Diálogos
4 Quarto Diálogo - Amor?
- Com licença, Venho agora com o intento de fazer uma declaração que há muito está engasgada dentro de mim. Posso?
- Tome as honras, moço, fique à vontade.
- Vim dizer que te odeio. Do âmago do meu pior abismo, eu te odeio.
- Ora moço, e por que razão me odeia, assim?
- Primeiro, por que algo na sua presença me desatina, me desconcentra, quase que me droga, me entorpece. Essa mesma presença é responsável por minhas noites mal dormidas, minha perca de peso, minha euforia logo cedo e meu desânimo, quando não lhe vejo pela tarde. E também, lhe odeio por sempre enviar aquelas mensagens, me chamando por nomes carinhosos e me tratando de maneira no mínimo, estranha.
- Estranha por quê, moço?
- É sempre gentil, é sempre bondosa. E não sei por que razão, às vezes inventa de deitar a cabeça no meu ombro, ora pega em minhas mãos, e vez ou outra me adormece em cafunés. Por quê?! E quando me beija nas maças do rosto, me olha com uma profundidade que me assusta, me arrepia. Por quê?! Por quê tanto silêncio, tanto sorriso e tanto afeto? Por quê?!
- Calma moço. Posso lhe fazer uma pergunta no mínimo, estranha?
- Por favor.
- Você gosta?
- De quê?
- Tudo isso.
- Eu... Eu já disse. Eu te odeio.
- Faço mal, é isso?
- Não, não é maldade. Mas me desequilibra. Parece que tudo que você faz tem um propósito, parece que alguma coisa vai acontecer, mas nunca acontece! Te odeio!
- Ora, moço, calma. E se acontecesse?
- O quê?
- Isso. Isso que nunca acontece.
- Seria no mínimo estranho.
- Entendo. Há mais alguma coisa que queira falar?
- Sim. Bem... Eu, eu te odeio! E pronto!
- Ok! Aposto que você me odeia ainda mais quando eu corrijo seu jeito, no mínimo estranho, de falar; certo?
- Sim, odeio!
- Mas vou lhe corrigir. Posso?
- Por favor.
- Moço, lamento, e ao mesmo tempo fico muito grata e feliz em lhe dizer, que na verdade, você não me odeia. Você me ama.
(Silêncio).
- Tudo bem, moço?
- A... Amor? Como é isso?
- Vai acontecer, agora.
- O quê?!
(Acontece)- Isso.
- Amor?
- Isso mesmo, Amor. Gostou?
- É bom. No mínimo, é bom. Pode acontecer mais de uma vez?
- Pode acontecer pra sempre.
(Acontece. De novo, de novo, de novo).
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