Diário

35 Capítulo XXXIV - Quem é o vilão?


Notas iniciais
Olá.

Toda história precisa de um vilão, todo mocinho tem o seu antagonista. Sherlock Holmes tinha o Professor Moriarty. Peter Pan o Capitão Gancho. Os filhos de Adão e Eva tinham a Feiticeira Branca. Otelo tinha Iago. Harry Potter tinha Voldemort.

O vilão é a chave de toda história é ele que move o mocinho para algo. Ele vai machucar e desafiar tanto o protagonista que ele vai optar pelo caminho certo apenas para acabar com aquele sofrimento ou apenas para solucionar o enigma. O vilão é quem faz o herói.

– Não. – A voz de Rachel era autoritária. – Nem pense em voltar.

– Não posso ficar aqui com vocês ai e essa mulher rondando? – Quinn apoiou-se no vidro, seu rosto contorcido.

– Mas vai. – O suspiro baixo da diva. – Me escute, apenas me escute. Eu quero você aqui, mas se você voltar vai ser pior. Você não vai conseguir escrever, por favor, não volte.

– Rachel. – Murmurou apertando os olhos bem fechados.

– Estou te pedindo. – O murmúrio fraco. – Fique e termine tudo logo.

– Ok. – Murmurou.

Desligou o celular respirando fundo, seus olhos presos através do vidro. A cidade de São Francisco se revelava na sua frente, estava no 19º andar do prédio onde ficava sua editora.

– Problemas? – A voz grossa lhe chamou.

– Alguns. – Respondeu sem se virar, respirou fundo. – O que achou do livro?

– Eu acho que os últimos cinco capítulos são arriscados. – Ouviu a voz grossa. – Você tinha dois caminhos a tomar e escolheu o mais arriscado. O que pode não ter uma aceitação muito boa e o que pode causar um belo estrago na sua conta bancária.

– Escolhi o caminho que me da paz de espirito. – Quinn retrucou franzindo os olhos. – Foi esse o caminho que eu escolhi.

– Por que esse caminho te trás paz de espirito? – Ouviu que ele soltava um leve suspiro.

– Eu não sei. – Suspirou fechando os olhos. – Eu sinto que esse me da paz de espirito que esse é o certo, mas ao mesmo tempo é como se faltasse algo como se…

– Ele estivesse incompleto. – Ele sentenciou. – Por quê?

– Eu não sei. – Abriu os olhos encarando a cidade que parecia fria. – Eu apenas sei que esse é o final. É o que a história me diz.

– A história te diz isso?

Acenou com a cabeça, fechou os olhos sentindo que eles esquentavam.

– Acho que você precisa de uma pausa para entender melhor esse final.

– É. – Murmurou baixinho.

A batida suave na porta fez a mulher de olhos azuis pausar o vídeo que assistia.

– Eu vim devolver esse uniforme. – Quinn levantou a caixa vermelha, um pequeno sorriso chegou aos seus lábios.

– Não usamos esse uniforme há anos. – A voz escondia a surpresa enquanto a mulher se recostava na cadeira. – E eu acho que você tentou fazer isso no seu ultimo dia de escola.

– É eu tentei. – Quinn fechou os olhos. – Posso entrar?

– Feche a porta. – Tirou os óculos de grau o jogando sobre a mesa. – Em que posso ajudar Fabray?

Quinn trancou a porta e se adiantou para a cadeira na frente da mesa da treinadora a encarou nos olhos azuis vendo as marcas do tempo já aparecerem na pele clara.

– Aparentemente todos envelhecem. – A mulher deu de ombros. – Até Sue Sylvester, mas eu estou melhor que o Schuster.

Quinn soltou uma risada fraca, suspirou de leve.

– Então veio de New York para Ohio apenas me entregar um uniforme que eu já recusei? – Arqueou as sobrancelhas.

– Na verdade eu vim de São Francisco. – A corrigiu sem levantar os olhos da mesa.

– O que foi Q? Cansou da gay-Berry? – Sue cutucou de leve. – Eu soube que vocês estão morando juntas e com um garoto, que Deus cuide e ele não adquira os gostos estranhos da Berry.

– Não, não é isso. – Continuou encarando a mesa.

Sue deu um soco na madeira atraindo o olhar da ex-aluna.

– Olhe pra mim Fabray. – Falou seriamente. – Me encare quando for falar comigo foi essa a capitã que eu tive a que me encarava então por que a mulher de hoje não me encara?

