Diário 2.0
1 Capítulo I - Um novo começo
Notas iniciais
Eu tinha 19 anos quando comecei a primeira versão de Diário. Eu tinha 19 anos e me achava muito boa. Eu tinha 19 anos e achava que sabia tudo o que tinha que saber. Eu tinha 19 anos e era estúpida. Eu tinha 19 anos. Hoje eu tenho 26 anos quando inicio essa segunda versão. Eu tenho 26 anos e não me acho nada boa. Eu tenho 26 anos e percebi que não sei nem o que deveria saber. Eu tenho 26 anos e ainda sou um pouco estúpida, mas juro que melhorei bastante! Eu tenho 26 anos. Aos 19 anos eu estava de coração partido, largando uma graduação que não me fazia bem e ainda tentando me aceitar. Aos 26 eu percebi quão gostoso é estar na companhia de si mesmo, eu acabei de concluir uma graduação que me fez ser alguém melhor e eu me aceito completamente. Conseguem perceber como em 7 anos alguém pode mudar? É por isso que eu quero reescrever isso aqui. Eu quero provar para mim que eu mudei e quando eu mudei o meu Diário também mudou. Então não espere que seja a mesma coisa. As mesmas falas. As mesmas vidas. Vamos fazer um novo Diário, vem comigo… vai ser divertido.
Abriu a porta do apartamento soltando um suspiro cansado, foi direto a cozinha deixando a bolsa no balcão e as chaves em uma tigela que estava ali justamente para aquilo. Tivera um dia exaustivo no teatro, fez duas apresentações e quase podia sentir suas cordas vocais precisando de um descanso. Abriu a pequena adega que estava embaixo da bancada e pegou uma garrafa de vinho tinto, abriu a gaveta atrás do abridor e por fim uma taça no armário superior. Se serviu de uma boa e generosa dose e abriu a bolsa atrás do celular antes de ir para a sala. E enquanto carregava a taça e a garrafa com uma mão com a outra já desbloqueava a tela do aparelho. A ansiedade leve se instalando quando olhou as horas, bem… se as informações estavam corretas ela já estaria em New York e já estaria no palco. Deixou a garrafa na mesinha de centro junto com a taça antes de sentar no sofá esticando as pernas para finalmente ligar a televisão buscando pelo programa que queria, um sorriso inconsciente surgiu em seus lábios ao ver a mulher de cabelos loiros curtos que falava com a voz ligeiramente rouca e mexia as mãos. Ela estava falando do último livro lançado, seus olhos escuros voltaram para a tela do celular entrando em alguma mídia social. Jogou o nome da mulher loira na barra de buscas e deslizou a tela vendo os comentários dos fãs a respeito da entrevista, tomou um gole da taça sentindo o vinho queimar suavemente sua boca.
— Agora… — Ela ouviu a voz do apresentador, tomou outro gole do vinho sua atenção ainda no celular. — Eu soube que você está solteira.
— Sim… — Ela respondeu atraindo a atenção da mulher no sofá. — Há alguns meses.
— Sinto muito. — O homem deu um sorriso acolhedor. — Não vou me alongar muito nessa parte, mas… tem visto alguém?
— Não… nos últimos meses passei trancada em casa escrevendo. — Ela respondeu tomando um gole de água. — Precisava focar em algo e depois de um relacionamento longo é necessário um pouco de… atenção a si mesmo.
— Isso é importante, mas falando de atenção a si mesmo. — Ele balançou as sobrancelhas a fazendo rir. — Brincadeira, mas preciso dizer… quando anunciamos que você seria uma das convidadas da semana acabamos sendo bombardeados de perguntas.
Ela arqueou uma sobrancelha exatamente como fazia quando adolescente e isso causou um sorriso na mulher sentada no sofá.
— Seus fãs são realmente… apaixonados! — Ele abriu os braços para enfatizar a última palavra a fazendo rir outra vez. — Me mandaram algumas fotos e perguntas.
— Fotos e perguntas? — Ela sorriu nervosa.
— Fotos como essa aqui. — Ele olhou para a parede atrás deles.
— Oh meu Deus. — Ela se espantou soltando um riso em seguida.
Três garotas estavam na foto, vestidas uniformes de líderes de torcida em vermelho e branco, rabos de cavalos e posturas idênticas.
— Você tinha quantos anos? — Ele a olhou.
— 16 anos. — Ela se inclinou um pouco para frente olhando a foto. — Onde acharam isso?
— Não tenho a menor ideia, mas também acharam isso aqui. — Ele trocou de foto e ela arregalou os olhos pela surpresa. — Você tinha quantos anos aqui?
