Diário 2.0
4 Capítulo IV - Jogador
Existe uma cena de Bones que eu amo de paixão. É o final do episódio 16 da temporada 5… Booth e Brennan estão saindo do Jeffersonian conversando a respeito do livro que o psicólogo está escrevendo sobre eles. E o Booth para e resolve assumir que ele quer estar com Brennan. Ele assume que é o apostador entre os dois, que ele é quem arrisca e que ele quer dar uma chance a eles e a beija. Mas ela não aceita, ela está com medo de machuca-lo e acima de tudo de se machucar então ela fica lá ouvindo ele falar tão apaixonadamente até não aguentar mais e refutar tudo aquilo se escondendo atrás da ciência. Ela o recusa. Ele recua. Ela pergunta se eles ficaram bem e ele responde que sim, mas que ele precisa seguir em frente e encontrar alguém que o ame por 30, 40 ou 50 anos. Ela diz que sabe disso e eles vão andando lado a lado, ela entrelaça o braço ao dele e apoia sua cabeça no ombro do Agente. Eu lembro de pensar quando vi essa cena que… eles nunca ficariam juntos. E eles seguiram cada um o seu caminho, mas o caminho levou os dois até um ao outro. E eu estava errada, pois, eles casaram e tiveram filhos… e foram felizes. O que eu aprendi com Booth e Brennan, além de que se você matar alguém deve sempre se livrar do corpo e de todos os restos, é que mesmo que você jogue seguro sempre… em algum momento você deverá apostar tudo para ganhar tudo. E mesmo quando a possibilidade de perder é alta e você aposta, saiba aceitar as consequências do que escolheu. A vida é cheia de caminhos e apostas… uma hora… uma hora você quebra a banca.
Rachel tomou um gole de água sentindo o suor escorrer pelas suas costas, tinha acabado uma das cenas de dança. Observava os dançarinos de fundo que tentavam melhorar uma parte da coreografia, aquilo era uma das coisas que mais amava no teatro. O fato de que eles estavam vivos no palco, eles sempre poderiam melhorar… fosse a dança, fosse a interpretação de uma cena ou os diálogos. Ela sentia que ganhava vida todas as noites e em todas as noites era uma vida diferente.
— Falou com Sam? – A voz suave de Ellen lhe assustou, se virou para ver a morena que lhe encarava com olhos castanhos levemente irritados.
— Falei. – Respondeu tampando a garrafa.
— E conversaram sobre como Quinn Fabray tem falado de você? – Ellen inclinou a cabeça com um sorriso levemente sarcástico. – Eu tentei ignorar a entrevista de domingo, mas depois que você saiu eu vi as fotos… e agora a pouco sobre a entrevista que ela deu em Boston… como foram as palavras? “Se você conhecesse Rachel Berry iria perceber que ela merece todas as homenagens possíveis”? Ou algo assim.
Rachel arqueou as sobrancelhas e se manteve em silêncio, não tinha visto nada sobre entrevista alguma. Na verdade, desde que saíra do encontro com Sam que ela evitava olhar qualquer notícia sobre o assunto.
— Eu não vi nada sobre a entrevista. – Encolheu os ombros. – Mas fico feliz com as palavras dela.
— Ela disse que não sabia o que eu achava a respeito da homenagem, mas que você estava bem ciente dela. – Ellen cruzou os braços a encarando. – Não pensou que seria legal um aviso?
— Ellen, nós não estamos namorando. – Rachel falou lentamente, olhou em volta rapidamente. – Apenas ficamos ocasionalmente e eu gostaria que você se comportasse como tal.
— Eu gosto de você, Rachel. – Ellen franziu as sobrancelhas. – É tão difícil assim que você entenda isso?
— Eu entendo Ellen, mas preciso que você entenda que eu também gosto de você, apenas não é do mesmo jeito. – Rachel respondeu cautelosamente.
— E dessa Quinn você gosta? – Ellen ergueu um pouco o tom.
