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Aqui, nesta floresta sombria, eu vivo no interior de uma escura e fria caverna, onde aguardo desesperadamente por minha morte, mas enquanto ela não vem, minha história contarei a quem quiser ouvir... ***

Aqui é o meu lugar, nunca me imaginei em outro ambiente, é tão bom de se viver neste santuário e enquanto não morro solitária e sirvo de alimento para os animais, aqui estou.

Numa caverna obscura, repleta de velas carmesins nas quais as chamas tremeluziam produzindo sombras estranhas e misteriosas que me tentavam no meio da noite, ossadas de animais que um dia me serviram de alimento e o sangue deles também estão aqui junto de suas peles e carcaças frígidas e apodrecidas.

Sou uma bruxa, isto pode parecer estranho para estes meros leitores nos quais exploram minha vida inescrupulosamente através de seus olhos ágeis e curiosos. Tive que encontrar abrigo neste pedaço de natureza morta, era minha única alternativa para fugir da morte forçada. Os camponeses estão à minha procura, descobriram meu esconderijo, tenho de ser cautelosa.

A solidão é minha única e fiel companheira, sem ela não sou nada, não tenho nada. A frieza de meu ser espantou os fracos, entretanto fascinou os desumanos, um coração bate dentro deles, mas não um qualquer coração, um coração de pedra, amargo como veneno, frio como o gelo, um coração assim como o meu.

O mundo é uma coisa frágil, que poucos querem preservar, porém a vida é ainda mais tênue, ainda mais delicada do que uma gota de sangue na palma de uma mão, se apertar a pequenina gota entre os dedos ela simplesmente desmancha, assim é a vida humana, tão frágil e sensível que qualquer coisa, por menor que seja, poderia destruí-la e por mais que tentassem, não iriam conseguir salvar o que estaria à beira da morte.

À noite, a adorável escuridão cai lenta e suave sobre esta floresta, porém o medo e a sensação de morte certa me invadem e pressinto, uma vida será arrancada, um corpo será dilacerado, a fome e a sede serão saciadas.

Bem entre as árvores, o desejo de matar está a solta, pode haver súplicas, sangue pode ser derramado friamente, a morte ronda esse lugar como uma guarda-costas. Sempre ouço no meio da noite escura os gritos lânguidos das vítimas dos carnívoros, são estes malditos camponeses que perseguem-me sem descanso, querem me queimar viva, arrancar minha pele, beber meu sangue, comer meu coração e expor minha cabeça como um glorioso e desejado troféu de caça.

Posso ouvir neste exato momento, mais um desgraçado camponês deixar o mundo, abandonar a vida de forma tão cruel e brutal, ah como isto é prazeroso! Os gritos dolorosos e suplicantes são como um momento de prazer entre amantes, fazem-me delirar e regozijo em silêncio apreciando os últimos gritos dados pelo nefando ser humano.

Imagino que os lobos estejam devorando-o pouco a pouco, as afiadas e fortes presas acariciando a macia carne do homem, rasgando-a como um leve tecido, saboreando o medo e as rezas que de nada valeram, alimentando-se da dor intensa, embriagando-se no sangue puro e vivo que um coração amedrontado bombeou com tanta velocidade que pôde ser sentida até pelo menos aguçado paladar animal.

De minha caverna aguardo atenta e ansiosamente o último suspiro do bravo e imbecil camponês, que por muitas vezes demora a acontecer, os lobos são animais frios e calculistas, usam, abusam, torturam até a vítima não ter outra opção a não ser clamar pela libertadora morte, e eles, como piedosos algozes, a concedem com intenso prazer de ver a luz deixando seus olhos.

Eis que ouço... O doce som da quietude sobre meus ouvidos, o camponês está morto! Os lobos devoraram vorazmente sua carne, roendo até os ossos. Muito bem, meus queridos, sempre tão atenciosos e prestativos em seu dever de unicamente guardar meu corpo e minha alma para o exato momento da chegada de meu eterno sono.

Aqui nesta escura caverna o frio da morte toca meu rosto encanecido, e o fantasma do tolo camponês vem me assombrar, posso vê-lo em meus sonhos, ouvir seus gritos na madrugada e senti-lo ao meu redor velando noite após noite meu sono. Espíritos que um dia choraram e sofreram vêm até mim para assombrar-me, provocando-me até o despertar, tirando meus últimos instantes de paz terrestre.

Está uma noite soturna, não haviam estrelas no céu, apenas o brilho pálido e delicado da lua iluminando a entrada de minha morada de pedra, a solidão de viver aqui por vezes dói, todavia, aprendi a resistir à dor convivendo com meus próprios pensamentos, dominando meus desejos, praticando silenciosamente no escuro da noite materna as artes ocultas de magia negra.

O vento balançava os galhos das árvores, olho para o céu, a lua havia se escondido por trás das obscuras e macias nuvens e a chuva vem, lágrimas de alguém que já viveu... Uma vida triste e fúnebre, que agora pranteia por de trás das nuvens sombrias. As gotas são suas lágrimas, os trovões seus gritos de martírio e os relâmpagos, são o brilho de suas almas cruzando o céu enegrecido.

Vou até lá fora e sinto as frias gotas caindo sobre meu corpo congelando minha pele, minha carne, meus ossos, minha alma... Naquela noite solitária, um banho de lágrimas frias e tristes para inquietar meu ser, paralisar meu coração por um momento, ah eu estava precisando disto mais que qualquer coisa!

Neste sublime momento de mais puro prazer, não consigo sentir mais nada, mal sinto a vida dentro de mim, mas de qualquer modo, nunca desejei senti-la, estou apenas aturando-a, pois sei que devo pacientemente aguardar a tão desejada Morte vir ao meu encontro.

Volto para o interior de meu refúgio sólido e seguro, repentinamente senti uma intensa necessidade de expor minhas emoções, minhas lamúrias quentes e tolas escorreram quentes e incessantes por meu ebúrneo semblante. Isto é um sinal de que meu interior ainda vive, sentimentos humanos ainda habitam este coração mortal, não pode ser verdade...

Sou uma bruxa, devo ser fria como a chuva que lava a alma, como os fantasmas que abandonaram a vida, como o inverno eterno, fria como a Morte bela e encantadora, fria como ela, não pode ser verdade.... ***

Estranhas lembranças pesam sobre minha mente, começo a recordar-me da minha primeira criatura na qual tirei a vida insensivelmente, um pequeno pássaro... Cortei sua cabeça e derramei seu sangue em uma pequena tigela de pálida porcelana, era ainda uma jovem aprendiz das magias ocultas, derrubei alguns fios de cabelo dourado de uma vadia que cruzara meu caminho.

Fora um delicioso processo, o cabelo tão dourado quanto o sol que brilhava em seus olhos transmitindo a vida e a beleza que tinha de sobra, com uma adaga da mais pura prata fiz um pequeno corte em uma de minhas mãos e meu sangue assim se misturou ao do pássaro e aos fios louros, um punhado de terra retirada de solo falecido e despejada sobre o sangue e o cabelo, algumas meras palavras chamando pelo temido ceifador.

