Diplopia

1 Decisões


Notas iniciais
"O dom é passado quando a morte e a vida se encontram. O portador que estiver morrendo passará o dom para a criança mais próxima que estiver nascendo – naquele mesmo instante."

— Seja bem-vindo.

Abriu os olhos como um urso acorda assim que encerra sua hibernação. Se sentia estranho, nada fazia sentido, nada parecia se encaixar, parecia que havia viajado por dezenas de quilômetros em busca de algo, mas sem êxito em encontra-lo. Sentiu um vazio e depois um frio lhe percorreu a barriga.

— Você deve estar se perguntando: onde estou? Embora o ideal seria: em quem estou?

A voz era fria como a lâmina de uma espada. Não sabia quem era, mas olhava para um moço sentado de pernas cruzadas, pele morena e o que mais chamava atenção era a cicatriz que riscava seu rosto do alto da testa, percorrendo seu olho direito e terminando no fim da bochecha. O cabelo negro misturava-se com feixes brancos e uma barba mal cortada percorria o queixo até chegar na base das orelhas.

Não o conhecia, muito menos sabia onde estava ou, como lhe dito, em quem estava – mesmo não entendendo tal expressão. Tudo estava diferente. Sentia que era mais leve e as pernas pareciam compridas demais, uma parte do cabelo caía perto dos olhos – pois sabia que seu cabelo nunca havia chegado a esse tamanho. Estava em dúvida se aquele era realmente quem sempre foi, pois nunca se sentiu tão diferente antes. Pensou até mesmo que teria dormido por meses, não sabia exatamente o que estava acontecendo.

— Me chamo Ardan. Não me preocupo que saiba meu nome, pois quando voltar ao seu corpo não se lembrará de nada, meu caro. Você não está entendendo nada, eu sei, mas saiba que não é o único.

Respirou profundamente. Somente naquele instante que conseguiu perceber que estava acorrentado. As correntes frias pareciam gelo, fazendo seus pelos se eriçarem. Ficou incomodado e questionou-se se seria morto ou torturado para lhe tirar alguma informação importante que só naquele momento pensou que teria. Um simples mercador não teria nada de valor a não ser suas moedas e se fosse para roubar-lhe teriam feito isso sem a necessidade de amarrá-lo.

— Vivo aqui em Farfália também, mas em uma região mais isolada e precária que você. Enquanto vive tranquilamente próximo ao castelo não temendo mal algum, nós vivemos aqui, com receio de dormir e acabarmos sendo roubados.

O moço sentado esticou o braço para apanhar uma fatia de queijo que, aos olhos do prisioneiro, parecia que estava vencido. Não sabia bem o motivo, mas desejou o alimento – mesmo que lembrasse que nunca havia gostado tanto de uma simples fatia de queijo, algo tão comum.

— Onde estou?

Esforçou-se para tentar se livrar das correntes, mas pareciam que estavam tão bem atadas que nem mesmo um touro conseguiria escapar delas. Estava com medo. Nada fazia sentido para ele, tudo estava muito desproporcional como se não estivesse em seu mundo, sem seu corpo. O moço sorriu para ele.

Observou o seu redor e percebeu que estava em uma sala fechada. Teias de aranha enfeitavam os encontros das paredes com um teto escuro de madeira. Não havia janelas, mas um encanamento parecia levar o ar do ambiente para dentro daquele local isolado.

— Economize suas palavras, meu caro. Mostrarei sua forma e caso faça qualquer tipo de escândalo te amordaçarei. Ele prefere que eu não faça isso, mas gosto de brincar também enquanto ele se diverte.

O moço pegou um espelho oval, apreciou inicialmente seu próprio rosto no objeto que transmitia, mais especificamente, sua cicatriz. Lembrou de como a ganhou e decidiu parar de se olhar. Colocou-o na frente do prisioneiro e seus olhos imediatamente se arregalaram.

Pensou em gritar, urrar, extinguir todo o ar de seus pulmões até se sufocar e morrer. Ficou pasmo. Sua cabeça rodopiava tão intensamente que se sentiu zonzo. Naquele momento o espelho transmitia um rosto claro com cabelos intensamente louros – assumiam quase o tom de branco – longo caindo pelo ombro. A frase “em quem estou” agora fazia sentido. Não era ele. Estava no corpo de um outro homem, o coração que batia em seu peito não era o dele e o cérebro, que agora estava dificultando o raciocínio, também não.

— Co-como isso? Quem é, quem sou? Quem é você? Onde estou? – Proferiu as palavras com agressividade e o moço o olhou com frieza.

— Você está querendo gritar? Será que eu terei de enfiar algo na sua boca para que fique em silêncio? – O moço sorriu novamente e depositou o espelho de volta à mesa.

— Não consigo entender.

— Não temos que entender tudo, meu caro, apenas seguir o que nos é imposto. Trate de ficar quieto que já busco algo para você comer.

