Diário 2.0
5 Capítulo V - Andrea e Finn
Uma das coisas que sempre me incomodou na história, foi o tratamento que eu dei a Andrea. Era como se elas tivessem se separado tranquilamente e não houvessem sentimentos envolvidos. Eu simplesmente joguei Andrea na história e esqueci que para esquecer um amor é necessário tempo para lamber as feridas. Eu sei disso… eu sei bem disso… eu já tive que me afastar de pessoas que eu amei muito para cicatrizar antes de deixa-las voltarem. Mas é preciso tempo para isso, é preciso ambas as pessoas estarem bem em estar na vida uma da outra em uma posição diferente. Não é fácil e nem sempre você consegue. Também não é uma questão de evolução ou maturidade emocional e sim de como o relacionamento acaba. Se para você manter essa pessoa perto te faz mal, então se afaste e não olhe para trás. Priorize-se.
Ela sorriu entrando no estúdio, cumprimentou a mulher loira de cabelos curtos. Se sentaram nas poltronas brancas enquanto a tela atrás exibia a bela paisagem de LA.
— É sempre bom ter você conosco. – A mulher loira sorriu abertamente, apertando seus olhos azuis.
— É sempre bom estar aqui. – Quinn respondeu sorrindo para a audiência.
Ela sabia o roteiro que iriam seguir, Alex havia repassado o script com ela no caminho. Ela sabia o que esperar daquela entrevista.
— Vamos falar do seu novo livro. – A mulher se inclinou para pegar o livro na mesinha de centro e ergueu para a câmara. – Beth Stein está ainda mais feroz.
— Ela sempre é feroz. – Quinn respondeu com um sorriso. – Mas sim, ela cresceu muito desde o primeiro livro e foi libertador conseguir colocar isso para fora. Ver o quanto ela evoluiu desde que foi posta no mundo é…
— É como um pai vendo o filho conquistar o mundo. – A mulher interrompeu.
— Exatamente. – Quinn sorriu.
— Eu soube que você já está trabalhando na continuação. – A mulher mantinha o roteiro.
— Sim, já estou mexendo no enredo do próximo livro. – Quinn concordou sorrindo. – Iremos conhecer um pouco mais sobre a história de Beth. Como ela foi parar na Agência, esse amor perdido do qual ela está sempre se lembrando… essas pequenas coisas.
— Isso é muita coisa. – A mulher loira arregalou seus espantosos olhos azuis e olhou para a audiência que aplaudia. – Isso é muita coisa e acredito que seus leitores estão ansiosos por isso agora.
— Ah, mas eu tenho mais coisas comigo sobre o enredo. – Quinn soltou uma risada encolhendo os ombros com uma piscadela brincalhona. – Apenas quero manter os fãs animados, mas acho que eles estão animados até demais nas últimas semanas.
— Ah… está falando disso… — Ela olhou para a tela onde antes estava sendo exibido uma foto de Rachel no último Tony. – Para quem não sabe, Quinn recentemente confirmou que Beth Stern é baseada em uma talentosa atriz da Broadway. Essa é Rachel Berry ganhadora de dois Tonys Awards e a quem eu tenho que dizer tem uma poderosa voz.
Quinn sorriu, era a parte do roteiro que lhe deixava ligeiramente com vontade de quebrar regras.
— Seus fãs foram a fundo para descobrir isso. – A mulher loira brincou.
— Apenas uns… 12 anos atrás. – Quinn brincou de volta e resolveu se rebelar um pouco. – Mas eu tenho que confessar que algumas das teorias deles estão erradas.
— Como assim? – A mulher se assustou com a saída do roteiro.
— Rachel não era minha amiga ou a minha melhor amiga como alguns aventaram. – Quinn passou as mãos suadas na calça de linho que usava, se inclinou para tomar um gole de água. – Na verdade estávamos longe de sermos amigas e apenas no final, já quase nos formando é que nos tornamos algo próximo a isso.
— Então vocês não se davam bem? – Já que Quinn tinha dado a brecha.
— Isso é um eufemismo talvez. – Quinn olhou para a foto de Rachel que ainda estava no telão. – Mas talvez seja melhor dizer que eu não me dava bem com Rachel, a maior parte do tempo eu tinha tanta raiva que a usava para extravasar. Então eu a agredia… emocionalmente, psicologicamente e em alguns momentos fisicamente. – Ela mantinha seus olhos voltados para a foto de Rachel. – E eu sou muito grata por ela ter me perdoado por tudo isso. Eu não… — Quinn abaixou os olhos e passou as mãos pela calça outra vez. – Eu não era a melhor pessoa, na verdade… talvez eu saiba o que é ser a pior versão de si mesma. E nada que eu fale irá justificar ou amenizar tudo o que eu fiz, mas o perdão de Rachel é algo que certamente me fez melhorar.
A apresentadora ficou em silêncio sem saber como agir, ela podia ver a loira fragilizada na sua frente se inclinar para tomar água.
