Diário 2.0
3 Capítulo III - Insegurança
Insegurança, tremor, ansiedade e bem… todas as coisas que são tão comuns nos dias de hoje e que nos cercam a todos os instantes. Elas esperam, espreitam, respiram em nossos pescoços, prontas para nos derrubarem no primeiro sinal de brecha que acham. Respire. Ter brechas não te faz fraco, ter brechas te faz humano.
O homem loiro desligou o celular o deixando encima da mesa, pegou o copo de café e sorveu um gole. Arqueou as sobrancelhas vendo a morena entrar com grandes óculos escuros no rosto, se levantou a beijando na bochecha.
— Café? – Perguntou empurrando o segundo copo para ela.
— Agradeço. – Rachel murmurou tirando os óculos e os deixando na mesa, olhou nervosamente em volta antes de voltar para o homem.
Os cabelos dele continuavam no mesmo tom de loiro dourado de quando eram adolescentes, mas a barba preenchia o maxilar quadrado tirando o ar de menino que um dia ele exibiu. Os lábios grossos ainda eram rosados e os olhos tão azuis quanto um céu limpo.
— Como você está? – Ele perguntou cautelosamente.
— Bem. – Rachel tomou dois goles do café e olhou pela janela antes de olhar novamente para Sam.
Sam arqueou as sobrancelhas e esperou que ela falasse algo, ele próprio tomando um gole de café. Rachel tocava os dedos tomando seu tempo para pensar e responder a pergunta muda do homem na sua frente. Ergueu os olhos para Sam que lhe encarava calmamente, suspirou diante da expressão calma dele.
— Ela te intriga. – Sam tentou ajudar. – Eu sempre achei que vocês eram o tipo de “amigas” — Ele ergueu os dedos fazendo as aspas – que, bem, vocês forçavam uma a outra a ir além. Você quer a minha opinião?
— Sim. – Rachel murmurou. – Por favor…
— Eu tenho pra mim que… — Ele se ajeitou na cadeira. – Quinn sempre teve sentimentos por você, mas ela os reprimiu. Ela foi obrigada a reprimi-los, não apenas pela educação religiosa, mas também porque ela não se sentia digna de você. Quinn sempre carregou muita culpa com ela, culpa que ela sempre soube dissimular muito bem.
Rachel tomou outro gole do café, olhou para Sam e suspirou.
— Eu acho que gosto dela. – Encolheu os ombros. – Ela me intriga… eu queria… eu queria poder saber o que mudou nela. Que tipo de mulher ela se tornou… o porque do livro, ela me disse que eu a inspiro e que sempre estive na mente dela.
— E o que você pensa disso? – Sam se inclinou para ela.
— Que é intrigante. – Rachel respondeu apoiando o queixo na mão. – Em que momento isso começou a acontecer.
Sam esticou a mão pegando a de Rachel por cima da mesa, a apertou suavemente causando um efeito quase imediato nos olhos da mulher. Rachel os fechou rapidamente temendo que alguma lágrima atrevida ousasse escorrer. Deu um sorriso contido para ele e encolheu os ombros.
— Ela me intriga. — Repetiu outra vez, já nem sabia quantas vezes havia dito a palavra, mas simplesmente não sabia como traduzir o sentimento que não fosse assim. — Mas não sei o que vai acontecer.
— Acha que ela não quer tentar entender o que é esse sentimento? — Sam mantinha o tom de voz calmo com ela. — Quinn mudou… quando poderíamos sonhar que ela assumiria em público um relacionamento com uma mulher e noivaria com ela?
Rachel tomou um gole do café e mordeu o lábio.
— Eu ainda sou Rachel Berry. — Respondeu com calma. — Talvez isso ainda seja um peso para Quinn.
— Ah vamos Rachel, não me vem com essa que eu não aceito. — Ele franziu as sobrancelhas falando levemente indignado. — Você é Rachel Berry! Você é uma mulher estonteante. Achei que já havia reconhecido a quão sexy e linda você é. Você é uma mulher linda, poderosa, bem-sucedida e sensual. E ao menos que Quinn não tenha amadurecido absolutamente nada em uma década então ela consegue enxergar quão espetacular você é e quão sortuda ela seria se você desse uma chance a ela.
Rachel sentiu as bochechas esquentarem e suspirou.
