–Fico muito feliz que tenha conseguido a bolsa, amor – Não sabia se ela tinha falado com sinceridade. Na verdade, eu não me importava. Depois de um ano juntos, tantas brigas e reconciliações, eu realmente acreditava que iria passar o resto da minha vida com ela.

Morgana era uma garota normal e “típica para casar”. Sua aparência não era das melhores, mas ostentava boa condição financeira juntamente com um par de pais adotivos que me adoravam. Levavam-me para viagens, passeios e jantares de luxo que eu nunca tivera e, logo no meu primeiro relacionamento mais longo, realmente me surpreendeu.

Tinha um rosto bem redondo e olhos negros – ou alguma variação – o que eu realmente não me importava. Sentia-me um homem casado, mesmo com quatorze anos. Alguns meses atrás, inclusive, havia trocado alianças de compromisso com ela, no mesmo dia em que brigamos sério, em uma viagem para minha casa serrana. As brigas, por sua vez, já se tornaram costumeiras e sempre aconteciam, dia após dia, semana após semana.

Reatávamos com a nossa própria promessa de nunca se separar, com a tal magia que nos julgávamos possuintes, a magia do amor. Morgana se apaixonou primeiramente pelo meu sorriso, como ela me dizia. Justamente o sorriso que eu achava tão feio! Magro e tímido, na época, ela me moldou de uma forma que me preparou para a vida.

– Obrigado, querida – A mesmice de sempre me impedia de achar que ela realmente tinha se importado com minha bolsa de estudos. Era apenas mais uma vez eu ficando acima da média num concurso (dessa vez, uma bolsa para um curso preparatório) enquanto ela lutava para se preparar para as provas finais.

Até hoje não sei se é verdade, mas ela podia me jurar que passava mal nas provas, vomitava e não conseguia o desempenho perto do que merecia e sabia. Eu tentava ajudar, mas ela não deixava. Punia-me e repreendia-me se eu falasse sobre assuntos profissionais ou relacionados a estudos.

Cheguei em casa, um apartamento normal de uma família de classe média na Tijuca (o tipo de família com ideias “progressistas”, totalmente contrárias às minhas, que estudava em um colégio de extrema direita no qual também conquistei vaga, um dos melhores do país) com meu pai pulando de alegria, telefonema atrás de telefonema, delatando e expondo meu êxito ao mundo.

Como ambos são professores, não tínhamos muito dinheiro, principalmente para pagar uma particular juntamente a um curso de inglês e a um curso preparatório, o trio que eu julgava extremamente necessário para ter sucesso na vida. Eu tinha bolsa integral nos três, na maioria das vezes conquistada através de provas.

– Harry – Ele me chamou, com um sorriso no rosto – Você merece. Vamos sair e comer uma pizza, chame sua tia e a Morgana.

– Ela está estudando... mas ok, vou ligar para a minha tia – Respondi.

Ele era alto, um metro e oitenta e dois, já beirando os cinquenta anos, tinha perdido o pai recentemente, que também morava conosco. Casou-se com a minha mãe, Vânia, há quase trinta anos e hoje exercia duas profissões: psicoterapeuta e professor de filosofia. Ela, por sua vez, era alta para a média feminina e beirava os quarenta e cinco anos de idade. Como sempre, se atrasava na hora de se arrumar.

– Espere, Marcus, estou quase me aprontando.

– Minha irmã está esperando, Vânia, não demore.

Eu, como sempre, ficava sentado no sofá na posição mais confortável possível e esperava pacientemente, fingindo indiferença. Dava algumas checadas no Facebook e acabava de me despedir de Morgana, até todos ficarem prontos. Saímos sem muita demora até a pizzaria e essa foi a frequência do resto das minhas férias, até chegar a primeira segunda feira de aula.

