Notas iniciais
Tem duas leitoras super lindas nesse mundo que o deixam ainda mais colorido.
Obrigada pelos comentários fofinhas!!! :))))

O ar está pesado e com o gosto de bile. O trêm condensa um cheiro amadeirado, misturado com uma massa de poeira densa e mofo. Mordo meu lábio enquanto espero que os trilhos desacelerem. O ranger metálico anuncia o choque do ferro das rodas do trêm, que faíscam.

Suspiro tentando oprimir a tremedeira em minhas mãos suadas. Sempre a mesma coisa. Está cada vez mais frequente. Por que Maggie tinha de ir justamente para aquele lugar?

Salto do vagão em direção à terra vermelha, sentindo minhas pernas ficarem bambas. Aquele era o bairro mais antigo de Livenza. "O Bairro Fantasma" como era conhecido popularmente, após ter sido abandonado por seus moradores quando fora anunciado que o terreno seria usado para fundamentos governamentais.

Mas que mentira.

Os prédios baixinhos de tijolos vermelhos continuam lá. Empoeirados e caindo aos pedaços, mas nada que um pouco de força de vontade não possa restaurar. A relva cresce selvagem do solo, seca e áspera, porém com um cheiro fresco. Sinto que as maçãs de meu rosto estão quentes apesar do vento congelante.

Depois de andar um pouco pelas ruelas solitárias chego à garagem de madeira vermelha. As folhas das árvores crescem irregularmente e uma cerca de galhos e raízes se aglomera na extensão da parede exterior da garagem.

Abro a porta com facilidade a empurrando com a ponta de meus tênis padrão. O chão é coberto por tinta desbotada, pedaços de folhas secas, cacos de vidro e poeira acumulada com sujeira. Maggie está encostada à parede descascada encarando outra parede enfeitada com suas tintas escuras. Nenhum livenziano consciente jamais optaria por cores daquela tonalidade em qualquer presença em seu cotidiano. Em nossa diretriz todos abominam qualquer tom que estimule a debilidade e o valetudinário. Seja lá o que isso signifique.

- Não pode carregar isto para qualquer espelunca que lhe vier em mente — digo me aproximando, apesar de já saber que Maggie notou minha presença. Aponto para a manta deitada sob seus joelhos. Seus olhos continuam compenetrados na parede.

- Isto aqui não é nenhuma espelunca

De fato, não é. Há alguns anos, quando eu ainda era baixinha e usava prededores cor-de-rosa no cabelo, antes do bairro ser evacuado, este exato local era a galeria de minha mãe. Seco minhas palmas suadas em minha calça jeans.

- Você não deveria vir aqui sozinha Maggs — me sento ao seu lado sentindo a pressão dura da parede contra minha espinha. Faço uma pausa e toco o tecido macio da manta — É uma das únicas coisas que restou dela... — minha voz sai tão alta quanto um sussurro.

- Este lugar também — Maggie finalmente me olha no fundo dos olhos absorvendo tudo. E não devolvendo nenhum tipo de sentimento. A não ser dor. — Não pode me impedir de vir para cá.

Dou um longo e pesado suspiro antes de respoder. Encaro as pinturas de tinta à óleo de Maggie sobre a parede. A tinta preta mancha todo o papel sem cor, criando um padrão que não compreendo, talvez um vocabulário que ela use para se expressar, mas sem permitir que qualquer outro descubra o que realmente quer dizer. Igualzinho ao seu olhar.

- Sei que não. Mas você sabe o que dizem sobre os limites. — não sei o que concluir de seu silêncio então torno a falar — Maggie, o papai precisa de nós mais que nunca neste momento. Acho que não consigo carregar este fardo sozinha. — respiro fundo — Eu preciso de você.

- Ronnie — só tenho tempo para perceber que ela se contorce por dentro para conter as lágrimas — você é a última pessoa para quem eu contaria o que estou pensando — a declaração murcha um pouco meu coração. A última pessoa? E quem seria a primeira? Certamente não seria o meu pai... — Mas sabe do que eu realmente preciso? Sair daqui. Preciso me distrair com coisas novas porque tudo que olho em Livenza me lembra a mamãe. E isso me sufoca! Porém só há um problema: estamos presas aqui para sempre. — ela faz uma pausa para recuperar o fôlego — Não acha isso injusto Ronnie? Quer dizer, depois que ela se foi, percebi pela primeira vez que nunca seremos livres. Estamos condenados a viver aqui, querendo ou não. A única coisa que nos mantém neste lugar é essa ditadura terrível de cidadezinha feliz. Já parou para pensar que nem todos são felizes da maneira que vivem?

Já. Já pensei nisso diversas e diversas vezes. Pela primeira vez, Maggie deixou transparecer uma grande verdade: estávamos todos submetidos. Ninguém teria coragem de desafiar o que era considerado certo. Mas de repente, o certo parecia uma maldita loucura.

- Se você se permitir arriscar a própria vida — mantenho o meu tom o mais firme possível, apesar de estar girando por dentro — vá em frente. Fique aqui o tempo que quiser. Mas saiba o que você tem a perder. A mim e ao papai. Você pode ser fiel às suas crenças, mas sua vida pode depender disso Maggie.

Seus olhos ganham um tom inexpressivo e vazio, e uma pontada de culpa me golpeia. Sei que ela está certa. Há algo muito absurdo nas limitações das diretrizes, porém, seu eu alimentar suas crendices, sei que ela é capaz de cometer uma loucura ao buscar sua tão esperada salvação para o sofrimento.

