Distance
12 Haruno Sakura - Let Her Go
Notas iniciais

Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Definitivamente, isso jamais daria certo. O que eu estava pensando quando decidi abandonar a vila, como se fosse encontrar uma espécie de porto seguro na primeira cidadezinha escondida que eu encontrasse?
O sol estava se pondo, enquanto eu observava o espetáculo de cores quentes se transmutando em frias. Já havia passado por diversas cidadezinhas nos últimos meses, procurando algo que eu nem sabia ao certo o que era. Eu queria paz, queria conforto, queria esquecer tudo que deixei para trás quando abandonei a vila. Entretanto, que ingênua fui eu em não perceber: essas são todas coisas que não se encontram em um lugar especifico, pelo simples fato de não pertencerem à lista das coisas físicas.
Só sente falta do sol, quando começa a nevar
Eram coisas que eu não encontraria em lugar algum, pois elas já não me pertenciam mais.
Por meses eu me esforcei para apagar tudo, todas as memórias e todas as dores. Então, em uma manhã onde até o morno sol da manhã parecia frio e as flores florescendo pareciam cheirar a putrefação, eu percebi que não havia sentido continuar lutando contra o nada.
Porque minha vida havia se resumido a um nada tão vazio que não haviam palavras para descrever o quanto o meu peito doía toda vez que eu puxava o ar para meus pulmões. A dor estava ali, mais presente que nunca. Estava em tudo, por toda parte.
Doía. Doía pela primeira vez que não consegui impedir Uchiha Sasuke de partir. Doía por todos os anos em que eu não pude trazê-lo novamente para perto de mim. Doía por todas as vezes em que eu desperdicei meu tempo com futilidades, enquanto podia estar fazendo algo muito maior por Uzumaki Naruto, a única pessoa que sempre esteve lá por mim. Doía por todas as vezes que eu o ignorei, todas as vezes que o rejeitei. Doía não ter conseguido impedir a morte de Sasuke. Doía pensar que tudo poderia ter sido diferente, apenas por eu ter tomado atitudes menos errôneas.
Só sabe que o ama quando o deixou ir
E eu... estou me sentindo tão pequena.
Só sabe que estava bem quando está se sentindo pra baixo
Eu fui tão egoísta e egocêntrica. Tão preocupada comigo que não pude enxergar Naruto, que precisava de mim. Ao invés disso, foi ele que sempre esteve ao meu lado. Ele que tanto precisava de ajuda foi o que mais ajudou à todos. Principalmente à mim.
Eu fui tão feliz sem saber. Na época da academia e no tempo que seguiu antes de Sasuke deixar a vila. Eu fui tão feliz e tão completa, tinha todas as pessoas mais importantes na minha vida por perto e tinha todas as chances de ser ou ter o que quisesse. Mas eu estava ocupada demais com futilidades para perceber isso. Achava que era terrivelmente infeliz porque Uchiha Sasuke não me olhava como eu queria que olhasse. Como eu pude ser tão idiota? Como pude não perceber que eu era para Uzumaki Naruto o que Uchiha Sasuke era para mim? Como pude não entender que Sasuke precisava de um amigo, não de mais uma fã tão fútil? Tudo podia ter sido tão diferente, se eu não fosse tão idiota.
Só odeia a estrada quando está com saudade de casa
Agora tudo ficou para trás, e eu não posso resgatar nem um detalhe sequer. Nem meu trabalho no hospital, algo que eu sempre amei; nem meus amigos, que sempre me ajudaram a seguir; nem a pessoa que mais me amou e por mim mais lutou.
Eu só... sinto tanta falta de tudo que eu pensei ter.
Só sabe que o ama quando o deixou ir
Por tantos anos que até posso chamar de toda vida, eu acreditei amar Uchiha Sasuke. Mas eu não sabia que aquilo que eu sentia era apenas a ponta do iceberg.
Havia muito mais.
Depois que ele definitivamente partiu, tudo que eu senti foi com tanta intensidade que todos os anos anteriores poderiam ser chamados de insignificantes.
O amor de verdade, em sua forma mais pura e incondicional, é tão cruel que faz o ódio parecer gentil.
Não há descrição para a sensação de insignificância que você encontra quando perde a pessoa que tanto amou.
