Diário 2.0

34 Capítulo XXXIV - Crescer


Notas iniciais
Feliz aniversário meu bem! Eu quero que saibas que te adoro, que tenho saudades e que espero que tenha toda a felicidade que lhe cabe. Eu te adoro.

Eu tenho escrito muito durante essa quarentena. Vocês se perguntam como assim? Mas você tem postado tão pouco. Eu tenho escrito muito, o livro. A história tem fluído com facilidade, talvez eu esteja tão frustrada que fugir para outro universo seja mais fácil. Mas sempre foi assim, não é? Fugimos através da leitura e da escrita, o problema é quando as coisas vão se complicando e a gente não sente mais que está fugindo e então travamos. Mas então por que você complica? Porque crescemos nas adversidades. Porque ter um problema é o que faz a história girar, até os contos de fadas tem um problema. Tem horas que não podemos mais fugir, precisamos crescer, mesmo que doa. E eu sei, isso é um saco.

Rachel acariciou os cabelos claros murmurando baixo para tentar acalmar Quinn. A loira estava tendo um pesadelo e de tanto se mexer acabou acordando a morena. Começou a cantarolar em voz baixa até que Quinn relaxasse e se recostasse nela enfiando o rosto no pescoço da atriz.

— Assim. – Sussurrou massageando o pescoço da namorada. – Vai ficar tudo bem. Tudo bem.

Sentiu Quinn esfregar o rosto contra o seu pescoço e se mexer mais lentamente.

— O que foi? – A voz rouca de Quinn chegou até os ouvidos da morena com um tom sonolento.

— Você estava tendo um pesadelo. – Rachel apoiou a bochecha no topo de sua cabeça. – Ficou agitada.

— Desculpe, te acordei? – Quinn ergueu a cabeça, Rachel sorriu vendo os cabelos despenteados e deslizou os dedos para tentar arruma-los.

— Está tudo bem. – Acariciou a mandíbula da loira. – Lembra do que estava sonhando?

— Uma guerra. – Quinn apoiou a cabeça contra os seios de Rachel outra vez. – Estava sonhando que estava em uma guerra.

— Uma guerra? – Rachel deslizou os dedos pela nuca da mulher a acariciando.

— Algo confuso, mas sim, uma guerra. – Suspirou satisfeita pelo carinho antes de murmurar sonolenta. – Talvez eu deva escrever uma…

Rachel continuou o carinho até sentir Quinn dormir outra vez, acariciou a coluna da mulher. Suas sobrancelhas franzidas, a autora estaria com febre? Durante o final de semana a loira tivera sintomas de gripe, pouca febre e nariz entupido. A morena achara fofo o nariz vermelho e os olhos pequenos, mas tivera o cuidado de verificar sua temperatura, dar os remédios e obriga-la a comer bem. Pegou o celular verificando que já eram 6 da manhã, ela deveria se levantar e começar a se preparar para o dia, mas Quinn estava tão confortável. A beijou nos cabelos antes de deslizar para fora da cama ouvindo o gemido de protesto, deixou seu travesseiro para a mulher agarrar. Olhou para a imagem de uma mulher loira de cabelos bagunçados agarrada ao seu travesseiro. Não resistiu e tirou uma foto, sim, ela poderia acordar todos os dias ao lado de Quinn e não teria problemas com isso.

*Diário*

A batida na porta fez com que Rachel desviasse sua atenção do piano. Russell estava parado no portal e um olhar inseguro pouco comum nos olhos verdes do homem.

— Senhor Fabray. – Ela deixou a partitura encima do piano e franziu as sobrancelhas.

— Professora. – Ele a cumprimentou com um pequeno sorriso, um pequeno sorriso que ela reconhecia. – Eu posso entrar?

— Sim, por favor. – Ela olhou em volta. – Meu escritório talvez seja um lugar mais confortável para conversarmos.

— Não, acredito que aqui seja um bom lugar para conversarmos. – Russell se aproximou de uma das cadeiras de seus alunos. – Se importa?