Rachel olhou disfarçadamente em volta vendo que algumas pessoas prestavam atenção nelas, lambeu os lábios e olhou para Ellen.
— Eu não tenho exatamente uma resposta sobre isso. – Respondeu calmamente. – Mas talvez seja melhor pararmos de nos ver. Não quero te machucar mais.
Ellen a encarou por alguns segundos antes de balançar a cabeça e se afastar furiosamente. Rachel lambeu os lábios e puxou o celular, mensagens de Sam foram lidas e ignoradas. Ele estava recebendo convites para entrevistas e queria saber o que ela queria fazer. Suspirou e ignorou as mensagens dele, selecionou a conversa de Quinn.
Precisamos conversar.
Enviou e guardou o celular outra vez. Se virou para olhar o diretor que começava a reunir o elenco para uma preleção antes de dispensa-los para descansar antes da apresentação. Esticou o pescoço para alonga-lo.
*Diário*
Quinn olhou a mensagem e fechou o aplicativo, já era a terceira vez que olhava para aquela mensagem.
— Senhora, preciso recolher o copo. – A aeromoça se inclinou para ela. – Iniciaremos os procedimentos de pouso.
Quinn esvaziou o copo de uísque e o estendeu para a mulher antes de olhar pela janela. Ela odiava voar. Apoiou a cabeça contra o encosto e fechou os olhos respirando fundo. A pior parte era sempre a pressão no estômago, aquele bendito solavanco que ela sentia quando o avião iniciava a descida e seu coração parecia bater dobrado toda vez. Estava rezando para não estar colocando os pés entre as mãos com aquela atitude.
— Senhoras e senhores aqui quem fala é o comandante da aeronave e estamos nos preparando para pousar no aeroporto La Guardia, bem-vindos a New York.
Ela respirou fundo mantendo os olhos bem fechados até sentir o avião pousar em solo firme para então soltar os braços da cadeira. Soltou o cinto e se levantou para pegar a bagagem de mão.
— Senhora. – A aeromoça se aproximou com um sorriso tímido. – Se importa de tirar uma foto? Minha filha é sua fã.
— Claro, claro. – Quinn sorriu para ela deixando a mala de mão na poltrona e posando para a foto.
Se despediu da mulher e saiu do avião querendo desesperadamente mexer no celular. Havia feito reservas na noite anterior e comprado o ticket da peça online, mas mesmo assim precisava checar se tudo estava de acordo com o que ela queria. Naquele momento Quinn Fabray estava apostando tudo em conquistar Rachel Berry e ela não tinha um plano B.
— Santana? – Perguntou assim que pegou a mala, o celular equilibrado no ombro. – Acabei de chegar. Sim, sim, eu sei… eu sei Sant… mas que merda Santana, já disse que eu sei o que estou fazendo.
Seus olhos rastrearam o aeroporto encontrando duas câmeras apontadas para ela, respirou fundo. Tão diferente de São Francisco.
— Nos vemos amanhã. – Se despediu desligando a ligação.
Guardou o aparelho e andou rapidamente para a saída mais próxima querendo ignorar qualquer aproximação. Deu sinal para o taxi deixando que ele pegasse suas malas, entrou no banco de trás sacando o aparelho uma vez mais.
Podemos conversar mais tarde?
Enviou sem pensar outra vez. Já estava em Nova York de qualquer jeito, agora não tinha mais como voltar atrás.
*Diário*
Aplaudiu junto da plateia enquanto o elenco agradecia, viu o olhar de Rachel cravar no seu enquanto a mulher ao seu lado a segurava pela cintura. Quinn permaneceu serena aplaudindo, mas seus olhos nunca desviaram dos de Rachel e um sorriso suave em seus lábios. A morena se retirou com o resto dos atores e Quinn prontamente recolheu suas coisas já se preparando para espera-la do lado de fora.
— Senhora Fabray? – Um rapaz da produção lhe chamou. – Por aqui, por favor.
