Diário 2.0

8 Capítulo VIII - Ser


Estar presente. O que é estar presente? O que significa ser presente? São coisas constantes na minha vida, eu confesso, melhor dizendo… são problemáticas constantes na minha vida. Eu já tive os meus relacionamentos e ser presente sempre foi a questão central em algum momento. Em alguns deles eu estava presente sentimentalmente, mas não podia estar fisicamente e em outros quando eu estava presente fisicamente eu não estava sentimentalmente. Então… como é ser presente? Você pode me dizer?

A mochila em suas costas estava pesada, a tirou passando a segura-la no braço enquanto pedia licença para passar pelas pessoas. Santana havia lhe avisado que eles estavam em uma vigília na frente do teatro, decidira ir direto do aeroporto. Já sabia que tinha sido avistada por alguns dos paparazzis presentes e por uma parte da imprensa que cobria o acontecido. Quinn apoiou a mão nas costas de Brittany que estava abraçando Santana enquanto olhavam para o prédio enegrecido. A loira olhou para o lado e deu um sorriso pequeno.

— Hey Q… — Ela murmurou vendo a esposa se mover para olhar a melhor amiga.

Quinn não respondeu, seus olhos fixos em Rachel que estava abaixada perto de algumas pessoas. A morena estava com um pequeno sorriso triste enquanto segurava a mão de um rapaz que conversava com outro, eles pareciam estar lembrando de algo. Santana segurou a mochila que Quinn carregava e isso automaticamente fez com que a loira avançasse na direção de Rachel. Ela ignorou os amigos e o pai de Rachel que estavam lhe olhando com curiosidade, ela ignorou as pessoas que lhe encaravam, os jornalistas e todo o resto enquanto andava na direção de Rachel. A morena limpou uma lágrima que escorreu e ergueu o rosto querendo olhar para os amigos, mas foi presenteada com a visão de Quinn indo em sua direção. Ela se soltou da mão que segurava e caminhou rapidamente na direção da mulher se jogando contra ela, Quinn deu dois passos para trás a acolhendo em seu corpo. A loira afundou o rosto contra o pescoço moreno sentindo o cheiro de Rachel acalmar seus nervos, ela estava se negando a entrar em pânico. Mas agora com Rachel em seus braços ela se permitiu sentir um pouco do pavor que lhe invadira pela manhã enquanto estava do outro lado do país.

— Você está aqui. — Rachel murmurou sentindo a lágrima escorrer pelo rosto.

— Eu estou aqui. — Quinn respondeu a beijando nos cabelos escuros. — Que susto que você me deu. Achei que tinha ti perdido de vez… achei que ele estava me punindo outra vez.

Rachel afastou o rosto do ombro de Quinn e a olhou, pode ver todo o medo que invadia os olhos da autora e sem pensar se ergueu um pouco segurando o rosto dela entre suas mãos. O beijo fora delicado, apenas um encostar de lábios, mas os sentimentos transmitidos transbordavam aquela ação. O medo, a ânsia, o carinho, a paixão, a saudade… tudo estava ali tão exposto e tão claro que elas não poderiam negar ou recuar mais. Rachel deixou suas mãos caírem lentamente enquanto voltava a se esconder contra o pescoço de Quinn, deixando que as mãos da autora lhe apertassem.

— Eu estou aqui. — A atriz murmurou e teve certeza que fora ouvida quando sentiu as mãos de Quinn lhe apertarem um pouco mais.

Quinn a cheirou nos cabelos um pouco mais antes de se mover para olhar Rachel no rosto.

— Posso ajudar em algo? — Perguntou atenciosa vendo a morena fechar os olhos.

— Fique perto de mim. — Rachel pediu segurando a mão da autora. — Apenas fique perto de mim.

— Ok…

Rachel voltou para perto dos rapazes com os quais estava antes e arrastando Quinn no processo. A morena voltou a se abaixar ouvindo a cantoria baixa que os colegas de elenco estavam entoando, Quinn sentiu os olhos irritados de Ellen a seguindo. A loira cumprimentou algumas pessoas com um pequeno sorriso triste antes de voltar sua atenção pra Rachel que harmonizava com um dos rapazes. A autora se sentou no chão ignorando o olhar descrente que a atriz lhe lançara e prontamente a puxou para o colo, obrigando Rachel a se sentar sobre suas pernas.

— Assim você senta e não se suja. — A loira respondeu com uma piscadela.

Rachel revirou os olhos e voltou a atenção para os colegas de palco, aos poucos suas vozes começaram a se elevar. O que antes era um murmúrio baixo começou a ficar mais forte enquanto as vozes iam se juntando… Rachel sentiu a pele se arrepiar conforme Seasons of love era entoada com tanta emoção. Os bombeiros ainda tinham trabalho a fazer, agora eles trabalhavam na operação de rescaldo do prédio para só então poder mexer nos destroços e iniciar a operação de resgatar os corpos. E enquanto a vigília estava do lado de fora os homens continuavam trabalhando do lado de dentro, Quinn olhou na direção dos bombeiros e acariciou a cintura de Rachel por cima do moletom que ela usava.