Pobre garota, teve seus lindos olhos celestiais arrancados por um negro corvo que vive nesta obscura floresta, os camponeses o chamam de Anjo da Morte. Bom, menino... Foi por ele que eu gritei e das trevas misteriosas ele surgiu por mim, realizando minhas vontades, satisfazendo meus desejos mais verdadeiros e escondidos no mais íntimo de meu âmago. Espero vê-lo de novo, bravo Ceifador...

Devo tudo que sei aos meus pais, que agora descansam ao lado de minha imaculada deusa Morte... Minha mãe era uma linda bruxa, enfeitiçava os camponeses para ter relações sexuais, ela roubava-lhes todas as suas forças e energias e no fim de cada ato, ela os assassinava friamente bebendo o sangue de cada um em um lindo cálice de cristal avermelhado.

Ela me dizia que toda vez que sugava a vitalidade de cada homem com o qual deitava-se, tinha mais vigor, mais força e mais agilidade que uma mulher comum jamais poderia ter. Fascinava-me seus conselhos, seus ensinamentos, suas magias e encantamentos, porém ela também possuía poderes sobrenaturais, não vivia apenas à base de poções, magias e encantamentos, ela era a perdição, o pecado, a Senhora da Luxúria, como os aldeões a chamavam, eles a temiam, porém a desejavam mais que qualquer coisa existente no mundo.

Meu pai, um forte e poderoso bruxo, belo e encantador como o mal, aliás era assim que eu o via, o mal encarnado no corpo de um deus, um anjo negro que junto de uma fada concebeu um maligno fruto... Eu!

Ele sacrificava mulheres e crianças para oferecer suas almas a algo no qual eu nunca ouvi o nome, ele e minha mãe nunca falavam de seus ídolos quando estava por perto, tudo sempre fora um mistério para mim, nunca soube e acho que nunca saberei para quem ou o que as almas das mulheres e crianças inocentes foram destinadas.

Numa noite, eu o presenciei tentando matar minha mãe, não compreendi, não soube o que fazer, entrei em pânico, o medo e o desespero começaram a sufocar-me, eis que num súbito desvario pego uma estaca dentro de uma das gavetas de meu quarto e com toda a minha sanha, cravo profundamente em seu sombrio coração. Quase paguei com minha própria vida, pois minha mãe, ao invés de agradecer-me por salvá-la, quis me matar dizendo que havia cometido um erro, que tudo aquilo era obra de um ritual para seu deus sem rosto e sem nome.

Durante as noites que se seguiram, minha mãe tentava com todas as forças ter de volta a alma e o corpo de meu pai, sentia-me culpada por matá-lo, pensava ter cometido mesmo um erro, nunca ousei desobedecê-los em hipótese alguma e naquela noite eu o fiz, eu o matei num desesperado ato de amor, amor... O sentimento sujo e odioso no qual cobre os olhos dos mortais com o negro e doloroso véu da ilusão.

Não demorou muitos meses para o inevitável vir à tona, minha mãe havia se matado ingerindo o mais puro e quente veneno, concordei que fora melhor assim, agora podiam passar a eternidade juntos em algum lugar desconhecido e distante onde jamais seriam incomodados. Adeus, papai, adeus, mamãe, descansem em paz, uma noite espero me juntar a vocês na morte.

Os camponeses logo descobriram a morte dos dois temidos bruxos da aldeia, decidiram queimar minha moradia, quase que não saio viva daquele maldito incêndio provocado por eles, mas consegui e desde minha adolescência vivo escondida na floresta, a paz há muito tempo me deixou quando souberam que ainda estava respirando, ocultada pela sombra das majestosas árvores mortas, tentam me caçar, expor-me a público e verem-me consumir em chamas.

Em todos os meus dias preciso matar para sobreviver, pequenos e indefesos animais que de nada importam, eles apenas estão lá para saciar minha fome, o sangue deles é necessário para meus rituais e poções junto de seus frágeis e pequenos ossos e suas peles são úteis na chegada de um rigoroso inverno, que cobre com seu álgido e lívido manto toda esta quieta e falecida floresta.

Nesta noite fria, uma rajada de vento entra em minha caverna apagando as velas, algo banal que sempre acontecia nas noites mais frias do ano, porém o arrepio que cruzara meu corpo fora diferente, uma estranha sensação mortal fez bater ainda mais forte meu coração, será que estava na hora de eu partir?

Não... Seria bom demais para ser real, em vez de mensageiros montados em cavalos negros, tudo que ouvi fora garras arranhando os muros de pedra na entrada da caverna e uma enorme sombra que cobria toda a luz do luar tornando o interior de minha morada um túmulo aterrador e totalmente escuro. Urros fortes e amedrontadores, olhos amarelos e reluzentes brilhavam mais que o ouro diante de faces gananciosas, não... Infelizmente não era minha esperada deusa.

Como isto era possível? Minha segurança era algo impecável, minha fortaleza era impenetrável e meus guardiões eram mais que fiéis e ágeis, como puderam falhar assim? Será este o meu destino? Em anos de virtude e purificação aguardando entregar meu corpo e minha alma somente para minha imaculada deusa, será este meu esperado fim? Ver minha carne sendo dilacerada por um repulsivo animal sedento, tendo meu templo violado por garras frias e impiedosas, será este meu desfecho?

A Morte era sábia, por mais que confie em sua vasta sabedoria, ainda não consigo crer que fora isto que planejara para mim, um fim tão brutal e dramático, por quê? Sei que Ela possuía várias faces, uma mais perversa que a outra, entretanto, era doce e justa, mas vir até mim por meio de um urso cinzento... Era quase que inaceitável...

Seus urros e seu olhar mortal fixado em minha direção, aquilo fez-me exalar o odor do medo, esperadamente o animal aspirou, isto o deixara ainda mais excitado, estava pedindo para que corresse o mais rápido que pudesse, estava com sede de adrenalina, queria ir atrás de mim, perseguindo-me sadicamente até alcançar e com um só golpe, arrancar meu precioso coração.

Uma ofensa ao meu corpo e minh’alma, morrer de tal qual maneira, então uma estranha e gélida brisa toca meu semblante ainda mais frio e paralisado por um certo medo daquela enorme e faminta figura a poucos metros de distância de meu ser, aquela não era uma brisa qualquer, não podia ser...

A tensão somente aumentava, a adrenalina subindo em meu corpo e com ela, o medo, o pavor, o coração preparado para saltar por meus lábios até ser entrelaçado por suas brilhantes e cruéis garras, que iriam apertá-lo, sufocá-lo, prendê-lo, e então esmagá-lo, não restando bons ou maus sentimentos, nada mais. Era inútil, mas estava tentando manter a calma.

Aquele imenso e grotesco urso caminhando lentamente em minha direção, podia ver seus olhos dourados como os cabelos de quem um dia eu saboreei lentamente a morte, será isto que se passa em sua mente irracional e doentia? Quer saborear-me lentamente, ver-me lamentar até suplicar pelo fim? Será que ele adorava brincar com suas presas, dando-lhe falsas esperanças, vendo o medo em seus pequeninos olhos deixados pela luz da vida? Brincaria comigo, rasgaria com um estranho prazer minha carne enquanto eu, ainda viva, tudo acompanhava com uma dor na qual nem poderia imaginar?

