2014, novembro.(Meses depois do capítulo anterior)

– O que houve, Harry? — Eu não parava de chorar. Nada tinha mais graça. Julieta se afastou, quase que instintivamente. Era muito decepcionante se esforçar, dar seu máximo, dedicar um ano inteiro a algo e no final acabar, simplesmente acabar. Eu já tinha chorado muito no dia anterior, mas aquilo foi além da conta.

Foram cinco, dez, trinta, quarenta minutos ou uma hora chorando, consolado por um tronco de árvore, molhando tudo que tinha que molhar, indiferentemente a quem estava perto de mim, apenas olhando para o celular.

O cheiro das folhas estava diferente. O que antes era uma mistura de orvalho com fungos silvestres que davam uma sensação de natureza e libertação, agora simbolizavam a solidão e o medo. Medo de que aquilo se concretizasse. Medo de ficar sozinho. Medo de perder meu amor, minha vida, tudo que era significativo para mim.

– Foi por causa Daquilo? — Perguntei, sempre com um fio de esperança.

– Foi por tudo.

– Tudo? Você não está satisfeita comigo?

– Eu enjoei.

– Não era para sempre?

– Lamento.

– Lamento é o caralho.

O amor não existe, era tudo que eu poderia concluir. Até hoje, um tempo depois, ainda dói no meu coração saber que Bel desistiu de nós para aliviar o sofrimento próprio. Por mais que fosse explicável, não era justificável. É algo que eu nunca vou conseguir esquecer, que sempre vai ser uma mancha na minha história e um limão arremessado de Deus na minha vida.

Eu levantei, enxuguei as lágrimas. Andei vagarosamente até meu amigo, que já estava de braços abertos. Simplesmente, sem ninguém falar nada, abracei. Julieta e outros amigos e amigas vieram depois, também em silêncio total. Era pior que um velório.

Eu sempre me perguntei se seria legal, se seria divertido ou minimamente bom o apoio dos outros nos momentos mais difíceis. Sim, é sempre bom. A questão é que a única pessoa que eu poderia me apoiar, a única pessoa capaz de me consolar, a única pessoa que poderia fazer o momento evoluir de difícil para impossível era a Bel. E ela não estaria mais lá.

Olhei os fungos da árvore mais uma vez. Eles continuavam iguais, inexpressivos, em estado de inércia nulo. Por uma vez na vida, eu queria me juntar a eles. Eu sentia um vazio na barriga, uma dor no coração que poderia jurar que não era psicológico. Totalmente displicente, caminhei para fora do colégio. Os ônibus, os carros, eram todos desanimados. Tudo parecia ter alguma estranha ligação com a morte, com o vazio. Minha vontade era de dar meia-volta e reconquistar o que foi perdido.

Andei mais um pouco, uns amigos vieram me chamar para um aniversário de um terceiro. Quase aceitei, para descontrair, mas algo interno me impediu. Simplesmente tomei o ônibus.

O ar cheirava a merda.

A janela tinha aparência de merda.

O barulho era de merda.

Até que parou. De repente, tudo parou de fazer barulho. Era estranho, era um zumbido, era a pior sensação que alguém poderia ter. O ônibus chegou. Como esperado, não tinha ninguém em casa. Sentei-me no banheiro, dentro do box, e liguei o chuveiro.

– Tudo que eu te peço é amor, seu desgraçado. TUDO! Você não escreveu a porra de uma bíblia, a porra de um Alcorão ou qualquer merda de livro sagrado pregando a merda do amor? Eu quero a porra do amor! — As lágrimas, acreditem, eram mais abundantes do que a ducha — E tem que ser dela, tem que ser da Bel... justo quando estava tudo perfeito, você me apronta uma merda dessas! Amor não existe, você não existe. Se existe, me prova com ela. APENAS COM ELA. Eu prometo que não vou pedir mais NADA que não seja relacionado ao amor dela. NADA. É só ela que eu quero. Eu quero que ela me ame, para sempre. Toda minha religiosidade está nisso. Não peço dinheiro, não peço mais merda nenhuma. Quero só poder estar com ela, abraçado ou sei lá, na porra do What's App esperando ela voltar da escola e dizer que o dia foi ótimo. Faz isso por mim, Deus, que eu acredito em você e rezo toda noite.

Como de esperado, nada. Só me restava chorar. Conversei com algumas pessoas, tentei jogar Fogo Cruzado, mas nada adiantou. Eu só conseguia chorar. Desistir ou lutar pela única coisa que dá sentido para a minha vida?

Infelizmente, lutar não era mais uma opção.