— Você estava lutando com a sua sexualidade? – Perguntou delicadamente.
A risada baixa de Quinn era algo completamente depreciativo.
— Eu decididamente estava lutando com a minha sexualidade e com mais algumas coisas. – Quinn respondeu se endireitando na cadeira, encarou a mulher. – Eu estava lutando com a sensação de não ser boa o suficiente. Eu estava lutando com a sensação de já ter toda a sua vida planejada. Eu estava lutando com a sensação de… — Ela parou e olhou para Rachel outra vez, lambeu os lábios. – Eu estava lutando com a sensação de ouvir a menina, com a qual eu disputava os meus namorados, cantar todos os dias e sentir como se eu estivesse entrando em um mundo paralelo. Eu me lembro da última apresentação em competição que fizemos… estávamos nas nacionais em Chicago e… eu me lembro do nervosismo da sala em que estávamos aquecendo. Era a última competição de uma boa parte do grupo e Mercedes estava doente, Rachel não sabia se a recrutadora de NYADA iria aparecer ou não, eu tinha acabado de sair da cadeira de rodas e não tinha confiança que conseguiria dançar… estávamos uma confusão só. – Quinn soltou uma risada fraca ainda olhando para a tela. – Nós queríamos aquela vitória, queríamos provar que éramos mais do que os perdedores de um pequeno colégio em Ohio. Mas tínhamos aqueles quatro maravilhosos professores conosco e eles tomaram as rédeas enquanto éramos adolescentes berrando e chorando. Fomos os primeiros a nos apresentar e começamos com Edge of glory e a minha coluna estava me matando eu só conseguia pensar em colocar um pé atrás do outro e cantar as notas no tom.
Ela parou olhando para a foto, não parecia notar o sorriso em seus lábios ou as lágrimas que começavam aos poucos se juntarem em seus olhos. A apresentadora ficou em silêncio olhando para aquilo, parecia tão malditamente pessoal que ela se sentia uma intrusa.
— E aí ela entrou no palco para fazer o solo. – Quinn continuou com um pequeno sorriso. – Eu estava no fundo do palco, precisávamos estar ali para o número a seguir e fazíamos a base pra ela. Com uma segurança inabalável ela cantou It’s all coming back to me now… eu deixei de sentir dor, eu só conseguia ficar ali a ouvindo cantar e eu não queria que ela parasse nunca. Foi quando eu soube…
— Que estava apaixonada?
— Não, isso eu já sabia… foi quando eu soube que Rachel Berry conseguiria o que quisesse.
*Diário*
A mulher parada na frente da mesa lhe olhando com um misto de mágoa e carinho era algo que ainda lhe arrancava um pedaço do coração. Quinn ficou parada apoiada na porta enquanto olhava a ex-noiva. Andrea parecia ter perdido alguns quilos desde há ultima vez que tinham se visto.
— Eu não sabia que estava na cidade. – Andrea lambeu os lábios e olhou para a planta que se estendia na sua frente. – E…
— Eu sinto muito. – Quinn a interrompeu.
A arquiteta ergueu a cabeça para olhar a ex-amante, o rosto de Quinn a fez entender pelo que ela se desculpava. Abaixou seus olhos azuis para a planta outra vez.
— Já terminamos Quinn. – Andrea falou rapidamente tentando manter a calma. – Não tem porque entrar aqui agora e me pedir desculpas por isso.
— Eu preciso. – Quinn se aproximou da mesa lentamente, dando tempo para a mulher lhe mandar embora. – Por que talvez as coisas fiquem mais… expostas agora.
Andrea suspirou escondendo o rosto com as mãos, respirou fundo tentando manter a calma.
— Então você finalmente tomou coragem para fazer algo. – Andrea abaixou as mãos e começou a nervosamente arrumar os papéis em sua mesa.
— Andrea. – Quinn a chamou estendendo a mão e segurando o pulso da mulher com a maior delicadeza possível.
— Não, Quinn… — Andrea se afastou dela balançando a cabeça. – Eu não quero ouvir as suas desculpas. Por que eu não quero desculpar você, eu não quero saber que os últimos 4 anos das nossas vidas foram na verdade uma mentira. Eu não quero ouvir que eu fui uma tapa buraco.
— Andrea…
— O que você veio fazer aqui? – A loira começava a ficar vermelha. – Aliviar a sua culpa e me fazer sofrer ainda mais?
— Não. – Quinn respondeu com calma. – Eu apenas queria conversar.
— Conversar? – Andrea soltou uma risada e escondeu o rosto entre as mãos outra vez. – Agora você quer conversar… os últimos seis meses em silêncio e agora que todo mundo sabe quem é Beth Stern você quer conversar?
— Eu quero te dizer que eu realmente te amei. – Quinn ficou de frente para ela, estavam separadas pela mesa. – E que eu sinto muitíssimo por tudo o que eu te fiz passar.
— O que você teria feito se nós tivéssemos casado? – Andrea sentiu a primeira lágrima escorrer por seu rosto. – O que você teria feito?