Cada vez mais ele se aproximava e mais eu tentava me afastar, sem fazer movimentos bruscos, tantos pensamentos passando pela minha cabeça, seria este meu fim ou apenas mais um teste que a Morte me enviara? Como poderia saber? Como és cruel, minha querida deusa, por que fazes isto com tua mera serva? O que guardaras para mim? Revele-me, por favor...

Vi a fúria e a fome arderem em seus olhos e com uma das patas, derrubara um de meus castiçais ateando fogo em uma das cortinas de veludo vermelho, uma das poucas coisas que pude salvar na adolescência do incêndio causado pelos camponeses desgraçados, se ela não queimara antes, agora estava virando cinzas. Naquele simples ato, eu aprendi uma lição, por mais que tente salvar ou adiar, se tiver que acontecer, irá... Não tem como impedir, pois tudo que move o mundo era comandado pela Morte, era ela que determinava tudo.

Lembrei-me da brisa que passara há pouco por meu rosto, ela vinha de uma determinada direção à qual meus olhos seguiram, o brilho de minhas adagas de prata iluminaram meu olhar assustado, rapidamente as tive entre meus dedos ágeis, eram minha única esperança naquele momento de agonia.

Olhei nos olhos daquela odiosa criatura, agora era matar ou morrer e se fosse preciso, tornar-me-ia um animal ainda mais frio e calculista do que aquele urso cinzento que, apesar de enorme, não era mais tão ameaçador. Segurei com força no cabo de uma das adagas e, sem pensar duas vezes a arremessei acertando a pata dianteira daquele bicho carnívoro, notei que ficara ainda mais furioso, porém pude ouvi-lo emitindo um certo gemido de dor.

Um sorriso iluminou minha face, estava provado, eu era mais forte e poderia acabar com aquela criatura se quisesse, então atirei mais uma de minhas adagas, esta enterrou-se um pouco perto de seu pescoço, pude ver o sangue cintilando como cristal refletido pelos raios de luar, a raiva fez seu coração bater mais forte, bombeando mais sangue, que escorria cada vez mais profundamente pelas feridas abertas.

O urso começou a andar em minha direção e mais uma adaga atravessou seu corpo com precisão, acertando sua outra pata, a traseira, o animal caíra sobre o frio chão da caverna, ainda havia fúria em seu olhar, mas aos poucos todo aquele brilho avermelhado da cólera ia deixando-o, não tinham mais tanta luz quanto no momento em que chegara aqui. Estava fraco, não conseguia levantar-se, aos poucos o sangue ia lavando o chão de meu lar e eu ia deixando a Morte invadir minha morada sem pedir licença ou sem mesmo ser anunciada.

Quem agora era a caça ou o caçador? Pobre criatura indefesa, estava apenas a procura de alimento e encontrou-se com o fim, não... Ainda não... Podia ouvir sua respiração relutante, ainda faltavam duas adagas em minhas mãos, uma delas, eu a segurei ainda mais forte, visualizei meu alvo e atirei friamente fazendo seu prateado e límpido gume perfurar o crânio daquele bicho e o silêncio tomou conta do lugar.

Olhei em seus olhos negros e vi meu semblante ali refletido, a face de um alguém frio e sem piedade, mas era ele ou eu e não, ainda não era minha hora de partir, eu sabia, eu sentia. O sangue estava chegando até meus pés, afastei-me um pouco, por um momento, senti nojo daquele líquido viscoso e avermelhado, uma ânsia de vômito ao ver aquele cadáver ainda quente ali na entrada de minha “casa”, mas algo salvou-me...

O fogo que ele mesmo causara o consumira e magicamente, se apagara. O restante da carne, que não era muita, serviu de alimento para meus guardiões, meus queridos lobos que nesta noite não sentiram o perigo me rondar, tudo bem, garanto que estarão lá para mim da próxima vez, pois confio minha nefanda vida a eles.

Enquanto meus amigos faziam seu lanchinho noturno, não quis incomodá-los, aproveitei para dar uma volta floresta a dentro. É horrível andar por entre estas árvores assustadoras, seus enormes galhos secos e longos não deixam a luz do sol iluminar este lugar, porém era bem pior à noite... Criaturas estranhas, ruídos amedrontadores, animais sequiosos por carne e por sangue, almas perdidas e entristecidas ou seria apenas minha mente brincando comigo?

Tudo era ainda mais real na escuridão da noite, qualquer som e sua mente já começava a inventar mil histórias, uma mais apavorante que a outra e a certeza de que não sairia vivo dali crescia a cada conto soturno. De uma coisa tenho absoluta certeza, era preciso ser parte desta floresta para não ser morto.

Andava pacientemente, o único ruído que se ouvia era o das folhas secas quebrando-se sob meus pés, estava fria aquela noite, porém estava bem agasalhada, caminhando e adentrando ainda mais na materna escuridão, vejo algo ainda mais obscuro que a noite, um vulto cruzar as árvores, observei ao redor até que os arbustos começaram a mexerem-se, algo desconhecido estava cercando-me.

Não demonstrei medo algum e segui tranquilamente meu caminho para não sei onde, era este o segredo, ignorar seus medos antes que eles o vençam, aquele ambiente realizava seus piores pesadelos e se não tivesse coragem o suficiente para fugir, por eles seria devorado. Estava pensando no tempo de vida que ainda me restava, o que poderia fazer para ocupar-me, distrair-me? Não havia nada que almejasse fazer, a não ser dormir eternamente e minha alma padecer ao lado de minha amada deusa.

Caminhava lentamente, a respiração branda, como se há pouco não tivesse matado a facadas um enorme e bravo urso cinzento, pois é, mais uma noite no paraíso, um paraíso com cara de inferno, um inferno escuro e injusto, um escuro acolhedor e envolvente, não deixando que ninguém me veja, ouça-me, saiba que estou aqui, caminhando livremente como se não houvesse um bando de camponeses sonhando com minha cabeça na ponta afiada de uma lança exposta na entrada da aldeia.

Traçando meu caminho, o que vejo, olhos vermelhos e brilhantes, um mais pavoroso que o outro, parece que sou adorada, idolatrada, todavia, sei bem o que querem, sugar minha preciosa alma para alimentá-los, para não sentirem-se vazios e sozinhos.

Estou mais só do que vocês, será que não percebem? Vocês são meus amigos, criaturas obscuras, sem rostos e sem nomes, eu sou parte de cada um de vocês, sou parte desta dor que está em seus corações, sou parte desta floresta decadente, sou parte da noite que abraça a vós e a mim também e vocês são parte de mim, somos uma só força, uma só alma, não tem por que temerem-me, pois eu não os temo, meu queridos.

