Diário

37 Capítulo XXXVI - Respirar


Às vezes é difícil respirar. Às vezes eu puxo o ar e tenho a impressão que ele não vem, meus pulmões não enchem. Perco a fome e as cores somem e o mundo parece parar de girar, mas ai… ai eu ouço sua voz, eu olho você, eu sinto você e o meu mundo volta. Posso comer, posso sorrir, vejo as cores e o mundo gira, mas devagarinho por que eu não quero perder um segundo que seja do tempo que tenho ao teu lado. Eu respiro, eu respiro e eu respiro.

Respiro por que seu amor me alimenta, respiro por que tuas palavras me acalmam, respiro por que você é o meu ar eu respiro por que meu coração bate descontrolado. Respiro por que te amo e eu te amo por que esse amor me mantém viva.

Só faltava o ponto. Estava olhando para aquelas palavras há tanto tempo que já tinha perdido a noção das horas, sabia que aquele era o final, mas doía tanto colocar o último ponto. Jogou o peso para trás apoiando contra o encosto, seus olhos devoraram mais uma vez as palavras antes de repousar no relógio era um pouco antes das 6 da manhã, mas isso era simples de se prever. O sol já estava para se levantar e dispersar a névoa fina que cobria o ar.

Soltou o ar devagar e olhou para o cursor que piscava no final da frase esperando o seu fim.

Seu coração deveria estar batendo assim tão forte? E os seus olhos deveriam estar assim tão cheios de lágrimas? E essa lágrima teimosa deveria ter escapado do seu olho direito?

Sua mente viajou pelo tempo e foi repousar naquela noite onde o cursor também piscava na página em branco, mas era diferente. Naquela noite ele esperava para iniciar algo e agora ele estava esperando para encerrar algo. Haviam sido tantas palavras e tantas letras. Tantos outros pontos e tantas vírgulas, mas aquele era diferente ele era o inevitável fim.

Agora se esse é o fim então por que ela ainda sente essa vontade de escrever que vai queimando em seu peito?

É a última página da história que lhe deu um nome que lhe mostrou que ela poderia ser mais, muito mais do que Russel Fabray queria. A história que lhe deu Rachel de certa forma e com ela veio Ethan era a sua história e ela lhe deu tantas coisas boas e agora ela deveria terminar. Por hora ela iria terminar.

Respirou fundo e com a mão tremendo pressionou a tecla que tanto protelou em apertar.

– Não é um adeus minha estrela é apenas um breve até logo nós ainda vamos nos reencontrar. – Quinn sussurrou antes de salvar a história e enviar os capítulos para o seu editor via e-mail.

E por alguns segundos ela não conseguiu respirar.

Santana soltou um assobio baixo enquanto tomava um gole do café quente, Quinn estava sentada ao seu lado com um copo idêntico. O carro estacionado em uma rua não tão movimentada se aquilo fosse possível.

– Então teu pai tinha outra família? – Arqueou as sobrancelhas. – E o garoto está órfão? A mãe morreu e ele tem todos os documentos que afirmam a paternidade e fotos com o Russel?

– Você falou tudinho. – Resmungou tomando um pequeno gole. – Frannie vai ficar com ele por um tempo até legalizarmos tudo.

– Não vai pedir exame de DNA? – Santana a olhou com o canto dos olhos.

– Minha mãe diz que ele é idêntico ao meu pai quando ele era adolescente. – Deu de ombros. – Segundo ela não é necessário o exame e que ela tinha ideia de que isso tinha acontecido.

– Como ela está levando isso?

– Disse que não é culpa dele ou da mãe que tudo isso é resultado do péssimo caráter do Russel e que ela prefere enxergar isso como se tivesse ganhado mais um filho. – Soltou um suspiro baixo.

– E o que você está achando disso?

– Estou irritada. – Resmungou olhando pela janela. – Não consigo entender como ele pode fazer isso. Eu não consigo nem me imaginar fazendo isso com a Rachel é abominável à hipocrisia dele.

– Vamos mudar de assunto? – Santana retrucou tomando mais um gole de café. – E o livro?

– Terminei essa manhã. – Deu um pequeno sorriso triste. – Já enviei pra editora.

– Muito bom Fabray. – Bateu palmas com um sorriso debochado. – E agora?

Quinn deu um sorriso misterioso para a Lopez.

– Odeio esses seus sorrisos. – Santana comentou arrancando uma risada da loira.

Rachel estava tomando um chá morno antes da apresentação, sentada em sua cadeira com os olhos concentrados e a respiração controlada.

– Você fica linda concentrada desse jeito. – Ouviu a voz de Quinn e abriu um pequeno sorriso sem encara-la.

– Oi.

Quinn lhe ofereceu o buquê de rosas brancas colocando um beijo em seus cabelos. Rachel as recebeu com um sorriso um pouco maior.

– Você sumiu o dia todo. – Reclamou desmanchando o sorriso e o substituindo por um leve biquinho.

– Desculpa. – Sussurrou a beijando nos lábios demoradamente. – Desculpa.

– Onde estava? – Colocou o buquê sobre a cadeira circulando seus braços no pescoço da autora.

– Santana. – Deu de ombros, a beijou nos lábios mais uma vez. – Estava resolvendo umas coisinhas.

– Que seriam?

– Quando é a sua ultima apresentação? – Arqueou as sobrancelhas.

– Em quatro dias por quê? – Soltou uma risada baixa pela troca de assunto repentino que a Fabray tentou.

– Mrs. Schuster deve vir trazendo o Glee Club e tenho quase certeza que a Treinadora Sue vem junto. – Deu um sorriso pequeno vendo os olhos morenos se desviarem para a porta, uma batida suave.

– Tenho que ir. – Rachel cantarolou a beijando rapidamente, se virou para o espelho retocando a maquiagem. – Quero ver seus belos olhos me seguindo da primeira fila Fabray.

– Eu sempre vou estar na primeira fila olhando para você amor. – Sussurrou no ouvido da Berry, deu uma mordida gentil na orelha e saiu.

Benjamin estava segurando o programa da peça enquanto Frannie conversava com Thomas, as luzes piscaram de leve anunciando que deveriam tomar os seus lugares. Quinn indicou apareceu e eles logo se sentaram o lugar entre os dois irmãos, se ajeitou na poltrona seus olhos atentos aos primeiros movimentos no palco.

Sentiu o rapaz se inclinar e a voz ligeiramente rouca em seu ouvido.

– Eu nunca estive em um teatro antes.

Quinn sorriu de leve e sussurrou de volta:

– Não se preocupe Rachel vai te dizer tudo o que você precisar e não precisar saber sobre o teatro. – Ouviu a risada baixa do garoto.

Relaxou no momento que a voz de Rachel preencheu o lugar, ela lhe acalmava. Seus olhos seguiam cada movimento hipnotizados, sua respiração até desacelerou. Decididamente valia apena tudo aquilo valia apena.

Santana batucava no volante enquanto seus olhos escuros vigiavam a casa. Tinha que pegar algum deslize daquela mulher, apenas um era tudo o que precisava.

Seu celular brilhou era uma mensagem de Brittany perguntando se jantaria em casa, respondeu rapidamente que chegaria tarde antes de sua mão roçar no copo de café. Cindy havia saído da reabilitação muito rápido para o seu gosto, aquela mulher deveria ter ficado mais tempo no centro. O cafetão Hector havia conseguido fugir da ilha, mas ainda tinha a esperança de poder prender Cindy, apenas esperava a promotora dar o primeiro passo. Isso era outra coisa que lhe interessava o porquê da promotora ainda não tinha iniciado o processo.

Seus olhos escuros se apertaram de leve quando viu o movimento de quatros sombras saindo do carro que havia acabado de estacionar enfrente a casa. Se inclinou pegando a máquina fotográfica e bateu algumas fotos antes do grupo passar por um faixo de luz.

– Filhos da mãe. – Murmurou segurando a respiração.

Kurt se sentou ereto assim que o número em seu celular brilhou, seus dedos se atrapalharam antes de atender.

– Dave. – Murmurou.

Ouviu o suspiro de Karofsky antes da voz cansada viu pelo fone.

– Kurt, você me ligou não é?

– Sim eu tenho te ligado. – Seus dedos se mexeram agitados. – Como você está?

– Cansado e você?

– É… também estou. – Soltou uma risada fraca. – Onde você está?

– Texas.

– Isso é bom, muito bom… quando volta pra casa? – Mordeu o lábio nervoso. – Queria poder conversar.

– Kurt eu achei que não fossemos manter contato. – A voz levemente fria.

– Eu errei Dave, por favor, me encontre ou me deixe ir encontrar com você. – Pediu respirando rápido. – Por favor, Dave.