*Diário*

Já passava das duas da manhã quando Rachel finalmente se deixou convencer a ir embora. A loira se ergueu limpando o jeans, sentiu Rachel segurar sua mão com força como se estivesse com receio que se elas ficassem separadas por muito tempo Quinn poderia sumir. A morena deixou que a loira a levasse para onde o pai estava parado com Sam e Artie. Quinn se inclinou para abraçar Artie antes de se erguer e abraçar Sam, ela olhou para Hiram e deu um pequeno aceno de cabeça.

— Tina? — Rachel perguntou olhando para Artie.

— Ali. — O rapaz indicou a esposa que estava mais afastada com alguns colegas.

Rachel apertou a mão de Quinn outra vez, antes de olhar para Sam.

— Brittany, Santana e Kurt precisaram ir. — O agente explicou. — Você precisa descansar.

— Sam está certo. — O homem alto de cabelos grisalhos se pronunciou, a voz era suave. — Você passou por muitas coisas hoje e precisa descansar.

Rachel concordou com a cabeça, olhou para Sam que estava sereno.

— Vamos esperar as investigações. — Sam mantinha a voz calma. — E então vamos ver quais são as medidas cabíveis, ok? Antes é necessário que tudo seja apurado inclusive… as vítimas.

Rachel estremeceu e se aproximou mais de Quinn sentindo os braços da mulher lhe envolverem.

— Eu acredito que estamos fora… com relação a isso. — Sam arqueou as sobrancelhas. — E eu entendo que não é o momento adequado para falarmos disso, mas será uma questão abordada pelos jornalistas.

Rachel suspirou apoiando a cabeça contra o ombro de Quinn. Ela precisava de contato e Quinn estava feliz em fornecer a ela.

— Vamos lidar com uma coisa de cada vez. – Quinn respondeu pelas duas. – E no momento existem coisas mais urgentes do que fofoca.

Sam concordou com a cabeça com um pequeno sorriso nos lábios, Quinn olhou em volta como se só agora estivesse dando falta de suas coisas.

— Santana levou minha mochila? – Perguntou confusa. – Minha carteira estava lá dentro, como diabos vou pegar um táxi agora.

— Não. – Hiram finalmente falou atraindo a atenção da loira. – Suas coisas estão no carro de Sam, eu… tomei a liberdade de dizer a Santana que você dormiria no apartamento de Rachel… espero não ter me apressado muito.

— Não. – Rachel respondeu antes de olhar para Quinn. – Você poderia…

— Eu não quero incomodar. – Quinn olhou de Rachel para o pai da morena. – Posso ir para Santana e te encontrar pela manhã.

— Não vai. – Rachel apertou a mão de Quinn. – Por favor.

Quinn concordou com a cabeça antes de beijar a morena entre os olhos.

— Quer que eu chame Tina? – Sam olhou para Artie desviando os olhos das duas mulheres com um pequeno sorriso nos lábios.

Artie soltou uma risada baixa atraindo olhar das duas mulheres.

— Desculpa. – Ele ergueu as mãos. – Mas é incrível vê-las assim depois de simplesmente… tudo.

— Incrível bom ou incrível ruim? – Rachel deu um pequeno sorriso.

Artie parou por um momento como se estivesse pensando.

— Eu vou arriscar no momento com surpreendentemente incrível e resguardarei a segunda qualidade para posterioridade. – Ele piscou um dos olhos arrancando um sorriso de Quinn.

— Está certo. – A loira esfregou as costas de Rachel. – Você deve estar cansado, vou chamar a Tina, ok? Eu lembro como é cansativo ficar na cadeira por tanto tempo.

Rachel deixou que a loira se afastasse indo na direção da antiga companheira de glee.

— Tina. – Quinn a chamou enquanto se aproximava.

Tina se virou para olhar e abriu um pequeno sorriso.

— É bom te ver Fabray. – A asiática abraçou a loira com força. – Fico feliz que esteja aqui, ela precisa de você.

— Você está bem? – Quinn se afastou um pouco. – Sei que deve ser difícil pra você também.

— Estou. – Tina encolheu os ombros com uma expressão preocupada. – Artie está cansado, não é?

— É, eu vim te avisar que estamos indo. – A loira olhou na direção de Rachel.

— Quinn, se vocês precisarem de algo basta me ligar. – A asiática apertou o braço da loira para atrair sua atenção.

A autora concordou com a cabeça.

*Diário*

Quinn sentiu a morena se aconchegar embaixo das cobertas e soltar um suspiro. As duas deitadas uma ao lado da outra sentindo a sensação de embaraço se rastejar entre elas, a loira moveu a mão para o espaço vazio entre os dois corpos.