Arqueou as sobrancelhas e se aproximou o olhando com um leve interesse.
— A senhora Berry me pediu para acompanha-la ao camarim. – O rapaz respondeu à pergunta muda da loira.
Quinn o acompanhou sem questionar, percebeu os olhares lançados em sua direção e quase podia ouvir os cochichos. A porta com o nome de Rachel apareceu na sua frente e o rapaz bateu antes de sorrir para ela e se afastar. Rachel abriu a porta ainda com o figurino e maquiagem e se jogou nos braços de Quinn a apertando com força, ignorando todos que poderiam estar vendo a cena.
— Achei que estivesse em Boston. – Murmurou contra o pescoço da loira.
— Estava, mas acabei com todas as entrevistas e resolvi voltar. – Quinn a apertou com cuidado em seu corpo. – Precisamos conversar e não dava para esperar.
Rachel a soltou dando um passo para trás, sua mão ainda no ombro de Quinn e uma das mãos da loira em sua cintura.
— Não vai te atrapalhar? – Rachel perguntou com um sorriso pequeno.
— Não vai. – Quinn respondeu calmamente. – Eu tinha dois dias livres, resolvi usa-los aqui.
A morena deslizou a mão pelo braço da outra e a puxou para dentro do camarim fechando a porta. Não daria mais nenhuma munição de fofoca para os outros.
— Quase não acreditei quando te vi ali. – A morena sorria abertamente, suas mãos ainda entrelaçadas.
Quinn se aproximou acariciando o rosto de Rachel e dando um pequeno sorriso.
— Espero não estar atrapalhando você. – A loira falou lentamente. – Gostaria de te levar para jantar hoje, mas se tiver compromissos eu entendo.
— Nenhum. – Rachel sorriu largamente, ignorando o fato de que havia combinado de ir a uma festa com os colegas de elenco. – Me espera? Só tenho que trocar de roupa e tirar a maquiagem.
— É claro. – Quinn se moveu na direção da porta. – Espero aqui fora.
Rachel a segurou pelo braço outra vez e se aproximou um pouco. Sorriu timidamente para a autora antes de colocar um suave beijo em sua bochecha.
— Fico muito feliz que tenha vindo, Quinn.
Quinn ficou parada por alguns momentos antes de colocar um beijo entre os olhos de Rachel.
— Eu também. – Respondeu em um tom de voz baixo. – Estou aqui fora.
A loira saiu para o corredor que estava fervilhando com o final do espetáculo, se apoiou em uma das paredes tentando não atrapalhar ninguém. Sentiu o celular vibrar e o pegou para ver quem era, o nome de Alex na tela.
— Alô? – Atendeu apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos.
— Obrigada por ter saído de Boston sem me avisar e ter ido a New York. – Alex falou irritada.
— Eu não sabia que tinha que te dar satisfações o tempo inteiro, incluindo nos meus dias de folga. – Quinn respondeu calmamente, soltou um suspiro. – Alex… eu vou fazer o que eu quiser fazer, ainda não entendeu isso?
— Apenas tome cuidado, ok? – Alex respondeu com a voz cansada. — Daqui a pouco tem algum super-escandalo e eles esquecem de vocês, mas Quinn, por favor, apenas tome cuidado.
— Eu sei. – Quinn respondeu abrindo os olhos, percebeu pelo canto dos olhos que estava sendo observada. – Eu sei me cuidar, falo com você depois.
Desligou quase ao mesmo tempo que a mulher se aproximava dela. Quinn encarou a mulher latina com uma das sobrancelhas arqueadas.
— O que está fazendo aqui? – A mulher questionou ciente que o corredor ainda estava cheio.
— Apenas vim ver Rachel. – Quinn respondeu calmamente. – Estou esperando que ela se troque.
— É melhor que você vá embora. – Ellen inclinou um pouco a cabeça. – Temos uma comemoração e Rachel não pode faltar.