— De certa forma ela ainda me faz reviver algumas inseguranças. — Rachel deslizou um dedo pelo copo. — Seria muita loucura? Me envolver com ela a essa altura do campeonato? Isso supondo que ela queira ter algo comigo. Algo além da amizade.
— Loucura seria se ela não quisesse. — Sam sorriu com um ar de quem sabe das coisas. – Rach… a mulher escreveu até o momento três livros em que a heroína tem basicamente a sua imagem. Como vocês se encontraram na segunda?
— Eu sabia que ela estava dando uma sessão na livraria. — Rachel respondeu ainda olhando seu dedo fazer pequenos círculos na tampa do copo. — Então eu fui até lá… perguntei a ela em quem ela havia se inspirado para escrever a principal e ela sorriu… me fez uma dedicatória, escreveu o número de telefone dela e me disse que se eu realmente quisesse saber iria saber onde encontrá-la. Eu quis ir embora quando vi, fiquei com vergonha… um pouco insegura, mas algo me segurou lá. Então eu esperei até a última pessoa sair e fui falar com ela… tomamos café e conversamos um pouco a respeito
— Então você a procurou. – Ele deu um pequeno sorriso. – E agora está aqui sentada toda insegura?
Rachel soltou um sorriso sem humor antes de terminar o café e olhar para ele.
— Passei a noite com Ellen. – Encolheu os ombros.
Sam franziu as sobrancelhas em óbvio descontentamento.
*Diário*
Quinn anotava alguns tópicos em uma folha em branco enquanto os dedos da mão livre batiam ritmicamente contra o polegar. Ignorava o ritmo frenético que a produção estava, daria uma entrevista em pouco menos de 20 mins e estava sentada pronta apenas esperando o sinal de entrar.
— Fiz uma pequena pesquisa. – Alex se sentou ao seu lado.
— Sim as cangurus fêmeas possuem três vaginas. – Quinn murmurou ainda escrevendo, os olhos levemente franzidos.
— O que? – Alex franziu as sobrancelhas. – Não.
— Sim. – Quinn a olhou ainda com a expressão séria. – Elas têm apenas uma entrada que se divide em três caminhos distintos até chegar ao útero.
— Por que você está falando disso? – A mulher soltou uma risada. – Por que você sabe disso?
Quinn encolheu os ombros em resposta, anotou mais uma palavra e fechou o diário de notas.
— Passei anos convivendo com alguém que sabia ou inventava as coisas mais aleatórias do mundo.
— Eu ia dizer que pesquisei a respeito de Rachel. – Alex viu os movimentos de Quinn pararem e a loira ficar levemente tensa. – Você sabia que no último ano ela foi relacionada romanticamente a três pessoas diferentes além do relacionamento ioiô que ela mantém com o Finn Hudson? Só esse ano eles já foram flagrados em clima de romance umas 2x.
— E pra que você está pesquisando isso? – Quinn controlou o tom de voz olhando em volta.
— É meu trabalho proteger a sua bunda. – Alex respondeu no mesmo tom controlado. – E Deus sabe que bunda grande você tem.
Quinn se inclinou para a mulher e abaixou ainda mais a voz.
— Não se meta com Rachel, é um problema meu e eu vou lidar com ele. – A voz saiu baixa e rouca.
— Não, não é. – Alex rebateu. – Você me jogou na fogueira aqui então agora eu tenho que fazer o meu trabalho. Preciso saber com quem você está se envolvendo para poder me preparar para um eventual escândalo. Ou acha que eu já não pensei em vocês duas muito bem namorando e ai bum! Surge uma sexy tape de Rachel Berry e um de seus companheiros de palco.
Quinn fechou a mão em um punho e a sua única vontade era a de socar sua própria agente.
— Quinn estamos prontos, você entra em 1min. – Ouviu o chamado.
Se levantou colocando o diário dentro da bolsa, olhou para Alex mais uma vez e se inclinou para a mulher.
— Faça algo contra Rachel e eu terei prazer em te demitir e te dar uma surra. – Falou com a voz truncada devido aos dentes cerrados.
— Você sempre foi tão protetora dela? – Alex devolveu. – 20 segundos.
Quinn se afastou sem responder, parou na borda do estúdio e respirou fundo antes de simular um sorriso em seu rosto quando seu nome fora anunciado. Ela entrou no palco com um sorriso largo no rosto, cumprimentou os apresentadores e se sentou no sofá que estava vago.