— Eu teria continuado a te amar e a ser fiel a você. – Quinn respondeu mantendo o tom de voz controlado.
— Seu corpo me era fiel. – Andrea rebateu. – Seu corpo, mas não a sua mente e não os seus sentimentos. Você teria se casado comigo sem realmente me amar, Quinn… isso não é amor, isso é o seu medo de ficar sozinha… por que você sabia que se ficasse sozinha não conseguiria ficar longe dela e o fato de você estar aqui querendo me pedir desculpas porque as coisas ficaram um pouco expostas me diz que você foi.
— Você era a minha melhor amiga… — Quinn mordeu o lábio sentindo a raiva da mulher lhe atingir.
— Exato. – Andrea bradou. – Eu era a sua melhor amiga e não a sua mulher.
— Você está certa. – A autora abaixou o tom de voz. – Está certa… eu fui canalha… fui tudo o que você quiser me chamar. Mas eu te amei. Não como você merecia ser amada, mas eu me apaixonei por você. Eu fui covarde em não te contar toda a história e eu te peço desculpas por isso. Eu passarei o resto dos meus dias te pedindo desculpas por isso.
Andrea se sentou em sua cadeira olhando fixamente para a planta baixa que examinava, tentava manter a calma sentindo o choro se acumular.
— Você poderia ter feito isso pelo telefone. – A arquiteta falou com a voz calma. – Sai.
— Andy… — Quinn murmurou, mas parou quando viu os olhos azuis da mulher.
As duas se olharam por alguns instantes e Quinn se virou para sair.
— Agora é uma história de amor. – Ela pode ouvir a arquiteta falar antes de fechar a porta.
*Diário*
Rachel entrou em casa soltando um suspiro, seus olhos devorando a tela que se enchia de comentários na rede social. Quinn ainda não tinha lhe mandado nada naquele dia, o que era estranho, pois elas tinham estabelecido uma conversa intensa desde que a loira tinha voltado para os compromissos. Se lembrava que hoje ela tinha a gravação do programa, entrou na cozinha deixando suas coisas sobre a bancada e indo direto para a geladeira pegar uma garrafa de água. Talvez ela devesse fazer um chá, estava sentindo que uma gripe se aproximava. O celular tocou atraindo sua atenção, pegou o aparelho franzindo as sobrancelhas para o nome na tela.
— Oi. – Atendeu antes de tomar um gole de água.
— Rachel? – A voz dele vindo pelos autofalantes. – Não sabia se ia conseguir te pegar antes de dormir.
— Acabei de chegar em casa. – Rachel respondeu indo para a sala, deixou a garrafa na mesa de centro e se ocupou em tirar as botas. – Está tudo bem? Tem tempo que não ouço nada de você.
— Estou bem. – Ele respondeu e ela quase podia ver o sorriso torto. – Estamos na terceira semana da pré-temporada e estamos indo bem. Ganhamos duas… não viu?
— Não, eu não tenho acompanhado. – Rachel respondeu com um tom de voz que realmente sentia muito. – Os ensaios estão acabando comigo.
— Eu queria saber o que você vai fazer no sábado. – Ele perguntou ignorando as desculpas dela. — Vamos jogar com os Giants e eu pensei que você poderia ir ver. Você sempre foi o meu amuleto da sorte.
Ela parou sem saber o que responder, eles haviam combinado em não tentar mais levar o relacionamento deles para um lado romântico. Bem… ela havia falado e ele apenas concordara como sempre. Ela permaneceu em silêncio tentando achar uma boa desculpa para não o magoar.
— Rach?
— Eu não vou poder, Finn. – Ela usou um tom de voz delicado. – Eu vou me apresentar no sábado.
— E a sua substituta não pode fazer o show? – Ela podia ouvir o tom de frustração dele.
— Finn… — Ela fechou os olhos.
— Rachel. – Ele falou firme. — Me diz que isso não é sério.
— O que não é sério? – Rachel esfregou a sobrancelha começando a se sentir frustrada.
— Quinn.
Ela parou arqueando as sobrancelhas a mão caiu e ficou pendurada por cima de seu joelho.
— Eu vi que te ligaram com a tal Ellen. – Ele continuou com o tom de voz frustrado. – Eu tentei ignorar, pensei que poderia ser algum tipo de promoção pro show. Mas… Quinn? Ela ter entrado no mundo de Santana era o esperado considerando todas as merdas que ela já fez, mas…
— Finn. – Rachel falou irritada se sobrepondo a voz dele. – Você me ligou por que saíram algumas notas sobre Quinn e eu?
Ele ficou em silêncio e ela fechou os olhos tentando reprimir a raiva.
— Pois saiba que eu realmente tive um caso com Ellen. – Ela se pegou falando com raiva. – E que ainda não sei o que vai acontecer entre Quinn e eu, mas espero que aconteça.
Ela desligou sem esperar por uma resposta dele jogou o telefone no sofá e puxou a almofada para tampar o rosto para reprimir o grito frustrado que soltou.
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