Diário 2.0
29 Capítulo XXIX - Farol
Notas iniciais
Eu sempre gostei de faróis, eu sempre achei que a função de um farol era algo poético. Eles traziam de volta os barcos que navegavam durante a noite. Eles eram um ponto de referência, uma luz diante do breu. Esses dias vendo o Crossover anual do Arrowverso um dos meus personagens favoritos falou sobre isso. Quando perguntado o porquê de ter adicionado preto ao seu símbolo ele com sua força inabalável e sua essência digna respondeu que “a esperança é a luz que nos tira da escuridão”. Eu gosto de faróis.
Quinn estava sorrindo encolhida contra o sofá, os fones no ouvido e um cantarolar baixo saindo por sua garganta. Rachel estava parada na porta que levava para o pequeno corredor do quarto e do banheiro.
— Por que está com esse sorriso? – Perguntou curiosa se aproximando.
A loira sorriu para ela e retirou um dos fones estendendo para ela, abriu as pernas para a morena se ajeitar entre elas. Rachel colocou o fone sem questionar e imediatamente ouviu a música recomeçar.
— Eu estava ouvindo essa música e… me peguei pensando que é verdade. – Murmurou olhando para a morena que tinha as sobrancelhas franzidas em concentração.
— É aquele cantor que Beth gosta, não é? – Olhou para ela.
— É. – A beijou nos cabelos escuros. – Ele está cantando para uma criança, é como uma… música de ninar. – Acariciou a mão de Rachel. – Ele está dizendo que por ela, ele construiria um mundo inteiramente novo, que eles teriam uma casa em Marte do jeito que ele prometeu. – Sentiu Rachel se mexer para poder lhe olhar. – Porque ela é uma princesa que se beijar um sapo o transformara em um príncipe, ele é o soldado que sempre estará com ela e se preciso for entregaria a vida por ela. – Sorriu vendo o olhar de atenção da morena, sua entonação mudou ficando mais cantada como a melodia da música. – Os vilões estavam tão velhos que precisaram se aposentar, então um cigano chegou e ao ler sua mão… — Pegou a mão de Rachel e fingiu examiná-la. – Ele me disse que você voaria. Eu te amarei e você me amará e se no final não existir um final perfeito eu terei que inventá-lo e escrevê-lo para você. – Sorriu um pouco envergonhada com o olhar que a mulher lhe dava. – Eu te dei um dinossauro chamado Juan e ele tem todos os poderes do Superman, mas para sair de férias precisara voar… ele é um pouco grande e não cabe no carro. – Ouviu a risadinha melodiosa de Rachel. – Eu escreveria todas as histórias do mundo para você, você poderia lê-las enquanto navega e eu estaria te criando um mundo novo. Pois mesmo que eu ainda não te conheça, a verdade é que eu te conheço e o que está nos meus olhos você sempre terá. Todas as noites eu te inventarei novas histórias porque sempre serás a minha Elena.
— Ele fez uma canção de ninar para a filha que ainda não teve? – Rachel sorriu carinhosa.
— Ele fez, e eu entendo cada palavra que ele disse. – Acariciou a linha do maxilar da mulher. – Porque eu faria cada uma dessas coisas pela minha filha.
Rachel suspirou e apoiou a testa contra o queixo de Quinn.
— Ela vai se acalmar, você vai ver. – Acariciou o rosto da autora.
— Eu espero que sim, porque caso contrário eu não tenho ideia do que vou fazer. – Quinn desligou a música e tirou o fone que usava.
— Ela te ama, Quinn. – Rachel a puxou de volta obrigando a loira a lhe encarar. – Durante a Ação de Graças eu vou falar com ela, vou explicar as coisas e ela vai entender.
— Você vai ficar muito irritada se eu falar que olhei suas mídias sociais? – Quinn a viu suspirar e tentar se levantar, a prendeu.
— Por que você foi fazer isso? – Perguntou tentando manter a calma. – Para que ficar se torturando com isso? Onde está a mulher que me disse, não tem nem um mês, que ela aprendera a não ligar para a opinião de pessoas que não a conheciam de verdade? Cadê a mulher completamente segura de si? Você apenas fingiu ser ela?