E você o deixou ir
No fim, preciso admitir. Hyuuga Hinata parece muito mais digna do Naruto que eu.
Ela, ao menos, sempre o enxergou e valorizou. Tinha-o como herói, acreditava em seu potencial.
Só espero que ela possa amá-lo com a mesma intensidade que acredita tê-lo como seu por direito.
Afinal... Não há com o que se preocupar. Uma família sempre foi tudo que Naruto quis. A emoção da conquista deve ocultar a decepção de quem compõe essa família.
Olhando para o fundo do seu copo
Esperando que um dia faça um sonho durar
Mas sonhos chegam devagar e passam muito rápido
Já havia perdido a noção das horas. Talvez duas. Ou três. Da madrugada.
Desde que o sol terminara de se pôr, aqui estou eu, escorada em um balcão de bar. O cheiro de vomito e de poeira acumulada parecia combinar muito com meu estado emocional.
O que eu faria agora? Afogaria as mágoas na bebida para sempre? Cambalearia de bar em bar, evitando a ressaca da maneira mais simples: continuar bebendo?
— Sakura? – Uma voz rouca e séria se pronunciou ao meu lado, parecendo familiar. Mas, se eu já não houvesse matado todos meus neurônios com tanta bebida, os que sobraram não conseguiram reconhecer o dono da voz. – Haruno Sakura?
Franzindo o semblante, virei-me, na tentativa de descobrir quem seria a alma que me reconhecera.
Você o vê quando fecha os olhos
Talvez um dia você entenda porquê
Os cabelos bagunçados não eram de um dourado incrivelmente vívido, mas de um ruivo charmoso. Os olhos verdes suaves não lembravam o céu em seu tom de azul mais intenso, mas eram extremamente bonitos. Os lábios, levemente cheios e rosados, eram muito atrativos; um pouco mais desenhados que os de Naruto, mas certamente menos irresistíveis.
Um homem atraente, sem dúvidas. Talvez menos que Sasuke ou Naruto. Medalha de bronze.
— Ka-Kazekage-sama? – Gaguejo, meio confusa. Meus pensamentos estavam embaralhados e eu não conseguia distinguir o que era o adequado a se dizer e o que não era.
Um meio sorriso charmoso se projetou nos lábios provocativos.
— Nunca pensei ver a grande kunoichi de Konoha caindo pelos cantos de um bar como este. – Sua voz soava surpresa, mas muito mais do que isso, brincalhona.
— Nunca pensei que o grande Kazekage de Suna possuísse senso de humor. – Comentei, meio resmungando, e tive a sensação de que esse comentário fazia parte da lista de coisas inadequadas para se dizer.
Após alguns instantes pude ouvir sua risada rouca e discreta soando como música para os meus ouvidos. Há quanto tempo não escuto a risada de alguém?
Não pude evitar abrir um leve sorriso, logo antes de quase cair do banco em frente ao balcão.
O Kazekage me segura em seus braços – fortes.
— Nunca pensei que a grande kunoichi de Konoha cairia dessa forma em meus braços. Estou um tanto orgulhoso, admito. – Novamente, sua voz soava brincalhona.
Soltei uma gargalhada, sem saber exatamente o motivo.
— Não costumo beber tanto. – Informei, talvez mais para mim mesma do que para ele.
Passando um de meus braços por seus ombros e enlaçando minha cintura com a outra mão, o Kazekage me guiou – ou melhor: me arrastou – até a ruazinha em que se localiza o bar.
— Imagino que também não costume vir para tão longe de Konoha apenas para provar o saquê. – Ele comenta, sentando-me num banco velho de madeira.
— Para ser sincera, não tenho certeza de onde estou. Já faz alguns meses que não tenho certeza disso. – Eu digo, soltando uma risada abafada, amarga.
Um pequeno sorriso brincava com os lábios do Kazekage de Suna, mas sua expressão tornou-se séria.
— Acho melhor levá-la até Suna. Consegue andar? – Ele levanta e me estende uma mão.
— Mas é claro que sim. — Digo, levantando-me.
Um passo à frente e logo fui de encontro ao chão, tropeçando em meus próprios pés.