— Não, apenas estou… surpresa. – Rachel se sentou no banco do piano, mantendo uma distância saudável entre os dois. – Posso ajudar em algo?

— Na verdade eu vim justamente por isso. – Russell espalmou as mãos contra as próprias coxas o que Rachel também reconheceu como um gesto de nervosismo. – Eu gostaria de agradecer por tudo o que a senhorita tem feito, pelos meus filhos.

Suas sobrancelhas se arquearam e a surpresa tomou seu rosto.

— Eu sei que sua história com Quinn não foi fácil. – Ele se mexeu incomodado, mas seus olhos não desviaram dos de Rachel. – E sei que eu sou culpado por boa parte do comportamento dela, então eu também gostaria de pedir desculpas por isso, mas acima de tudo agradecer por permitir que minha filha tivesse uma segunda chance.

A morena lambeu os lábios tentando descobrir o que seria apropriado dizer.

— Eu também gostaria de agradecer pelo que a senhorita fez por Benjamin. – Ele olhou para baixo e em seguida fixou seus olhos nela outra vez. – Ele tem ido a uma psicóloga desde o ocorrido, não foi fácil. Não tem sido fácil. Eu sei que William te contou sobre como a mãe dele faleceu.

A morena concordou com a cabeça.

— Ela não aguentava mais lutar então se rendeu. – Ele engoliu a saliva. – Mas para ele foi uma traição.

— Nós conversamos a respeito.

— Eu sei, eu sei que conversaram. – Ele ofereceu um pequeno sorriso. – A senhorita precisa entender minha surpresa quando um dia cheguei em casa e o ouvi cantando. Era algo que ele já não fazia mais desde a morte da mãe, eu me sentei nas escadas de casa e fiquei o mais quieto que pude o ouvindo cantar e ele sentia tanta dor que eu pude senti-lo. Eu pude sentir o quanto meu filho estava sofrendo e ao mesmo tempo que isso era aterrador também era um alívio.

— A musica tem o poder de nos curar, de nos fazer acessar sentimentos que ignoramos. – Rachel falou em voz baixa. – Quinn sempre conseguiu desse jeito e eu pensei que Benjamin também pudesse tentar.

— Parece que meus filhos são mais parecidos do que eu imaginava. – Ele deu outro sorriso pequeno.

— O senhor quer a minha ajuda com Quinn? – Rachel foi direto ao ponto.

Ele a olhou por um momento e negou com a cabeça.

— Eu estaria mentindo se dissesse que isso não me passou pela cabeça enquanto vinha para cá, mas não. – Negou outra vez. – Quinn precisa de tempo e eu estou disposto a dar o tempo que ela precisar.

— E se ela não puder voltar? Não puder te dar uma relação?

— Então eu terei todo o resto do tempo para lamentar. – Sua resposta calma fez Rachel arquear as sobrancelhas outra vez. – Eu vim para lhe agradecer pelas mudanças que a senhorita fez em meus filhos, mas também vim para lhe pedir desculpas.

— Desculpas? O senhor já pediu.

— Sim, desculpas pelo meu comportamento em relação a sua família. – Ele viu os ombros de Rachel se endireitarem. – Eu fiz comentários maldosos em relação aos seus pais e em relação a sua criação. Eu tentei usar de minha influencia nessa cidade por incontáveis vezes para prejudica-los e eu me arrependo disso. E se um dia eu tiver a chance de pedir desculpa aos dois, eu prometo a você que farei com todo o meu coração.

— Bem, eu sei que papai não guarda rancor. – Rachel inclinou a cabeça e quando viu a confusão do homem correu em explicar. – Hiram, eu chamo Hiram de papai.

— Ah, ele é o médico, certo? – Ele parecia genuinamente interessado.

— Sim, ele é o médico. – A morena concordou com a cabeça. – Mas não posso garantir que meu pai Leroy lhe ouça, para ser sincera no momento ele não quer nem me ouvir e nem eu a ele.