— Não. – Quinn respondeu, soltou um suspiro. – Eu não fingi nada. Eu…
— Eu conheço você. – A morena se virou ajoelhando entre as pernas de Quinn, a segurou pelo rosto. – Eu conheço você, então, por favor se importe apenas com o que eu penso. Eu quero deixar o nosso passado no passado, eu já te disse isso.
— Eu sei, e eu sei também que você vai acabar se cansando do fato de que eu não consigo deixar para lá. – Quinn sentiu o carinho em suas bochechas.
— Sabe o que eu quero? – Rachel se virou de costas outra vez e puxou os braços de Quinn entorno da sua cintura com firmeza. – Eu quero aproveitar essa noite com você, amanhã eu tenho que estar no McKinley e a verdade é que eu não tenho ideia do que esperar. Então eu quero que você me abrace a noite inteira, quero que nossos amigos venham para cá, que brinquemos como se ainda tivéssemos 17 anos outra vez. Eu quero que você me beije até Santana vomitar e quero dormir e acordar nos seus braços. Será que você pode realizar os meus desejos?
— Eu posso. – Quinn a beijou na bochecha antes de enfiar o rosto entre os fios escuros.
— Ótimo. – Rachel sorriu apertando o braço de Quinn.
Se sentou no meio daquela sala. Schuster havia acabado de sair, logo depois de anunciar que ela iria assumir o clube, então estava sentada ali encarando aqueles jovens. Ela os conhecia, pelo menos um pouco desde sua última visita com Quinn. Seus olhos deslizaram pelos adolescentes, alguns descrentes, outros simpáticos, um ou outro debochado.
— O que é o Glee? – Perguntou calmamente, percebeu a troca de olhares, tentava não olhar fixamente na direção de Benjamin que parecia estar segurando uma câmara. – Vamos, o que é o Glee? O que significa estar dentro dessa sala?
O silencio permaneceu forte.
— Eu costumava acreditar que fazer parte de algo especial te torna especial. – Ela deu um pequeno sorriso. – Mas nessa sala eu descobri que algo só é especial porque você é parte disso.
Olhou em cada um dos rostos segurando o contato visual.
— Nesta sala eu descobri que não estava sozinha. – Seu sorriso permaneceu. – Eu descobri que tinha mais coragem do que eu pensava, descobri que eu poderia ter mais sonhos e esperanças do que eu imaginava. Eu aprendi a não me calar, mas eu também aprendi a ouvir e a aprender com o que eu ouvia. Glee é muito mais do que música é autodescoberta e isso requer muito mais coragem do que vocês imaginam. Glee também é sobre união, é a união de vários desajustados que estão apenas tentando encontrar o seu lugar no mundo. Olhem uns para os outros… vocês não estão sozinhos, aqui é o lugar onde vocês podem ser vocês mesmos. É um lugar seguro para se deixarem ser vulneráveis, olhem para os seus colegas, eles podem estar lutando com coisas que vocês nem imaginam e aqui é o lugar para eles deixarem isso sair. Glee é isso… é coragem, é autodescoberta, é vulnerabilidade, é estar lá um para o outro, vocês não estão sozinhos e sua voz é ouvida. Então, vamos começar? Eu vou dividir vocês em grupos, na verdade eu vou deixar que vocês se dividam em dois grupos. O primeiro grupo irá dançar e o segundo irá cantar. A tarefa é simples. Vulnerabilidade. Eu quero que vocês peguem um sentimento, qualquer sentimento, e faça com que cada um nessa sala o sinta enquanto você se apresenta através da dança ou do canto. Vamos começar?
*Diário*
Quinn encarava o cursor piscando na página em branco. Era como se ele estivesse zombando dela, mostrando como ela simplesmente não podia fazer aquilo. Desligou o notebook e se levantou pegando sua bolsa, conferiu se seu diário estava dentro assim como algumas canetas. A carteira e as chaves estavam na mesa que Rachel tinha feito Sam colocar perto da porta. Ela precisava andar. Pensar. Absolver. Gritar. Se inspirar. Sem que percebesse seus pés lhe levaram ao McKinley e antes mesmo de pensar no fato se dirigiu para o campo.