Naquele momento o teto tremeu e o prisioneiro sentiu a poeira cobrir sua cabeça. Os passos pesados o produzia um frio na barriga. Não conseguiu entender tudo que ocorria, muito menos onde estava ou quem era Ardan. Mas se ficar em silêncio lhe trouxesse sua antiga vida, ele obedeceria.

A porta se abriu vagarosamente e uma sombra muito familiar estava ali. Ardan deu uma pequena gargalhada olhando a feição do prisioneiro.

— Não pode ser! – Este disse ofegante, como se o coração fosse saltar de sua boca a qualquer momento. – Não! O que está acontecendo, quem é você?

Ali, na porta, a figura se revelou sob a luz das velas que estavam pelo cômodo. Um homem baixo, vestido com um traje qualquer, magro, pele morena e cabelo curto. Um sorriso escancarado na face que fazia o prisioneiro se arrepiar.

— Arthur, finalmente. Olhe só a cara dele, não tem como não rir.

— Boa noite, senhor. Me chamo Riston, é um prazer. – O homem recém-chegado proferiu para o prisioneiro.

Não poderia ser. Riston era ele. Riston era seu nome. Aquele homem baixo e moreno era ele. Como poderia estar vendo seu próprio corpo se não fosse através de algum reflexo? Como poderia ter deixado seu próprio corpo e assumido este com o rosto claro e cabelos intensamente louros?

— Vou facilitar para você, meu caro – Ardan mordiscou mais um pedaço do queijo enquanto via Riston sentar-se ao seu lado. Ignorou o olhar de desaprovação do amigo. – Ele é você e você é ele, entendeu? Você está no corpo dele e ele está no seu corpo.

— Você está perdendo seu tempo, Ardan. Quando eu voltar para meu corpo ele vai se esquecer do que aconteceu, sabe muito bem disso. Agora, eu preciso ir.

— Oh! A melhor parte eu não contei para ele – Ardan sorriu ainda mais; Riston o olhou com mais desaprovação ainda. – Hoje meu colega resolveu perder a virgindade.

— Já chega, Ardan.

— E ele tem desejos bem estranhos, meu caro – Direcionou o olhar para um prisioneiro ainda perplexo com tudo que acontecia. – Mulheres casadas.

Riston preferiu não dizer mais nada e apenas caminhou para fora do cômodo, deixando um prisioneiro proferindo palavrões em grande altura. Não se demorou para que Ardan o amordaçasse evitando que alguém escutasse, mesmo que naquela região de Farfália os gritos eram, de certa forma, normais. O prisioneiro passava por aquele incrível fenômeno de troca de corpos, mas quando voltasse ao seu original toda a lembrança daquelas vinte e quatro horas seriam apagadas de sua mente.

Riston/Arthur deixou a casa sem pressa alguma. Era velha e tinha apenas um quarto, um local para higiene corporal, a cozinha e o porão – este sempre utilizado para a troca de corpos, onde evitava que o alvo (aquele com o qual troca-se de corpo) machucasse ou tentasse ferir o corpo do portador (o que troca de corpo; o qual porta o dom da Transferência).

A primeira vez que Arthur utilizou seu dom ele havia tido problemas. Acidentalmente, por não entender muito bem ainda o funcionamento da habilidade, seu corpo original (comandado pelo alvo) havia saído da casa e gritado como um louco pela vizinhança. Se não fosse Ardan para agarrá-lo e leva-lo de volta Arthur poderia ser considerado um louco.

Farfália era basicamente dividida em regiões de acordo com a condição financeira dos moradores. A parte mais pobre e precária – denominada Raltoor – era a mais populosa, entretanto as várias casas que tinham ali eram todas pequenas e recheadas de habitantes. A classe média era chamada de Melfin, composta pelos mercadores, clérigos, caçadores de alto escalão e pelos guerreiros que protegiam Farfália. A classe alta – Ély – além de ser composta por parentes mais distantes do rei, também era habitada pelos alquimistas, mercadores de joias raras e tecidos muito bem confeccionados, além de generais de combate e pessoas famosas.

A casa de Riston se encontrava em Melfin, algumas quadras adiante dali. Arthur precisava fazer aquilo, precisava deixar seu lado moço e jovem para tornar-se adulto. Não se sabe muito bem o motivo daquele ato, ser necessariamente com uma mulher casada, mas parecia que Arthur alimentava aquele desejo há tempos. Na verdade, a tal mulher, um dia fora jovem e partilhou do mesmo orfanato de onde Arthur viera. Romance jovial, sempre foi apaixonado por ela. Mas isso não significa que devia possuí-la, pois ela era prometida de um outro homem, o qual naquele momento encontrava-se amordaçado e amarrado com correntes frias como gelo.