— Bom dia. – Ela cumprimentou tentando manter a calma.
— Bom dia, Quinn. – A mulher loira sorriu para ela. – Bem-vinda mais uma vez ao nosso programa.
— É sempre um prazer. – Quinn respondeu calmamente, um sorriso suave nos lábios.
— O último livro já é um best-seller. – O homem sorriu para ela. – Isso deve ser algo a ser comemorado, não é?
— É sempre bom quando seu trabalho duro é reconhecido. – Quinn respondeu com uma risada suave. – É gostoso e eu amei a história desse terceiro livro.
— Sim, Beth Stern vai para um país que está sob o comando de um ditador e ela acaba se apaixonando por um dos revolucionários. – A mulher sorriu como se conspirasse. – É um bom romance, ardente eu diria.
— É mais do que um romance. – Quinn tentou amenizar a linha que a mulher parecia querer seguir. – Stern se tornou uma mulher forte, determinada que chegou no ponto em que ela percebe que ela é o que ela é e acabou. Ela percebe que ela é uma mulher poderosa, que ela pode sim ir pra linha de frente e que ela é sim capaz de liderar. Stern deixou de ser uma menininha que era mandada e passou a mandar.
A mulher concordou com a cabeça com um sorriso falso nos lábios. O homem sentindo a tensão que a sua companheira de palco apresentava ergueu o punho e falou animado.
— Girl power. – A plateia aplaudiu. – É assim mesmo que tem que ser, nossas meninas precisam disso. Particularmente eu gostei do final, foi surpreendente e feroz.
Quinn sorriu concordando com a cabeça antes de se inclinar na direção dele. – Não podemos falar do final para não dar spoiler, mas eu adoro o final do livro.
— Não queremos estragar o final para ninguém. – Ele ergueu as mãos antes de rir. – Mas me diz como estamos a respeito do próximo, estou curioso.
— Eu tenho algumas ideias. – Quinn esfregou as mãos. – Algumas ideias que tem me deixado bastante animada eu confesso. Quero aproveitar o gancho do final do terceiro livro para explorar um pouco o passado de Stern.
— O pai desconhecido? – O homem arqueou as sobrancelhas. – Me diz que é o pai desconhecido.
Quinn gargalhou e encolheu os ombros fazendo uma carinha de que não responderia nada. Ela percebeu o silencio da mulher após o seu corte nem um pouco sutil, mas ignorou concentrando sua atenção no homem. Falaram um pouco mais a respeito do livro e da recepção que ele estava tendo até ela notar uma certa malícia nos olhos da mulher.
— Estamos falando tanto de Stern que me ocorreu um fato. – Ela falou delicadamente, como se estivesse cercando Quinn para o bote. – Você se inspirou em uma atriz da Broadway para fazer a personagem, não foi?
Quinn a olhou e sorriu abertamente.
— Sim eu me inspirei em uma atriz da Broadway para a descrição tanto física quanto da personalidade de Stern. – Ela concordou ainda sorrindo. – Rachel Berry é o nome dela e no momento ela é uma das estrelas de Rent.
— Qual a personagem? – A mulher perguntou educadamente como se estivesse interessada.
— A última vez que eu vi era Maureen Johnson… — Manteve o mesmo tom educado.
— Ah sim, ela é par romântico da Ellen Fuentes, não é? – A mulher sorriu como se tivesse acabado de chegar ao ponto que queria. – Eu li que elas estavam em um relacionamento inclusive, acha que Ellen gostou da homenagem?
— Se ela gostou ou não eu não sei, mas eu sei que Rachel está ciente dela. – Sorriu abertamente. – Da última vez que nos falamos pelo menos ela estava muito empolgada com o livro.
— Então vocês são próximas? – A mulher jogou no ar como se insinuasse algo.
— Eu vi que vocês estudaram juntas não foi? – O homem interrompeu a troca entre elas.
— Sim, fizemos o ensino médio juntas. – Quinn respondeu calmamente. – Alguns dos meus personagens são inspirados em pessoas com as quais eu convivi.
— Mas porque Beth Stern seria igual a Rachel Berry? – A mulher forçou um pouco.
Quinn sorriu abertamente, seu coração tranquilo.
— Por que se você conhecesse Rachel Berry iria perceber que ela merece toda e qualquer forma de homenagem. – Quinn respondeu calmamente e com um sorriso carinhoso nos lábios.
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