Mesmo que esteja certa, não posso permitir que ela se perca de si mesma. Pelo menos, não enquanto isso depender de sua segurança. Não agora.

De repente, ouço um estalo abafado, como calha e vidro sendo esmagados. Não faço ideia do que esteja emitindo o ruído; e é exatamente por isso que meu coração acelera descompassadamente.

- Mas o que...

Antes que Maggie consiga completar a frase, um tiro soa entre meus tímpanos, a bala prateada estoura atravessando a madeira das paredes e quase cortando a lateral de meu corpo, soando alto o bastante para me fazer cair para trás. Meu antebraço é lançado violentamente contra o chão e sinto minha pele sendo rasgada brutalmente por algo fino e cortante, perfura e fere minha carne tão profundamente que não consigo conter um gemido de dor.

Ouço mais ruídos. Passos. Vários passos.

Há alguém rondando a garagem. Tenho certeza disso. E ele está armado. Não faço ideia de quem seja, como nos viu chegar e o que pretende fazer. Mas sei que será uma loucura.

Maggie encara estática o sangue descendo de meus braços, com as mãos cobrindo a boca, reprimindo um grito. Ácido parece estar me corroendo por dentro. Como isto fere; me dói até a alma.

Ignorando o sofrimento, me levanto trêmula e a seguro pelo pulso, saindo pela porta dos fundos com os passos imprecisos. Sinto algo em meu estômago se contorcer para dentro. Pontadas de dor por toda parte. Choque elétricos que me dilaceram a pele. Meu braço parece estar em chamas. Brasas cruéis.

Fico imóvel ao entrever uma sombra humana. Subitamente me empurro para trás do batente da porta do galpão. Um garoto. As órbitas dos olhos são negras, os cabelos tem uma tonalidade bronze e a pele é morena. Não vejo nada de ameaçador em suas mãos; nem em sua feição.

Ele ofega e olha para os lados desesperadamente. Uma onda azulada atravessa seu corpo e Maggie finca suas unhas em minhas costas com força enquanto o garoto urra de dor. Então eu os vejo.

Uniformes branco-metálicos, botas de couro prateadas, capacetes de vidro preto. Os soldados da força militar da Matriz atacam o garoto violentamente com uma arma de choque reluzente. O peso morto de seu corpo cai no chão, derrotado e sem energia enquanto se contorce. Sinto a palpitação de minhas veias pulsando em meu antebraço ferido.

- Peguem-no e o levem até o complexo central. — diz um dos soldados.

Então algo faz sentido. O garoto é um Renegado. Tinha acabado de ser pego pelo cruel destino. Estremeço.

Eles carregam o seu corpo vazio e marcham em direção à escuridão. Minhas pernas fraquejam e permito meus joelhos despencarem no chão. Lágrimas correm por minhas bochechas e a dor corre por todo o meu corpo. Mas não a única em prantos. Pela primeira vez em muito tempo, Maggie se permite chorar ao meu lado.

★ ★ ★

Depois de chegar em casa, me senti como um buraco negro. Todos o sentimentos e vontades eram engolidos pelo vácuo em minha mente. Primeiro não consegui comer. E em seguida, passei um bom tempo em claro, não conseguindo dormir e nem ao menos conseguindo fechar os olhos.

Não contei a mais ninguém sobre a ferida em meu antebraço. Maggie me ajudou a retirar o pedaços de vidro de meu corte e fiz eu mesma um curativo caseiro.

Se contasse ao meu pai, certamente viriam perguntas. Perguntas que eu não poderia responder. Para o bem dele.

Então apelei para o chá de erva cidreira que minha mãe costumava fazer para dormir mais rápido. Consequentemente, peguei no sono instantaneamente. E também tive pesadelos bem mais depressa.

Eu estou com minha mãe. É inverno. Estamos sentadas perto do fogão enquanto minha avó resmunga sobre o frio. Está tudo bem até que soldados com roupas brancas-metálicas invadem a casa de nos atacam.

Meu grito fica preso na garganta ao interromper o pesadelo. Mas não é isso... Sei que há algo errado.

Será que enlouqueci? Provavelmente.

Caminho com o coração na boca até a cozinha apesar de não enxergar cinco palmos a minha frente. Então esbarro em uma cadeira. Alguém.

Manco até o canto da parede e acendo a luz, mas dessa vez meu grito sai alto e apavorante. Maggie está amarrada à cadeira, seus tornozelos e pulsos presos à madeira e metal, vermelhos pela pressão. Lágrimas deslizam sobre sua bochecha e ela tenta dizer algo. Mas a faixa entre seus lábios torna o que quer que tenha dito totalmente incompreensível.

Movo-me para socorre-la. Tento. Penso em fazê-lo. Porém, sou tragicamente impedida.

Qual é nome daquela ferramenta de metal com duas fendas pontudas? Isso mesmo. Foi exatamente um pé de cabra que me golpeou sem dó na parte de trás da cabeça.

Não; não posso me desligar.

Sinto o impacto contra o chão. Meu rosto dói, meus braços doem. Tudo dói.

Não posso me desligar. Mas tenho certeza de que é isto o que está acontecendo.

Notas finais
E aí???
COMENTS???
Sempre bem vindos!!!
:)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.