Não preciso gritar ou clamar, eles ouvem os meus pensamentos, meus mais íntimos desejos sem que de meus lábios saia uma palavra sequer, eles conseguem sentir meu apelo, minha presença, porém não deixam que eu os veja, consigo senti-los, mas não posso vê-los, apenas seus olhos rubros, resplandecendo na escuridão piedosa.

De repente, o silêncio fora quebrado pelo cricrilar dos grilos, o piar das corujas e os uivos de meus guardiões, sons tão comuns por aqui, entretanto, novamente vejo os arbustos moverem-se rapidamente, olho para todos os lados buscando algo, nada encontro.

Nesta terrível noite agitada, não podia ter um fim tranqüilo, como me era esperado, eu podia sentir... Ah meus amigos, vocês estão aqui! Quanto tempo implorei por deixarem que visse seus rostos, eu sei que não posso tocá-los, mas se ao menos pudesse vê-los... E seria nesta noite.

Quantos são vocês, meus amados, crianças chorosas e perdidas venham até mim, vocês são a perdição, um pedaço obscuro da noite, o fruto agonizante que a Morte deixara pelo caminho, oh, pobres amigos, não conseguiram encontrá-la! Lamento por vocês, por todos que estão aqui, mas Ela sabe o que faz e se foi cruel convosco era porque mereciam, pois podiam não ter acreditado em seu solene poder e em sua divina justiça.

Paguem, meus amigos, sofram em silêncio, a culpa não era minha, o erro fora apenas de vós, não venham querer me assombrar no meio da noite, esqueceram-se... Eu não os temo, nenhum de vocês. São apenas almas perdidas, abandonadas, não sabem onde estão, vagando entre a Vida e a Morte, nenhuma delas querendo-os para si, não... Vocês não podem me machucar, estão mortos...

Eis que, o medo começou a dominar-me, não podia ser... Eu não os temia, mas estavam conseguindo me assustar, estavam cercando-me, tirando todo o ar que havia em meus pulmões, estava arfante, a cabeça pesava, o corpo enfraquecia... Desculpem-me, eu não queria rejeitá-los, desculpem-me, aceitem meu perdão, eu suplico!

Eu ouvia seus gritos, seus choros e lamentos, sentia agora seus dedos tão frios tocando meus braços e até minha face alva e amedrontada, seus olhos tão vermelhos quanto o sangue, por favor, não façam nada comigo, não posso ajudá-los, estão perdidos, deixem-me em paz! Deixem-me...
***
Quando abri meus olhos, estava claro, porém não tanto, pois a luz do sol mal conseguia passar por aqueles galhos de árvores mortas, eles sufocavam e matavam a luz do dia, restando apenas uma fresta para pelo menos poder distinguir quando o sol nascia e morria naquele melancólico lugar. Todas aquelas almas não mais estavam ali, será que fora um sonho ou realmente acontecera? Não sei ao certo e, sem me importar com isto, levantei-me, limpei meu vestido sujo de terra e folhas secas e caminhei de volta para meu lar.

Cheguei perto da caverna e na entrada já pude perceber que meus guardiões tiveram um banquete e tanto, deixaram apenas os ossos daquele maldito urso, recolhi e os coloquei numa mesa feita de madeira morta de uma das muitas árvores, eu mesma que fiz, nunca tenho nada com o que me ocupar, então procuro distrair-me com algumas tarefas. Peguei roupas limpas e segui rumo ao lago que ficava no centro desta floresta.

Este lago de águas negras não permitia que nenhuma vida aquática vivesse ali, fiquei nua e mergulhei de corpo e alma naquelas sombrias e amaldiçoadas águas, doce e fria, ah fora um ótimo banho matinal.

Não sou como aquelas ridículas bruxas de conto de fadas nas quais tem um nariz enorme e uma verruga bem no centro dele, não tomam banho e assustam criancinhas, quão fértil era a imaginação humana! Não conhecem nem de perto uma bruxa e o mais importante, não podem nem ao menos imaginar o que são capazes de fazer contra quem cruza seus caminhos.

Não sou eu que devo revelar os segredos guardados a sete chaves sobre minha espécie, minha família, sangue do meu sangue, bruxas como eu, só digo que... Nada era o que parecia e o que parecia ser... Era ainda mais terrível. Temos várias faces, vários corpos, várias vidas e infinitos desejos, o mais comum era o de vingança, o qual sempre resultava em morte. Morte... Nossa querida deusa à qual servimos, não sei quanto as minhas demais irmãs que vivem ao redor do mundo e as quais desconheço seus semblantes, mas eu idolatro mais que outros deuses pagãos e menores aos quais a maioria servia.

Ela era única e mais poderosa que qualquer coisa, não importava se fosse rico ou pobre, negro ou branco, magro ou gordo, bom ou mau, seu destino terminaria nela, quando você nasce, aos poucos dá passos cada vez mais na direção Dela, não tinha como evitar, já nasce tendo-a como sua única certeza na vida, por isso eu a amo e a espero pacientemente.

Ao voltar para meu abrigo, fui colher frutas, por mais que tentasse permanecer em jejum, era fraca e sempre caía em tentação, não tinha escolha, embora fizesse o possível para ser diferente dos outros mortais, era cada vez mais parecida, o que era meu pior pesadelo e um pesadelo tão real.

Entorpecia-me com o mais puro e rubente vinho, entretanto, acrescentava algumas gotas de sangue de animais, podia sentir o doce sabor a cada gole, eu tinha que ser diferente ou pelo menos tentar.

Nasci num inferno, criada por anjos caídos, vivendo como fera nesta floresta sombria, não tendo para onde fugir, não posso me alimentar de algo tão comum quanto frutas e beber algo tão insignificante quanto vinho. Sou uma bruxa de alma perdida e amaldiçoada, odiada por toda a raça humana, não posso me igualar a eles, à espécie que me rejeitava e em seu âmago ansiava por ver a luz deixar meus olhos tristes.

Joguei as sobras de meu desjejum aos corvos, que em segundos devoraram tudo. Fiquei trancafiada em minha fortaleza, portões invisíveis com correntes fortes e dolorosas, sentada num monte de palha no qual eu chamo de cama, não sabia mais o que fazer ou no que pensar. Sentia-me tão limitada na luz do dia, incapaz, derrotada... Isto era tão horrível!

Nesta manhã, os pássaros que restam na floresta ainda cantam e meu interior grita, eu grito, pois estou cansada de viver, estou exausta de ter que respirar e ouvir as batidas de meu coração, um alguém com uma vida feito a minha não merecia nem ao menos estar vivendo, por que, Morte, queres me ver sofrer? Por que não vens até mim? O que ainda queres que eu faça? Responda-me... Eu suplico... Apenas dê-me um sinal, minha deusa.

Era inútil, por mais que a chamava, clamava, chorava por Ela, nunca vinha até mim, nunca dizia-me para ter fé ou seguir em frente suportando tudo de cabeça erguida. E por um instante, eu pude compreender, o que aqueles camponeses sentiam, orando para um Deus surdo e cego, que nunca esteve ali para eles, morriam como se não tivessem importância, sofriam, choravam, e onde estaria seu Deus? Porém continuavam acreditando Nele. Incrível!