— Também 16. — Ela inclinou um pouco a cabeça, se viu em um vestido dourado, cabelos longos e faixa combinando na cabeça. E acima de tudo ela se viu grávida de 9 meses. – Meu deus foram as nossas primeiras Regionais.
— Agora me explique… eu vejo muitos rostos conhecidos ali. – Ele inclinou um pouco a cabeça.
— É claro. – Ela riu. – Ali você tem por exemplo Mike Chang… ele está se tornando um coreógrafo conceituado em Los Angeles. Se algum dia você não ouviu falar de Mercedes Jones então não está ouvindo música corretamente. Artie Abrams por Deus ele está dirigindo e produzindo filmes incríveis e Kurt Hummel trabalha na área de criação da Vogue. Tina Cohen-Chang foi indicada ao Tony do ano passado como melhor atriz coadjuvante em musical. Finn Hudson é quarterback dos Dolphins se eu não me engano e obviamente… estamos em New York então… a princesinha da Broadway Rachel Berry também está ali.
A morena no sofá sorriu ainda mais, apertou a taça em sua mão.
— E é aqui que eu pergunto… como um pequeno colégio em Lima, Ohio criou tanta gente talentosa? – O apresentador riu.
— Provavelmente algo nos Slushie’s. – A mulher soltou uma risada fraca. – Acredite… os de uva eram os piores para tirar a mancha da roupa.
O homem riu antes de olhar para a foto.
— Bem… eu preciso perguntar, mas você estava grávida? – Ele ficou mais sério. – Eu sei que você já falou disso em outras entrevistas.
— Eu estava. – Ela concordou olhando para a foto outra vez. – Eu tinha 16 anos, era de uma família extremamente conservadora e cristã e engravidei aos 16 anos. Fui expulsa de casa, trabalhei meio-período onde me aceitavam, morei na casa de amigos… esses amigos. – Ela indicou a foto. – Exatamente nesse dia eu dei à luz a uma menina linda.
— Nesse dia? – O homem apontou para a foto.
— Nesse dia, perdemos as Regionais, mas na sala de espera estavam todos eles esperando por ela. – A mulher suspirou. – E aí eu a segurei nos braços por alguns instantes e a dei para a adoção.
— Uau. – Ele a olhou espantado. – Você a conhece?
— Sim, temos uma boa relação. – A mulher sorriu. – Ela conhece a história, obviamente, hoje ela tem 12 anos. Eu tive a sorte de ter permissão de estar perto dela, sou muito grata a isso.
O homem estendeu a mão apertando a dela, ela deu um sorriso triste.
— Tenho outra foto. – Ele comentou olhando para a tela.
Mas para a sua surpresa era a foto produzida de uma mulher morena, sentada no chão encarando o fotógrafo de maneira sexy.
— Rachel Berry. – O apresentador falou.
A morena no sofá se endireitou encarando a tela, o celular escorregou por entre seus dedos indo pousar no sofá.
— No último livro… — Ele ergueu o terceiro livro da saga. – Notamos que Beth Stern está mais… madura… e a descrição dela é… — Ele folheou o livro antes de olhar para a mulher loira. – Bem… seus fãs apontaram isso. Eles dizem que Beth Stern sempre se pareceu com Rachel Berry, o que você acha disso?
— Eu digo que admiro Rachel Berry. – A mulher sorriu. – Ela é… uma cantora fantástica e acredite eu a ouvi cantar por mais de 3 anos da minha vida praticamente todos os dias. Ela é uma atriz incrível, não é atoa que já tem dois Tony’s na carreira. E… eu a admiro profundamente.
— Vocês parecem ter uma história. – O homem arqueou as sobrancelhas.
Ela riu tomando outro gole de água.
—Temos sim, e nem sempre foi uma boa história, mas eu tive sorte de Rachel ser o tipo de pessoa que consegue dar uma segunda chance. – Ela encolheu os ombros. – Sou grata a ela.
— E com isso encerramos aqui. – O homem riu se levantando para abraçar a mulher loira. – Quinn Fabray senhoras e senhores…
A morena suspirou colocando a taça encima da mesa, olhou para Quinn na tela uma vez mais antes de decidir. Ela iria atrás da loira.
*Diário*
A livraria estava abarrotada, adolescentes agarrados aos livros falando em vozes ansiosas. O banner com a mulher loira na poltrona, segurando o livro de capa vermelha, a expressão sempre calma e com um leve sorriso. A fila dava voltas dentro do ambiente, alguns esticavam os pescoços para ter uma boa visão da mulher.