— Não está frio para treinar aqui fora? – Perguntou se aproximando de Sue.
— Se pensa que vou fazer como Schuster e trazer minha pupila de volta para esse fim de mundo está muito enganada. – Sue não tirou os olhos da prancheta. – Parece até que voltou a ter aula.
Quinn parou ao lado da mulher observando o treino.
— Às vezes acho que nem quando estava em aula eu buscava tanto isso aqui como um santuário como agora. – Murmurou, sabia que a mulher tinha ouvido, mas não se importou. – Estou travada. Encurralada. Acuada. E isso está me deixando irritada.
Sue olhou pelo campo e ficou em silencio, esperando.
— Eu estou me enchendo de raiva outra vez e eu não quero isso. – Quinn negou com a cabeça. – Eu não quero.
— Então transfira a sua raiva. – Sue voltou sua atenção para a prancheta. – Não se torne autodestrutiva outra vez.
— Eu quero matar Stern. – Confidenciou, a viu parar antes de anotar algo.
Sue terminou sua anotação e se virou para olhar Quinn.
— Você quer matá-la porque está encurralada? – Sue perguntou calmamente. – Acha que é o justo?
— Eu estou cansada de pessoas tentando me controlar. – Quinn não a olhava. – Estou cansada de ser cerceada. Estão me obrigando a fazer outra história porque não aceitam a que eu criei.
— Então por birra você irá matar a personagem na qual você se colocou tanto? – Sue arqueou as sobrancelhas. – Você irá sacrificar tudo o que você construiu por birra?
— Eu não vou fazer isso. – Quinn se virou tão rápido que seus cabelos se chicotearam ao seu redor. – Eu quero que seja grande. Eu quero que seja épico de uma forma que faça a morte dela valer a pena.
Sue não respondeu olhou para o campo.
— Olhe em volta. – Ela falou lentamente. – Eu me lembro de te ver nesse campo com Britany e Santana andando atrás de você, eu te vi lutar contra… contra muita coisa, Quinn. Contra coisas que você não deveria ter passado naquela idade. Eu me vi em você e eu vi você ser mais do que eu jamais seria, eu te vi ter garra, eu te vi se levantar quando deveria ter ficado no chão. Eu te vi sair daqui e ir para Yale, dois diplomas? É… eu vi você se matar para ter duas graduações, enquanto lutava contra uma doença que não tem cura. Você é perseverante, mesmo quando tudo está contra e eu sei que isso cansa, mas olha para você agora. Você está no ponto da sua vida em que você tem amigos que te adoram, uma mãe que mataria e morreria por você, uma filha inteligente, que é a sua cópia e acima de tudo a sorte de amar uma mulher que te ama de volta. Eu sei que cansa nadar contra a maré, mas eu não criei uma covarde.
A treinadora se afastou deixando uma Quinn imóvel para trás. As palavras cortantes da mulher martelando em seus ouvidos como facas penetrando em sua carne. Se afastou indo para a arquibancada, puxou o diário para fora da bolsa e uma caneta. Abriu em uma página em branco e ficou olhando para as linhas. Ela precisava que Beth tivesse um compromisso com seu enredo. Ela precisava que Beth tivesse um propósito, uma razão. Passos lhe avisaram que já não estava mais sozinha, ergueu o rosto e observou o rapaz parado sem jeito. Benjamin estava parado sem jeito, os cabelos escuros despenteados, as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta, os olhos verdes inseguros.
— Oi… — Ele murmurou antes de ajeitar a mochila no ombro.
— Oi. – Quinn suspirou. – Não deveria estar no glee?
— Srta. Berry passou um exercício para essa semana e nos liberou para que começássemos a pensar no que faríamos. – Ele moveu a mochila nervosamente. – Eu… eu posso?
Quinn olhou para o espaço vazio ao seu lado e assentiu. Ele se sentou e ambos estavam rígidos sem saber o que fazer ou o que falar.