— Estranho. – Franziu as sobrancelhas resolvendo jogar com a mulher. – Quando perguntei se ela tinha algum compromisso ela disse que não, deve ter esquecido.
Ellen arqueou as sobrancelhas e Quinn deu um sorriso educado.
— Caso ela queira ir para a festa com vocês eu irei embora, mas apenas se ela me disser para ir. – A loira colocou pé firme na questão, seus olhos verdes brilhando em desafio.
— Eu sei tudo sobre você. – Ellen deu um passo para perto. – Sei todas as coisas horríveis que fez com ela na época do colégio. O que você quer aqui? Marketing pros seus livros de merda? Eu vou te avisar, Fabray… é melhor você se afastar.
— Me afastar? – Quinn sorriu com o canto dos lábios. – E por quê?
— Eu posso acabar com você. – Ellen falou calmamente.
— Isso é uma ameaça? – Quinn arqueou as sobrancelhas.
A porta se abriu revelando Rachel, Quinn sentiu a respiração desacelerar por um instante enquanto um sorriso se espalhava por seus lábios.
— Hey. – A morena fechou a porta e olhou de Ellen para Quinn. – Está tudo bem?
— Sim, estávamos nos conhecendo. – Quinn respondeu com tranquilidade, o sorriso ainda firme em seus lábios. – Estava elogiando Ellen pela apresentação, ela tem uma voz poderosa.
Rachel olhou para Quinn e encontrou um olhar que ela conhecia muito bem, assim como o tom de voz com uma leve de malícia tão leve que para quem não a conhecia teria passado batido.
— Certo… — A morena falou lentamente. – Bem, estou pronta. Vamos?
— Temos a festa. – Ellen esticou a mão segurando o braço de Rachel com cuidado. – Esqueceu?
— Não, eu decidi que não iria. – Rachel respondeu reprimindo a vontade de puxar o braço. – Vejo Quinn tão pouco que decidi ir jantar com ela.
— Ah… — Ellen lambeu os lábios. – Claro… eu acho que esqueci meu sutiã na sua casa ontem… passo mais tarde para pegar?
— Não. – Rachel respondeu soltando seu braço. – Eu te trago amanhã, não sei se volto para casa hoje.
Rachel se afastou sem olhar para trás, Quinn a seguiu sem esboçar reação. A morena esperou Quinn lhe alcançar para olhar para ela com um pequeno sorriso de desculpas.
— Apenas vou atender aos fãs e aí podemos ir, ok? – A morena murmurou com as bochechas um pouco vermelhas.
— Leve o seu tempo. – Quinn sorriu apoiando a mão na base da coluna da mulher.
*Diário*
Elas estavam andando pelas ruas apinhadas da cidade, caminhavam para um pequeno restaurante que Rachel gostava. Costumava ir mais ao local quando estava em NYADA, compartilhava com poucos amigos aquele seu pequeno pedacinho do céu como ela brincava.
— Você não precisava ter cancelado seus planos. – Quinn comentou olhando para o lado. – Estarei na cidade até depois de amanhã, poderíamos ter almoçado ou algo assim.
— Eu prefiro estar aqui. – Rachel respondeu olhando para Quinn.
Quinn a olhou e deu um pequeno sorriso, esperou por algo. Podia ver quantas perguntas Rachel tinha para fazer.
— Quando… — A morena parou mordendo o lábio.
— Quando eu me assumi? – Quinn ofereceu sabendo que era uma pergunta válida, viu Rachel concordar com a cabeça. – Bem… eu acho que sempre soube, mas não conseguia aceitar. Vamos pensar… eu era a menina católica da família perfeita, criada para ser temente a Deus e aos pais, que frequentaria uma faculdade mediana e me tornaria uma corretora de imóveis. Me casaria com um bom homem que meu pai aprovaria e teria uma vida em cidade pequena que seria satisfatória… trabalhar de segunda a sexta, ir à igreja aos sábados pela manhã… assistir aos jogos de futebol do meu filho ou a minha filha torcer. Eu tinha toda a minha vida planejada.