Sentada atrás da mesa, a postura impecável, o copo d’água a sua direita enquanto segurava com a mão esquerda a caneta prateada entre os dedos longos. Seus cabelos loiros bem claros arrumados em um penteado bagunçado, os óculos de grau quadrados de armação branca assentados perfeitamente no nariz de proporções exatas, a pele clara com o batom rosa nos lábios enxutos. A franja jogada para o lado encobriu parcialmente os olhos verdes bem marcados pelo lápis preto. Usava um conjunto cinza gelo com a camisa de risca rosa por baixo do blazer, as argolas pequenas de ouro nas orelhas delicadas e a cruz em seu pescoço. Sorriu para a garotinha que não tinha mais de 11 anos e que se afastava encarando encantada o livro autografado, um novo livro apareceu em sua frente.
— Será que eu poderia saber, onde você se inspirou para criar a personagem principal? – Fazia realmente muito tempo desde a última vez que ouvira aquela voz se dirigir diretamente a ela.
Deu um meio sorriso puxando o livro sem nem ao menos levantar o rosto, abriu na primeira página e pôs a caneta a trabalhar. Podia sentir os olhos lhe encarando intensamente, fechou o livro e finalmente ergueu o rosto. Ambas as respirações estavam lentas como se quisessem prolongar aquele momento, os olhos se encontraram e era possível perceber um toque de carinho, um toque de saudade e um toque de curiosidade. Olhos castanhos, pele dourada e macia que parecia implorar por um toque.
— Se você parar só um pouco para pensar talvez saiba a resposta. – Estendeu o livro, piscou um dos olhos e sutilmente engoliu a saliva antes de sorrir. – Senhorita Berry é um prazer revê-la.
— E quando foi que Quinn Fabray se tornou tão cordial? – Um pequeno sorriso nos lábios.
Quinn inclinou a cabeça para o lado, a fila ainda estava grande.
— Leia a dedicatória e se ainda quiser saber quando foi você saberá me encontrar. – Sorriu com os lábios. – Você está linda Rachel.
*Diário*
Rachel se afastou podendo finalmente respirar a ponto de encher os pulmões daquele gás tão precioso, não tinha notado que sua respiração estava tão superficial. Escondeu-se atrás das estantes de livros, observou à loira autografar mais alguns livros.
Abriu o que segurava e devorou as palavras escritas na caligrafia elegante:
Para Rachel
Antigamente os viajantes utilizavam as estrelas para se guiar em seu caminho.
Até a menor delas poderia salvar alguém, mas com o passar dos anos as pessoas pararam de olhar para elas.
Eu nunca deixei.
Quinn Fabray
Mordeu o lábio encarando a última frase com tanta intensidade que poderia ter queimado a folha. Esperava que aquelas palavras lhe dessem todas as respostas que estava procurando há algum tempo. Notou o número de celular no final da página e o sorriso se formou, sim ela saberia como encontrar Quinn Fabray, mas… apoiou o ombro na estante de livros e olhou para a mulher loira que continuava assinando os livros. Ela esperaria… ela poderia saber como encontrar Quinn, mas naquele instante queria as respostas que apenas loira poderia lhe dar. Então ela esperou, esperou até o último cliente ser atendido e esperou até as fotos serem tiradas e quanto Quinn se voltou para a própria bolsa arrumando seus pertences ela se aproximou.
— Eu jurei que iria receber uma mensagem muito prolixa pela manhã, mas você me esperar é surpreendente. – Quinn se virou para olha-la.
— Eu achei que já tínhamos passado muito tempo em silêncio. – Rachel encolheu os ombros. – Podemos tomar um café?
Quinn suspirou e concordou com a cabeça, puxou a morena para a saída lateral da livraria.
— Muita gente na principal. – Quinn respondeu à pergunta muda da morena. – Não sei como não surtaram com você na livraria ou como os paparazzi não fizeram uma festa.
— Talvez a sorte estivesse ao nosso favor hoje. – A morena respondeu com um pequeno sorriso. – Então… por quanto tempo vai ficar?
— Em New York? – Quinn a olhou de lado, apoiou a mão nas costas da mulher quando foram passar por um grupo de turistas. – Apenas até amanhã de manhã e então vou a New Heaven, vou dar uma palestra em Yale e uma noite de autógrafos.
A morena arqueou as sobrancelhas arrancando um riso de Quinn.
— Algo sobre o filho pródigo a casa torna. – Quinn encolheu os ombros. – Um professor que acabou se tornando um amigo me pediu o favor e eu concordei, mas tenho certeza que nem todo o colegiado concorda com a minha palestra.
— Não minimize isso, é algo grande Quinn. – Rachel a puxou por uma rua, fingiu não ver o tom rosado nas bochechas da mulher. – Vi sua entrevista ontem.
