Divã.
1 o divã e a doutora. só.
Notas iniciais
Divã
— No que você acredita?
— Em nada. Em nada, doutora. Nada mesmo.
— Acredita que essa mesa é uma mesa?
— Não acredito, dona, quero dizer, doutora.
— Não acredita?
— Não.
— Mas a mesa é obviamente a mesa.
— Não é.
— E por que não é?
— A mesa é uma coisa. É claro. Eu a vejo. Mas não é uma mesa.
— Você a chamou de a mesa.
— Não é uma mesa.
— Como não é uma mesa?
— É uma coisa?
— Uma mesa?
— Uma coisa.
— Por que é uma coisa e não uma mesa?
— Quem é que a chamou de mesa?
— Bom, é o nome dela, não é?
— Não, você não entende, dona! Quero dizer. Doutora. Quem é que disse que a mesa é uma mesa? Quem foi que acordou num dia, apontou e disse: é isso! É mesa!
— Isso realmente interessa?
— Não é mesa.
— O nome é imemorial.
— Tanto faz chamá-la de cadeira.
— Mas existe um objeto chamado cadeira. É outra coisa.
— Será? E então a cadeira não pode se tornar lápis?
— Não pode.
— E por que não? Quem é que disse que não?
— O nome das coisas é o nome das coisas.
— Quem disse?
— É assim.
— Quem pôs o nome nas coisas?
— Mas de que importa?
— Deveria ser democrático. Eu poderia chamar a mesa de cadeira e a cadeira de lápis e o lápis de deus!
— Faria uma confusão na língua, nas coisas.
— E quem é que liga?
— Existem as pessoas que ligam.
— Então elas que chamem a mesa de mesa e a cadeira de cadeira.
— E você chama lápis de deus?
— Eu chamo chocolate de tartaruga e tartaruga de deus.
— Mas e o lápis?
— Ora! Mas lápis é lápis!
— Quais são seus critérios?
— Nenhum.
— Nenhum?
— Liberdade é meu critério.
— Isso não é liberdade.
— Ah, é sim. Deus é cadeira, mesa é Jó e alma é “não vale a pena”. Liberdade, doutora.
— Liberdade?
— Liberdade.
(pagou. foi embora. nunca mais voltou.)
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