— Estou sendo inconveniente. — Rachel suspirou. — Se você não estiver confortável eu posso…

— Estou plenamente confortável. — Quinn a interrompeu antes de brincar. — Você tem um bom colchão, talvez eu deva comprar um na mesma loja que você comprou ou pegar as especificações… decididamente preciso trocar o meu colchão, já não o acho tão confortável.

Sentiu Rachel reprimir a risada antes da morena escorregar a mão por cima da mão da autora que estava na cama. Quinn entrelaçou os dedos aos da mulher.

— Eu sei que é estúpido, mas… como você está?

Rachel levou o tempo que precisou antes de soltar um suspiro e responder.

— Eu sinceramente não sei. — Sua voz ficou ligeiramente mais fraca e emocional. — Tem momentos que eu sinto que vou sufocar… que as lembranças de ontem à tarde me enchem e eu consigo ouvir os gritos, sentir o calor, a fumaça…

Quinn apertou a mão da morena quando esta parou de falar, ficaram em silêncio até Rachel fungar baixinho e retomar a fala com a voz ligeiramente embargada.

— E tem momentos que eu me sinto… bem. — Ela encolheu os ombros. — Tranquila, protegida… é tão estranho.

— É o choque. — Quinn explicou calmamente. — Vai ser assim por uns dias… talvez… conversar com alguém imparcial ajude.

— Um psicólogo? — Rachel arqueou as sobrancelhas.

— E qual seria o problema? — Quinn respondeu mantendo o tom de voz calmo. — Você passou por um trauma Rachel, ninguém espera passar por isso e sair ileso fisicamente e psicologicamente. É impossível.

— Você… — A morena parou antes de completar a frase.

— Após o acidente. — Quinn respondeu com um encolher de ombros. — Eu ia duas vezes por semana, depois quando fui para Yale eu mantinha uma consulta por mês… ainda faço na verdade.

— Sério? — Rachel se virou para olhar Quinn.

— Rachel… eu estava seriamente e profundamente quebrada de tantas maneiras que… — Quinn a olhou e suspirou, elas mal podiam ver os contornos uma da outra. — Apenas ter alguém que te ajude a ver as coisas de outra perspectiva pode ajudar.

Rachel considerou as palavras da mulher antes de voltar a olhar para o teto. Sentiu que Quinn ainda estava olhando em sua direção como se esperasse algo.

— Se você realmente precisa de um novo colchão… eu posso ajudar. — A morena falou com um pequeno sorriso.

— Eu adoraria isso. – Quinn abriu um sorriso maior antes de lamber os lábios. – Eu posso fazer uma pergunta?

— Sim. – Rachel suspirou sentindo os efeitos do calmante que o sedativo natural que o pai havia insistido para que ela tomasse.

— Eu sei que seus pais se separaram, mas eu não ouvi ninguém falar de LeRoy… — Quinn falou lentamente.

— Eu não falo muito bem com meu pai. – Rachel falou após um momento de silêncio. – É complicado…

— Eu achava que você era muito próxima dos dois. – Quinn franziu as sobrancelhas.

— Você sabe o porquê do divórcio?

— Não. – A loira se virou na cama ficando de lado, podendo olhar o perfil de Rachel.

— Meu pai estava tendo um caso. – Rachel apertou a mão de Quinn. – Com um cara que tem a nossa idade. Ele é… ator… em Chicago… ele é um dos principais de Jersey Boys.

— Ele é ator em musicais? – Quinn franziu as sobrancelhas.

— É… — Rachel lambeu os lábios antes de soltar um suspiro pesado. – Ele faz musicais. Se chama Jeremy…

Sentiu Quinn se aproximar um pouco mais, acariciando sua cintura com a mão livre. A morena se aconchegou mais na mulher e suspirou.

— Ele veio me procurar. – Rachel continuou. – Jeremy… ele veio me procurar um dia. Ele me encontrou na porta do teatro, se apresentou como ator… eu achei que ele fosse pedir alguma ajuda ou algo do tipo. Ele falou da peça e me elogiou, ele me disse que eu era exatamente tudo o que meu pai falara. Eu fiquei ali parada olhando pra ele absorvendo o que ele tinha me dito, ele estava lá parado me encarando e eu entendi que meu pai tinha trocado toda a história dele com o marido de mais de 30 anos por um moleque da idade da filha. Eu odiei cada pedaço dele, a pele branca, o rosto quadrado, os olhos verdes, os cabelos castanhos… eu o odiei inteiro, mas acima de tudo eu odiei o meu pai. Eu o enfrentei sabia? O questionei e esfreguei na cara dele o caso. Ele não negou, apenas arrumou as coisas dele e foi embora de casa. Então eu fiquei e recolhi o que restou do meu papai, a casa da minha infância foi posta a venda e papai aceitou trabalhar em um hospital em Washington.

Quinn a puxou mais para dentro de seu corpo a segurando com toda a força que podia.

— Eu estou aqui. – Sussurrou para a morena. – Eu estou aqui.

Notas finais
@just_someone13