Minha mãe costumava dizer que primavera era o sinônimo de transformação. Era quando todos os brotos congelados de petúnias desabrochavam. Era quando dos dias cinzentos, coloriam-se os céus de um azul despontado. Era a época perfeita para o cultivo de amoras e framboesas. Mas acima de tudo, era quando deixamos as brancas e frias decepções de inverno pra trás.

Eu admiro o inverno. Sempre simpatizei com ele. Gosto da maneira como os flocos prateados e pálidos de neve enfeitam as calçadas e galhos secos de árvores. Gosto de me aconchegar na colcha de lã do sofá, perto da lareira dourada enquanto vovó Lucy nos conta crônicas inventadas no momento. Gosto principalmente dos biscoitos de canela e do leite caramelado de minha mãe.

Me pergunto se o que ela dizia sobre a primavera seria verdade. Porque afinal, já se passaram dois arrastados meses dês de que ela se foi e ainda sinto uma nostalgia gritante toda vez em que meus pensamentos se atrevem a lembrar-me de seu nome. O que significa, todo o tempo.

Ela é a primeira pessoa que penso ao acordar e a última antes de dormir. E isso me atormenta.

Lembro-me do dia em que recebi a notícia. A primeira coisa que senti? Medo. Saber que o mundo poderia ser assim tão cruel me assustou. Talvez ainda me amedronte, porém não posso me deixar pensar em qualquer coisa que influência minha fraqueza. Já me basta Maggie.

Pobre Maggie.

A morte de minha mãe causou um sério transtorno em minha irmã. Se já não bastassem as flanelas abafadas e as botas velhas que ela cisma em usar, Maggie foge de casa depois do toque de recolher e volta sabe-se lá que horas, sem contar aonde foi nem o que fez.

Eu teria sorte se pudesse jogar tudo para o ar e deixar que os sentimentos que nem eu mesma estivesse entendendo me guiassem para onde quer que eles quisessem. Mas não posso. Sou a irmã mais velha, não é isso que irmãs mais velhas devem fazer.

Porque se eu desmoronar a Maggie também desmoronaria. Meu pai desmoronaria.

Não sei como ele ainda está de pé. Não consigo entender como ele ainda aguenta brincar de circo da família feliz. Maggie é inconstante demais e se ela não parar de levantar poeira, sei que vai acabar com ele. Apesar de continuar trabalhando de sol a sol nas casas de arte de Livenza, de colocar dia após dia alimento em nossas mesas e de manter teto acima de nós, ele está gasto. Seu coração está gasto e sua esperança também. A de todos nós está.

Na nossa diretriz, o ditado comum é "A vida sem a arte é uma espécie de morte". Meu pai sempre dizia isso aos cafés da manhã ou nos fins de tarde de verão, mas agora sei que há outras formas de se morrer espiritualmente.

Sem minha mãe ao meu lado, sinto como se os brotos de petúnias estivessem eternamente congelados. Como se chovesse todos os dias. Como se as amoras fossem azedas e as framboesas amargas. Como se as brancas e frias decepções de inverno estivessem sempre pairando sobre minha cabeça.

Olho para cima sempre com aquela falsa esperança de que todas as respostas para as minhas preocupações irão se materializar entre as estrelinhas grudadas no teto.

Sei que já deveria ter me levantado. Sei que já deveria me situar. Sei, principalmente, que já deveria ter superado.

Maggie provavelmente está trancada no banheiro, fazendo o máximo que pode para nos evitar. Ou sendo mais exata, para cabular outro dia de aula.

Em nossa diretriz, os livenzianos têm aulas em casa ou fazem estudos independentes e frequentam a pequena escola de tijolos amarelos. Minha irmã sempre teve aulas com minha mãe enquanto eu ia dia-a-dia ao colégio.

Não faço idéia do que se passa no coração e na mente de Maggie, mas tenho certeza de que ela sabe que o primeiro dia de aula nunca é o melhor.

Levanto-me da colcha de retalhos de minha avó e olho de relance minha própria imagem refletida no vidro da janela. Fios desgrenhados de castanho cobre, olhos profundos que despontam de verde e lábios contraídos na tentativa de não expressar qualquer tipo de sentimento.

As semelhanças com minha mãe estão simplesmente tatuadas em toda a minha pele. Admitir isso me dói. Mas não posso transparecer tristeza; não é nobre à minha família, muito menos à minha diretriz.

Acho que em todos esses dezesseis anos já deveria ter me acostumado com Livenza. Afinal essa é minha diretriz, pertenço à ela. Todos os livenzianos são talentosos à algum atributo artístico, são felizes e estão sempre em paz. Mas às vezes sinto como se o vestuário amarelo pastel não me fosse adequado. Como se houvesse algo de errado com as manhãs azuladas e sempre serenas. Como se os sorrisos dos vizinhos todos os dias e gentileza súbita não colidissem comigo.

Odeio me sentir estranha. Odeio sentir como se não pertencesse ao lugar em que estou destinada a viver para sempre. Odeio odiar tudo isso.

Finalmente desço as escadas e ando com os pés descalços contra o chão frio até a cozinha. O cheiro de creme de maçã aromatiza o ar de um jeito que só meu pai sabe fazer. Ele parte as maçãs esverdeadas de um modo desajeitado e não se atreve a me encarar apesar de eu saber que minha presença já foi percebida.

– Ronnie. — ele se vira e lança-me um sorriso — Oi, filhinha. — lhe devolvo o sorriso e contenho a vontade de abraça-lo. Todos sabem que abraços acabam em lágrimas.

Desvio o olhar já sabendo a típica pergunta que irá se repetir.

