Diário
36 Capítulo XXXV - Benjamin
Notas iniciais
O filho varão. Desde que o mundo é mundo todo homem quer ter o filho que carregará o seu nome por mais uma geração. O filho homem teve por anos uma importância superior a filha, a mulher era a moeda de troca, o homem era o orgulho a ser exibido. A mulher era um mero objeto de decoração enquanto o homem era o centro de poder. Todo homem quer um filho que irá se espelhar em suas ações que irá seguir seus passos.
Deixou as malas pela sala, junto com o casaco que estava sobre o braço do sofá. Alongou a coluna enquanto andava pelo corredor, a porta entreaberta foi empurrada sutilmente enquanto o corpo deslizava para dentro do cômodo escuro. Seus passos lentos e silenciosos até a cama onde o pequeno corpo repousava com a respiração calma. Acariciou os cabelos claros do menino sentindo seu peito se encher com aquela emoção tão quente.
- Hey príncipe a mamãe chegou. – O beijou na testa murmurando essas palavras, o cobriu vendo que ele se agarrava com mais força ao ursinho de pelúcia que o avô tinha lhe dado. Acariciou os cabelos loiros mais uma vez antes de ir para a porta, parou no portal e olhou para trás o sorriso chegou aos seus lábios e a paz se instalou em sua mente assim que o filho suspirou.
Saiu pelo corredor para finalmente encontrar ela. Seu porto seguro, seu chão. Empurrou a porta apenas para ter seus olhos preenchidos pela figura deitada no meio da cama, o sorriso fácil surgiu em seus lábios. Não se importou em trocar de roupa escalou a cama se acomodando atrás do corpo de Rachel a puxando bem firme.
A diva abriu os olhos no susto, virou o rosto por cima do ombro vendo a cabelereira loira.
- Baby? – Chamou tentando clarear a voz. – Que horas são? O que você está fazendo em casa? Terminou o livro?
- Shh… diminui para uma pergunta por minuto. – Sorriu apertando os lábios contra a orelha de Rachel. – Também senti sua falta meu amor.
Rachel soltou um gemido baixo apertando o corpo de Quinn no seu, sorriu de leve sentindo o beijo pequeno no seu pescoço.
- Senti sua falta baby. – A Berry sussurrou.
- São 3:45 da manhã. – Respondeu esfregando seu nariz contra a pele sentindo o cheiro dela. – Estou em casa por que já sei como escrever o final do livro.
- Mas você não escreveu. – Mordeu o lábio sentindo o beijo molhado em seu pescoço.
- Queria voltar para casa. – Murmurou baixinho no pé do ouvido. – Estava com saudades, mas eu já resolvi o problema do livro e já sei como escrever.
Soltou uma risada baixa, se virou para encarar os olhos verdes, Quinn se contorceu acendendo a luz do abajur.
- Oi. – Rachel sussurrou.
- Oi. – Quinn sorriu de leve, acariciou o rosto de Rachel com as costas dos dedos.
- Senti sua falta. – Fechou os olhos castanhos com o contato.
- E eu a sua. – Se inclinou a beijando brevemente na boca ainda com a sombra do sorriso nos lábios.
- Posso ler?
- Não. – Soltou uma risada baixa vendo o leve biquinho que Rachel fez. – Ainda não.
- Chata. – Estalou os lábios arrancando mais uma risada de Quinn.
- Como ele está? – Sussurrou passando o seu nariz pelo de Rachel.
- Bem, com saudades de você, mas bem. – Perdeu o ar por um instante, levantou o cobertor cobrindo Quinn.
- Tenho que trocar de roupa. – Resmungou sentindo a mordida sútil em seu lábio inferior.
A risadinha maliciosa de Rachel fez sua pele se arrepiar enquanto as unhas bem feitas se arrastavam pela pele da sua nuca.
Kurt coçou os olhos, o relógio em seu pulso indicava 23:45, mas finalmente conseguira terminar o roteiro agora só precisava envia-lo para Quinn adicionar ou retirar alguma cena. Pegou o celular olhando a tela vazia de qualquer tipo de comunicação, suspirou se recostando contra a cadeira.
- Ele não retorna? – Mercedes apareceu pela porta com um copo de leite morno.
- Não. – Ergueu os olhos claros para ela, estavam cansados e tristonhos. – Ele não me atente e não retorna as ligações.
- Aqui. – Colocou o copo na frente dele, alisou os cabelos escuros. – Ele vai ligar, só deve estar precisando de tempo.
- Fui tão burro. – Suspirou sentindo ela lhe puxar pela mão. – Mercedes eu fui tão idiota.
- Quem não é burro e idiota nessa vida? – Pegou o leite quente e o puxou para fora da sala.
- Sem filosofar a essa hora Cedes. – Kurt reclamou fazendo um pouco de manha.