Rachel estava em silêncio a ouvindo com atenção, a guiou por uma rua. As duas andando lado a lado sem se encostarem, distante fisicamente, mas Rachel poderia jurar que ela nunca esteve tão perto de alguém antes.
— Mas aí… eu me pegava pensando no porque eu não sentia nada quando Finn me abraçava, me beijava ou quando as coisas esquentavam. E eu não entendia o porquê de não sentir… bem… talvez Finn fosse apenas muito ruim. – Ela ouviu a risada de Rachel e acabou soltando uma risada. – Desculpe… eu não quero saber se ele melhorou ou não. – Quinn ergueu as mãos olhando para Rachel rir com mais força. – Continuando… foi quando Puck apareceu com alguns coolers de vinho. Puck era um garoto que nunca estava sozinho, então… ele saberia fazer, certo? Eu estava tão desesperada para sentir algo que aceitei… ignorando todo o resto. Eu aceitei dormir com ele ignorando meu namorado, meus pais, minha educação… eu só queria… me sentir normal.
Rachel esperou Quinn falar outra vez… a loira olhava para o chão com o lábio entre os dentes com uma força visível. Por fim a loira suspirou e olhou para ela com um sorriso triste e olhos visivelmente cansados.
— Pra minha criação não era normal ver você passar pelo corredor e ser imediatamente atraída para as suas pernas. – Quinn soltou uma risadinha triste. – Ou estar comandando a prática das cheerios e me pegar olhando um pouco de mais para aquelas adolescentes suadas e… acha-las sexys. Então eu dormi com o Puck e engravidei e tudo… deixou de ser planejado. Perdi minha casa, perdi meus status, perdi meu namorado, perdi novamente a casa que estava… por fim perdi Beth.
Rachel a conduziu até o Jerome Park a forçando a se sentar em um dos bancos próximos ao lago.
— Esse é um restaurante diferente. – Quinn brincou.
— Eu não quero que pare de falar. – Rachel se aproximou da loira deixando seu corpo encostar no dela. – Continue, por favor.
Quinn olhou para o lago e lambeu os lábios.
— Então entramos no nosso segundo ano. – A loira entrelaçou os dedos em seu colo reprimindo a vontade de alcançar Rachel. – E eu tentei… tentei esquecer o fato de que eu não sentia o que deveria sentir me focando em coisas fúteis. Voltar para as cheerios, um namorado popular, meu status, ser a rainha do baile… e eu me vi fracassar em cada uma dessas coisas. Eu busquei em cada um desses momentos o que eu não conseguia sentir, eu busquei o que faltava e simplesmente não estava ali. E eu me vi caindo em uma espiral de novo e de novo e de novo.
— E no nosso último ano… — Rachel resolveu que ela precisava de contato então colocou a mão sobre as de Quinn que estavam tão fortemente entrelaçadas que ela podia ver os dedos brancos ainda mais brancos.
— Eu tentei buscar o “sentir” me perdendo ainda mais… bebidas, cigarro, tatuagens e porque não um pouco de drogas. – Ela sentiu Rachel endurecer ao seu lado. – Era maconha, nada muito grave. Mas eu tentei sentir com essas coisas e também não consegui, pelo menos nada que realmente valesse a pena sentir. E então eu tentei ter Beth de volta, por que ela me faria sentir. Não no sentido romântico, mas ela me faria sentir algo bom… não deu certo obviamente. – Quinn olhou para a mão de Rachel que estava sobre as suas e com cuidado a tomou a prendendo entre as próprias mãos. – Foi quando vocês resolveram casar… e eu senti tanta inveja de você. Você estava lá, sentindo tudo plenamente, mesmo com toda a merda que eu tinha feito com você. Você era livre… livre para fazer o seu destino e livre para amar… eu fui mesquinha e me neguei a aceitar o seu casamento. Fui contra e deixei isso bem claro, me apegava a ideia de que era porque vocês eram muito novos e que isso acabaria com o seu futuro.
Quinn sentiu uma lágrima escorrer pelo seu rosto e soltou uma risada sem humor.
— Tinha tanto tempo que eu não pensava nisso que agora estou aqui… em New York, sentada em um banco de parque com você… — Quinn a olhou e soltou outra risada. – É tão irônico que chega a ser engraçado.
— O que te fez mudar de ideia? – Rachel perguntou em voz baixa. – Sobre o casamento?
— Você. – Quinn olhou para as mãos delas outra vez. – Você me fez mudar de ideia… estávamos nas regionais e você já tinha feito o discurso de que casariam após a competição, com ou sem apoio. E eu estava irritada ainda mentindo para mim mesma que era porque Finn estragaria o seu futuro. – Quinn ergueu a cabeça olhando para o lago. – Here’s to us… você estava cantando com tanta força, com tanta certeza e tanta segurança. Sua voz estava tão… tão linda… que eu senti. Eu senti toda a sua emoção e toda a sua força se infiltrar em mim e eu só conseguia olhar pra você mesmo fazendo o backing vocal e a coreografia… eu só conseguia olhar pra você e você olhava para ele. Foi quando eu percebi que eu tinha inveja de você, mas eu estava morrendo de ciúmes dele. Então eu te perguntei se você havia cantado para ele e apenas para ele e você disse que sim… e eu soube o que era ter um coração partido, mesmo que eu soubesse que não tinha motivos para você cantar para outra pessoa. E então eu fui em casa, me recompus e peguei o vestido… quando eu acordei no hospital e vi a minha mãe chorando com o médico falando com ela… eu sabia que algo estava errado porque eu não sentia as minhas pernas. Eu disse a ela que estava tudo bem e que resolveríamos aquilo, quando ela foi embora eu me peguei falando com Deus. Eu perguntei a ele se aquele era o meu castigo por não ser normal. Eu lembro de só ficar lá olhando para o teto e falando sozinha… perguntando se ele já não tinha me castigado o suficiente… perguntando qual era a minha lição afinal de contas. – Quinn deslizou o polegar pelo dorso da mão de Rachel. – Foi quando eu deixei de acreditar nele, mas mantive a cruz em meu pescoço porque era um presente da minha mãe. Mas o significado dela se perdeu… então lá fui eu tentar me reerguer outra vez, mas agora eu estava consciente de que eu sentia e por quem eu sentia. Mas eu me neguei a falar qualquer coisa a você, eu não podia estragar ainda mais as coisas para você então eu engoli e soterrei o que eu sentia.
— Os ticktes. – Rachel murmurou.
— Uma tentativa patética de tentar estar lá… — Deu um pequeno sorriso amargo. – Uma tentativa a qual eu me arrependo de não ter aproveitado. Eu quis tantas vezes simplesmente vir, mas eu não podia… não conseguia. Então em uma noite em um bar após uma prova qualquer… eu me vi beijando uma morena qualquer.
— E você sentiu? – Rachel murmurou compreensiva.
— Tesão. Desejo. – Olhou para a morena. – Ela era parecida com você. Ainda levei mais alguns encontros aleatórios e algumas provações a mais para estar confortável o suficiente para dizer que era lésbica, mas a história é essa.
— Ainda acha que Deus está te castigando? – Rachel apertou a mão da loira.
Quinn levou alguns segundos olhando para Rachel, se inclinou um pouco na direção da morena que não recuou. Rachel se manteve olhando fixamente para Quinn enquanto a loira avançava lentamente, só fechou os olhos quando seus lábios se roçaram sutilmente. Quinn manteve o beijo lento e gentil apenas os lábios se acariciando delicadamente, se afastou alguns centímetros para olhar os olhos castanhos incrivelmente quentes da mulher.
— Se isso é ser castigado… então ele desaprendeu como faz. – Brincou com um sorriso vendo Rachel sorrir antes de soltar uma risada leve.
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