Diário De Um Sobrevivente
4 Sábado, 29 de dezembro de 2050
Sinto-me tão fraco agora ,sem nem compreender o motivo. Estou com uma fome imensa novamente, e até agora ninguém trouxe-me alimento. Isso aconteceu desde que a enfermeira entrou nesse quarto de manhã. Ela refez o curativo em meu braço, já que os gases já haviam ficado vermelhos novamente, e retirou a sonda com o líquido sustentador de minha energia. Enquanto o refazia resolvi preenche-la de questionamentos. Afinal, apesar daquele rosto de quem não sabia nada, ela certamente conhecia muito sobre esse lugar.
As dúvidas giravam em torno sobre o vender minha inteligência. Mesmo estando há tanto tempo nesse purgatório percebi que os meus conhecimentos sempre se tornam inúteis aqui. Não faço ideia sobre o significado disso. Como retirarão meus conhecimentos? Colocarão uma espécie de capacete para sugar toda a parte funcional e suas informações de mim? Em seguida darão um dinheiro significativo por isso? Sinceramente foi o que me veio em mente naquelas horas. É bem o padrão de filmes de ficção cientifica. Enfim, para descobrir se esse padrão era preservado nessa realidade acabei por perguntar. Para não ficar muito explicito meus interesses, comecei com uma conversa natural.
— A senhora é enfermeira daqui? ̶ Pronto. Já errei logo de primeira. A última, pior palavra a ser dita, saiu de minha boca com a maior inocência sem pensar sobre o ponto de vista feminino. É verdade, nós garotos não ligamos muito para essa história de idade, mas sim, mulheres se importam demasiadamente. E sim, ela é uma senhora de meia-idade, com alguns pés de galinha e marcas de rugas pelo rosto em um pequeno número. Porém, para alguém ansiando por informações importantes, feito de prisioneiro, não fora a melhor maneira de expressão a primeira fala.
— Senhora? Acha-me tão velha assim? ̶ Olhei com aquela expressão duvidosa. A vontade era dizer a verdade. Contudo não podia piorar a situação. A enfermeira começara a apertar a mão em meu ferimento. Não fiz expressão de dor, mas havia doído
— Desculpe-me, expressei-me dessa maneira porque não sei seu nome.
Ela abriu um sorriso pequeno. Graças a Deus.
— Não precisa saber. Chame-me apenas de enfermeira
—Certo. — Aquela seria a conversa mais estranha de minha vida se não fosse por minhas conversas com a mulher da noite anterior. Resolvi então tentar arrancar alguns outros dados, mas importantes, com certeza, do que o nome da senhora.
Ela então terminou o curativo, levantou-se e dirigiu-se a bolsa que continha o líquido passado para meu corpo. O líquido estava acabando. Estiquei meu braço para ela a pedido. Sem qualquer delicadeza ela retirou a sonda. Fiquei livre daquela maldita bolsa. Infelizmente acho que seria melhor ter ficado com o líquido correndo.
— Sabe... Esse negócio de vender a inteligência, trás prejuízos muito graves?— A expressão dela mudou. Foi como se alguma lembrança importante dela viesse à tona em sua mente. Seu corpo parou e ficara estável me observando sentado despojadamente na maca. Ela olhava para mim, mas seus pensamentos estavam, muito, mais muito longe dali.
— Poderia me... — Antes de completar a frase, fui interrompido
— Traz consequências maiores do que possa imaginar.
— Por exemplo?....
A mulher foi até a janela e abriu a cortina. Aproximei-me da janela junto dela. Tinha de conseguir enxergar por fora da janela, precisava tentar me localizar através da rua em que veria. Logo seu dedo apontou para vários seres humanos cambaleando de um lado para o outro, sem terem destino algum, sem sentido. Seriam os chamados loucos. Não era novidade para eu ver pessoas como eles. Sempre via outros parecidos próximos ao prédio em que morava. Até horas atrás, pensava ser fato da pressão dessa guerra toda. No fim, as palavras da senhora ainda permanecem frescas na memória
— Eles estão assim... Porque venderam suas inteligências. — Meus olhos arregalaram-se na hora. Senti um arrepio passar por meu corpo. Então eram essas as intenções das pessoas que estavam ao meu redor? Eles querem tirar tudo de mim, e depois me jogarem nas ruas como um objeto sem vida?
— Os desinformados e desesperados acabam caindo na aceitação de uma proposta como fizeram a você. Troque sua inteligência por um dinheiro de igual equivalência... Eles até pagarão, se conseguir, é obvio, manter-se como ser humano racional. O problema não é o dinheiro, o caso é... Você será um peso morto após o processo.
— Todos os casos são assim? O fato de perder a Inteligência torna os seres racionais sem nem mesmo seus primeiro ensinamentos básicos adquiridos quando criança?
— Na teoria não seriam todos os casos. Porém, na prática, os que quererem a inteligência de alguém a sugam até o máximo. Se, o vendedor não tiver mais sua consciência, o comprador não precisará pagar nada do preço combinado, certo? É uma questão comercial. Você se esquecerá de atos básicos aprendidos até quando criança. Torna-se uma morte dolorosa por dentro.
Que escolha teria? Um medo espalhou-se por meu corpo. Se dissesse a eles não querer vende-la, eles tirariam meu conhecimento a força ou me matariam? Um desespero tomou conta de mim, pensei em fugir, e admito essa ideia ainda passa por minha mente.
— Não deveria ter dito isso! — Lembrou-se a mulher. Ela rapidamente fechou a cortina, empurrou-me até a maca, e fez com que me deitasse nela. Fiz mais perguntas exaltado com a situação sem que me movesse. Meus olhos já demonstravam todo o terror sentido.
— Que horas eles virão conversar comigo aqui? Por favor, não se vá! Preciso saber ao menos disso! —Foi inútil, a mulher se afastou de mim com um olhar de "não diga a ninguém o que lhe disse" e saiu do quarto trancando a porta novamente. Deitei decepcionado na maca desconfortável. Olhei para o teto. Não haveria chances de escapar? Sentia-me mais preso do que antes.
Lembrei-me de minha irmãzinha, de minha mãe e de meu pai enquanto olhava o teto branco. Como será que eles estavam sem mim? Torço para que eles permaneçam bem. Ah, quanto desejaria poder observar minha irmã, vendo-a se formando na escola fundamental. Na verdade ela deve nem estar tão menor como imagino. Gostaria de saber se esta tudo bem com ela em sua escola. Sobre minha mãe, quero vê-la de novo. Observar aquele seu sorriso de satisfação a me ver ganhando a corrida da escola. Essa saudade é terrível, só espero que eles estejam em uma situação melhor que a minha aqui. Espero a guerra não ter chegado lá como vivo aqui.
Um aperto em meu coração sufocou-me. E se não conseguir mais encontrar com eles antes de morrer? Não queria isso... Pensava que ficaria com eles durante a maior parte de minha vida e de repente vi-me sozinho e sem amparo de ninguém. É tão difícil... Lágrimas escorrem de meu rosto. Até mesmo garotos choram. Não suporto mais ficar longe das pessoas que amo. Não suporto mais não poder protegê-las.
Enxuguei minhas lágrimas em meu rosto. Deveria ser forte. Decidi algo. Irei fugir. Não contei o fato de minha fraqueza estranha. Mas serei forte suficiente para sair daqui. Apesar de meu corpo cansado e com fome, preciso acreditar ser possível fugir. Tem de ser possível...
Fale com o autor