Deitei-me aconchegando minha cabeça num travesseiro que há muito tempo no meio de uma noite qualquer roubei de uma das casas dos malditos aldeões, tentei relaxar, pensava no dia em que meu coração não mais bateria e com este pensamento veio o sono. Sonhei que já estava morta e meu espírito rodeava meu corpo, estava desesperado e sozinho, abandonado em meio à escuridão apenas com meu corpo frio ao seu lado. Um sonho rápido e passageiro, como todos os outros que eu tinha e que numa noite eu terei.

Sonhos são os desejos mais íntimos de nossas almas creio eu, pois sempre que adormeço me vejo morta, fria, meu coração não mais batendo, eu não mais respirando, sentindo-me mais leve, mais pura e com bem mais vida do que quando o sangue corria por minhas veias. Sonhos são doces ilusões que dilaceram a alma, apenas isto e nada mais.

Quando despertei, decidi passear ao redor da floresta para distrair-me, quando me pego pensando em minha amada Morte um desejo cego domina-me, tenho medo de atrever-me a tentar algo que não devia, destruir os planos que Ela tem para mim, então tenho que pensar n’outras coisas, esquecê-la por um momento. Era difícil, pois eu a amava, eu a queria, a chamava e a desejava mais que qualquer coisa neste mundo desgraçado.

Vi um lindo cisne branco como a neve nadando nas águas negras daquele lago estagnado, seus movimentos eram frágeis e delicados, se fosse humano seria uma mulher, uma bailarina, sensual e encantadora, tentadora e inocente. Estava distraído, nadando calmamente como se aquele fosse o lugar mais seguro do mundo inteiro, pobre animalzinho, seria terrível demais algo fatal acontecer a ele neste momento.

A tentação fora mais forte, não pude resistir, então fiz com que o gume prateado como a lua de uma de minhas adagas atravessasse seu pequeno e tênue corpo emplumado. As frutas do desjejum não foram o suficiente e fitá-lo daquela maneira estava aumentando minha fome por carne e minha sede por matar.

Aquelas águas eram tão frias, até mesmo no ponto alto do verão, por quê? Nem ao menos eu sabia, tudo aqui nesta floresta era um mistério, as árvores mortas, a falta de animais durante o dia, entretanto diversos sons por todos os lados à noite, as águas do único lago serem tão frias e não haver nenhum tipo de vida dentro dele, enfim, não importava, eu estava aqui, sobrevivendo com os lobos, matando para não morrer, até um dia... O dia em que minha deusa virá ao meu encontro.

Deixei a ave em minha caverna e saí para catar lenha para uma fogueira, ainda não sou um completo animal a ponto de comer carne crua, tentei uma vez, foi horrível! Enquanto o levava até meu abrigo, pude perceber que ele ainda respirava, por pouco tempo, logo não mais viveria, o invejo, pois sua hora havia chegado, por que a minha não?

Fiz uma fogueira com alguns galhos mortos que encontrei caídos pelo chão, acrescentei algumas folhas secas, os galhos queimam, porém fazem muita fumaça e logo se tornam cinzas, afinal estão mortos. Estou farta destas fogueiras! Minhas mãos não mais suportam esfregar os galhos uns nos outros, sangram, ficam cheias de espinhos e arranhões que duram a cicatrizar, pois quando as feridas estão prestes a se fechar, tenho de abri-las novamente para fabricar uma nova fogueira.

Por isso que nunca como toda a carne de uma só vez, sempre guardo um pouco para a noite, pois não agüento tantas feridas, quando finalmente vejo sinal de fogo e a lenha queimando, paro, percebo que estou transpirando, arfando e nem ao menos consigo flexionar meus dedos, estão duros como mármore e doloridos, era terrível, entretanto, sei que era um mal necessário, ou morreria de fome. A opção de comer carne crua ainda não estava totalmente descartada...

Devorei aquele cisne como um animal faminto, pois era isto o que eu era, um animal, uma fera sedenta por sangue, fria e perversa. Retirei seus ossos e os guardei, antes de assá-lo, guardei também um pouco de seu sangue num recipiente feito de argila, não quero e nem gosto, mas às vezes necessito de roubar alguns itens da aldeia, muitas vezes quase não retornei com vida à floresta, mas como disse, era um mal preciso.

À noite, após a refeição, peguei o recipiente no qual estava o sangue daquela inocente criaturazinha, joguei um pouco da água do lago, líquido no qual mata minha sede, mas não meu corpo, joguei também três de suas delicadas e macias penas níveas e com um de seus pequenos ossos mexi vagarosamente pronunciando as palavras que chamam o Ceifador, ele... O guardião desta floresta, ele possui o bem e o mal diante de seus olhos, traz a vida e a morte em suas asas negras como a noite acolhedora, era ele que guardava-me, além de meus fiéis companheiros.

Venha, poderoso Ceifador, venha até mim, sua serva! Venha esta noite, por mim...

Por dias, eu tive carne em minha mesa, carne pura e fresca, carne de cisne, até que enfim, já estava enlouquecendo tendo de caminhar por toda a floresta colhendo frutos repugnantes que apenas preenchiam o vazio em meu estômago, mas não saciavam minha fome. Finalmente carne, macia, quente, carne na qual eu tive o prazer de matar e ver morrer...

Estava agindo feito uma fera, bebendo até o sangue daquelas aves malditas, dia após dia me tornando cada vez mais um ser irracional e faminto, porém faminto pelo quê? Por carne, por sangue, por matar? Eu apenas tinha uma fome dentro de mim, uma enorme vontade que não era saciada nem por carne de ave nem por seu sangue nem por vê-la morrer, mas pelo quê? Já não sabia mais quem eu era, humana ou animal...

Depois de um tempo, eu havia conseguido armazenar muito sangue daqueles pássaros ebúrneos, tentei beber, mas a ânsia fazia-me vomitar as pequenas doses do rubro líquido que ingeria, então resolvi deixá-lo guardado. Decidi então pintar uma das paredes de minha caverna, desenhando símbolos protetores que manter-me-iam segura do maior mal chamado Homem, enquanto pintava, ia pronunciando baixinho palavras que não se deve revelar, nem mesmo num diário, pois há coisas que devem permanecer em segredo para sempre.

Todavia, algo deve ter saído errado, pois ouvi ruídos assassinando o silêncio, meus guardiões rosnaram em estado de alerta, seus olhos pratas feito o luar atentos ao arvoredo, tentei ir até o lado de fora de meu esconderijo, mas me impediram, rosnando e olhando em meus olhos, isto era um sinal, havia alguma coisa perigosa naquele lugar e estavam tentando proteger-me. Corri para o interior de meu refúgio, a caverna era longa e cada vez que adentrava-se, mais escuro ficava. No escuro estava segura, ninguém encontrar-me-ia, pois não haveria como me ver aqui.

Pude ouvir gritos, vozes humanas, eram eles... Aqueles malditos camponeses, desgraçados! Escutei que um havia encontrado a entrada de meu lar, onde estariam meus companheiros num momento destes? Não conseguia ouvi-los por perto... Onde estarão vocês, meus amigos, apareçam! Preciso de vocês...

