Diário De Um Sobrevivente
3 Sexta-feira, 28 de dezembro de 2050
Notas iniciais
Ainda estou me recuperando do susto. Ter um revólver apontado para seu peito e levar um tiro de raspão não é a sensação melhor a se viver. Agora, a confusão já se acalmou. Estou deitado numa maca, em um lugar desconhecido, com um líquido gosmento indo para meu corpo, e que, de certo forma, cessou minha fome. Entendi um pouco por que ela permitiu minha vivencia. Mas há muitas informações a serem digeridas por mim.
Primeiramente, devo explicar os fatos do princípio. Talvez irei rir disto no futuro pela ação idiota pensada. Nas minhas condições em um passado não tão distante, hoje pela manhã, meu corpo já esgotava-se por falta de alimento. Decidi, então, recolher meus pertences e partir para o centro comercial da cidade. A finalidade seria roubar algum viajante. Precisava de dinheiro. Se tivesse dinheiro estaria feito. Porém um plano de uma mente desesperada não funcionaria perfeitamente.
Recolhi meus pertences em uma mochila que tinha, e a carreguei nas costas. Fui a pé até o centro sozinho. A cidade estava calma, alguns homens andavam a toa pelas ruas. Cambaleando para os lado, cheguei onde desejava. E logo meus olhos cansados fixaram-se em quatro pessoas. Eram viajantes de algum clã, disto tenho certeza. Haviam três homens, um deles era alto, possuía uma barba sem fazer, rente a pele, seu cabelo era moreno, e sua pele branca, usava uma capa preta como os outros homens. O segundo deles, era mais baixo que o primeiro, provavelmente tinha mesma estatura minha. Era loiro e estava concentrado nas armas que vendia na barraca a frente. O terceiro homem, era um asiático, cabelos negros lisos, e olhos puxados. Pergunto-me o motivo dele estar dentre os não-asiáticos. A quarta pessoa, foi quem mantive o olhar fixado por vários segundos. Era uma mulher. Sim, há uns meses não encontrava um corpo feminino nesse purgatório. Era alta, peso adequado ao meu ver. Seu cabelo era castanho claro, liso, e iria até o meio das costas preso em um alto rabo de cavalo. Vestia um short preto bem curto e em sua coxa havia um porta armas. Sua blusa de mesma cor deixava os ombros amostra.
Nos breves segundos distraído, percebi que as únicas pessoas ali, eram o grupo e eu. O comerciante havia ido em busca de um troco em outro ponto comercial por perto. Seria o momento exato para mim. Por mais que a beleza daquela garota me encantasse profundamente, teria de assalta-los. Mas, esqueci do detalhe de serem quatro contra um. Na hora, não pensei em nada. Sai correndo com meu resto de energia, passei ao lado da mulher e puxei a carteira da mão dela rapidamente. Afastei-me um pouco deles. Continuei correndo. Tudo iria ocorrer como planejado se eu não tivesse me sentido tonto e cambaleado para o lado. Justo na hora, a mulher percebeu a fraqueza e me mobilizou recuperando a carteira de minha mão.
— Quem é você? De qual clã pertence? Fale logo! — Disse ela seriamente me encarando. Eu a via toda embaçada, quase não ouvia também sua voz apesar de seu alto tom.
— Não sou de clã algum, me solte! — Remexi na tentativa de me soltar, em vão, mesmo contra a força de uma garota, posso afirmar, a força física dela era muito próxima a minha, senão, maior.
— Impossível, deve ser de algum clã.Pare de mentir! É estrategista de qual grupo? — Ela gritava nervosa em meus ouvidos. Estava passando muito mal, tudo girava ao meu redor, iria desmaiar em pouco tempo. Não a respondi. Antes até de perder a consciência senti uma mão bater em meu pescoço com força. No instante desmaiei, meu esforço foi inútil e ainda havia sido preso por viajantes. Ótimo plano!