Russell franziu as sobrancelhas e estava prestes a perguntar o motivo quando a morena foi mais rápida.

— Quinn me contou sobre o AA. – Rachel se mexeu no banquinho, cruzando os dedos a frente dos joelhos. – E sobre sua revelação religiosa, confesso que fiquei feliz pelo senhor.

— Eu também. – Ele concordou com a cabeça e seu sorriso foi mais confiante. – Me sinto um homem melhor agora, mas ainda tenho erros, acredito que todos nós temos.

— Acredito que sim. – Rachel concordou com a cabeça.

— Eu sei que a senhorita é judia. – Ele manteve o sorriso. – Eu confesso que fui desperto para uma certa curiosidade a respeito e estou tentando estudar a respeito.

A surpresa tomou o rosto de Rachel pela terceira vez.

— Me chame por Rachel. – Ela se pegou falando.

— Então me chame por Russell. – Ele respondeu e seu sorriso era tão bonito que Rachel o reconheceu como o sorriso de Quinn.

E naquele momento, Rachel Berry teve certeza que estava diante de um homem realmente mudado. Russell Fabray poderia facilmente ter um lugar no seu futuro se Quinn conseguisse perdoa-lo.

*Diário*

Bateu na porta do quarto, Beth estava sentada em sua escrivaninha. Shelby parou na porta antes de entrar.

— Hoje eu falei com Rachel. – Se sentou na cama, viu que a menina não reagiu. – Ela me disse que Quinn pegou um resfriado.

Notou que a escrita da menina diminuiu a velocidade no caderno apenas por um instante antes de parar.

— Ela está bem, Rachel tem monitorado os sintomas. – Inclinou a cabeça. – Mas seria bom você ligar e falar com a sua mãe.

— Você é a minha mãe. – Beth resmungou.

— Beth, a Quinn é sua mãe. – Shelby apertou a ponte do nariz. – Ela te ama, ela cuida de você, ela gosta de te mimar e de te educar.

— Mãe, por favor. – Beth deixou o lápis contra o caderno e se virou para olha-la. – Eu não quero falar de Quinn, eu não quero estar perto dela. Ela é uma pessoa horrível.

— Ela não é uma pessoa horrível, ela era uma adolescente com problemas. – Shelby olhou para a filha com severidade. – Sua mãe era uma adolescente com problemas sérios e que não sabia como resolve-los, então fez a única coisa que sabia. Atacava para se defender. Isso é um problema entre Quinn e Rachel, elas estão resolvendo esses problemas. Rachel perdoou Quinn por tudo o que aconteceu e elas seguiram em frente ainda na escola. Por mais que te doa ver que Quinn teve um comportamento tão semelhante as de suas colegas de escola, o que ocorreu entre elas na adolescência não é um problema que lhe diz respeito. A você cabe respeitar a sua mãe e parar com a birra, Rachel pediu para lhe avisar que elas passarão o Ação de Graças em NY e que você e eu somos convidadas se quisermos.

— Eu não quero. – Beth olhou para o caderno. – Meu pai vai vir e eu quero ficar só com ele.

— Está bem. – Shelby suspirou se colocando de pé. – Eu quero que você pense bem no que está fazendo. Por que as suas atitudes estão magoando muitas pessoas.

Beth olhou para o caderno ouvindo a mãe sair, seus olhos se desviaram para o porta-retrato que tinha na estante de livros. Era uma foto sua com o pai e a mãe quando ela era apenas um bebê, Quinn havia lhe dito que aquela foto fora tirada logo após o seu nascimento, era uma das poucas que eles tinham.

Ela estava magoada em ver que Quinn não era tão perfeita quanto sempre imaginou. A mãe era sua heroína, sua fonte de inspiração. Ela via em Quinn a força inabalável de nunca desistir, mesmo nos piores momentos. Desde pequena ela sabia da condição de saúde da mãe, aprendeu a lidar com o medo e com o combo que vinha junto. Todas as vezes em que Quinn adoecia, Beth sentia medo. Ela perderia a mãe? Seria o HIV? Ela estava com medo agora. Seria só uma gripe? Seria o HIV?