— Sakura? – Pude ouvir a voz do Kazekage chamar, mas já estava distante demais para conseguir respondê-lo.
Tudo o que você toca, certamente, morre
A luz invadiu o quarto repentinamente, junto com o som de cortinas se abrindo. Aperto os olhos com força, colocando um braço sobre o rosto para tentar defender-me da covardia que era realizada contra meu sono.
— Sakura, precisa acordar! – A voz severa era familiar, mas a dor de cabeça que ela causou não tanto assim.
Pude ouvir o som de uma risada.
— Isso se chama ressaca, e nunca pensei ver você com uma. Quem diria, a kunoichi exemplar...
Abri meus olhos ao sentir o cheiro de café invadindo minhas narinas.
Temari estava sentada ao meu lado, numa cama que eu não reconhecia.
Não a via há meses, desde que ela e Shikamaru terminaram... novamente. Eles viviam o que pode-se chamar de relacionamento ioiô.
— Tema-chan... Onde estou? – Minha voz soava baixa e rouca. A cada som proferido, minha cabeça vibrava de dor e eu fazia uma careta.
Segurei a xícara que a loira me oferecia, bebendo o amargo café. Do jeito que eu gostava.
— Você está em Suna. Mais precisamente em um dos quartos de hospedes da residência do Gaara. — Ela responde, um tanto animada. — Estou morando aqui desde que terminei com Shikamaru, semana passada.
Semana passada? Ah, claro. Faz quase uns seis meses desde o ultimo término, certamente tempo suficiente para eles reatarem e terminarem novamente.
Abri um pequeno sorriso. Temari e Shikamaru se amavam, isso era inquestionável. Entretanto, suas personalidades os impediam de manter um relacionamento onde tudo são flores.
— Mas o que você estava fazendo em um bar nos arredores de Suna, hein, Saki? — Os olhos curiosos de minha amiga me fitavam enquanto eu tentava pensar numa resposta que não levantasse maiores questionamentos. Entretanto, minha cabeça latejava e eu não conseguia raciocinar o suficiente para encontrar algo diferente da verdade nua e crua.
Duas suaves — porém firmes — batidas na porta do quarto desviam a atenção de Temari, fazendo-me suspirar discretamente, aliviada.
A porta se abre, revelando o Kazekage de Suna.
O homem que me segurou quando eu desmaiei de bêbada.
Desvio o olhar por alguns segundos, sentindo minhas bochechas queimarem. Essa, definitivamente, não é a melhor imagem a se passar para um Kazekage.
Quando me vê, ele abre um meio sorriso.
Mas, você só precisa da luz quando está escurecendo
— Dormiu bem? – Gaara pergunta, olhando-me nos olhos de forma intensa. Senti um leve friozinho na barriga.
— Ressaca... – Sussurro, sentindo minha cabeça latejar. – Preciso de brócolis, banana, quaisquer outros tipos de fruta e água de coco.
Os dois me encararam, uma interrogação escrita em suas testas.
— Remédios naturais para ressaca. – Explico.
Temari sorri, levantando-se.
— Ser médica tem suas vantagens. – Ela comenta, caminhando até a porta. – Se eu soubesse o que fazer quando tenho ressacas, minha vida seria muito mais fácil.
Só sabe que o ama quando a deixou ir
— Diga-me, Haruno, o que fazia aos arredores de Suna tomando um porre? – Gaara mantinha um sorriso divertido nos lábios. Parece que todos estão achando graça da médica-nin mais respeitada de Konoha estar de porre.
Só sabe que estava bem quando está se sentindo pra baixo
— Estou de folga, — Comecei a responder, tentando pensar em uma desculpa convincente. – talvez permanentemente.
Uma sobrancelha do Kazekage se arqueja, demonstrando sua confusão.
— Permanentemente? – Ele enfatiza a palavra, deixando bem claro quais respostas queria. Parece típico do Kazekage de Suna ir direto ao ponto, sem rodeios.
— Sim. – Faço uma pequena pausa. – Achei que era hora de virar a página.
— Deixe-me ver se entendi. Você, a melhor medica-nin de Konoha, simplesmente desistiu de seu emprego?
Só odeia a estrada quando está com saudade de casa
— Não, não desisti de ser médica. Eu, Sakura Haruno, me mudei de Konoha.