— Qual foi o exercício? – Quinn perguntou olhando fixamente para a frente.
— Vulnerabilidade. – Ele falou com a voz um pouco mais grave. – Ela quer que dancemos ou cantemos um sentimento que nos deixa vulneráveis.
Quinn arqueou as sobrancelhas, era um bom exercício.
— Eu não sou exatamente bom com isso. – Ele murmurou apertando a mochila com mais força. – Eu sou mais do tipo que prefere estar escondido atrás de uma câmera.
— Câmera? – Quinn o olhou um pouco curiosa.
Ele remexeu na mochila pegando uma pequena câmera já um pouco gasta.
— Minha mãe me deu quando eu tinha 15. – Ele não desviou os olhos do material cinza. – Vídeos, fotos… é o que eu gosto. Eu não sei ser vulnerável como ela quer que eu seja.
— Ela quer saber se você é capaz de ser vulnerável. – Quinn deixou sua voz ficar mais suave. – É… é mais sobre ser capaz de se conectar com suas emoções. Ela não espera que você chegue na sala e cante perfeitamente ou que você esteja apto para fazer parte do ballet do Bolshoi.
— Ela falou sobre o que era o Glee. – Ele a olhou de rabo de olho. – Um lugar para desajustados não se sentirem sozinhos.
— E é.
— Em que exatamente você era desajustada? – Não era uma acusação, era um pedido.
Quinn o olhou e lambeu os lábios.
— Eu não tinha coragem para ser eu mesma. – Ela inclinou um pouco a cabeça para olhá-lo. – Eu era superficial e… — Seus olhos se desviaram para Sue. – Covarde de muitas maneiras. Glee me deu a coragem para tentar Yale, Glee me deu amigos que eram realmente meus amigos, também me deu muitas brigas e lágrimas…, mas no final de tudo, Glee me mostrou que eu não estava sozinha.
Ele a olhou ouvindo as mesmas palavras que Rachel havia dito.
— Eu me perdi muitas vezes. – Ela não o olhava, mas sabia que ele estava a encarando fixamente. – Muitas vezes, mas o Glee sempre esteve lá como um farol, mesmo que eu não o quisesse.
— Um farol?
— É claro. – Ela o olhou e sorriu suavemente. – Quando navegamos na escuridão da nossa própria desesperança, da nossa agonia, do nosso medo… um farol serve para nos lembrar que se continuarmos andando na direção de sua luz então poderemos achar chão firme, abrigo, calor… para casa.
Benjamin ficou parado olhando para ela e Quinn pode ver a sombra nos olhos do irmão mais novo. E então a atingiu o fato de que estava sentada na arquibancada do McKinley, conversando com seu irmão mais novo. O irmão que nem sabia que tinha. O irmão que era a prova viva que seu pai era um homem adultero. O irmão ao qual não tinha sentimentos, positivos ou negativos… ela o olhou e quase se viu nele.
— Quando eu estava grávida, eu me vi sozinha. – Ela falou em voz baixa e o viu ficar ainda mais surpreso. – Eu estava no Glee, mas eu me senti sozinha e com muita raiva. Ele tinha me expulsado de casa, minha filha não era do meu namorado e eu estava com tanta raiva do pai dela, mas acima de tudo eu estava com muita raiva de mim. Então Mr Schue passou um exercício sobre funk e eu me apresentei com um grupo de outras adolescentes gravidas, eu havia encontrado esse grupo de apoio e eu vi a minha raiva refletida nelas e achei que havia encontrado o meu lugar, minha raiva estava legitimada. E meus amigos no Glee não entendiam isso, mas eles se levantaram, me aplaudiram e me abraçaram. Eles não me entendiam, mas ouviram o meu pedido de socorro e estiveram lá.
Ela se levantou segurando suas coisas e saiu sem dizer mais nada, podia sentir o olhar dele lhe seguir por um momento. Entrou no prédio principal e parou, seus olhos seguindo o corredor, sua vontade era de ir até a sala de Rachel, mas também tinha vontade de falar com Schuster. Sue lhe dera o amor duro, Rachel lhe daria conforto e Schue talvez lhe desse alguma inspiração. Balançou por mais um momento antes de se afastar indo na direção do escritório do diretor, seus olhos percorrendo os armários trazendo lembranças à tona, sorriu com algumas… com outras…
Parou quando seus olhos captaram o homem que estava por trás das paredes de vidro da secretaria. Apertando a mão de seu mentor. Robusto, de ombros largos e mãos grandes, cabelos loiros impecáveis e uma voz forte que a faria se encolher toda vez que os olhos verdes faiscavam raivosos em sua direção. Ela ficou parada, sem conseguir se mexer, o viu sorrir e cumprimentar a secretária antes de sair pela porta. Ela ainda estava rígida quando ele ergueu os olhos e lhe encarou. Ambos parados no meio daquele corredor. Olhos verdes idênticos se encarando, um com surpresa e o outro gelado.
— Quinn… — Ele foi o primeiro a quebrar o silencio. – Quinn…
Ela o encarou sem expressão, seus instintos gritando para que ela corresse o mais rápido que pudesse, mas ela ficou.
— Eu perguntaria o que está fazendo aqui, mas é claro que veio ver se o seu pequeno orgulho está indo bem. – Ela não evitou o tom cortante em sua voz, ou a raiva que lhe inundou as palavras venenosas.
— Quinn. – Ele a chamou com um suspiro. – Não… eu…
— Me poupe. – Ela soltou um sorriso amargo. – Eu não quero ouvir, não quero ouvir nada de você.
— Espera. – Russell pediu dando um passo na direção dela. – Apenas… podemos conversar?
— Conversar? – Ela soltou uma risada vazia. – Sobre o que você iria querer conversar comigo, Russell? Quer me dizer como eu continuo uma decepção ou talvez uma palestra sobre como eu vou para o inferno?
— Não…
— Eu não tenho nada para falar com você. – Ela negou com a cabeça. – Se me da licença eu vou buscar a minha namorada.
— Eu não vou desistir de você. – Ele falou assim que ela deu as costas, sua voz soando quase em desespero, Quinn parou. – Eu sei que eu errei… eu sei que eu errei, Quinn, mas eu não vou desistir de você.
— Você já fez isso. – Ela o olhou por cima do ombro, um olhar descrente preso em seu rosto. – Você desistiu de mim em todos os momentos que você deveria ter me segurado.
— Eu sei. – Ele se aproximou, mas não a tocou. – Eu sei que eu fiz isso e você nunca vai saber como eu me arrependo de cada uma dessas vezes, mas eu quero que você saiba que eu vou fazer isso de novo. Eu estou aqui e eu vim para ficar aqui.
— E o que te faz pensar que eu te quero na minha vida? – Ela se virou o enfrentando, a autora estava fria, inabalável, inatingível. – O que te faz pensar que eu ainda preciso de você?
— Eu vou lutar por você, Quinn. – Ele falou calmamente, seus olhos verdes eram tranquilos. – Eu vou lutar por você pelo resto dos meus dias, eu vou ficar aqui pelo resto dos meus dias, mas eu só posso ir até metade do caminho então… quando você estiver disposta a me perdoar e a tentar… basta me encontrar.
— Você está morrendo? – Quinn franziu as sobrancelhas. – É isso? É por isso esse show? Você é tão petulante que acha que eu tenho que fazer algo.
— Não, eu não estou morrendo. – Ele sorriu. – Meus últimos exames estão perfeitos. Eu também não estou falido e nem perdi minha memória ou algo do tipo. Mas eu tenho orgulho da mulher que você se tornou, da vida que você tem e eu acho Rachel uma mulher adorável.
Quinn olhou em volta antes de soltar uma risada vazia.
— É uma pegadinha? – Ela perguntou com as sobrancelhas franzidas. – Porque eu juro que acabei de ouvir o meu pai, um homem homofóbico e que sempre pregou contra casais homo me dizer que a minha namorada é adorável.
Ela viu uma sombra de tristeza passar pelo rosto dele.
— Eu mudei, Quinn.