Ela sentiu a mão coçar em direção ao celular querendo ligar para a mãe. Mas o orgulho dos Fabray era parte do seu DNA e movia cada uma de suas células.

*Diário*

— Seu pedido ainda é um mocca, certo? – Ele ouviu aquela voz que estava ao seu redor há quase um ano, ergueu a cabeça e ali estava.

Blaine Anderson já não usava mais uma quantia absurda de gel nos cabelos e não tinha mais o rosto liso como uma criança. Não, agora seus cabelos eram arrumados com a medida certa de gel e até deixavam seus cachos aparecerem com um ar moderno. E seu rosto tinha aquela barba rala que lhe dava um charme de homem adulto.

— Blaine? – Kurt gaguejou e quase imediatamente sentiu o dedo nu da aliança retirada há semanas. – O que está fazendo aqui?

— Eu resolvi voltar. – Ele pousou a bebida na frente do Hummel e puxou a cadeira para se sentar. – Cansei de Londres eu acho…

— Você acha? – Kurt fechou o relatório que estava lendo.

— Eu percebi que não queria estar realmente lá, sim eu tinha um bom trabalho, mas cansei de voltar para um apartamento vazio.

— Blaine…

— Eu sei que você e Sam voltaram, não estou aqui para me intrometer entre vocês. – Ergueu as mãos calando o outro. – Eu agi errado, Kurt. Mas no final, vocês estão aqui e eu fiquei lá enquanto Rachel estava aqui passando por tudo isso. Percebi que eu tinha perdido mais do que apenas você e eu não estava feliz.

Kurt engoliu em seco.

*Diário*

A campainha tocando insistentemente fez com que Quinn descesse as escadas correndo. Abriu a porta que dava para a rua dando de cara com uma mulher que ela muito raramente via, o que para Quinn era motivo de prazer. Alta, magra e de cabelos presos severamente e roupas tão severas quanto.

— Sra. Puckerman? – A loira arqueou as sobrancelhas. – O que houve?

— Schuster me disse que eu poderia te encontrar aqui. – Sua voz não estava com a amargura que sempre dirigia a mulher, estava contida. – Eu… eu…

— Está tudo bem? – Quinn franziu as sobrancelhas. – A senhora quer subir?

A mulher esticou um pedaço de papel com as mãos tremendo. Quinn olhou para o papel e para ela antes de segura-lo. O emblema no alto da página fez seu coração parar.

*Diário*

— Vamos. – Rachel bateu palmas. – Eu quero ver se vocês têm ensaiado o que eu passei para cada um de vocês, é imprescindível que vocês treinem. As sectionals estão se aproximando e eu quero que testemos algumas músicas para estarmos afiados.

Ela se virou para falar com o pianista e viu Schuster parado na porta sem saber se deveria entrar ou não.

— Professor. – Ela o chamou com um sorriso. – Quer assistir a aula? Nos ajudar talvez?

Will a olhou com uma dor mal disfarçada e Rachel sentiu seu sorriso morrer aos poucos.

— O que foi? Aconteceu algo?

Ele entrou naquela sala que fora seu refugio por anos. Na sala em que ele vira todos crescerem e se tornarem o melhor que poderiam, seus olhos lacrimejaram e seu queixo tremeu.

— Cindy Puckerman acabou de me ligar. – Sua voz rouca, mas ele não precisou terminar de falar, o olhar no rosto de Rachel deixou claro que ela sabia.

— Não. – Ela murmurou. – Não. Ele ia voltar para o Ação de Graças.

Will apenas esticou os braços e a envolveu paternalmente.

— Beth… — Foi tudo o que Rachel conseguiu murmurar.

Notas finais
@just_someone13