Ouviu o suspiro do outro lado da linha antes da frase rápida. – Só fico na cidade por mais dois dias estou em Dallas.

A ligação foi cortada pelo sinal do final da ligação, conseguiu respirar aliviado por alguns minutos.

Thomas pousou a mão sobre o ombro de Benjamin assim que o carro estacionou na frente do novo colégio do garoto.

– Nervoso? – Perguntou com um sorriso leve ao cunhado.

– Foi muita gentileza de vocês me deixarem ficar no apartamento de vocês. – O encarou com seus olhos castanhos, uma nota de receio. – Eu sei que apareci de paraquedas e por algum motivo vocês me acolheram…

– O motivo é que nunca poderíamos deixar o Russel colocar as mãos em você. – Respondeu ao garoto mantendo seu ar sério. – Frannie e Quinn estão lidando com o fato de você ter aparecido assim tão de repente, mas elas entendem que você e sua mãe não tiveram culpa.

– Você conhece meu pai? – Apertou a alça da mochila. – Eu me lembro pouco dele.

– Uma vez eu o vi. – Relaxou contra o banco. – Acredite em mim você não está perdendo muita coisa.

Benjamin suspirou encostou se no banco, seus olhos passeavam pela garotada que ia entrando no prédio o sinal já estava para tocar.

Thomas virou a chave no contato atraindo o olhar do garoto.

– Quer saber vem da um passeio comigo, eu me acerto com a tua irmã depois. – Piscou um dos olhos para ele antes de arrancar com o carro.

Quinn pegou o celular sobre a mesa olhando a mensagem de Thomas, soltou um suspiro leve antes de voltar a sua atenção aos papéis que estava guardando. O som de Ethan brincando no meio do escritório lhe dava a calma que precisava para continuar o trabalho. Limpou sua mesa varrendo os papéis amassados para a lixeira antes de carregar a outra braçada para a primeira gaveta do arquivo, ajeitou os papéis com cuidado.

– Mamãe. – Ethan a chamou.

– Oi meu amor? – Se virou para ele com um sorriso satisfeito.

– História? – Pediu antes de bater um carrinho no outro.

Foi até o menino que ao sentir o corpo da mãe perto do seu ergueu os braços sendo prontamente atendido.

– Você quer história?

Ethan acenou com a cabeça, ela foi até a mesa pegando seu diário antes de caminhar até a poltrona ajeitando o menino em seu colo. Respirou fundo sentindo o cheiro do menino lhe preencher.

Andaram pelo parque, Benjamin se distraiu olhando a fonte quando sentiu um corpo se chocar ao seu e a pessoa seguir pelo caminho lhe falando desaforos.

– Cuidado. – Thomas lhe estendeu um sorvete. – As pessoas em New York não param por nada.

– Por que tanta pressa? – Ajeitou a mochila nos ombros.

– Por que elas têm pressa de conseguir o que querem. – Deu de ombros. – Qual o seu sonho, o que você quer?

– Eu não sei. – Benjamin começou a caminhar ao lado do cunhado. – Eu tenho evitado pensar nisso.

– Medo?

– Um pouco. – Sorriu nervoso. – Na verdade eu não tive muito tempo pra pensar no que eu queria pro meu futuro, não com a doença da minha mãe eu meio que ia pra escola com ela me obrigando.

– Hn… e as garotas? – Thomas o observou levar o sorvete aos lábios como se quisesse demorar a responder. – Pelo visto tem uma garota.

– É tem. – Respondeu sem graça. – Ela era a minha melhor amiga, foi a primeira que me aproximei quando fomos morar na Carolina do Norte.

– E vocês namoravam? – Thomas continuou.

– Não. – Coçou a nuca sem jeito. – Ela era apaixonada por esse cara e no dia que eu tomei coragem de falar com ela, ele chegou na frente.

– E você?

– Sorri e desejei felicidades. – Soltou uma risada seca.

– Mas você ainda sente algo. – Thomas concluiu tomando um pouco do sorvete.

Benjamim parou para encara-lo.

– Quando estou com ela eu posso respirar.

Notas finais
Recebi um comentário que me alertou para uma coisa. Eu coloco o espaçamento duplo, MAS quando passo para o Nyah retira toda a formatação do meu capítulo e eu não consigo acertar isso. @just_someone13 ou ask.fm/PSomeone