– No meu ultimo dia eu vim nessa sala e a senhora me disse coisas que eu carrego comigo até hoje. – Encarou os olhos azuis que estavam atentos a cada palavra que dizia. – Você disse que eu iria longe.

– Sim, eu posso ter falado algo parecido com isso.

– E se esse for o mais longe que eu conseguir ir? – Prendeu a respiração. – E se esse for o meu máximo?

– Como assim? – Sue inclinou a cabeça para o lado.

– E se eu estragar tudo e com isso estragar o que eu poderia ter tido? – Apertou os dentes bem juntos. – Agora eu tenho dois filhos e uma mulher pra cuidar.

Sue respirou fundo, cruzou as pernas encarando Quinn.

– Então você vai conviver com o seu fracasso. – Respondeu sucinta antes de acrescentar. – Assim como o Schuster convive com o dele.

– A senhora continua com essa implicância. – Sorriu de leve.

– Certas coisas não se pode mudar por que se você muda vai apenas estragar. – Cruzou as mãos sobre a mesa. – Eu implico com o Will, mas nós sabemos que no fundo eu e ele somos bons amigos e queremos o melhor para vocês.

– Fala como se ainda fosse minha professora. – Quinn suspirou.

– E você veio aqui me pedir um concelho como se eu ainda fosse a sua professora. – Encolheu os ombros. – Por que disso?

– Estou fazendo uma escolha arriscada. – Esfregou a nuca de leve. – Muito arriscada e isso pode colocar em risco a boa situação da minha família.

– E por que não foi falar sobre isso com a Berry? – Arqueou as sobrancelhas.

– Rachel me proibiu de voltar para casa. – Rolou os olhos arrancando uma risada da antiga treinadora. – Ela quer que eu termine de escrever o livro antes de voltar.

– E por que não termina?

– Porque eu não posso. – Escondeu o rosto entre as mãos. – Quero dizer eu sei que eu posso, mas não sei se consigo. Falta alguma coisa e eu não acho o que é.

– Beth Stern. – Sue murmurou, sua mão se perdeu pela gaveta e rapidamente voltou com um exemplar do livro. – Eu disse que você iria longe e também disse que teria orgulho de ver isso.

Quinn negou com a cabeça mastigando a língua.

– Qual o problema com o livro?

– Eu a mato no final. – Encolheu os ombros. – Nos últimos cinco capítulos ela descobre que durante todo esse tempo foi apenas um pião entre as duas organizações e por isso ela acabou fazendo coisas bem ruins e matando gente inocente. Então quando ela sai do labirinto depois de ter matado o Ferdinand que na verdade era agente duplo e dava as ordens que a levou a cometer esses erros, ela entra em um avião pronta para ir atrás de uma nova vida. O avião cai no meio do oceano e ela morre.

– Berry realmente te afetou com o drama. – Sue meneou com a mão soltando um suspiro leve.

Quinn soltou uma risada baixa.

– A questão treinadora é que eu poderia seguir por dois caminhos e escolhi esse. – Franziu as sobrancelhas. – Na verdade a história escolheu esse caminho, mas eu não consigo entender o porquê e principalmente não entendo o que falta.

– Algumas coisas precisam acontecer, simplesmente por que precisam. – Sue retrucou olhando para o livro encima da mesa. – Agora a história é sua e se você não souber o motivo, então…

– Não tem sentido escreve-la. – Suspirou, correu as mãos sobre os cabelos jogando a cabeça para trás.

– Por qual motivo você começou a escrever? – Sue apertou os olhos. – Foi pela Berry.

– Sim em parte.

– Por que esse é o último livro? Por causa da Berry?

– Acho que sim. – Respondeu com um suspiro. – Quero poder me dedicar a ela ao Ethan a Beth.

– Então a sua família é o motivo por esse ser o último livro? – Sue inclinou a cabeça para o lado.

– É. – Quinn fechou os olhos. – Preciso matar a personagem para poder iniciar um novo capítulo.

– Não acho que você tenha que mata-la. – Sue sorriu de leve. – Pense Fabray, existe outra solução além da óbvia.

– Não tem.

– Você me disse que a história pede o final. – Se levantou guardando o livro. – Você entende o que ela quer, mas não o que ela precisa. É como os filhos, é do nosso instinto entender o que eles querem, mas nem sempre o que eles querem é realmente o que eles precisam.