A mulher soltou uma risada alta o puxando para o quarto.
- Você acha que eu possa ter o magoado a ponto de que ele não queira mais falar comigo? – Parou na porta vendo a mulher se adiantar para a grande cama de casal.
- Talvez. – Respondeu com sinceridade.
- Obrigado. – Rolou os olhos claros.
- Estou tentando ser uma boa amiga Hummel. – Ela soltou uma risada baixa. – Amigas falam a verdade e talvez você tenha o magoado a esse ponto.
- Sinto falta dele. – Kurt se sentou na beirada da cama soltando um suspiro sofrido.
- Eu sei. – Esfregou os ombros de Kurt.
Quinn parou na porta da cozinha, observou a mãe cantarolando uma canção qualquer enquanto Ethan se divertia com alguns cubos de frutas. Rachel estava lendo algo que ela identificou como um roteiro. Se aproximou sem fazer barulho de Ethan e o beijou no topo da cabeça, murmurou no ouvido do menino que levantou o rosto para ela.
- Como está o meu pequeno príncipe?
- MAMÃE. – O grito junto com o sorriso dele fez Quinn soltar uma gargalhada.
- Quinn? – Judy sorriu para a filha que apanhava o menino em seu colo. – Quando você chegou?
- De madrugada. – Respondeu beijando os lábios de Rachel rapidamente.
Aproximou-se da mãe permitindo que ela lhe abraça-se e lhe desse um beijo estalado na bochecha.
- Conseguiu? – Perguntou servindo uma caneca de café para a filha.
- Sim. – Sorriu colocando Ethan sentado em sua perna. – Mãe, podemos reforçar o pedido da senhora vir morar conosco?
- Já disse que gosto do meu canto Quinnie. – Respondeu servindo as panquecas no meio da mesa.
- Mas a senhora ajuda tanto com o Ethan. – Quinn respondeu.
- E nós adoramos ter a senhora por perto. – Rachel acrescentou com um sorriso a sogra.
- Meninas eu adoro passar um tempo com vocês e ajudar a cuidar do Ethan, mas eu gosto do meu canto e vocês precisam ter o de vocês e é por isso que eu vou voltar para Lima e acabou o assunto. – Sentenciou com uma sobrancelha levemente arqueada.
Quinn ia retrucar quando seu celular vibrou no bolso da calça, pegou o celular tentando não incomodar Ethan em seu colo.
- Frannie? – Franziu as sobrancelhas vendo o número da irmã na tela do aparelho. — Alô?
- Precisamos conversar. – A sentença curta.
- Algum problema? – Arqueou as duas sobrancelhas sobre o olhar atento das duas outras mulheres.
- Preciso que você venha no restaurante junto com a mamãe.
- Que horas?
- Agora Quinn. – A respiração superficial.
- Ok e onde é o restaurante? Você não me disse que era aqui em New York achei que vocês fossem abrir em Boston.
- Estamos abrindo um em New York, 43 East Street 19th. – Falou o endereço rapidamente. – Traga Rachel.
O sinal de mudo, Quinn olhou para o aparelho sem entender.
- Ela pediu para irmos ao restaurante, eu nem sabia que eles iam abrir um aqui em New York. – Olhou para a mãe. – Pela voz dela é urgente.
Sam se inclinou contra a cadeira sentindo a ressaca retumbando em sua nuca, seus olhos fechados tentando se aproveitar do frescor da escuridão. As palavras que tinha acabado de ler ainda gravadas em suas pálpebras. Mercedes já tinha lhe avisado que Blaine faria aquilo, mas ver na sua frente ali gravado no papel fazia a traição lhe doer um pouco mais. Tinha sido tão burro a única pessoa que havia assinado com ele era Quinn, todos os outros assinaram com Blaine e é óbvio que ele havia feito o contrato de exclusividade pelas suas costas. Em outras palavras ele tinha uma cliente por pouco tempo já que o contrato era de apenas 6 meses iniciais e em seguida ele a passaria de volta para Donna, o aluguel do apartamento e o aluguel do escritório que ele não sabia como iria pagar e um divórcio que ele deveria dar entrada assim que Mercedes retornasse a New York. Estava, sem ter outra palavra melhor para definir, fodido em quase todos os sentidos da palavra.
Frannie estava sentada em um pequeno escritório, podia ouvir o barulho da reforma que Thomas estava vistoriando. Seus olhos concentrados na figura encostada na parede oposta, a bolsa de viagem largada aos seus pés, os braços cruzados sobre o peito. Os cabelos loiros acinzentados estavam escondidos sobre o capuz preto, a pele era pálida deslizava pelo pescoço até a blusa branca.
Ouviu a batida suave e logo Thomas colocava a cabeça para dentro do escritório.
