porém não obtenho uma resposta sequer, por quê? Dê-me ao menos um sinal...

O livre arbítrio é algo perigoso, nunca saberemos o que é certo ou errado, apenas estamos seguindo nossos instintos, nossas emoções e fora o que fiz, a dúvida e até a culpa agora me corroem, eu só queria um mísero sinal, algo que me levasse à uma direção, mas tudo que ouço é o som do silêncio sufocante...