Despertei não faço ideia quanto tempo depois. Só sei que ao acordar estava deitado nessa maca, olhei para os lados, ainda confuso e percebi tudo estar branco. As cortinas, a cor da parede e até a da porta. Poderia ser um hospital? Não... Não seria tão boa notícia assim. Uma sonda estava ligada ao meu braço e ainda está. Levantei-me sentindo já melhor, observei o céu pela janela abrindo a cortina com dificuldade por ter que arrastar a bolsa com a sonda. Já era noite. Fui até a porta de entrada e forcei a maçaneta. Estava trancada. Com certeza não era um hospital.
Voltei a cama, vendo não haver saída nenhuma a não ser repousar e colocar as ideias em ordem. Logo ao me deitar, a porta se abriu. Duas pessoas entraram. Uma delas era a mulher maravilhosamente bela. E outro era o loiro. Os dois pararam a minha frente e encararam. Pude reparar nos olhos da mulher por estarmos mais próximos. Um deles era de cor azul e o outro verde. Pensei imediatamente em mutação genética. Ela foi ao lado esquerdo da cama. O ambiente era de tensão. Resolvi pronunciar uma pergunta quando surpreendido. Ao mover meus lábios a mulher já apontou um revólver a meu peito.
— Não diga nada até que lhe perguntem.
Minha respiração acelerou-se. Quem eram aquelas pessoas? O que desejavam com um ladrão anônimo e desinteressante como eu? O silêncio tomou conta do lugar. A mulher me encarava. Percebi em seus olhos uma mudança. A pupila de seu olho verde dilatou-se incrivelmente demais. Não era paixão, ou algo do tipo. E sim, um acontecimento que nunca havia visto. Após alguns minutos, a arma continuou apontada para mim. A pupila dela retornou ao normal. O loiro quebrou o silêncio, mas preferia que ele continuasse quieto.
— Vale a pena deixar ele vivo? — Meus olhos demonstraram o quanto fiquei assustado. Meu coração acelerou, estava desesperado. Minha vida estava na mão daqueles dois? Que destino era aquele vindo a mim?
Mais silêncio. Estava me corroendo por dentro.
— Ele possui um Q.I. muito elevado...
— Quanto?
— Duzentos e cinquenta.
O loiro impressionou-se. Incrédulo.
— Impossível! Um ladrão meia-boca com duzentos e cinquenta de Q.I?
Aquilo me irritou. Ele menosprezou minha capacidade. Esqueci, até, que havia uma arma aponta para mim.
— Cale a boca, você não sabe nada sobre mim! Deixem-me ir embora! — Levantei-me desesperado. Queria dar um jeito de sair dali, era loucura, mas precisava tentar algo. A sonda soltou-se de meu braço violentamente conforme desci da cama. Ao mover-me um passo a frente, ouvi apenas o barulho de um tiro. Segundos depois senti um líquido escorrer por meu braço. Era sangue. Ela havia mesmo disparado contra mim. A bala pegou de raspão em meu braço direito. Parei com medo ao ver o líquido vermelho. Coloquei a mão sobre o ferimento a fim de estanca-lo.
— Não estamos brincando aqui... Ninguém brinca nesse local.
— Hellen! Não acabou de dizer que o Q.I dele é alto? — Exclamou o loiro.
— Sim, só estou alertando ele. Que tal...Vender sua inteligência para nós?
Essas palavras ainda ressoam em minha mente buscando um significado. Após perguntarem, eu não sabia responder. Qual era o significado disso? Vender minha inteligência? A que ponto os humanos deste lugar haviam chegado? Como transmitira meu conhecimento assim?
Carregado de dúvidas, vi uma senhora vestida de branco entrando no quarto após uns minutos da pergunta. Ela reparou em meu braço sangrando e pediu permissão a mulher se poderia me ajudar. A mulher permitiu falando suas últimas palavras nesse dia:
— Pense na resposta, amanha voltaremos. Espero que já tenha uma decisão tomada. Senão, esse sangue vai se espalhar por mais lugares além deste. Vamos. — O loiro a acompanhou até a saída enquanto a enfermeira enfaixou meu ferimento e colocou-me deitado novamente a maca com a sonda.
Agora reluto com dúvidas. Vender a inteligência de alguém.... Isso já é possível?
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