— Viu? – A loira franziu as sobrancelhas.
— Sim. – Rachel respondeu sem olhar para a outra. – As fotos… você ficou bem em falar de Beth?
— Bem… não costumo falar dela, mas ali eu não tinha como fugir exatamente. – Quinn respondeu segurando Rachel pelo braço para a impedir de atravessar com o sinal aberto para os carros. – Então… eu falei. Sobre…
— Beth Stern? – A morena a olhou de soslaio arqueando a sobrancelha. – Vamos entrar ali, é um café pequeno, mas é um dos meus preferidos.
Quinn segurou a porta para a outra entrar, Rachel foi diretamente para um canto razoavelmente afastado das janelas. Quinn se sentou de frente para ela colocando a bolsa em uma cadeira vazia.
— Boa noite em que posso ser útil? – A atendente se aproximou delas e sorriu para Rachel. – O de sempre?
— E qual é o de sempre? – Quinn arqueou a sobrancelha com um sorriso brincalhão nos lábios.
— Café duplo e um pedaço da torta do dia. – A garçonete explicou.
Quinn olhou para Rachel que deu um sorriso contido, voltou a olhar para a garçonete e ergueu dois dedos.
— Queremos dois de sempre. – Soltou uma risada baixa.
A mulher concordou com a cabeça se afastando. Quinn olhou para Rachel que desviou os olhos para a janela distante.
— Acredito que tenha perguntas… — Quinn continuou fitando o rosto de Rachel.
— Eu não sabia que seu noivado tinha acabado. – Rachel a olhou. – Quer dizer, eu li alguns rumores…
— Rumores? – Quinn franziu as sobrancelhas.
— Seus fãs. – Rachel encolheu os ombros. – Talvez eu acompanhe a sua carreira através deles. Mas ontem foi a primeira vez que você confirmou o fim do noivado…
Quinn suspirou se recostando na cadeira. Lambeu os lábios encarando a mesa.
— Andrea é uma mulher incrível. – Ela começou lentamente. – Mas…
— Mas? – Rachel insistiu suavemente.
— Eu nunca deixei que ela visse fotos da época de colégio. – Quinn ainda não a encarava. – Até um dia que Santana apareceu na minha casa com um anuário do nosso último ano… e ela viu uma foto sua. Andrea nunca foi ligada a musicais e raramente vinha a New York… ela nunca me perguntava a respeito do colégio, mas ela sabia de você, mesmo nunca tendo uma foto sua. Mas no momento que ela viu aquela foto… ela viu Beth Stern.
Ergueu os olhos para encarar os olhos castanhos da mulher, encolheu os ombros com um semblante triste.
— Santana não deveria ter feito isso. – Rachel suspirou.
— Não, mas de certa forma eu agradeço por ter feito. – Quinn afastou a mão para a atendente colocar os pedidos na mesa, tomou um gole de café. – Eu teria feito uma covardia absurda com Andrea se Santana não tivesse se metido.
Rachel brincou com a torta antes de erguer os olhos para a mulher loira que lhe encarava.
— Por que Beth Stern? – Rachel perguntou suavemente.
— Eu não sei… — Quinn respondeu suavemente. – Eu estava me formando e estava perdida sem saber o que faria da minha vida… não conseguia dormir e então eu sentei na frente do notebook e escrevi. Beth Stern nasceu naquela madrugada. Santana foi quem leu o primeiro manuscrito e ela ficou parada olhando pra mim e não falou nada, quando a editora entrou em contato dizendo que queriam publicar eu não achei que fosse virar o que virou. E quando eu percebi… a minha vida inteira tinha mudado.
Tomou outro gole de café.
— Andrea… — Quinn parou sem saber como continuar. – Bem… Andrea me disse que eu sempre voltava a você… na adolescência de um jeito cruel e quando estava perdida na faculdade você me deu um caminho… como Beth Stern…
— E o que isso significa? – Rachel a olhou procurando por algo.
Quinn suspirou e a encarou de volta.
— Eu não sei Rachel… — Quinn soltou a respiração. – Eu não tenho essa resposta. O que eu sei é que…
— É que? – Rachel insistiu.
— O que eu sei é que de um jeito ou de outro você sempre esteve na minha mente. – Quinn soltou a respiração. – E que Andrea estava certa… você me deu um caminho, uma direção e talvez eu nunca venha realmente a entender, mas você sempre esteve lá. Eu não sei o nome desse sentimento. Eu sei que eu admiro você. Eu respeito você. E você me inspira… realmente me inspira…
E então elas ficaram em silêncio cada uma imersa em seus próprios pensamentos, mas seus olhos presos uns aos outros.
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