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Despertei para mais um nefando dia em minha malfadada existência, a fome falava mais alto, então comecei a caminhar aos arredores da floresta para providenciar meu desjejum, felizmente deparei-me com algo muito maior e mais delicioso do que frutas para meu pobre estômago vazio.

Um pequenino esquilo estava à procura de frutas ao lado das margens do sombrio lago, eu o observei com extrema cautela, torcendo para que o som de meu estômago não o assustasse, pois estava faminta! Avistei uma simples jabuticaba apodrecendo no chão da floresta ao lado de meus pés, inclinei-me vagarosamente para pegá-la, mergulhei-a nas frias e obscuras águas paradas e cuidadosamente arremessei até a direção do animalzinho.

O frágil mamífero afastou-se um pouco, porém novamente fora se aproximando, ia chegando cada vez mais perto da fruta, cheirou-a por várias vezes, certificou-se de que não havia mal algum em prová-la, uma mordida, apenas uma mordida e como naquele lindo e inocente conto de fadas... O esquilo caiu duro sobre a terra fria, estava morto. Abri um enorme sorriso de satisfação, finalmente carne para mim!

Peguei aquele cadáver peludo e apetitoso e levei até perto de minha caverna, odiava ter que acender a lenha, novamente feridas odiosas nas quais custavam a cicatrizar, porém valiam à pena! Arranquei sua pelagem, depois a limparia e lavaria, poderia me ser útil em algum momento, atravessei um graveto em seu corpo e o assei em minha dolorosa fogueira, estava delicioso!

Não sei ao certo o que havia de tão misterioso nas profundezas daquele lago, não possuía vida aquática e todos os animais da floresta que bebiam de sua água logo vinham a falecer. Somente a mim não afetava, poderia nadar, banhar-me e beber aquele líquido frio e escuro que mal algum me acontecia, por quê?

Mais uma vez havia agido como fera, matando uma pequena e indefesa criatura para sobreviver, isto não está certo, mas afinal, o que é certo e o que é errado nesse mundo? Pessoas matando pessoas por motivos tão sujos e banais enquanto um animal apenas mata para sobreviver, somente para não morrer de fome, o que está certo e o que está errado nisto tudo?

O fim da manhã e o início da tarde passei costurando meus vestidos, tarefas domésticas e fúteis que de nada me agradavam, mas eram necessárias, remendei uma de minhas vestes com a pele do esquilo, era melhor que tecido, mais resistente, assim quando passar por algum galho pontiagudo ou com espinhos, não rasgarão tão fácil.

Depois disso, fui supervisionar meus itens de bruxaria, tigelas com sangue de diferentes animais e até de camponeses, peles, pêlos, fios de cabelos, pedaços de unha e trapos de roupas, nada fora de ordem, nada incomum para mim. Meu olhar fora tomado pelo intenso fulgor escarlate do sangue, tão puro, tão profundo.

Não resisti e mergulhei meus dedos lívidos sob o puro líquido rúbido, era grosso, frio, trazia uma sensação deliciosa ao manuseá-lo delicadamente, bem devagar levei os dedos sujos de sangue até meus lábios com um apagado tom de violeta, as cores se misturaram, os tons diferentes agora tinham apenas uma tonalidade e o sabor explodiu dentro de minha boca.

O que houve? Não, não pode ser! Algo dera errado, comecei a sentir uma estranha repulsa após engolir poucas gotas, isto fez com que eu devolvesse todo o meu delicioso e esforçado desjejum. Maldição! Não pode ser verdade, o que foi que aconteceu? Por que ainda sinto aversão por sangue? Por que não consigo saboreá-lo assim como os homens saboreiam o vinho?

A raiva tomou-me, não era possível isto, como posso sentir ânsia ao saborear o mais inocente e puro sangue? Isto não está certo, não sou como os outros, sou diferente, sou uma bruxa, sedenta por carne e sangue, cheia de vontade de torturar, destroçar, matar, um alguém que sente prazer pela dor alheia, não, isto não está certo, não está! Este, era mais um obstáculo que tinha de superar para ser considerada uma fera.

Nesta tarde vazia, comecei a recordar sobre minha adolescência, fora algo estranho e confuso, difícil de ser descrito em palavras, meu corpo mudando, sensações e sentimentos incomuns tomando conta de mim, não era mais tão ingênua, meus pais então começaram a me doutrinar, ensinando-me tudo que sei hoje sobre poções e feitiços.

Sempre acreditei que tinham planos para mim, queriam manter-me pura, intocada, entretanto, preparavam-me mental e emocionalmente para perder minha virgindade, não sabia para o que ou para quem entregaria meu corpo cândido, mas sabia que um dia teria de fazê-lo, só não sabia ao certo quando seria.

Olhava-me no espelho, era tão estranho... Meus cabelos estavam mais compridos, meu rosto aos poucos estava perdendo aquele brilho infantil que trazia, meus lábios estavam carnudos e avermelhados, minha pele empalidecida, meus seios cresciam um pouco mais, ganhava formas, curvas incomuns e delicadas.

Tocava cada parte de meu corpo tentando conhecer a mim mesma, a cada toque uma diferente reação, a cada carícia uma nova sensação, uma mais intensa que a outra, aquilo era bom, estranho, porém bom. Meus dedos eram como chaves que abriam novas portas, entradas desconhecidas por mim e que escondiam prazeres ocultos e maravilhosos.

A cada nascer do sol eu sabia que estava diferente, não era mais apenas uma menina inocente, entretanto também não era uma sedutora e fatal mulher, o que era? Não podia saber, eu era algo indefinido, nem menina nem mulher, nem criança nem adulta, uma coisa estranha cheia de dúvidas e sensações esquisitas explodindo dentro de si, era isso que era.

Toda vez que saía para colher flores e frutos, percebia os olhares dos camponeses sobre meu jovem corpo, olhares cheios de luxúria, um dos maiores pecados que move o mundo, podia saber as coisas sórdidas que se passavam em suas mentes pervertidas, porém não me importava, não seria destinada a nenhum deles.

Para prevenir-me do pecado alheio, usei meus conhecimentos para fazer um ritual. Havia atraído um pequeno coelho com uma armadilha, peguei uma tigela de pálida porcelana, ervas encontradas nas entranhas obscuras desta floresta, um ebúrneo lenço da mais fina seda e sangue de homem.

O sangue do coelho fora despejado na tigela banhando-a com seu rutilante tom escarlate, por que um coelho? Simples, é um animal que se reproduz rapidamente, e era isto que os aldeões queriam. Logo o sangue de um homem qualquer daquela vila desprezível misturara-se ao sangue do animalzinho, sangue do mesmo sangue, não havia diferença para mim, todos eram criaturas repulsivas e sedentas pelo pecado da carne a ponto de tornarem-se irracionais, meu suor de pavor e adrenalina absorvido pelo lenço de seda e jogado na tigela acompanhado das ervas que fizeram o rubicundo líquido borbulhar estranhamente.

Meus lábios movendo-se lentos e minha voz sussurrante chamando pelo temido Ceifador, ele guarda minha alma, meu corpo, não deixa nada acontecer-me, mantém-me intacta para quando a Morte vier buscar-me, é por ele que eu chamo, grito, clamo tua presença, é por ele que eu espero.

Passado-se alguns dias de incomum tranqüilidade, estava na floresta analisando raízes, estava sozinha, eis que ouço um galho partindo-se por de trás de mim, ações tão rápidas aconteceram, que somente depois do ocorrido foi que pude perceber, meu frágil e pequeno corpo estava debaixo de um dos camponeses e meus lábios estavam selados por uma de suas mãos. Ele olhou no fundo dos meus olhos e sussurrou: Fique bem quietinha, bruxinha maldita, ou será pior para você.

Debatia-me, todavia, não conseguia livrar-me de seu corpo nojento e de suas mãos asquerosas, meu coração acelerou-se e comecei a suar, havia pavor e adrenalina em cada gota salgada que escorria de meu rosto. Pude sentir seus lábios em meu pescoço e suas mãos invadindo meu corpo, acariciando-me vorazmente, seus dedos apertando minhas coxas como se quisesse esmagá-las, causando-me uma insuportável dor, porém o que conseguia ser ainda pior fora suas mãos tocando de forma tão brutal e selvagem minha virilha enquanto sua língua passeava por meu pescoço descendo até próximo aos meus seios.

O pecado estava sendo liberado, misturando-se com meu medo e desespero, até que algo o fez parar, seus olhos sedentos tornaram-se atentos, pois acreditava que havia ouvido um ruído por entre as árvores, Quem está aí?, perguntou ele sem obter resposta, a não ser mais alguns galhos quebrando-se e um estranho vento fazer o topo das árvores dançarem.

Lentamente o socorro surgiu das trevas, primeiro seus olhos brilhantes e amarelos, logo após ebúrneas e reluzentes presas, uma grande alcatéia cercou-nos, pude sentir, ao invés do prazer enlouquecido, um estranho pavor tomar conta daquele nefando corpo grosseiro, o camponês levantou-se olhando em volta, constatou que não havia para aonde correr.

Os cinzentos e enormes lobos foram aproximando-se de nós, até que o líder da matilha pulou em seu pescoço derrubando o enorme homem no chão, isto foi uma deixa para que os outros atacassem e fizessem com que suas presas penetrassem ferozmente na carne humana sem dó ou piedade.

Acompanhei em silêncio a morte lenta e dolorosa daquele desgraçado, nada senti em relação a ele, nem ao menos ódio, seria sentir demais, aquele homem desprezível não merecia nenhum tipo de sentimento vindo de mim. Curioso é que... Antes deste dia, nunca havia visto lobos nesta floresta, fora a primeira vez.

A chegada tão esperada da noite confortou-me, não suporto a claridade em meu olhar, e a luz ensinara-me uma lição, nunca mais irei àquela aldeia durante o dia.

Vi um de meus guardiões na entrada da caverna, disse a ele que poderia entrar, mas ele continuou ali, banhado pelos raios de luar, já que não aceitara meu sincero pedido, vou ignorá-lo, pois está tão concentrado em cumprir seu dever que não sabe ao certo quando parar.

Era uma noite calma, cheia de pensamentos e lembranças antigas, algo dizia que as horas vagariam tranqüilas pelas escuridão até a lua morrer para que o sol nasça novamente, não há mais nada o que relatar sobre hoje, até amanhã, ou de preferência, até nunca mais...
***
Despertei nesta manhã com o barulho dos pingos da frígida chuva caindo sobre o solo morto da floresta, o céu estava negro, o vento soprava bravo e os trovões eram altos e ensurdecedores, capaz de apavorar qualquer mortal, mas eu sentia-me em paz, imaginava que era o som de majestosos tambores do inferno anunciando a chegada da Morte.

Fiquei por um indeterminado tempo observando cada pingo que caía rápido e ao tocar o solo era destruído e transformado em mil outros bem menores. Como aquela floresta tornava-se tão branda em dias de chuva, não ouvia-se nada além das frígidas gotas cristalinas tocando o solo, os galhos, as folhas, confesso que senti pena ao ver meus fieis guardiões expostos à fria manhã chuvosa, mas por mais que os convidassem para entrar, não aceitavam, ficavam sempre atentos e vigilantes guardando-me para meu tão esperado fim.

Após o término da chuva pude ver dourados e frágeis raios de sol iluminando parcialmente aquele pedaço morto de natureza, caminhei até o lago negro para matar minha sede e andei floresta adentro procurando o que comer, procurava pelo chão coberto de folhas e galhos, no topo das árvores, nos troncos caídos, nos buracos na madeira, nenhum único animal para saciar minha fome.

Voltei para meu recanto extremamente frustrada e ainda mais faminta, saboreei suavemente uma taça de vinho com algumas gotas de sangue animal, porém não era o bastante, necessitava de carne, macia e suculenta descendo pela minha garganta acompanhada por uma bela taça de vinho com gotas de sangue, isso sim seria um banquete! Pensar nestas coisas estavam deixando-me com dor de cabeça e zangada por poder ouvir, cada vez mais alto, o som de meu estômago vazio.

Escutei o ruído das patas de um de meus companheiros na entrada de meu lar, percebi que trazia entre seus afiados e ebóreos dentes um saco, com um simples gesto de cabeça, ordenei a ele que entrasse, lentamente caminhou até mim soltando o pacote aos meus pés, fitou-me por um momento, virou-se e seguiu até a saída.

Rapidamente peguei aquele saco e o abri, nele havia vários pães feitos em casa, aquele lobo deve ter pego isto no vilarejo, não poderia recusar alimento, principalmente quando estivesse faminta e ele viesse ser entregue diante de meus pés.

Por mim morreria de fome, mas creio que a Morte não receberia sua filha e fiel serva sabendo que antes de morrer definhou por dentro sem alimento, Ela quer que eu sobreviva como animal, passe pelas piores situações que um alguém jamais sonhou passar, Ela quer jogar comigo, me testar, saber até onde sou capaz de ir.

Até que aqueles pães estavam bons!...

Após meu café da manhã, fiquei sentada escrevendo alguns poemas, inspiração não me faltava e confesso que era um relaxante passatempo quando se vive trancafiada numa caverna no meio de uma floresta longe de tudo e todos apenas aguardando o momento de morrer, a Morte era minha principal inspiração, minha deusa tão imaculada.

Deixarei um de meus infelizes poemas como lembrança, preservado e eternizado nestas páginas amaldiçoadas.
Pedindo a Morte
Ouço o vento chamar meu nome

Mas não posso ir até ele

O momento de partir

Ainda não é chegado

Tenho que esperar eternamente

Trancafiada neste mundo humano


O tempo é diferente

As horas passam

E as pessoas com medo de morrer

Como são tolas...


A morte por mim é esperada

Tenho certeza de que será tranqüila

Pois pacientemente a aguardo

O futuro não há

O passado se foi

O que farei?

Apenas esperarei

Esperarei a escuridão

Sofrendo...

Chorando vida

Pedindo a morte

Sentindo a noite

Sinto que a lua

Quer morrer comigo

Porém está condenada

A viver na noite eterna

Só...

Esquecida...

Um dia a morte virá

É a minha única certeza

Mas há muito tempo

Já descanso em paz...
Quando estava anoitecendo, ouvi o barulho agitado dos galhos das árvores e os bichos que ainda restavam correndo em debandada, senti uma sensação estranha de que aquela floresta não teria paz por um bom tempo. Tentei sair para ver o que estava acontecendo, mas meus guardiões rosnaram para mim, creio que estavam ordenando-me que permanecesse onde estava, não tive escolha a não ser obedecê-los.

Ouvi os ruídos dos animais alvoroçados e logo após, um uivo estranho, agudo e longo com um toque de melancolia, o uivo misturou-se com o som do rugido de um puma, havia poucos deles na floresta, os outros foram mortos pelos malditos camponeses por dois motivos: por precaução, pois poderiam atacar a vila no meio da noite matando seus animais e até eles próprios e por sua carne e sua pele.

Aquele rugido fora fino e estridente seguido de um soturno silêncio, presumi que o felino estivesse morto, mas por que um dos lobos que me protegem matariam um puma? Fiquei pensando nesta pergunta durante a noite toda e quase não pude perceber que após aquela estranha confusão o resto da madrugada fora calma e silenciosa. Meus companheiros reuniram-se em volta da caverna e lá ficaram até o nascer do dia.

Fui apenas à frente de minha caverna observar a lua, era noite de lua cheia e ela não parava quieta, ficava andando pelo céu, ocultando-se por entre as cinzentas nuvens, era como eu, traçando meu caminho pela escuridão da noite, apenas esperando o momento de se apagar.

Começou a fazer frio então voltei ao interior de meu refúgio, tomei uma taça de vinho, andava de um lado a outro, mexia nas tigelas onde continha o sangue dos animais, não conseguia pensar em nada, sentia apenas um intenso vazio dentro de mim, uma ansiedade incomum e uma impaciência que desconhecia sua origem e não podia controlá-la. Os mortais são assim, confusos, ansiosos, impacientes, ainda sou como eles, será que nunca irei mudar?

Ouço lá fora a chuva vir novamente trazendo a frieza, o cheiro de terra molhada começa a entrar e toma conta do lugar, o vento apaga as velas e uma confortável escuridão cobre meus olhos, posso ver apenas o pálido luar refletindo a silhueta de meus guardiões ali na entrada da caverna.

Sem me importar com este escuro acolhedor deitei em minha cama e lá fiquei ouvindo o som da chuva, sua estranha melodia me acalmava, era como um doce e frio veneno que corria por minhas veias a ponto de deixar-me inofensiva e sonolenta.

O sono veio de repente, tentarei dormir e nunca mais acordar, até...
***
Acordei de súbito nesta madrugada com os latidos ferozes dos lobos, pareciam zangados, levantei-me e corri em direção à entrada da caverna pensando que poderia ser algum camponês tentando invadir meu abrigo, nunca irei saber, pois como da outra vez, a alcatéia rosnou para mim indicando que ficasse onde estava.

Da entrada da caverna meus olhos e ouvidos ficaram atentos aos estranhos ruídos que vinham de dentro da floresta, os animais corriam enlouquecidos e gritavam, cinco de meus guardiões adentraram a escuridão passando por entre as árvores desfalecidas e seguiram floresta adentro.

Escutei muitos uivos, latidos e rosnados, parecia que algo estava ali no meio da mata, algo que não fazia parte deste lugar, que não era bem-vindo neste pedaço esquecido de natureza, mas o que poderia ser? Para mim, tenho quase certeza de que era mais um camponês desgraçado tentando levar minha cabeça como troféu até a aldeia.

Pelos sons confusos de rosnados e latidos pude deduzir que estivessem num conflito, meus companheiros contra sei lá o que, eis que o silêncio volta a reinar supremo, um de meus guardiões volta ferido para perto de minha moradia, ele havia perdido muito sangue e estava mancando, convidei-o para entrar, pois sabia que era meu dever tratar de seus ferimentos como forma de agradecimento por velar por minha vida.

Em alguns frascos tinha ervas medicinais que havia colhido, amassei e misturei com um pouco de lama fria, isso ajudaria a cicatrizar as feridas, lavei e enfaixei com tiras de pano sua pata machucada, ele tentava lamber os cortes, entretanto, eu lhe dava leves tapas no focinho. Estendi um cobertor velho ao pé de minha cama e disse que passaria esta noite ao meu lado, depois que ele aconchegou-se foi a minha vez de deitar e tentar dormir.

Nesta amanhã logo que acordei notei que o lobo não mais estava ao meu lado, no cobertor, havia uma mancha de sangue e nada mais, pensei que já estivesse recuperado e saiu para continuar seu dever de vigilante, peguei minha toalha de banho e segui até o lago.

Chegando lá, deparei-me com meu fiel guardião às margens daquelas águas escuras, corri até ele, ainda respirava, mas estava frio e imóvel, esmorecido, o cobri com minha toalha, pois ventava muito naquela manhã nublada e esta pobre criatura estava ferida e fraca, provavelmente saiu de meu abrigo à procura de água para reidratar seu débil corpo, bebeu este líquido negro e desconhecido. O que está feito, está feito, não adianta lamentar, agora só resta-me velar seu corpo até que seu coração diminua as batidas cessando-se por completo.

Eu esperei durante um tempo, não consigo determinar o quanto, pois desconheço as horas, seria impossível sabê-las vivendo no meio de uma floresta negra e lutando para sobreviver dia após dia, muitas outras coisas são bem mais importantes do que saber quanto o ponteiro do relógio locomoveu-se.

Apenas fitava seus olhos prateados feito o luar, o fulgor deixando-o pouco a pouco, um aperto em meu peito, um nó em minha garganta, meus olhos umedeceram, ele era um dos meus mais fieis companheiros, desde a morte de meus pais e a minha fuga para dentro desta brenha ele estivera comigo, nunca me abandonou, guardou minha vida dando até a sua para deixar-me intacta quando a Morte viesse e agora, ela viria, mas não por mim, por ele... Meu querido lobo cinzento, descanse em paz, meu leal amigo.

Fiquei durante mais algum indeterminado tempo ao seu lado, seu corpo ainda estava quente, acariciei seu pelo macio, algo que não fazia com muita freqüência, pois parecia que meus guardiões, muito menos eu poderíamos saber o significado de carinho e creio que nunca realmente saberemos. As feridas ainda um pouco abertas, porém bem melhores do que na noite anterior, ele ia se curar, ele ia sobreviver, por que teve que levá-lo, Morte? Por que não levou à mim?

Eu a senti ao redor, quando o último suspiro do canino foi dado, um estranho vento frio fez as folhas das árvores dançarem, um fino choro e um agudo grito vinha com a brisa, as águas negras do misterioso lago pareceram agitarem-se e um doce perfume tomou conta do local fúnebre, era ela... Minha querida Morte, era você... Eu sei que era! Viera buscá-lo, o guardião que você mesma mandara para mim, para guardar meu corpo e minha alma para quando estivesse pronta, minha deusa.

Ela esteve aqui ao meu lado, tão perto de meu corpo, sua essência penetrou em minha alma, senti-me tão tranqüila naquele momento, algo inexplicável, sua sublime presença... Até que ela se foi, levando consigo um de meus leais companheiros, adeus, meu querido, e volte logo, desta vez por mim, Morte, pois eu te espero e te quero mais que qualquer coisa!

Não conseguiria ter um banho relaxante vendo o cadáver daquele lobo ali nas margens do lago, peguei minha toalha e retornei ao meu refúgio, mas não permaneci lá por muito tempo, teria que sair em busca de alimento, pois estava faminta! Sem obter muito sucesso em minha caçada, não tive outra escolha, teria que raptar uma das galinhas que criavam na aldeia.

Com minha capa negra como a noite e espreitando por trás de cada árvore morta, consegui chegar perto do vilarejo, avistei o galinheiro, mas havia algumas pessoas ali perto, teria que mudar meu foco para outra coisa, eis que vi uma mulher solitária e um pouco afastada dos outros camponeses ordenhando uma das poucas vacas leiteiras que possuíam, até que um pouco de leite viria bem a calhar!

Era só aguardar pelo momento certo e ele não se demorou a vir, pois um homem, creio ser seu marido a chamou, a aldeã correu para perto dele deixando o balde cheio de leite fresco ali, olhei rápida e várias vezes para todos os cantos da pequena vila certificando-me de que ninguém estaria por perto, corri o mais veloz que pude e peguei o balde.

No retorno não consegui ser tão ágil e veloz quanto na ida, pois o balde estava cheio quase até a boca e custou muito carregá-lo sozinha, no caminho até à caverna, um pouco do conteúdo perdera-se, mas consegui salvar um pouco mais da metade, a opção era comer um pedaço de pão duro, que ainda restava e tomar um pouco de leite, pois vinho deixa-me ébria e com dor de cabeça quando o absorvo com o estômago vazio ou quase vazio.

Fiz minha refeição pacientemente, não tenho pressa de nada, pois vivo sozinha, eu por mim mesma, não tenho amigos, nem parentes, nem vizinhos, não tenho compromissos, não me atraso para nada, apenas tenho meus afazeres que cumpro muito bem, mas caso o contrário, a pressa não me invade, ao invés dela, era o tédio que me consumia até as entranhas.

Permaneci sentada em minha cama em silêncio por não sei quanto, até ouvir os latidos enfurecidos dos lobos, corri até a entrada da caverna e ouvi um estranho som, dei um comando para que findassem os latidos e rosnados para que pudesse escutar melhor aquele ruído, pareceu-me vir do meio da floresta.

Não sei o por que, mas uma estranha curiosidade dominou-me e comecei a caminhar para perto das árvores, vestindo minha capa e ainda trançando aquelas árvores obscuras, estava segura, ninguém poderia me ver, há tantos anos andando por ali, aprendi a ser quieta e cautelosa como um leão prestes a abocanhar sua presa.

Fui andando até avistar algo que deixou-me surpresa... Uma garotinha, chorando e gritando bem ali, no meio da floresta, o que fazia? Por que estava ali? Fiquei imóvel e calada, na esperança de que não me ouvisse, mas por um descuido meu, pisei em um galho seco que se partira e eis que aquela menina ficara atenta ao barulho olhando na direção em que estava.

___ Quem está aí?___ disse ela ___ É você, mamãe?

Então notei que direcionou seus olhos à mim, corri para me esconder em um outro lugar, entretanto, creio que ela havia visto meu vulto passando rápido e inquieto por entre as desfalecidas árvores, não fez outra coisa a não ser me seguir dizendo:

___ Ei, volte aqui! Quem é você?

Tentei esconder-me, mas era tarde, a pequena mortal já havia me visto, com meu enegrecido capuz ocultei meu rosto e permaneci de costas para ela, eis que parou muito próxima a mim e disse com sua voz infantil e aguda:

___ Olá!... Quem é você?... Qual é o seu nome?... Ei!

A cada fala a maldita criança aproximava-se cada vez mais de mim enquanto tentava me distanciar.

___ Não tenha medo, eu não vou te machucar!___ disse ela, como se pudesse fazer algo maléfico contra mim!

Fiquei intacta como uma estátua, não mais poderia fugir, não tinha outra escolha a não ser enfrentar aquela nefanda criaturazinha.

___ Vire-se, por favor.

Como quiser, virei-me, porém continuava com a cabeça baixa e o capuz escondendo minha face.

___ Deixe-me ver seu rosto?

Balancei a cabeça negativamente, nunca mostraria meu semblante marcado em vão para uma mortal qualquer.

___ Pode me dizer o seu nome?

Novamente balancei a cabeça em negação, voltei-me e tentei seguir calmamente, mas mais uma fala daquela maldita deteve-me.

___ Você pode me ajudar? Eu me perdi da minha mãe.

Uma certa chama incomum tomou conta de meus olhos e com um sinal que fiz com minha cabeça, indiquei para que a garota seguisse-me, ela obedeceu.

Seguiu-me até a caverna, estendi a mão indicando-lhe para que entrasse, a pequena o fez, ao entrar, sentou-se em minha cama e começou a observar tudo que havia em meu lar, percebi o medo em seus olhos ao fitar as ossadas, as tigelas com sangue, as cabeças de animais, poderia ouvir à uma certa distância seu coraçãozinho pulsando apavorado.

De costas para ela, despejei um pouco de leite em um copo que fiz com argila, só prestara atenção quando entreguei-lhe, a menina bebeu tão rapidamente que mal saboreou-o, ao terminar, disse-me:

___ Obrigada.

Coloquei o copo sobre uma mesa de madeira e as indagações começaram novamente:

___ Esta é a sua casa?... Por que mora aqui?... Quem é você?... Você sabe falar?

Empurrei-a fazendo com que se deitasse, caminhei em direção à saída da caverna e a ouvi perguntar:

___ Aonde vai?

Eu nada disse, apenas sai e a deixei ali. Andei um pouco pela floresta, até avistar algo incomum na margem daquele misterioso lago, fui até lá e deparei-me com um corpo, mas não era de meu leal guardião, este eu mesma cavei uma cova e o enterrei dignamente, depois de tantos anos protegendo-me, era mais do que justo e honroso ter um final digno. Não, não era dele, era um corpo humano.

Aproximei-me, era uma mulher, estava hirta, com os olhos abertos, ajoelhei-me ao seu lado e toquei sua pele, parecia um pedaço de neve, ebúrnea e gélida, não havia mais vida correndo em suas veias, acho que sei o por quê, vi que seus lábios e suas mãos estavam úmidos, obviamente bebera um pouco, nem que fosse apenas um gole, desta água negra e de somente um efeito conhecido, a morte.

Presumi que fosse a mãe daquela garota, agora estava órfã de mãe a pobrezinha, sei bem como é perder os pais tão cedo. A mulher bebera aquela água no desespero de saciar sua sede e em poucos minutos deixara este mundo, deixara uma filha abandonada e desamparada, em sinal de respeito para com o cadáver, fechei seus olhos, não só pelo respeito, mas confesso que dava-me estranhos calafrios aqueles olhos escuros fitando-me.

Por que aquela água corroia, matava quem a bebesse, menos eu? O que tenho que tão diferente dos demais mortais que este estranho líquido não afeta meu organismo, não envenena meu sangue, não apodrece minha carne, não faz parar meu coração? Por que você não me quer, Morte? O que mais preciso fazer para que aceite-me logo como tua eterna serva? Ó, querida Morte, não abandone-me nesta vida injusta, venha a mim...

Desconheço o motivo, mas velei o corpo daquela mulher, assim como fiz com meu companheiro canino até o anoitecer, acho que queria, ao menos um pouco, sentir a morte ao meu redor, penetrando em meu corpo, correndo em minhas veias, pulsando intensamente dentro de mim, eu precisava dela por perto, isto era a única coisa que trazia paz à minha alma tão confusa e terrivelmente perdida.

Quando percebi a escuridão caída sobre meus ombros, com apenas a lua cheia a me iluminar, levantei-me e segui para minha moradia, não me importei com o corpo da humana, algum animal noturno e carnívoro certamente a encontraria e daria fim ao refugo do que ela fora um dia.

Chegando na caverna, deparei-me com aquela criança dormindo em minha cama, aproximei-me e mexi em seu corpo, ela não reagia, estava morta. As ervas venenosas que coloquei em seu leite e as quais são insípidas e inodoras, sem contar que incolores também, matam sem deixar vestígios, asfixiando e parando o coração.

Levei seu pequenino corpo para fora e após montar uma pequena fogueira, o cremei. Vi sua carne, seus ossos, sua pele transformando-se em cinzas e a fumaça ascender até o céu obscuro e sem estrelas, durma, criança, agora poderá juntar-se à sua mãe para sempre na morte, daria tudo para estar em seu lugar...

Depois disso, entrei e comi um pedaço de pão, mas agora com um pouco de vinho, estava louca por uma taça da preciosa bebida dos deuses com algumas gotas de sangue animal.

Deitei-me rapidamente e pude perceber o cheiro da morte ali naquela cama, rolei, amarrotei os lençóis, amassei e apertei o travesseiro contra meu corpo, eu a queria, queria seu odor em mim, sua tétrica fragrância em minha pele, queria embriagar-me com sua presença, eu a quero, Morte, eu a quero...

Acho que o vinho subira rapidamente à minha cabeça, estava sentindo-me zonza e um pouco sonolenta, devo dormir para recuperar minhas forças e meu ânimo, fora um dia difícil este, a morte de um de meus guardiões seguida da morte de uma mulher e uma criança, apenas eu continuo aqui... Ainda viva. Boa noite.
***
Despertei esta manhã morrendo de fome! Precisava comer alguma coisa e rápido, os pães haviam acabado restando apenas farelos e não havia nem meio copo de leite, mas que merda!

Saí levando comigo minhas adagas, percorri durante algumas horas aquela floresta, que parecia mais ausente de vida a cada dia que nascia, estava faminta, um pouco fraca, zangada, impaciente, não consegui continuar por mais tempo. Nada, não havia nada ali, nem um mísero ser vivo neste maldito lugar!

Exausta e com o estômago vazio, segui até o lago para pelo menos matar minha sede, a água estava doce, fresca, mas caiu pesadamente dentro de mim. Incrível... Este água matou a mãe daquela garota, matou também meu fiel guardião, por que não me afeta? O que tenho de tão incomum dos demais humanos e animais? Nem ao menos tenho certeza do que sou, humana ou animal, não mais importava.

Passei a tarde toda sem comer absolutamente nada dando-me uma forte dor de cabeça, permaneci deitada, emudecida, não havia o que pensar, acredito que se pensasse em algo a dor seria mais forte. Eu precisava de alimento ou será que meu destino era morrer de fome?

A noite já caíra há algum tempo e minha fome só tendia a aumentar, eis que levanto-me, não havia outra alternativa, teria que ir até a aldeia, era isto ou passar a madrugada gemendo e reclamando dos roncos altos que meu estômago emitia.

Vesti minha capa, uma excelente companheira das noites sombrias, minha camuflagem, quantas vezes já me safei de grandes perigos graças à ela, esta noite creio que não seria diferente, enrolei minhas adagas em um lenço grosso e as amarrei junto à minha cintura, uma precaução à mais, nunca se sabe o que poderei enfrentar naquele detestável lugar.

Em silêncio caminhando pela floresta adentro, apenas com o som de meu estômago a me atormentar. Era fácil demais perder-se ali entre aquelas árvores ocas, ainda mais à noite, porém eu conhecia aquele pedaço morto de natureza como a palma de minha mão, inúmeras vezes corri fugindo dos camponeses ou de animais carnívoros que espreitam por estas árvores, conheço os labirintos deste local, conheço os cheiros, as direções, tudo, era um bom truque contra meus predadores, que ficavam perdidos e acabavam mortos por meus leais companheiros.

Finalmente havia chegado, pude ver muitas tochas ao redor do vilarejo, iluminando aquele pacato lugarzinho quando a noite cobria o mundo com seu negro manto cravejado de brilhantes, a chama era de um vermelho intenso que podia ser visto até do meio da selva, o fogo afugentava os felinos e meus guardiões que durante a noite rondavam a aldeia em busca de alimento.

Meus olhos atentos procurando alimento, qualquer coisa, um pedaço de pão, carne apodrecendo, qualquer coisa para saciar este apetite cruel, eis que avistei, em frente a um dos casebres de madeira, um cesto repleto de peixes, havia algumas moscas rodeando-os, mas este era o menor dos problemas, como iria até lá pegá-los?

Calma e silenciosa, a paciência era minha aliada, apesar da fome crescer a cada minuto que transcorria, teria de manter a calma, não iria conseguir nada se fizesse isso rápido. Espreitando por de trás das casas, estava lutando contra mim mesma, tentando me controlar, tentando não estragar tudo, um passo em falso e seria a minha cabeça fincada num tronco como troféu.

O bom da noite era que todos recolhiam-se para suas devidas moradias, as famílias faziam suas refeições enquanto conversavam, todos juntos, unidos e sorridentes, até o sono dominá-los pouco a pouco e terem que retirarem-se até seus aposentos para mais uma noite de descanso merecido, uma rotina perfeita para um alguém que precisava estar aqui para roubar peixes, pois não encontrava alimento e não contentava-se mais com odiosas frutas sem sabor.

Estava quase conseguindo, já podia sentir o forte odor azedo em minha direção, isto certamente embrulhava-me o estômago, mas estava tão faminta, que o cheiro já não era mais um problema tão grave. Estava chegando cada vez mais perto.

Ao aproximar-me do cesto, não havia tempo para cantar vitória, teria que ser rápida, procurei com os olhos por algo e avistei um cesto vazio, depressa comecei a enchê-lo com alguns peixes, o suficiente para saciar minha fome desta noite e talvez de amanhã.

Após encher com uma boa quantidade, peguei um galho de grossura razoável, rasguei uma parte do meu vestido amarrando numas das pontas do galho e aproximei de uma das tochas roubando um pouco de sua chama para mim, facilitar-me-ia além de voltar, seria útil para fazer uma fogueira.

Carregar o cesto sendo o mais silenciosa possível não fora uma das tarefas mais fáceis, minha cabeça parecia pesar mais que esta carga, estava fraca e faminta, mas aos poucos procurava controlar-me, um dos grandes segredos para quando se vive isolado numa floresta é a paciência, porém ela era esquecida quando se estava morrendo de fome!

Chegando em meu lar, tratei de velozmente pegar uns galhos secos, amontoá-los na entrada e emprestar um pouco da chama da tocha para acender a fogueira, ainda bem que esta noite não teria que praticamente destruir meus dedos esfregando uma madeira na outra, ainda trago comigo as dolorosas cicatrizes.

Após a fogueira estar acesa e o fogo dançando bravo e inquieto, peguei mais dois galhos, finquei-os no solo nas extremidades da fogueira e com um terceiro galho atravessei o corpo frio e mal cheiroso de um dos peixes pendurando-o depois embaixo do fogo. Enquanto ele fritava, entrei na caverna, acendi todas as velas que iluminavam o local e que sempre se apagavam com o vento ou até mesmo sozinhas e pendurei-a seguramente num canto da parede.

Bebi uma taça de vinho quente para acompanhar minha refeição noturna, estava delicioso, suculento, ah... Finalmente matara minha fome!

Fiquei sentada na entrada de meu lar de pedra observando a lua, estava linda... Cheia e lívida como um semblante mortal, queria banhar-me com seu luar, seu pálido e frágil ardor tocando minha pele, em tempos em tempos as nuvens entenebrecidas ocultavam sua ebúrnea beleza, mas logo ela voltava ainda mais encantadora do que antes, como era perfeita!

Não havia estrelas naquela noite, apenas a lua solitária olhando para mim, estou olhando para ti também, estamos sós, minha querida, somente eu e você, mais nada nem ninguém, estamos destinadas a esta solidão infindável, minha cara. Pelo menos estás segura, longe dos mortais, só peço que se um dia a morte levar minha alma para um reino distante e maravilhoso, vele meu corpo, pinte-o com seu refulgir prateado e vulneravelmente belo.

Fazia frio ou era o conhecido frio da solidão que vinha de dentro para fora, a frieza de um interior vazio, sem sentimentos ou emoções, apesar de tudo, uma estranha paz que não era desse mundo me invadia, uma paz desconhecida, porém tão doce e suave, eu só queria permanecer ali, eu e a lua, uma olhando para a outra neste silêncio sufocante. Mas aquela noite não teria um fim tão tranqüilo como ansiava... Notei algo estranho quando fixei meu olhar na direção das árvores perto de minha morada, levantei-me e fui até lá verificar.

Esquisito... Eram marcas profundas, quase destruíram os troncos fracos e já sem vida, o animal que fizera estas marcas deve possuir garras extremamente afiadas e se bem conheço os poucos felinos que ainda restam por aqui, não foram eles.

Um estranho arrepio percorreu minha espinha e corri imediatamente para o interior de meu refúgio, ali estaria segura, tudo indicava que uma enorme e estranha criatura estava por perto, eu vi com meus próprios olhos aquelas marcas, todas em árvores perto de minha caverna, era certo... Havia algo rodeando meu abrigo, algo grande e aparentemente feroz.

Quando estava começando a me acalmar, pois estava convicta de que não havia o que temer, ouço os latidos enfurecidos dos lobos na entrada de meu lar, eles rosnavam e latiam compulsivamente, pude ouvir o som dos galhos se quebrando, pois à noite o silêncio era extremo, às vezes podia-se ouvir até os roncos dos camponeses no meio da madrugada.

Pude ouvir um uivo agudo e soturno e mais e mais latidos, imediatamente peguei minhas adagas, segurando-as bem forte entre meus trêmulos dedos. Num momento como este os mortais apelariam para o seu Deus, não tenho deus algum, sou fiel à Morte, mas espere um instante... Será que ela enviara uma estranha criatura para levar-me até ela? Se fosse isto, de nada deveria ter medo.

Fui calmamente até a entrada da caverna, entretanto, meus companheiros detiveram-me com rosnados e latidos, novamente os obedeci e fiquei onde estava sem reclamar.

Tantos sons vindos do centro da floresta, presumi que alguns de meus guardiões adentraram a escuridão atrás da “coisa” que esteja rondando meu abrigo, mais alguns embrenharam-se por entre as árvores e sumiram nas trevas, o restante deve ter ficado para me proteger e certificar de que não sairia da caverna, onde aparentemente era seguro.

Corri para o interior de meu recanto e, encolhida em minha cama, fiquei ouvindo os sons confusos que emanavam entre aquelas fenecidas árvores. Parecia estar havendo um ataque, um vento forte adentrou e apagou todas as velas, até a forte e viva chama da tocha havia morrido deixando tudo mais aterrador, senti um calafrio passar por meu corpo, já não suportava mais tanto mistério.

Depois de tantos ruídos violentos veio a calmaria, mais uma vez o silêncio cravou suas garras e tudo se calou, a curiosidade tomou-me, então fui até a entrada novamente para ver o que havia acontecido, o que vejo? Três de meus fieis guardiões... Mortos! Não pode ser verdade.

Cheguei perto de seus corpos, estavam encharcados de sangue, sem alguns de seus membros também, seja lá o que for que tenha feito-lhes esta crueldade, estava furioso e sedento.

De lá do meio, da profunda escuridão da floresta, olhos dourados e de um brilho intenso fitaram-me, o medo correu por minhas veias, fiquei imóvel, porém procurei manter a calma, se este era mesmo o meu destino, nada mais podia fazer a não ser aceitá-lo e terminá-lo ali mesmo.

Depois de alguns instantes de intenso pavor, aqueles grandes e cintilantes olhos parecem terem se apagado, ouvi apenas leves ruídos, a criatura havia ido embora para dentro da floresta. Levantei-me e voltei para dentro de minha fortaleza de pedras e de lá observei os corpos já sem vida de meus guardiões, morreram lutando, deram suas vidas por mim, descansem em paz, meus amigos.

Os outros lobos rodearam os cadáveres e depois de cheirarem, os devoraram friamente, pelo menos o companheiro que morrera anteriormente tivera um enterro digno, já estes... Vão sumir tão mais rapidamente e sem deixarem vestígios. Vendo aquela terrível cena sem demonstrar muita emoção, apenas uma questão vagava sem resposta pela minha mente: por que aquela criatura não me atacou?

Fui para dentro de minha caverna absolutamente transtornada e sem mais pensamentos, bebi uma taça de vinho que descera amargamente quente por minha garganta semelhante a um veneno mortal, uma insuportável dor de cabeça estava deixando-me enlouquecida, precisava dormir um pouco, tantas coisas aconteceram e mereciam ser esquecidas.

Primeiro, um dia todo passando fome, sem nenhum alimento à vista. Segundo, uma noite agitada, um confronto entre meus guerreiros contra algum tipo de fera forte, enorme e furiosa, três de meus lobos acabaram mortos, ah! Estes dias estão sendo demais para mim, se for algum tipo de teste, Morte, será que fui reprovada?...