O Kazekage se aproxima, cruzando os braços sobre a alta cabeceira da cama e deitando o queixo sobre eles.
— Perdoe-me, Sakura, mas isso não faz sentido.
Só sabe que o ama quando o deixou ir
Suspiro, olhando para as cobertas que cobriam até minha cintura.
— Achei que era a hora de recomeçar. Parece que vivo entre ruínas.
Olhando para o teto no escuro
O mesmo velho sentimento de vazio em seu coração
Meus olhos demoraram a se erguer, mas quando o fizeram foi inexplicável a sensação que me invadiu.
Gaara estava ali. Mais próximo, mais íntimo.
Seus olhos me fitavam, como se buscando ler alguma espécie de manual que só existisse dentro de mim, como uma criança reconhecendo a canção que sua falecida mãe cantava para que ela dormisse. Parecia assustador, parecia intimidador. Ao mesmo tempo era quase mágico.
O amor chega devagar e passa muito rápido
Era quase como se ele compartilhasse da minha dor.
Bem, você o vê quando dorme
Mas para nunca tocar e nunca manter
Eu podia ver Naruto a minha frente, sorrindo. Ele era uma imagem nítida, porém intocável.
Porque você o amava muito
E você mergulhou muito fundo
De repente, puxei o ar com força, como se sufocasse. Gaara despertou de seus devaneios, assustado.
Eu respirava ofegante, como se o ar fosse preencher todo o vazio que havia dentro de mim.
Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
Só sente falta do sol, quando começa a nevar
Só sabe que o ama quando o deixou ir
Só sabe que estava bem quando está se sentindo pra baixo
Só odeia a estrada quando está com saudade de casa
Só sabe que o ama quando o deixou ir
De qualquer forma, o vazio continuou.
E você o deixou ir
— Você está bem? – O Kazekage perguntava, colocando uma mão em meu ombro.
Escondi meu rosto entre as mãos, para só depois perceber que as lágrimas não vinham.
Até minha dor era muda, vazia.
E você o deixou ir
E, de repente, meu corpo se esquentou. Subitamente, a dor recuou, o conforto se expandiu.
Meus olhos se abriram e só então percebi. Sabaku no Gaara me abraçava. Ele parecia encabulado, desconfortável. Entretanto, contra todos os seus costumes e toda a sua fama de indiferente, ele foi a primeira pessoa a me oferecer conforto.
Bem, você só precisa da luz quando está escurecendo
— Eu sei que pode parecer besteira, mas isso vai passar. – Ele disse, tão baixinho que pareceu mais um sussurro. Encostou o queixo no topo da minha cabeça, como se eu fosse uma criança indefesa. – Quando nós perdemos algo, ficamos em choque. A dor vem aos poucos, toma conta de tudo. Mas, com o tempo, ela perde a força. Um dia você acordará e perceberá que ela não está mais lá. Isso não significa que você esquecerá o que aconteceu e as pessoas que perdeu, mas se conformará e conseguirá construir tudo novamente.
Só sente falta do sol, quando começa a nevar
— E o que eu faço até esse dia chegar? – Pergunto, sentindo minhas barreiras romperem e o orgulho se esvair. Abracei-o com força, escondendo meu resto em seu peito. A vergonha que sentirei pode esperar, pois eu preciso disso agora.
Só sabe que o ama quando o deixou ir
— Não sei ao certo, ninguém sabe. Posso te dizer o que eu fiz. – Ele segurou meus ombros e me afastou. Olhei em seus olhos, tão sinceros e confiantes. – Eu ajudei os outros. Ajudei-os a ser feliz, ajudei-os a amar. No início foi difícil, mas o resultado é gratificante e, quando você percebe, já é natural. Se você não consegue encontrar sentimentos bons em ajudar a si mesma, ajude os outros. O segredo da felicidade é encontrar a nossa alegria na alegria dos outros.
E você o deixou ir
Foi como se uma luz invadisse um quarto sombrio.
Havia algo naquelas palavras capaz de me fazer mover montanhas. Mais importante que isso, capaz de me ajudar a ver.
Eu só poderia ser feliz novamente se fosse feliz com a alegria de Naruto e Hinata.
Fale com o autor