— Não, não… — Ela negou com a cabeça. – Uma mudança não ocorre de uma hora para a outra.
— E não foi de uma hora para a outra. – Russell falou assim que ela terminou, negou com a cabeça. – Não foi, foi algo… — Ele respirou fundo e ela pode jurar vê-lo se controlar para não chorar. – Foi algo difícil e doloroso, principalmente quando eu percebi quanta dor eu te causei. Quando você nasceu… — Ele ergueu os braços e olhou para aquele espaço vazio. – Tiveram dias em que eu te segurei nos meus braços durante noites inteiras porque era a única maneira de acalmar a sua cólica. Você era minúscula, menor do que Frannie quando nasceu… e eu te segurava e olhava para você, aquele lindo e perfeito bebê nos meus braços. E eu fiz o que qualquer pai faz, eu fiz planos para você, eu fiz desejos por você… e quando… quando as coisas começaram a sair dos meus planos eu… eu não soube lidar. Então eu coloquei mais pressão em você e mais pressão e mais pressão… até que você voltou para os meus planos e eu me senti segurou de novo. Só que eu era tão cego e tão ignorante que eu nunca notei quão mal eu estava fazendo a você, eu não estava protegendo você… eu estava te prendendo em uma cela, te sufocando lentamente e destruindo o que eu mais amava. Então… aquele garoto… — Ele desviou os olhos quando a lágrima escorreu e Quinn se viu presa no chão, ela nunca tinha visto o pai chorar. – Eu não soube lidar e te culpei por estragar os meus sonhos, sonhos que eram meus e não seus. Eu te culpei pelos meus erros e os coloquei sobre seus ombros, eu fui hipócrita e um homem abominável. Eu traia a sua mãe, por anos… Benjamin é a prova disso… eu aplacava a minha culpa dizendo para mim mesmo que eu era um bom homem e que por ser homem Deus iria perdoar minhas faltas. Eu colocava meus joelhos em terra, eu colocava comida na mesa, eu tinha duas lindas meninas… então ele iria perdoar as minhas indiscrições. Quando sua mãe descobriu e me colocou para fora, eu fiquei irritado e te culpei por isso, passei a beber ignorando qualquer pretensão de controle que eu fingia ter e a sentir tanta raiva por tudo, a te culpar por tudo. Na minha cabeça doentia você tinha destruído a nossa família perfeita. Então… eu bebi. – Ele deu um sorriso autodepreciativo e Quinn precisou se esforçar para não assimilar que era o mesmo sorriso dela. – Eu bebi… e eu bebi…
— Isso não é exatamente uma novidade.
— Não, não era. – Ele a olhou com culpa brilhando em seus olhos. – As coisas começaram a mudar quando sua irmã me encontrou desmaiado em casa. Uma segunda-feira eu não apareci para trabalhar e ligaram para ela, ela ainda não tinha se mudado então… ela foi em casa quando eu não atendi o telefone. Eu tenho cirrose e os médicos disseram que se eu não parasse de beber poderia ter câncer ou precisar de um transplante. Eu precisei passar por mais duas crises para entender que estava tentando cometer suicídio. Então eu procurei por ajuda, comecei a frequentar o AA… sua irmã é meu sistema de suporte. Estou sóbrio há 7 anos… — Ele puxou a corrente que estava escondida por baixo da roupa, a moeda presa indicando seus anos de sobriedade. – Estou há 7 anos sem colocar uma gota de álcool na boca, Quinn. Quando sua irmã conheceu Thomas e as coisas começaram a ficar sérias foi quando eu me dediquei com mais afinco, ela poderia se casar com ele e eu queria leva-la no altar, queria ver meus netos… eu queria ter tempo para me desculpar com você, mas eu era tão ignorante que ainda não admitia isso.
Ela desviou os olhos e ele permaneceu a olhando.
