Distância Repentina
2 Consolo
“Oieee. – Colega
Oioioi. – Eu
Tudo bom?
Tudo, e com você?
Tudo bem... você é o Harry do curso, certo?
Sim, você deve ser a Bel, que sentou na minha frente, do São Jorge.”
Agora, pela primeira vez, lembrei-me da beleza da garota. Seus braços eram divinos, cada pinta ou sarda harmonizavam perfeitamente com o resto do corpo, ombros igualmente lindos e um rosto com uma mistura perfeita de sexy e meigo.
Disse a ela qual seria o dever e, sem hesitar, ela continuou o assunto sobre nossas vidas pessoais, sem se reter ao curso. Soube que ela teve um namorado escondido há um ano e que ela conhecia de visita Morgana, da mesma forma que também descobri que ela ficara em segundo lugar naquele concurso de bolsas.
Logo em seguida, como de costume na época, trocamos o número de celular. Não para trocar ligações, mas sim para fazer contato pelo What’s App. A conversa continuou por lá. Não foram dez minutos, não foi meia hora. Foi o dia inteiro trocando informações com minha recém-conhecida.
Bel era fantástica: somada à sua beleza, era inteligente, esperta e dava prazer de conversar com ela. Não tinha interesse romântico, mas sabia que se não fosse por Morgana certamente ela seria uma ótima companheira amorosa.
Lembro-me exatamente de suas palavras: Eu não sou uma pessoa de ficar sério. “Como namorou um garoto por quatro meses então?”, era o que eu me perguntava. Como sempre, ela dizia que existiam exceções.
Bel cantava e me prometia algum dia acompanhar-me enquanto eu tocava órgão. Sua voz era linda, mas, limitada pela timidez, era muito difícil arrancar alguma canção. E toda essa conversa, dia após dia, me deixava mais encantado e apaixonado – no bom sentido – pela pessoa que ela era. A amiga perfeita.
Decidimos sentar um do lado do outro no curso, gerando revolta de alguns professores. Nossas cadeiras eram as terceiras do par de fileiras da direita. As mensagens, incontáveis, eram trocadas quase que o tempo todo. Um dia cheguei a comentar que conversava mais com ela do que com Morgana, praticamente esquecida por mim.
– Que triste... – ela respondeu. Eu disse que não era triste, até porque os momentos que eu passava com ela eram extraordinários.
Os dias continuavam a passar: janeiro acabou, fevereiro também. Minha rotina era a mesma: ir almoçar com Morgana, voltar ao local onde ficava o Colégio Militar e o curso e entrar neste último, depois indo praticar esportes. Era estranho, entretanto, que um dos momentos que mais me agraciava era o curso. O lugar que todos achavam chato (afinal, eram mais 4 horas de estudo obrigatório adicional) era o que me dava mais prazer. Fora as extraordinárias aulas do Palmeirense, eu tinha o prazer de estar do lado de Bel.
Se Morgana descobrisse, é claro, seria o fim ou do namoro ou da amizade. Decidimos bolar um código para falar da Morgana por What’s App, porque eu iria passar o carnaval com ela em Petrópolis e ela não poderia nos ver conversando para não criar suspeitas, embora soubesse de sua existência.
“Tio Sérvio está aqui” era suficiente para toda a conversa ser deletada e ela parar de mandar mensagens, até eu dizer “Tio Sérvio se foi”. Sérvio era o diretor do curso que, por conta do sotaque, foi assim apelidado.
Como esperado, Morgana não suspeitou de nada. Estávamos inclusive indo ao aeroporto tirar meu passaporte, já que eu faria uma viagem com ela e seus pais para a Disney e Washington D.C. Dia após dia, briga após briga, a chama da nossa paixão ia acabando.
Sempre gostei de diferenciar paixão de amor. Paixão é, para mim, um superlativo de gostar romanticamente. Amor, por sua vez, é aquilo que tínhamos apenas uma vez na vida e que nunca acabava, aquela sensação de paixão eterna. Almas gêmeas, em outras palavras.
No início, minha paixão por Morgana era muito forte. Meu afeto por ela, até aqueles dias, era enorme. Fora a minha visão de vida com ela, inatingível em minha opinião. Mas briga após briga, dia após dia, estava quase que impossível sustentar. Em Petrópolis foi um festival de horrores, literalmente.
Bel, como sempre me informando, tinha ido para Coldsland. Lá, ela tinha tido uma pequena relação amorosa com algum garoto mais velho. Isso não me agradou. O que me agradou, entretanto, foi a conversa que tivemos.
– Não gostei disso – Escrevi em tom sarcástico.
– Porque não? – Ela respondeu.
– Você é só minha – Retruquei.
– Mas você tem a Morgana, é injusto! – Dessa vez, ela acompanhou o texto de algumas risadas.
– Então está perdoada, mas só dessa vez. Você é a metade da minha laranja, lembra?
Metade da laranja foi uma referência a um texto no curso. A nossa professora de português, Joana, pediu-me para ler. O texto falava sobre almas gêmeas, metade da laranja. Ela também me perguntou quem seria a minha metade da laranja. Neguei saber, embora o óbvio deveria ser Morgana. Posteriormente, Bel se auto-proclamara a tal metade.
Obviamente, eu tive mini orgasmos.
Voltando de viagem, as coisas com Morgana nunca tinham sido tão piores. As brigas se multiplicavam, por motivos tão bobos como uma indecisão entre ficar em casa ou ir no shopping. O namoro não se sustentava mais. Bel, por outro lado, me presenteou com um chaveiro. Mais um dia de curso acabou e, junto com Deca, uma outra amiga, voltava para casa.