– Será que Maggs decidiu ir hoje? — ele me pergunta e sinto minhas bochechas esquentarem. Nós dois sabíamos bem que a escola é o últimos lugar que Maggie iria hoje.

Mordo uma rodela de maçã saindo da pergunta sem uma resposta.

– Acho que Maggie merece um pouco mais de tempo — minha voz sai soprana, quase um sussurro.

– Certo — concorda meu pai encarando o jardim de minha mãe.

Eu sabia o que ele estava pensando. Nesse momento, ela estaria com seu vestido florido, as botas galochas vermelhas e as luvas de jardinagem laranja. Estaria com a vovó colhendo as primeiras amoras da manhã e faria aquela sobremesa da qual nunca revelou a receita a ninguém.

Ele suspirou e eu encarei a mesa de madeira sentindo meus pensamentos arderem. Eu o olhei de relance e vi o sorriso ingênuo em seu rosto corado. Não era como se tivesse acabado de perder a esposa. Essa imitação de felicidade me intrigava profundamente. Agir de acordo com Livenza às vezes deixava meus nervos à flor da pele.

Não deveríamos ser obrigados a sorrir enquanto a devastação nos consome por dentro. Não deveríamos seguir uma tradição do que é certo só por ser uma tradição...ou só por parecer certo.

Mas meu pai continua sustentando o circo de família feliz.

E eu sou a única pagando para ver.

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Em Los Angeles a população é dividida em quatro diretrizes, Livenza, Molvena, Verona e Belluno. Nunca fui às outras diretrizes, afinal somos proibidos de fazê-lo, mas sempre tive certeza de que era feliz em Livenza.

Então me lembro da escola e todas as minhas preocupações voltam a circular em minhas veias. O fato de eu não ter nenhum dote artístico preocupa seriamente meus professores, pois de acordo com eles sou livenziana e o sangue da arte pulsa em mim.

Também acho que eu deveria ser talentosa, mas toda vez que encaro uma tela em branco a única vontade que tenho é de jogá-la pela janela. Eu me esforço. Tento. Mas vermelho e azul para mim não é igual a roxo.

Às vezes penso se eu não seria uma espécie de anomalia na família. Minha mãe possuía o dom da sétima arte, cantava tão encantadoramente que se assemelhava ao próprio anjo que desceu à Terra. Haviam também seus dotes e habilidades no piano, que ela tocava todas as tardes enquanto vovó tomava chá.

Meu pai escreve textos com sua pena cinzenta todas as manhãs quando o crepúsculo ainda colore o céu nos tons lilás e cor-de-rosa. Textos que não molham como a lágrima, nem incomodam como o grito mas simplesmente tocam o coração sem pedir permissão. Sempre que ele conclui um texto, mostra à minha avó e acordo de madrugada para ler sem que ele saiba. Os textos te dão uma sensação louca, e eu adoro isso.

E minha irmã Maggie, herdou a junção de perfeição artística dos dois resultando em cadernos de desenho à mão de arte pura em técnicas com grafite, carvão e tons pastéis. Apesar de esconder o talento, ela irradia mais do que possa perceber. Só posso me contentar com os restos, e seu meu futuro depender disso, posso me considerar arruinada.

Com o fim do turno estudantil, volto para casa seguindo a mesma velha trilha de pedras de cascatas de riachos. A cor marrom envelhecida das pedrinhas de um brilho opaco da calçada me lembra as íris de meu pai. Logo entro no pequeno bairro de casinhas amarelas, vermelhas e brancas padrão, o nosso jardim enfeitado de flores que desabrocham e as folhas da macieira despontando para um tom verde-alga.

Já me entrego à espera de encontrar Maggie em nosso quarto, se desligando do mundo com seus fones de ouvido e resguardada de todos envolta à manta de crochê que havia pego de minha mãe, porém apenas encaro sua cama vazia. Os fones coloridos não estão na bancada, o que significa muito provavelmente que ela fugiu. Outra vez.

– Maggie? — pergunto mais para mim mesma, recusando-me a acreditar ela teria feito aquilo novamente. Ser responsável é completamente desgastante.

As engrenagens de meu cérebro começam a girar e finalmente percebo que a manta não estava em lugar algum. Eu tinha total consciência de que Maggie sempre a deixa sobre a cama. Mas se há um fator que a faria levar a manta consigo para algum lugar, ele é a distância.

Maggie só levaria consigo a manta, caso tivesse se refugiado em algum local distante.

Medo ameaçou se contorcer em mim. Minha irmã era nova, porém não era uma santa. E se tinha um lugar que havia a certeza de que ela poderia ir, eram os limites de Livenza. Todos sabem o que acontece quando alguém sai dos limites de sua diretriz. É capturado e vira um Renegado.

Ninguém nunca viu um Renegado, mas os membros da Matriz já alarmaram a todos os líderes e representantes dos parlamentos das diretrizes sobre o que acontece com um deles. A maioria paga pena de morte. A outra parte, ninguém sabe o que acontece.

E se Maggie havia ido para os limites, eu também não gostaria de saber.

Respiro fundo. Meu pai não volta antes da lua cheia preencher os céus. É preferível me arriscar por minha irmã sem ter a certeza ou ficar em casa tendo a culpa?

Odeio a dúvida. A indecisão. Não gosto de ter de decidir entre inocentar um culpado ou matar um inocente.

Mas nunca tive dúvidas de que Maggie havia mudado. Ela tem se tornado um diamante em rocha, fechando seu coração para qualquer um que a tente alcançar. Talvez minha mãe até estivesse certa e a primavera signifique tempo para transformações. Mas não podemos reclamar se uma erva daninha nascer em nosso jardim.


Notas finais
+_+

Querem entender mais sobre as diretrizes??
Esperem até os próximos!!