Distância Repentina
3 O Guaravita
– Bem... você sabe que eu não curto muito algo sério, então não se apega. Mas uma amizade colorida seria legal.
Soquei o ar, pus Satisfaction dos Rolling Stones para tocar e comecei a dançar adoidadamente. Fazia um ano e dois meses que não tinha essa sensação de conquista. Concordei com ela, nada de se apegar.
Combinamos de nos encontrar após a aula, em uma das ruas transversais à rua do curso, antes da casa dela. Ela morava logo no início do percurso “curso – minha casa”. [Repeti esse percurso tantas vezes durante esse ano... tanta história.]
Enquanto o mundo amaldiçoava a segunda feira, eu a comemorava. Fui feliz à escola, contei as novidades para Julieta e Dalva. Eles me parabenizaram, mas também me advertiram sobre eu não me apaixonar tão rápido. Julieta teve um caso parecido e acabou tendo um namoro de um mês que serviu só para mais sofrimento, ela exemplificava. Eu, por minha vez, queria só curtir. Não me sentia culpado, já que compartilhava desse desejo com Bel.
Fui para o curso melhor ainda. Combinei com Bel que iríamos tomar um Guaravita depois da aula na padaria próxima. [Essa frase me marcou: Hoje vai ter Guaravita?]
Não podia negar, o sabor do Guaravita era divino. Infelizmente, foi muito rápido. A minha vontade era de não sair nunca mais dali, mas Bel temia pela própria mãe achar a demora estranha. Não foi mais de um minuto.
– Você beija muito melhor que Morgana – Foi a pior coisa que eu poderia dizer. Ela, felizmente, riu.
Chegando em casa, o clima era outro. Eu vomitava arco-íris, como a expressão popular diz. Não a privei de detalhes: disse que amei e que queria repetir. Repetimos na quarta e na sexta ela deu uma desculpinha qualquer para não ficar comigo. Seu lábio havia rasgado. Fiquei muito triste. Posteriormente, em admissão, ela me disse que não gostava de ficar só com alguém.
Tudo bem, respondi. Apenas não precisava faltar com a verdade.
A amizade, surpreendentemente, continuava em alto nível. Conversávamos dia e noite sobre coisas banais e eu, como sempre, insistia para que ela me mandasse áudios cantando. Era a nova moda, os áudios no What’s App. Eu odiava, é claro. Se uso um aplicativo para escrever, não gostaria que me mandassem falas.
A voz dela era a exceção.
Notava-se perfeitamente que ela queria me impressionar: o tempo levado para “simples” versos de Let it Go, Frozen, era enorme. Mas a recompensa não decepcionava: sua voz é mágica, é como se eu estivesse sendo beijado de uma forma tão doce que não conseguiria reagir.
Os dias se passavam e nós ficávamos com mais frequência. Toda segunda quarta e sexta nos encontravam no mesmo lugar após o curso preparatório. Eu poderia jurar que um dia já teríamos sido flagrados pelo Palmeirense. Nada que eu ligasse, é claro.
A boca dela era doce, era mágica. Tudo que ela fazia naqueles decímetros que nos ligavam era mágico. A paixão foi gradativa, mas rápida. Como não podia deixar de ser. Morgana me chamou:
– Harry, precisamos conversar – Meu coração acelerou, “precisamos conversar” sempre significa mudança.
– Está tudo bem? – Perguntei.
– Não, não está. Eu não vivo sem você. – Todo o resto do blá blá blá, eu já não me lembro mais. Morgana se declarou para mim e, mesmo sem o dizer diretamente, queria voltar. Naquele mesmo momento, outra pessoa me chamou.
– Harry – Era Bel. Senti-me culpado. – Um garoto... o Beterraba... lembra dele? Enfim, você sabe que sempre fui apaixonada por ele. Então, ele pediu para ficar com ele.
Algo ruim pairou sobre meu peito. Estava indo tudo tão bem... mas eu não iria me apegar. Ainda por cima, tinha Morgana que voltara. Decidi perguntar o que ela decidira.
– Eu o rejeitei, Harry. Estou começando a... gostar sério de você.
Contei a ela o episódio de Morgana. A frase que eu nunca mais me esqueço era “se é para me fuder, vamos nos fuder juntos. Vamos avançar mais com nosso relacionamento” e, depois disso, rejeitei Morgana. Acho que ela escreveu um texto me xingando e dizendo que eu magoaria outra. Não tinha sido ela que terminara comigo?
As coisas começaram a ficar sérias. Episódio após episódio, dia após dia, noite após noite. Ficávamos cada vez mais – infelizmente a mãe dela não deixava eu sair com ela, achava que eu tinha segundas intenções com ela no sentido de ainda estar com Morgana. Eu cheguei até a falar pessoalmente com ela, escreveria um capítulo sobre isso mas, Bel, o objetivo aqui é outro. Mais para frente você entenderá, princesa. – e gostávamos cada vez mais um do outro. Tinha chegado a hora.
– Thaís, você acha que ela quer namorar comigo? – Thaís era a vizinha dela. Fazia curso preparatório conosco e tinha se mostrado uma grande pessoa e amiga.
– Sim, mas ela espera algo grande – Eu sabia que não seria tão simples – A Bel me disse que ama flores. Compre flores, Harry!
– Em que diabos eu vou arranjar flores, Thaís?! E, além disso, como eu entraria no curso preparatório com um buquê?! O Sérvio iria me matar!
– Faça algo grande, é isso que te digo.
Naquela noite, disse a Bel que tinha algo enorme planejado com ela. Era o dia 27 de abril, 10 dias depois do dia 17 de março, data em que ficáramos pela primeira vez. 28 era um bom dia, pensei.
Fomos tomar um Guaravita após o curso. Segunda-feira, enquanto o mundo a amaldiçoava, eu a festejava. Começamos a nos beijar. Suas mãos tocavam meus quadris de uma forma suave, mas provocante. Tudo começava a ficar mais intenso. Mordi o lóbulo de sua orelha.
– Promete nunca mais abrir mão desse momento? Ficar aqui comigo, para sempre? – Perguntei devagar. Tinha gente olhando por perto, estávamos um pouco constrangidos.
– Prometo.
– É isso mesmo que você quer?
– É. – O namoro estava findado. Não fora nada tão grandioso mas, na visão dela, foi uma proclamação de “eu estou namorando com você, beleza?” “sussa”.
Obviamente, não seria assim.
Ajoelhei-me.
– Bel [C.O.F.] – Todos começaram a olhar. Eu tentava esquecer o constrangimento, mas não conseguia muito. Foda-se. Seria inesquecível para a minha vida. – Aceita namorar comigo, até que nosso anel de casamento acabe com isso?
– Aceito – Ela disse.
– É sério, você tá fudida, não pode terminar mais – O riso dela era uma reafirmação. Aquilo seria eterno. Eu não esperava, eu sentia.
Eu sabia.
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