Escutei seus passos em direção à entrada, até ouvir gritos altos e dolorosos, aí estão vocês, queridos! Tinha certeza que não deixariam que nada acontecesse a mim, pois sei que estão guardando meu corpo e minha alma a mando da minha deusa, Ela quem os nomeou e os destinou a mim, até o momento em que possa vir levar-me para longe daqui.

Ouvi mais rosnados, uivos, gritos que quando adentravam esta caverna soavam ainda mais alto do que realmente eram, pois o eco aumentava o som e fazia-o emanar por todo o local. Não importava, era tão prazeroso imaginar todas aquelas presas cravadas uma a uma naqueles corpos grosseiros e malditos, a carne despedaçada, o sangue jorrando, a vida fugindo pouco a pouco por seus dedos.

Grite... Grite, camponês... Grite cada vez mais alto, a plenos pulmões, pois assim esvairá também suas forças, o que será melhor, não tendo forças não terá como fugir, não tendo como fugir o teu destino era apenas um, infelizmente o destino que deveria ser meu, mas minha imaculada deusa sabe o que faz, confio em tua justiça e se acha que deves partir primeiro que eu para pagar por teus pecados, assim será e devo aceitar, como sua fiel e dedicada serva.

Após gritos e mais gritos finalmente o som do silêncio, ele voltara a reinar supremo por toda a floresta, ah como esperei por ele! Ouvi alguns latidos mais brandos vindos da entrada de meu lar, presumi que um de meus guardiões estava avisando-me de que já era seguro e que poderia sair, o perigo já estava extinto.

Ali, na entrada de meu abrigo, estava ele, o corpo frio e despedaçado do desgraçado camponês, o sangue manchando a fachada de minha casa, profanando o solo que por direito é meu, olhei nos olhos de meus guardiões e pude ver o quão frios e calculistas poderiam ser. Bons meninos que são!

Um outro havia trazendo-me algo entre seus dentes, estendi a mão para receber o precioso presente, era até mais que precioso, era um troféu conquistado com esforço e bravura, mais que merecido, o coração intacto e ainda batendo daquele humano desprezível. Observei-o friamente, acompanhando seus batimentos até findarem-se, pensando somente numa coisa: não terei carne de cisne para o jantar esta noite...

À noite, após minha deliciosa refeição, sentei-me em minha cama observando a parede com os símbolos que havia pintado e pensando: o que dera errado hoje? Talvez eles já estivessem na floresta, talvez eu merecia ter morrido esta manhã, talvez tudo fora em vão... Não pode ser, eu saberei quando for meu momento de partida.

Era impressionante, para todos os lugares que olhasse veria a Morte, ela está sempre ao meu redor, não posso evitá-la, odiá-la, esquecê-la, ela sempre esteve comigo, desde meu primeiro suspiro ao último que darei ainda não sei quando, ela está aqui, olhando para mim, zombando de minha face por querê-la tanto. Por que fazes isto comigo, amada Morte? Eu a quero, vens até mim! Suplico-te, minha querida, venha ao meu encontro...

Tens pena de mim, amada deusa, todos os dias confio-te vidas insignificantes para que possa um dia buscar minha alma e embalá-la em teu peito tão terno para ter o justo e infindo sono que tanto espero, por favor, clamo por ti, querida, venha até mim, leve-me embora contigo, faça-me feliz, faça-me tua, eternamente tua...

Linda donzela, tens pena de mim...

A lua, esta noite, escondeu-se na escuridão, eu também me escondi, tendo devaneios esperançosos, ilusões dolorosas, para que deveria ter-se esperança? Grito e ninguém ouve-me, choro e ninguém enxuga minhas lágrimas, apenas encontro conforto na única certeza desta existência odiosa.

Nesta noite, a tristeza e o tédio estão fazendo amor em meio à escuridão como dois ébrios apaixonados, dando origem a dois malignos frutos: a dor e a loucura, que quando crescem são duas sombras sem rosto e sem caráter consumindo seus corpos nas trevas de uma noite qualquer, descobrindo prazeres ocultos e nunca sentidos antes, juntas, elas se amam e se odeiam, uma completando a outra, saboreando-se até matarem a si próprias.

Era assim que me sentia esta noite, um misto de tristeza e tédio que concebem dor e loucura e elas um dia vão acabar me matando, consumindo todo o meu ser. O sono vem de repente e com ele o extremo cansaço, amanhã seria um novo dia, o dia em que eu espero que a Morte venha buscar-me, sonharei e aguardarei ansiosamente por este magnífico momento... Adeus.

***

Mais um tenebroso dia se inicia, a dor de abrir meus olhos ao invés de para sempre mantê-los fechados me invade, logo a vida que eu deixei para que o sono dominasse-me começa a penetrar em meu corpo, sinto meu coração voltando a bater, o sangue voltando a circular e a terrível sensação de fome a me perturbar.

Fui até o centro da floresta, onde ainda há algumas poucas árvores frutíferas na qual posso ter algum alimento. Não posso forçar minha morte, ela precisa ser espontânea, vir por si mesma e não porque a chamei, mas quando? Quando ela virá? Não mais suporto esperar...

Após a refeição, notei algo desagradável, alguns de meus vestidos estavam rasgados, isto sempre ocorria, malditos galhos secos! Não posso crer que terei de fazer isto de novo, ah não... Porém não poderia deixar minhas vestes no estado em se encontravam, eu teria de fazer por bem ou por mal.

Vesti minha capa negra, sempre que a vestia sentia que a noite materna e protetora caía sobre mim, quente e aconchegante, e com imensa cautela, espreitando por trás de cada árvore falecida para que nada nem ninguém pudesse notar minha presença, cada passo era como se pisassem em ovos, o mais extremo cuidado possível, ali eu não era e nem nunca fui bem-vinda e se alguém avistasse-me, poderia não mais ver a luz do luar novamente.

O caminho era um pouco longo, entretanto, tornava-se mais demorado quando precisava-se ter o máximo de cautela, a paciência era algo imprescindível naqueles malfadados momentos, tanta atenção e desvelo, pois apenas um erro e eu pagaria com minha pobre e desventurada vida.

Já começava a ouvir os sons vindos da pequena e pacata aldeia, avistava até os casebres de madeira, vi através de algumas árvores homens fabricando madeira, serrando, martelando, pescando num pequeno córrego que cruzava o lugar, notei o humilde mercado onde vendia-se tecidos, frutas, artesanatos e outras coisas simples nas quais não podiam viver sem, as mulheres lavando roupa à beira do rio enquanto as crianças brincavam de pega-pega.

Quantas vidas! Uma mais diferente da outra, porém todas se completavam, se uniam, se amavam... Pareciam tão felizes, a tristeza não vivia ali, dia e noite sorrindo como se o universo conspirasse a favor deles. Como isto era possível? Como podia haver tanta felicidade junta em um só lugar? E o pior, o que era felicidade? Eu não sei e nunca soube, nem mesmo quando era criança, sendo criada numa família com ânsia de matar e de praticar cultos sobrenaturais.

Como era esta vida que viviam ali tão perto de mim? Confesso que tinha inveja e ao mesmo tempo repulsa de toda aquela alegria, por que sempre viver sorrindo? O que tanto lhes fazia feliz que a mim não afetava? Por que a dádiva de sorrir me fora roubada violentamente?

Não consigo entender a raça humana, sempre cheia de problemas, um mais complicado que o outro, uns tão egoístas e outros tão solidários, o que os tornavam tão diferentes e ao mesmo tempo tão parecidos uns com os outros? Morte, queira levar-me o mais rápido possível, sim, já não mais aturo viver entre uma espécie tão confusa e complicada quanto esta.

São seres imperfeitos cometendo erros e derramando dor e desgraça por onde passam, como podem dizer que são a imagem de Deus? Como este Ser pôde permitir que seus protótipos tão defeituosos pudessem dizer que são seu reflexo? Se eu fosse Deus, acabaria com este mundo e o iniciaria novamente, há muitas coisas que precisam ser mudadas por aqui.

Conhecia um caminho que iria dar no simples e pequeno tear daquela vila, lá haviam várias linhas de lã, finas, grossas, pretas, brancas, coloridas, algumas mulheres passavam o dia todo fazendo a roupa de seus maridos, seus filhos, ensinavam as meninas a dar seus primeiros pontos, fiando até seus dedos sangrarem.

Era uma aldeia longínqua, cercada por árvores e mais árvores, tranqüila, nada nem ninguém podia fazer-lhes mal, nasciam e morriam ali, a não ser alguns bravos guerreiros que saíam em busca de aventura, porém poucos deles retornavam, os demais habitantes tinham medo de desbravar aquelas terras além bosque, não sabiam o que podiam encontrar ou pior, se um dia iriam voltar.

Ali, era um lugar escondido do mundo, protegido pelas árvores que ainda viviam, no meio delas haviam animais os quais lhes serviam de alimento e proteção, peixes, água fresca, limpa e doce, criavam galinhas, ovelhas e três vacas leiteiras, colhiam frutas, faziam ferraduras para os poucos cavalos que serviam de transporte quando fosse necessário cavalgar por entre o misterioso arvoredo no qual impede a luz do sol de aquecer aquela terra fria.

Poderia ir embora se quisesse, mas no fundo não queria, ao mesmo tempo que corria perigo, estava segura ali, não sei ao certo, mas sem contar os camponeses, nada mais poderia me fazer mal, e se ousasse ir embora para sempre daquele lugarzinho no meio do nada, quem sabe o que poderia encontrar em meu caminho? Começava a achar que realmente não queria partir, deixar minha terra, o solo onde fui concebida e onde meu corpo gélido descansará eternamente, não posso abandonar este solo amaldiçoado pelo sangue que corre em minhas veias, não posso deixar meus guardiões... Não, não posso ir. Aqui eu nasci, aqui eu morrerei, não há outra escolha, outro caminho, é assim que tem que ser...

Os olhos atentos como os de um lince, esperando o menor deslize que qualquer donzela que estava no tear pudesse cometer para que rapidamente entrasse e roubasse uma agulha e um novelo de lã, até que o momento por mim tão esperado aconteceu, era minha única oportunidade e se não agisse naquele instante, nunca mais...

Era a hora do almoço, o momento em que todos paravam tudo que estivessem fazendo e seguiam para suas casas, desfrutavam dos alimentos e da companhia familiar por algumas poucas horas, era a minha chance. Esperei todas as mulheres e jovens saírem da pequena construção de madeira pacientemente e quando não havia mais ninguém ali e nem por perto, entrei silenciosamente.

Era ridículo alguém como eu ter de precisar de coisas banais vindas destes malditos camponeses, algo inaceitável! Porém não havia por que me queixar, era isto ou ter as vestes aos poucos reduzidas a pó.

Avistei uma cesta na qual continham alguns novelos de lãs e algumas agulhas enterradas entre as grossas linhas brancas e pretas, a escondi com minha capa e quando estava preparando-me para sair daquele lugar pouco iluminado, ouço uma estranha voz dizer:

___ Quem está aí? É você, Josefina?

Tentei silenciar-me, mas o medo que corria por minhas veias fez minha respiração ficar ofegante. A voz era feminina, entretanto, com um aspecto um pouco cansado, eis que avistei, era uma idosa, a frágil luz do sol que passava por um pequeno espaço da janela entreaberta iluminou seu rosto repleto de rugas, refletia o tom encanecido que tinham seus cabelos, ela mancava e lentamente aproximava-se de mim, que cada vez mais ocultava-me no lado onde a tênue luz do dia não alcançava.

___ É você, Josefina?___ indagou a anciã novamente, chegando cada vez mais perto.

Por mais que tentei evitar, o inevitável aconteceu, suas mãos pequenas e enrugadas tocaram as minhas e com um gemido surpreso ela disse:

___ Oh, meu Deus! Está fria como um cadáver, Josefina querida!

Pude ver no fundo de seus olhos que a cegueira tomava-lhe pouco a pouco, isto era ótimo para ser usado a meu favor, pois assim não poderia olhar em meu rosto nem saber quem eu era, achava que era uma tal de Josefina, nem ao menos sei de quem se tratava, mas nada disse, minha garganta estava seca e mal podia engolir, tinha de admitir que estava amedrontada.

___ Josefina, o que houve? Diga alguma coisa, meu bem?

Então suas mãos tocaram meu semblante pálido, estava suando frio, foi tão estranho, aquelas pequenas mãos acariciaram meu rosto de modo que eu nunca sentira antes, um carinho que eu nunca tivera da parte de ninguém, um carinho que por um momento derreteu o gelo que paralisara todo o meu corpo.

Sua voz era doce e seu toque era cálido como o fogo, algo incomum e que surpreendera-me de um modo que seria impossível descrever em palavras, receio dizer, mas senti vontade de chorar, algo vergonhoso! Mas, não mais importava...

Minha pele estava estremecendo com o calor de seus gestos, até que uma outra mulher adentra o local e começa a gritar ao ver-me ali, ela dizia em voz alta:

___ Bruxa maldita! Bruxa maldita! Ela está aqui! Peguem-na! Bruxa maldita!

Em questão de poucos segundos eu a empurrei e corri o mais rápido que pude, ainda ouvindo seus gritos histéricos e desvairados repetindo a mesma frase incessantemente.

Corri o mais rápido que consegui, estava tão ofegante e confusa que mal notei o tronco em minha frente, caí e senti que havia feito um doloroso corte em um de meus joelhos, acidentalmente arremessei a cesta a alguns metros de distância de meu corpo espalhando os novelos de lã.Tentei levantar-me, mas senti muita dor, tentei ignorá-la, até que neste momento surge um camponês e salta sobre mim, apertando-me cada vez mais forte, entrei em pânico. Por mais que me debatesse na esperança de fugir, estava com dor e minhas forças se esvaíam, temia que logo não pudesse mais resistir, ele era mais forte que eu.

Vi que de dentro de sua bota, o homem retirara uma faca de prata, em seus olhos não havia um pingo de piedade e certamente enterraria o gume afiado em meu peito sem pensar duas vezes, foi então que a luz deixara meus olhos e meu coração acelerou as batidas faltando até o ar em meus pulmões.

Ele olhou em meus olhos com uma sede por acabar comigo e disse baixinho somente para que eu pudesse ouvir:

___ Te peguei, sua bruxa imunda! Agora eu livrarei a aldeia da tua presença maligna, sua desgraçada maldita!

A faca erguida na direção de meu peito, será que era chegado meu momento de partir? Se sim, não haveria o que temer, dentro em breve eu estaria nos braços do Anjo da Morte, logo eu estaria liberta do mal que chamam de vida...

Vá em frente, maldito camponês, crave este gume em meu coração, dilacere-o até que não reste nada, até que todo o sangue seja derramado não restando ar em meus pulmões e nem ao menos um sopro de vida dentro de meu ser obscurecido.

Finalmente meus guardiões surgiram de trás de cada árvore daquela floresta sombria, seus olhos dourados e raivosos, suas presas à mostra, a atenção daquele desgraçado aldeão voltara-se somente para meus fieis protetores dando-me a chance de jogar seu corpo para o lado e arrastar-me para longe dele.

O humano quis apunhalar-me, mas um dos lobos subiu em suas costas mordendo-o fortemente no pescoço, isto fora um sinal, uma deixa para que todos os outros da matilha avançassem e usufruíssem de um saboroso banquete.

Apreciei de perto a vida abandonando-o aos poucos, até cair no chão, morto. Todavia, seus olhos ainda estavam fixos em mim, isto estremeceu-me, ainda não sei ao certo por quê.

Levantei-me com muito esforço e, erguendo meu longo vestido, pude notar o corte profundo em meu joelho, havia muito sangue e uma fortíssima dor, assim que chegasse em minha caverna iria fazer um curativo.

Recolhi os novelos espalhados pelo chão de terra, sorte que as agulhas entrelaçadas nas linhas não se soltaram, recoloquei-os de volta na cesta de bambu e segui mancando lentamente até minha fortaleza de pedras.

Fora difícil lavar e esterilizar o ferimento, ardia mais que fogo, a dor era insuportável, o corte fora um pouco grande e profundo, não parava de sangrar, até que passei sobre a ferida algumas ervas medicinais colhidas pelas redondezas de minha morada e depois, amarrei um pano limpo e seco, depois disso, eu ainda sentia latejar.

Precisava esquecer daquela dor, porém era quase impossível, por mais que relutasse contra isto, eu ainda estava ligada às dores mortais, ainda sentia, chorava, gemia, sonhava como qualquer outro ser humano repugnante, não conseguia aceitar tal qual realidade.

Costurei os vestidos que precisavam de remendos, fui até o lago e os lavei, estavam sujos e empoeirados, deixei-os secando e fiquei sentada em minha cama improvisada sem ter o que fazer ou em que pensar.

Nesta tarde vazia mal consigo saber o que escrever, o tédio não mais me surpreende, porém em certas ocasiões causa-me uma tremenda irritação, não haviam pensamentos em minha mente, iam e vinham como o vento, mas nenhum permanecia, tantas lembranças confusas que aos poucos se apagavam da memória e quando tento recordá-las, não consigo.

À noite, retornei ao lago de águas escuras e à beira delas, apreciei o brilho prateado da lua, tão solitária num céu enegrecido... Não sei o que as pessoas vêem de tão especial e sublime neste círculo níveo e tão distante de todos, penso que não deveria existir, pois assim a noite ficaria mais interessante, sem luz alguma, seria apenas uma escuridão infernal.

“Que noite fria!”, diz o vento que assovia ao pé de meu ouvido, uma sensação estranha, é o vento que se entranha, em meu interior. Esta sensação... Sei qual é teu nome e que quando estás com fome, alimenta-se do frio, o frio que toca minha pele causando-me arrepios.

Será numa noite como esta que a Morte irá levar-me? Seria magnífico! Uma noite sem estrelas, um céu de nuvens sombrias e soturnas, uma gélida brisa cortando as árvores, o silêncio mortal e acolhedor, o pálido e ardoroso luar a banhar meu corpo frio às margens deste misterioso lago de profundezas desconhecidas, seria perfeito, seria único, seria bom demais para não passar apenas de um devaneio.

Devaneios e mais devaneios, era tudo que tinha em noites escuras e solitárias. Morte, querida, por que logo não vens? Quanto mais tinha de aguardar por tua chegada? Estou farta de esperar por ti, farta de fazer tudo para viver cada dia um pouco mais, estou fazendo a minha parte, aguardando-te pacientemente, quando farás a tua? Quando irá levar-me contigo, lindo anjo? Pelo visto queres ver-me definhar até não mais suportar, não é? Por quê?

Nesta noite, a lua brilha sozinha, sem uma alma para consolá-la, eu como ela estou só, fria por fora, vazia por dentro. Estou cercada pela escuridão onde nela se escondem as mais perversas e desconhecidas criaturas, loucas para devorar o primeiro descuidado que surgir neste lugar.

Esta era minha vida, esta era minha história, uma história contada por uma bruxa fugitiva, que vive escondida numa fortaleza de pedras e assim como seu refúgio, seu coração era sólido, esta bruxa matava por prazer, matava para sobreviver, matava com toda a fúria de não estar morta, matava porque era esta sua natureza, mata... Apenas para ter a morte ao seu redor.

O que esperar de meu futuro? Um caminho escuro e incerto, não sei o que será de minha alma a cada nascer do sol, não faço a mínima idéia do que poderá acontecer a cada vez que a lua surgir neste céu entenebrecido, o que será de mim? Fujo, escondo-me, vivo como fera, um animal irracional e sem emoções, era assim que devia ser? Por quê?

Por que eu não pude aprender o que é o bem e o mal? Por que eu não pude saber o que é o amor, a amizade, a vida? Por que todos estes anos tive que me submeter às artes ocultas sem nem ao menos poder questioná-las, apenas praticá-las, chamando por um alguém sem rosto e sem nome, desconhecido não somente por mim, mas por todos os mortais e mesmo assim tenho de servi-lo, por quê?

Eu não queria ser assim...

Retorno ao meu santuário, o recanto de minha alma perdida, sem mais o que sentir ou o que pensar, novamente o tédio começa a irritar-me, pois com ele sempre vem lembranças estranhas de um passado que deveria ter se consumido em chamas e as cinzas ascenderem até o negro céu noturno. Tudo deveria queimar, tudo deveria tornar-se cinzas, tudo deveria morrer para sempre...

Deito em minha cama de espinhos nos quais fazem minha pele sangrar, porém os pesadelos de uma noite escura e gélida curam as feridas, abrindo novas outras, mas não na carne, na alma, estas são mais difíceis de se curar, quase impossíveis de cicatrizar e nunca vão se apagar, jamais.

Boa noite...adeus!



Notas finais
Bom, espero que gostem!!! =D