Distância Repentina
5 Rapunzel
2014. Maio.
Tudo vai bem, perfeitamente bem. As cores da rua eram mais coloridas, era um prazer inenarrável ir para o curso preparatório, mesmo que sendo quatro horas adicionais de estudo. Tudo, desde a cansativa rotina de chegar à noite após prática esportiva até acordar cedo para ter que ir a escola, valia a pena.
Obviamente, tudo amparado pela minha mais nova, linda e perfeita fonte de energia: Bel.
Beijá-la era como uma injeção alucinótica de endorfina. Sua boca tinha um gosto totalmente novo, totalmente renovador, animador. As coisas realmente ficavam melhores. Eu ficava melhor. Agia com mais animação, com mais disposição, com mais amor.
Atitudes que outrora resultariam em brigas, em momentos ruins, em xingamentos ou até porrada, naquele momento seriam apenas absolvidas pelo meu organismo e solvidas pelo pensamento, ideia e fato de que iria ver, mais tarde naquele dia ou em algum momento, a beleza do rosto da minha nova namorada.
O suporte amigável que ela me dera continuava, é claro. Só que, como todo namoro, algumas coisas não poderiam acontecer. Eu estava lá com ela, eu era seu amor, era a mim que ela deveria chorar de emoção por ver e ficar excitada só de ouvir o nome. Mas não, tinha a porra de uma bandinha que atrapalhava tudo.
– Você tem que se decidir se ama a eles ou a mim – Declarei, raivoso.
– Amo os dois, poxa!
– Não ama não. Eles não estão com você todo dia, é o babaca aqui que está.
– Não diz isso! Você não sabe o que sinto quando ouço a música deles.
– Para mim, isso que você diz é tanta traição quanto beijar na boca de um deles.
– Daqui a pouco você vai dizer que um selinho seria problema, então. – Eu quase espumei de raiva. Eu, Towers, delirando pela garota e ela pensando na porra de um selinho de outro homem. Fui para o banho, me acalmei, pensei. Foram dias, semanas, meses de conversa e briga sobre a merda de uma bandinha. Finalmente, na minha concepção, tinha conseguido a explicar os meus sentimentos controversos aos dela com a banda. O namoro continuava firme e forte. Até que uma pessoa surgiu, maldita pessoa! Mother Gothel, sua mãe.
– “Deixa eu” falar com ela! Ela tem que começar a aceitar nosso namoro!
– Harry, você não entende. Ela é maluca! – Bel parecia bem convicta no que dizia.
– Mas isso é a sua felicidade! Ela quer sua felicidade! Toda mãe quer!
– Nem toda. Acredita.
– Ela quer.
– Não quer.
– Faz o seguinte – Suspirei – Diga a ela que está apaixonada por mim, vai começar a melhorar as coisas. Se ela quiser te ajudar, aí no final tudo vai dar certo.
– Pode ser – Rendeu-se – Mas ainda não levo muita fé nisso.
Os dias se passaram e a mulher parecia disposta a investir na bipolaridade: enquanto ajudava a Bel me conquistar, repudiava qualquer tipo de relacionamento mais que amigável (de certa forma, até amigável) que ela poderia ter com um menino. Um dia, todavia, Gothel me chamou para ir até sua casa junto com uma amiga de Bel.
Eu tremia, suava, olhava a hora incansavelmente. Não era momento para namoro, pensei. Era momento para estratégia.
– Vou na casa de uma amiga hoje, pai – Anunciei, meio que pedindo carona.
– Que amiga? – Ele perguntou.
– Bel, aquela garota que ficou em segundo lugar no curso – Na minha casa, ela já era famosa por ter sido “a garota que ficou em segundo lugar no bolsão do curso”. Meus pais a admiravam por isso e era mais um lembrete de que seu filho tinha sido pioneiro na prova.
– Você está namorando essa garota, Harry? – Ele perguntou, suspeitando.
– Não, apenas vou comer um lanche na casa dela com uma outra amiga.
– Que amiga?
– Você não conhece.
Deixou-me no portão da casa dela. Era perto, mas não tanto. Ela e a amiga me esperavam. Cumprimentaram-me e fomos até o elevador. Eu não aguentava de nervosismo.
– Mãe?! – Ela nos anunciou enquanto entrávamos na sala. Curiosamente, Mother não estava lá.
Não seria tão constrangedor se, há alguns meses, quando eu tinha acabado de namorar Morgana e estava no início do meu relacionamento colorido com Bel, eu não tivesse ido falar com Mother pelo Facebook.
– Oi, tia, tudo bem? Sou o amigo da Bel, Henrique, do curso preparatório. Eu soube que a chamei para sair e a senhora achou que eu estivesse com más intenções a respeito dela, mas na verdade quero apenas uma relação amigável. Bel estuda, inclusive, no São Jorge, mesmo colégio que Morgana estuda. Seria meio difícil eu querer estar com uma e enganar a outra, uma vez que estão tão próximas e têm amigas em comum. Conheço, inclusive, a melhor amiga da Bel e sua mãe, que podem confirmar a história. Se eu puder sair com ela, como amigo, seria ótimo mas se a senhora não quiser, respeitarei sua posição.
Como resposta, ouvi um não muito mal dito.
Naquela vez, entretanto, a mãe dela tinha um semblante diferente. Chegou na sala falando no celular, abriu um sorriso, convidou-me a sentar e me cumprimentou. Ligamos a tevê, sentados a mãe, a amiga, Bel e eu, nessa ordem.
A amiga sugeriu uma comédia leve, mas na metade do filme, Mother exigiu que retirassem o filme. O longa era muito pesado, ela disse. Só continha besteiras.
A visita seguiu-se de outras paranoias da minha nova sogra pseudo e puxasacamente aprovadas por mim. Mesmo sem sua ciência, eu já a considerava uma sogra. Não queria desavenças com ela para facilitar as coisas e também porque eu gostava de sogras, ao contrário do conceito universal. Meu relacionamento com a mãe de Morgana era ótimo.
Fomos comer na cozinha, os quatro, enquanto eu e a senhora Gothel conversávamos sobre política, colégios e estudos em geral. Eu estava menos nervoso, mais confortável com o ambiente e começava a me entender com a mulher. Felizmente, ela também estava gostando de mim. Tendo em vista as nossas conversas anteriores, tudo estava indo perfeitamente.
Descemos as escadas, peguei carona com a amiga de Bel. A mãe dela era muito legal, aprovava meu namoro e também gostou de mim. Até hoje em dia, ela ainda me ajuda. Confirmou que minhas atitudes tinham sido corretas:
– Você fez bem em sair cedo, deve ter causado uma boa impressão. Com Mother, tem-se que ter paciência. Ir devagar, sempre devagar, acredito que você vai conseguir.
– Obrigado, tia.
Mais tarde, em casa, Bel me confirmou que sua mãe teve uma ótima impressão de mim. Daqui a um tempo, ela disse, iria relevar nosso segredo e esperava aprovação. Com o pai seria mais fácil mas, mesmo assim, uma missão muito difícil. Se fosse pegar o saldo, agora com a questão materna muito adiantada, nada iria nos atrapalhar. Seríamos o casal mais feliz do mundo.
Vinicius de Moraes, entretanto, já disse um dia que "Todo grande amor só é bem grande se for triste".
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