- Querida elas chegaram. – O tom de voz do homem era macio e cuidadoso, ele deu passagem para as três mulheres entrarem.
- Frannie. – Judy se aproximou sorrindo. – Que susto você nos deu, qual o problema?
Frannie se levantou dando um sorriso de lado para a mãe, a envolveu com os braços, o olhar de Frannie e Quinn se encontrou e a mais velha sutilmente indicou o rapaz.
Quinn se virou para encarar o garoto, os olhos castanhos claros se encontravam de baixo das sobrancelhas espessas e bem formadas. O nariz bem feito e os lábios carnudos rosados quase sem desenho algum, o rosto era levemente afinado e bem barbeado.
- Quem é o rapaz? – Quinn perguntou enquanto Thomas entrava com duas cadeiras, uma para Judy e outra para Rachel que segurava Ethan em seu colo.
Judy se virou ao ouvir a pergunta da filha mais nova, seu rosto perdeu a coloração corada que tinha adquirido pelo frio, os olhos claros dela se arregalaram de leve enquanto soltava Frannie e se aproximava do garoto. Levantou a mão tocando o rosto dele com a ponta dos dedos, uma lágrima desceu pela maçã do seu rosto.
- Judy, você quer ir lá fora? – Thomas ofereceu se aproximando da sogra. – Eu te faço companhia.
- Eu gostaria. – Murmurou se afastando do menino, aceitou o braço que o genro lhe oferecia.
Ela parou na porta e olhou mais uma vez para o garoto que se mantinha olhando fixamente para o chão, a porta bateu indicando a saída dos dois.
Quinn se virou para a irmã exigindo alguma explicação e apenas recebeu uma carta que a irmã lhe estendia.
Fabray,
Primeiro eu gostaria de pedir desculpas pelos transtornos que poderei vir a causar, mas tenho uma história a contar.
Fui casada durante oito anos da minha vida, meu marido era um homem respeitoso, trabalhador e honesto. Eu tinha a vida que sonhei desde pequena, uma boa casa e um marido amoroso, mas faltava algo. Me faltava um filho.
Era difícil engravidar, pois meu marido trabalhava em uma grande empresa e vivia viajando, mas finalmente depois de um pouco mais de dois anos de casados eu consegui engravidar e nós tivemos o nosso menino. Benjamin.
Minha vida estava completa, meu marido adorava meu filho e minha família estava em paz.
Um dia quando meu filho estava para completar seus cinco anos de idade, meu marido entrou em casa e estava furioso. Eu não o esperava aquela semana ele deveria estar em Ohio a trabalho. Ele entrou em casa completamente bêbado e eu via nos olhos dele que ele sentia ódio, ódio de tudo o que estava naquela casa, ódio de mim e do nosso filho. Ele gritava que as mulheres eram todas iguais, que não passavam de um bando de prostitutas e deveriam ser tratadas como tal. Foi a primeira vez que ele levantou a mão para mim e ele fez isso na frente do meu filho, também foi o momento em que eu descobri a verdade.
Ele tinha outra família. Uma esposa e duas filhas em Ohio a filha mais velha havia se mudado para fazer faculdade fora do estado e a mais nova tinha engravidado e era por isso que ele estava naquele estado.
Russel Fabray era o nome do meu marido, o meu marido até aquele dia. Quando ele dormiu naquela noite eu peguei meu Ben e saímos para nunca mais voltar para aquela casa. Saímos da Pensilvânia e fomos morar em Connecticut por um tempo, meus pais nos esconderão, mas isso não iria parar Russel de nos encontrar. Depois de Connecticut conseguimos nos esconder no interior da Carolina do Norte onde ficamos desde então.
Eu nunca quis procurar vocês, pois já me sentia humilhada o suficiente e tinha que preservar meu filho que estava assustado e confuso, mas agora é diferente.
Estou morrendo, não me resta muito tempo e eu não tenho com quem deixar Benjamin. Ele é um bom garoto e não merece ter que conviver com Russel, não é justo pedir isso, mas quando eu vi que vocês são tão afastadas dele eu não tive outra escolha.
Ele completa 18 anos daqui há alguns meses, se vocês puderem ficar com ele até lá eu me sentiria aliviada, mas se não eu entendo. Peço desculpas a mãe de vocês, fomos vítimas de Russel Fabray…
O resto das palavras já não tinha mais tanto sentido para Quinn. Ergueu os olhos para o garoto que se mantinha com a expressão fechada.
- Parece que Russel teve o filho homem que tanto queria. – Jogou a carta sobre a mesa sem encarar Frannie.
- O que? – Rachel deixou seu olhar vagar entre os três.
- Benjamin. – Quinn indicou o garoto. – Benjamin Fabray filho do meu pai.
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