Era noite. Arthur tinha certeza que já havia passado da meia noite e um frio o abalava. Farfália estava no inverno, mesmo que não nevasse naquela região, então ventos frios diariamente percorriam as ruas castigando seus moradores, principalmente os indigentes. Estes eram largados e apenas os mais generosos davam algum resto de alimento.

Ao longe viu, no meio de nuvens escuras, o enorme castelo que se erguia. Várias janelas longas iluminadas com tochas postas no interior dos corredores largos e cômodos espaçosos. Estaria ali, em uma daquelas janelas, dormindo o rei de Farfália.

Chegou na casa de Riston, a luz estava acesa. Abriu a porta sem cerimônia, aliás ali era sua casa – pelo menos daquele corpo. Yris estava em pé, intacta olhando para ele. Era uma jovem mulher com a mesma idade de Arthur. Tinha o cabelo castanho e longo como o dele, a pele clara e os olhos azulados cintilando a luz de um castiçal.

A casa era espaçosa, muito diferente da de Arthur. Não havia estado ali antes – ou melhor, nunca teve coragem para assumir o corpo de Riston antes. Janelas mais refinadas, abóbodas no teto e conseguiu sentir o cheiro de pão fresco.

— Onde você estava a essa hora? – Yris tinha uma voz doce, mas Arthur sentia nela um coração guerreiro. Lembrou-se da época do orfanato, onde um dia ela brigou com outro garoto que ameaçava bater no “amigo”. Ela parecia tanto como antes.

— Burry me convidou para sua casa para fazer alguns orçamentos de umas pratarias. Se recorda dele, não é? — Arthur/Riston já sabia o jeito de falar e também os nomes certos a usar. – Acabei ficando para beber um vinho com ele, algum problema?

Riston era um homem sério sentia-se acima de sua mulher, pois mais que Arthur não aprovasse ele teria de seguir o ritmo. Uma parte de si dizia que estava fazendo tudo errado, outra que ele estava no caminho certo.

Caminhou até a mulher e a beijou. Parecia que estava beijando açúcar e morango ao mesmo tempo, os lábios doces, a pele macia como seda. Sentiu-se excitado naquele instante e notou diferença no seu membro que lutava para sair, mas percebeu que aquilo não faria diferença. Agarrou-a. Tirou a alça do vestido do ombro e deixou que ele caísse até o chão, revelando o corpo nu da jovem.

Silêncio. Era tão bom o silêncio, nada para atrapalhá-los àquela hora da noite. Apalpou os seios joviais enquanto pressionava seu quadril para o dela. Sentiu mais excitado. Deixou que a mulher lhe retirasse a roupa e ajoelhada começou a excitá-lo com as mãos e depois a boca. O membro já entumecido.

Arthur a levou para a cama e ali mesmo começaram a se encaixar, um descobrindo o outro de forma tão prazerosa. Algo ainda lhe incomodava, insistindo em lhe dizer que estava errado. Arthur decidiu não se ouvir mais.

Jorrou dentro da moça como alguém derrama um balde de água no chão. Naquele momento virou-se e ficou largado na cama, esparramado. Esperou que a mulher pegasse no sono, vestiu algo mais confortável das roupas de Riston e saiu para fora da casa.

Pensou que se fosse portador de uma habilidade tão incomum e surreal deveria fazer aquilo que sempre quis, afinal negou tantas escolhas no passado que agora elas batucavam na cabeça de Arthur com tremenda força. Perder a virgindade com a moça que sonhara desde sempre, aquilo deveria ser feito e era difícil imaginar que nunca teria tal oportunidade se não tivesse aquele dom. Aquilo lhe fazia pensar em várias coisas da vida, mas deixou de lado pois já estava cansado, tanto fisicamente quanto psicologicamente.

Ascendeu um charuto. A lua estava tão brilhante, mesmo cercada pelas nuvens negras do inverno, que poderia passar o restante da noite ali. As estrelas cintilavam esbeltas, como sempre. Sentia-se feliz em Farfália, principalmente por ter aquele dom. Vivera um passado tão dramático até conhecer sua capacidade.

Primeiro o orfanato de onde viera. Nunca conheceu seus pais biológicos, mas sabia que sua mãe havia morrido durante o parto. Aquilo não o entristecia, pois nunca chegou a sentir o calor materno e nem paterno, sempre foi sozinho durante a vida toda, mesmo rodeada de crianças. Yris principalmente, sempre tão comportada e social, despertou o primeiro interesse logo quando Arthur tinha quinze anos. Tentou conquista-la e ela até caiu no romance, mas nunca fizeram nada demais. Até aquela noite.

Depois Ardan, um companheiro fiel que sempre envolveu nas brigas de Arthur com as demais crianças. Era um garoto exemplar, mas só Arthur o conhecia de verdade, o que ele sentia, como seu coração batia e como sua mente funcionava. