Distantes
26 Capítulo 24 - Encarando de Frente
Notas iniciais
Filip não procurou a irmã. Ele queria, mas sabia que não era um bom momento. Sua irmã era arisca como um gato quando se comportava daquela maneira. Talvez depois...
Agora ela precisava de espaço e tempo para pensar. E sendo franco consigo mesmo, e sabia que nem mesmo saberia como abordá-la. Samantha sempre fora a ancora da família.
Era ela quem lutava com todas as forças para que a casa não desandasse ainda mais. Protegia a mãe deles de complicados rolos por causa do vicio e de dividas. Ela era quem sempre garantia ao Serviço Social que estavam bem, que a mãe procurava emprego e fazia bicos. Era Samantha que corria com documentação para manterem a bolsa no Colégio. E era ela que arrumava dinheiro, quando a despensa estava vazia — e o irmão sequer se interessava em saber como.
Ela era a força dos gêmeos. Ela era a cabeça da casa. E o garoto sempre soube disso, só não queria admitir.
Depois do ultimo tempo, Filip correu para a biblioteca. Ele tinha certeza que encontraria a irmã alí. Aquele era, na verdade, o único lugar que ele conseguia pensar em procurá-la. Ele só não contava em ser seguido:
— Você não vai pra casa? Podemos te dar uma carona...! — era Ana Clara novamente, balançando seus cachinhos ruivos e sorrindo de orelha à orelha.
Filip, finalmente, mostrou um pouco de irritação com a menina, mas ao invés de ser grosseiro e espantá-la, apenas a ignorou e continuo pelo corredor em direção a biblioteca. Ela sentiu a hostilidade de Filip, então apressou o passo o suficiente para manter contato visual com o rapaz.
— É porque sou amiga de Victória? É isso? Eu já estou sabendo sobre o que aconteceu na praia. Acredite, depois do fim de semana que tivemos, não há boato que ela crie sobre você que vá desconstruir a imagem que tenho sua.
Ao ouvir isso, o rapaz para por um instante. Encara com um pouco de duvida os profundos olhos verdes da garota. Os olhos dela são bem mais escuros e intensos que os seus próprios e os da irmã.
Aqueles olhos o fizeram lembrar de outros olhos. Os azuis claros da loura autoritária e cheia de sí da classe da menina. "Victoria... Tinha me esquecido daquela maluca!"
Voltou a andar enquanto respondia à baixinha insistente:
— Não me importo com o que ela fala de mim. Não dou a mínima! — ele tinha muito o que processar e coisas importantes demais a serem resolvidas, para se preocupar com as fofocas de uma garotinha mimada, oferecida e frustrada. "Dane-se!"
— Pois deveria. Aquela garota é veneno puro. Ela está espalhando pra todo mundo que você usa drogas. Se isso chegar no ouvido da Coordenadora, nem o diretor livra tua cara. Ela vai cagoetar tudo pra Assistente Social e não vai fazer a menor diferença se é verdade ou não.
Já em frente a biblioteca, a poucos passos da porta, o rapaz para mais uma vez. Agora ele encara o chão atônito. Apesar de sentir-se um pouco incomodado com a forma como a garota falara com ele, não podia deixar de admitir que ela tinha razão.
Ele havia passado tempo demais fingindo que isso não seria um problema. Mas a essa altura do campeonato, não seria nada legal ele e a irmã acabarem parando num abrigo para menores. Na verdade, com seus poderes ainda em desenvolvimento, essa seria uma péssima ideia. E só faltavam algumas semanas para que completassem dezoito. Não valia a pena correr o risco...
Mas, o que fazer agora?
— Eu posso ajudar. Sei que você pode estar desconfiado de minhas intenções, mas hoje sou mais amiga sua e da Sam do que de Victoria. Vocês salvaram a minha vida.
Ele elevou o olhar até encarar a ruivinha determinada ao seu lado. Talvez ela pudesse mesmo ajudar. E de qualquer forma, ele não tinha mesmo outra opção...
Franzindo a testa, acabou concordando, e seguiu a pequena saltitante voltando pelo corredor.
— Não se preocupe com a Sam, que eu a vi deixando a escola logo depois do ultimo tempo. Ela saiu com a Sofia.
— Não a chame de Sam. Ela detesta. — comentou Filip enquanto um sorriso brotava em seu rosto ao observar o jeito leve e animado da garota.
— Então esse será nosso segredinho... — respondeu-o Ana Clara, olhando por cima do ombro e lhe sorrindo de volta.
O coração de Filip deu um pulo descompassado com a atitude da menina, que baixou o olhar e virou rápido para frente, mas ainda deu tempo de ele perceber que ela estava corando.
"Mas que porra é essa?" pensou pouco antes de chegar à portaria com ela. Lá, Urias os esperava com o motorista da menina.
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