– E aí... vai rolar? – Eu deveria ter notado antes. Seus sorrisos insinuadores já tinham me chamado atenção.
– O que é que vai rolar, garota? – Retruquei, fazendo-me de desentendido.
– Deixa para lá.
– Agora fala.
–Não, deixa.
– Fala logo, Deca.
– É que tem tido um clima entre você e a Bel... todo mundo tem comentado...
– Você sabe que eu tenho namorada, Deca.
– Eu disse que era melhor não falar.
A ideia de pessoas comentando sobre mim e Bel me assustava. Eu tinha namorada! Era um dos namoros mais respeitados do bairro, eu pensava. Não deixaria que boatos se espalhassem por bocas mal intencionadas, mas bastava eu chegar na escola que Julieta, uma fiel amiga, vinha dizendo:
– De novo falando com a Bel, Harry? Assim você não vai só acabar com o namoro, vai acabar com os seus estudos – Disse da mesma forma que minha mãe dizia, mas completou – Pera... deixa eu ver essa foto dela. TROCA, AGORA. TROCA PELA FLÁVIA URGENTE! Ela é linda, Harry!
Não tinha como eu negar. Principalmente naquela foto de perfil, onde estava mais para sexy do que para meiga, Bel transbordava beleza. Um par de óculos escuros infelizmente tapava seus olhos, mas também trazia certo ar de uma boa autoestima, algo que os homens automaticamente reconhecem.
Dessa vez, a briga com Morgana tinha sido séria. Já faziam quatro dias que ela tinha “dado um tempo”(isso era inédito e inconcebível na minha visão) e eu começava a me preocupar. Ela tinha me bloqueado no What’s App, portanto minha real única fonte de conversa era Bel. O celular vibrou. Um SnapChat apareceu, vindo dela. O fundo era preto e as letras estavam em vermelho. “Eu realmente não queria fazer isso”. Poderia significar muita coisa, inclusive um pedido de desculpas pelo tempo que ela deu. Decidi esperar.
Vibrou de novo.
“Espero que sejamos amigos”
Eu vomitei.
Lembro-me que estava do lado de um canhão, próximo à Seção de Educação Física e saí correndo até a arquibancada e depois o bosque, onde Julieta se encontrava. Desabei no choro, controlando-me ao máximo. Perto dali, houve uma briga entre alguns garotos. Por azar, o coronel tinha passado naquele exato momento.
– Todos em forma! – Ele gritou.
– Mas eu não... – Um garoto argumentou, esperançoso.
– FODA-SE! – Ele retrucou, apavorando a todos. Menos a mim.
Eu estava com a cabeça totalmente fora dali. Ignorava tudo que o coronel dizia, só pensava nos dizeres de Morgana. O dia passou, Julieta tentou me consolar e eu fui até a árvore onde ficava antes de ir embora. Eu chorava muito, realmente muito. O telefone tocou, era Bel.
–Alou, Harry?! – Ela parecia meio desesperada.
– Oi... – Mal conseguia formular uma frase.
– Pera... você está chorando? Não chora! É que eu fiquei sabendo aqui no São Jorge que a Morgana ia terminar com você e, como amiga, acho que você deveria saber.
– Ela já o fez, Bel. Eu estou muito mal.
–Sei que está... mas sábado a gente sai, vai no cinema, o.k? Aí você pega uma garota que ache linda e fica feliz.
– Não vou te deixar de vela, Bel.
– Eu não ligo.
– Não vou te deixar de vela, te prometo isso.
– Você é quem sabe.
Ali do lado, Julieta acompanhava todo o progresso junto com Dalva, outro fiel companheiro.
– Então quer dizer que ela já marcou o dia para o consolo? – Disse em tom irônico, tentando me animar.
– Não, Ju, quem eu quero é a Morgana.
–Para de ser bobo, menino. A garota é linda e quer pegar você assim, dá tão mole e você vai ficar pensando no seu passado gordo?
– E meu futuro para os Estados Unidos, né – Foi o único humor que consegui formular.
Os dias passaram, eu me tornei cada dia mais próximo de Bel. Ela era meu consolo, minha amiga, meu porto seguro. Sábado, infelizmente, ela não pode ir. Tivemos, entretanto, uma das nossas conversas mais produtivas.
– Eu to afim de uma garota do curso.
–Quem é?
– Você sabe que não posso falar.
– Não confia em mim?
– Você vai me zoar.
– Não vou não.
– Vai sim.
– Não vou falar, Bel. – Ela escreveu “fala” mais de quinze vezes.
– Tenta adivinhar – Por fim, cedi.
– Não sei, me diz você.
– Realmente não sabe? – Duvidei.
– Tá, tenho uma ideia, mas quero ouvir de você.
– Para de fazer doce, garota.
– Deixe-me com meu doce.
Respirei fundo, comentei esse momento com trezentas e vinte e sete pessoas, repensei, li, reli e enviei:
– Você sabe que já faz um tempo que eu só consigo sonhar com seu beijo.
Foi um momento de tensão. Meu coração acelerou, bateu forte. Eu poderia ter estragado a melhor amizade que já tive em tão pouco tempo ou poderia ter dado um passo a um prazer imenso, que seria beijá-la. Depois do relacionamento com Morgana, não desejava mais algo sério. Queria apenas o prazer momentâneo de Bel.
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