— Quando Frannie e Thomas resolveram apresentar as famílias foi quando eu o conheci… Andrew. – Ele falou lentamente atraindo a atenção da filha. – É o irmão mais novo do marido de sua irmã, ele regula idade com você. Veja… a família de Thomas é cristã como a nossa era, eles vão a igreja todo domingo, eles rezam juntos, eles estudam a bíblia e eu estava ali… sentado na sala de estar da casa deles vendo aquele rapaz entrar com o namorado. E eu não sabia como reagir. Sua irmã me olhava com medo o mesmo medo que eu vi por tantas vezes nos seus olhos. Então eu me calei e fiquei, eu fiquei porque eu percebi toda a minha hipocrisia perante a todos os mandamentos de Cristo. O quarto passo é…
— Fazer um minucioso e destemido inventário moral de nós mesmos. – Quinn o interrompeu com a voz rouca. – Mamãe também está no AA.
— Eu sei que ela está… eu estudei, eu meditei, eu ouvi, eu observei… — Russell falou com a voz embargada. – Eu pus meus joelhos em terra e pedi por orientação. Um dia, alguns anos depois de conhecê-los, eu perguntei ao pai de Thomas como ele conseguia aceitar aquilo e a resposta dele foi simplesmente que ele não era ninguém para julgar. Ele mostrara ao filho o caminho, ele tinha um filho honesto e bom, tinha um filho que amava o próximo, que respeitava pai e mãe, que era caridoso… então como ele poderia renegar o filho por amar alguém? Ele me disse que quem julgaria o filho seria Deus e não ele. Ele me disse que se Deus condenasse seu filho com todas as coisas boas que fez, apenas por amar alguém, então ele saberia que aquele não era o seu Deus.
Ele passou a mão pelo rosto limpando as lágrimas teimosas.
— Eu ouvi isso e me perguntei se ele estava certo ou se tudo o que eu sempre acreditei era o certo. – Ele falou olhando para os próprios pés. – Foi quando eu comecei a procurar por você. Eu sabia que você havia se formado em Yale, sua mãe enviou um e-mail para a sua irmã avisando. Então eu achei os livros e todo o seu trabalho de caridade, eu sabia do HIV porque sua irmã havia me contado. Eu vi você ajudar crianças órfãs, eu vi você ajudar o McKinley e não apenas as Cheerios e o Glee… eu conversei com Schuester sobre você… eu vi o seu noivado e meu coração se apertou porque eu não poderia te levar no altar como fiz com a sua irmã. Então eu me perguntei se o Deus em que eu sempre acreditei condenaria a mulher que ajudava pessoas que nunca conheceu. Uma mulher que aguentou todos os obstáculos em seu caminho… apenas por amar alguém. Você fez tudo o que eu sempre esperei que um bom cristão fizesse, você fez mais do que meus antigos colegas de congregação jamais pensaram em fazer e eu me perguntei por que eles seriam salvos e você não?
Quinn o encarava como se não estivesse acreditando em nada do que estava ouvindo, ele abriu um pequeno sorriso.
— Como eu disse… não foi de uma hora para a outra, não foi fácil e não foi indolor. – Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça. – E eu não espero que você me aceite na sua vida como se nada tivesse acontecido, como se eu nunca tivesse te machucado e como se você ainda confiasse em mim. O que eu quero que você saiba é… eu nunca mais vou desistir de você. Eu vou estar aqui esperando o dia que você vai se sentir bem em me deixar entrar, eu vou estar aqui Quinn. E eu vou fazer todos os passos que eu não fiz com você, eu vou te pedir desculpas por cada um dos meus erros. – Ele pegou um papel amassado dentro do paletó e estendeu para ela. – Eu amo você e tenho orgulho de você ser minha filha e eu vou te mostrar isso.
Quinn aceitou o papel e o viu dar um pequeno sorriso antes de se afastar. Ela desamassou o papel já amarelado e rabiscado e viu nomes e motivos, alguns reconheceu e outros não. Viu seu nome e uma lista um pouco maior do que nos outros e ao contrário deles, seu nome não tinha nenhum risco. Russell listou todos aqueles que havia prejudicado e como havia os prejudicado e a cada reparação ele riscou algo da lista, mas o nome de Quinn estava intocado. Ele esperava. Ela não sabia o que fazer.
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