Sentiu o toque da treinadora em seus cabelos.

– Você vai muito além do que isso Q. – Murmurou. – É assim que a Sue vê.

A treinadora se afastou para a porta.

– Eu quero que a senhora conheça o Ethan. – Quinn a olhou por cima do ombro. – Seria uma honra que a senhora participa-se do crescimento dele.

– Eu participei do seu. – Olhou para a ex-aluna. – E eu conheço a Berry, o garoto está bem cuidado e acredite ele terá muito do Schuster e de mim nele através de vocês duas.

Schuster arrumava as partituras encima do piano ele estava concentrando quando ouviu a batida suave. Quinn estava apoiada na moldura da porta.

– Quinn? – Ele sorriu. – Que surpresa.

– Eu vim falar com a treinadora. – Se empurrou para fora da parede. – E eu meio que queria falar com o senhor.

– Sobre? – A abraçou forte. – É bom te ver.

Quinn pegou uma cadeira colocando ao lado dele.

– Rachel vai fazer a ultima apresentação antes do ano sabático daqui a algumas semanas e eu queria que o senhor estivesse lá. – Viu o sorriso do homem crescer. – Ela iria amar se o senhor estivesse e talvez levasse o novo Glee Club.

– Os garotos amariam. – Will sorriu. – Vou começar a levantar a verba…

– Não isso é por minha conta. – O interrompeu. – Eu insisto.

– É muito dinheiro, pelo menos me deixe pagar a metade. – Schuster estendeu a mão.

– Ok. – Quinn sorriu segurando a mão do antigo professor. – Tem outra coisa.

– E o que seria? – Ele arqueou as sobrancelhas com um pequeno sorriso.

– Quando você teve a certeza que era a Emma? – Entrelaçou os dedos. – A mulher que você queria passar o resto da sua vida?

Ele olhou para Quinn com uma surpresa agradável, tamborilou no piano por alguns segundos.

– Sinceramente?

– Sim.

– Quando eu a beijei pela primeira vez. – Ele sorriu de leve. – Foi como se o mundo parasse e apenas ela existisse, naquele momento eu sabia que eu a queria. Mesmo que tenhamos demorado tanto para ficarmos juntos.

– E quando a pediu em casamento, qual foi a sensação?

– No momento em que ela disse sim o meu mundo todo se encaixou e eu não duvidei nem por um segundo que era a coisa certa. – Fitou os olhos verdes da mulher. – É a coisa certa Quinn?

Se sentou na escrivaninha papel e caneta repousados na sua frente a luz do abajur iluminando o papel o deixando levemente amarelado. Virou-se na cadeira para olhar a sua Beth que dormia tão pacificamente na cama, a menina havia implorado para dormir com a mãe assim que a viu.

Seus dedos se entrelaçaram na frente do seu rosto e os cotovelos se apoiaram sobre os joelhos. Observou a filha que respirava tão lentamente, a forma como os cabelos claros caiam sobre o rosto adormecido, os lábios rosados partidos deixando a respiração sair.

Estava ali na sua frente o milagre da vida que havia operado. Ela estava viva. Sua filha. Sua Beth.

Pegou o diário e um lápis que havia por ali, começou a mover o grafite pela página tão leve que poderiam dizer que nem estava roçando no papel. Sua mente ia decorrendo pelos fatos da história, Beth precisava de um antagonista, mas tudo indicava que ela própria era a sua antagonista. Ela era quem se sabotava, ela confiava em pessoas que não devia. As duas organizações tinham o mesmo propósito, apenas faziam de maneiras diferentes, Beth escolhia a maneira que iria agir e nem sempre era a certa, mas as decisões eram dela. Os erros eram dela.

Ela até era a heroína da história para alguns, mas para outros ela era a vilã. Talvez no final das contas ela tenha feito a heroína mais humana do que poderia querer, não era o típico herói apenas com virtudes e ações nobres. Era alguém vivo e completamente humano que estava sofrendo as consequências dos erros cometidos.

O toque dourado chegou a página, ergueu os olhos do desenho que havia feito. Era a sua Beth dormindo tão tranquila quanto podia, estava olhando pela janela nem tinha notado que o sol já estava nascendo. A única estrela que morria e renascia por assim dizer todos os dias, a estrela central do universo.

Beth era a estrela central do universo da história.

Notas finais
@just_someone13