Na primeira vez, é sempre mais fácil. Acordei, dei bom dia para Morgana pelo celular e fui para o banheiro, tomar o banho. Enquanto acabava de dissipar o sono, animava-me por estar indo para o primeiro dia de aula. Toda aquela tensão de um colégio militar já fora esquecida, substituída pela ânsia de rever os velhos amigos, que nas duas últimas férias perderam seu lugar para a Morgana. A desculpa que eu usava, como sempre, era de que eles moravam muito longe mas, no fundo, eu sabia que não me dedicava muito.

Fiz a barba, escovei os dentes e me preparei como se estivesse indo para uma entrevista de emprego. Sentia orgulho em vestir a farda e por a boina no primeiro passo fora do meu prédio, enquanto andava ao ponto de ônibus. Tinha saudades de estar às seis da manhã na rua, dedicando o tempo ao meu fututro, ao invés de estar jogando algum MMO ou coisa do tipo. Ainda teria o primeiro dia no curso, mas isso não me animava tanto, visto que eu ainda estava um ano atrasado ao se comparar com aquela turma.

Peguei o ônibus, dei bom dia ao motorista e ao cobrador(velhos hábitos relembrados) e fiz questão de checar no celular, enquanto ouvia o sempre bom som do The Black Eyed Peas, o progresso de meus companheiros até a escola. Ao chegar lá, com um ânimo renovado todos prestavam, pela primeira e última vez no ano, a continência ao comandante. Abraçávamos os velhos amigos, ríamos, fazíamos velhas piadas e brincávamos com os novos alunos, classificados por nós como “bixos” que, como um trote do próprio colégio, eram obrigados a vestirem uma ridícula camisa branca que deveria ficar sempre por dentro de uma tão ridícula quanto calça jeans. E para fechar, um tênis (todo e somente) preto. Nada de all star ou coisas do tipo, eram típicos nerds entrando em um lugar novo e desconhecido.

A apresentação dos novos professores era, para mim, um dos melhores momentos. Eles sempre eram engraçados e divertidos no início, mostrando-se serem os professores ideais, até que dois meses depois seriam transferidos ou algo do tipo. O corpo docente que começava o ano era totalmente diferente do que o que o acabava. O discente também seguia esse padrão, infelizmente.

Realmente, professores de todos os tipos. Um, de ciências, apontava o dedo do meio para qualquer um que passasse na janelinha da porta. Ele dizia que gostava disso: de “zoação”. Soava um pouco ridículo, mas era o melhor que nós tínhamos.

– Por que o senhor (era nossa obrigação chamar os professores assim) escolheu lecionar justamente aqui então, professor, um colégio com a fama que tem? – Perguntei em tom irônico, apresentando meu lado ridículo à turma. Morgana odiava isso.

– Porque eu gosto de sacanear, aluno – Ele disse em tom de advertência, depois abrindo um sorriso – Brincadeira, é por causa do salário mesmo. Em um colégio municipal ou estadual, eu não ganharia um décimo do que ganho aqui. Em compensação, tenho esse mal estar, mas o dinheiro compensa.

O mal estar ao qual ele se referia era o calor: em pleno fevereiro, no Rio de Janeiro, zona norte, o colégio não contava com ar condicionado em sala de aula. Esse mesmo professor já chegara a se recusar a dar aula por conta do clima, segundo ele inconstitucional e, é claro, ninguém o criticou. O pior era quando as aulas eram após a educação física: muitos tinham o bom senso de tomar banho, mas alguns não. Então, chegavam fedidos e suados a uma sala fervendo, criando um clima extremamente desagradável.

As aulas se passaram uma após a outra e nada de tão relevante aconteceu. Na de português, se me lembro bem, cheguei atrasado e fui advertido que na próxima vez não chegaria. Passei o primeiro semestre todo sem chegar atrasado e, no segundo, notei que o “professor malvado” era justamente um dos que eu me melhor relacionaria. Infelizmente, ele também fora substituído no final do ano.

O final da aula chegou e eu podia ter almoçado com amigos mas, como depois viria a ser uma rotina, tomei o ônibus para almoçar com Morgana. Ela estudava perto da minha casa e o curso que eu faria após a aula era perto da minha escola, mas decidi voltar para passar um tempo a mais com ela. Nosso almoço era num restaurante de macarrões, não tão barato, mas ela podia bancar. Eu tinha que economizar bastante para toda segunda quarta e sexta estar lá comendo. As vezes, inclusive, ela completava meu dinheiro. Nada que fizesse diferença.

Contou-me sobre seu dia na aula e eu contei sobre o meu, sobre meu professor excêntrico e sobre meus encontros com os amigos – sempre omitindo a parte feminina, até porque iria criar outra briga que na minha visão seria extremamente desnecessária quando eu poderia simplesmente aproveitar o almoço. E foi isso que fiz, aproveitei o almoço.

Despedimo-nos com um quase que amigável selinho e novamente tomei o ônibus, rumando ao colégio militar. Saltei e fui até o curso preparatório e, chegando lá, notei que era o único “fardado”. O que causava mais estranheza era que os alunos do quinto ano visavam justamente a aprovação no tal colégio, então por onde eu passava ouvia murmúrios do tipo “o que ele tá fazendo aqui?”. Entrei na sala de aula, cumprimentei o diretor (era um professor de matemática. Queria tanto ir bem que torcia para que ele fosse meu professor, embora a fama de rígido) e me sentei.

Uma garota sentou ao meu lado, na hora não dei muita atenção, apenas conversei com um antigo amigo de um curso de inglês, a única pessoa que eu conhecia dali. Algum tempo depois e a luz apagou. Todos se calaram, ninguém se conhecia, a sala era recheada por timidez.

– O foda é o ar condicionado – Comentei, provocando risada geral. As primeiras conversas surgiram, alguns princípios de amizade e depois de algum tempo a luz voltou, abastecendo novamente nosso Deus momentâneo.

O diretor, depois de alguns minutos, entrou na sala novamente. Tomou a palavra:

– Boa tarde, bem vindos ao curso preparatório – Após nos saudar devidamente e nos advertir sobre algumas regras que o nosso professor de matemática (que infelizmente não seria ele) iria nos cobrar. Nada de atrasos, nada de conversa, nada de bonés(não sei porque me lembro dessa), entre outros. Alguns segundos depois, entrou nosso professor. Esse, dessa vez, ficaria conosco até o final do ano letivo, quando os concursos começariam a surgir. Era um torcedor fanático do Palmeiras e nos permitiu que o chamássemos de Palmeirense. O que também me causou estranheza foi sua voz que de alguma forma me lembrava a voz de um dublador. Meses depois eu não conseguiria fazer essa comparação.

O Palmeirense nos abordou de uma forma muito mais simpática, fazendo piadas muitas vezes engraçadas como um típico professor contratado de cursinho que não precisava estar ali, visto o grau de estudo que tinha. O curso foi acabando e tudo que eu conseguia me lembrar depois era da garota que sentou ao meu lado, do meu amigo do curso de inglês, do diretor, do Palmeirense e de umas garotas do Colégio São Jorge, o mesmo colégio da Morgana. Uma, morena e bonita, era a típica patricinha amiga de uma amiga minha que tinha uma casa na serra no mesmo condomínio que eu, odiada pela Morgana. Seu nome era Vanessa. A outra, cujo rosto não me era incomum, acabou sendo esquecida e colocada em segundo plano até porque eu não passei muito tempo perto dela. Com a Vanessa, fiz questão de passar um bom tempo perto.

Voltei andando com alguns recém-colegas do curso, cheio de anotações no caderno e objetivos estudantis. Eu tiraria o máximo do Palmeirense, pensei. Afinal, ele estava sendo pago para isso.

Os dias se passaram, a mesma coisa de sempre acontecendo dia após dia, fui encontrando novos amigos no próprio curso (como a própria morena), mais brigas com Morgana em ponto de apenas continuar com ela pelo fato de toda a história que tivemos ser inapagável, como eu pensava. O meu celular vibrou, anunciando uma nova mensagem no Facebook. Era alguma colega pedindo o dever de casa.

O dever de casa mudaria minha vida.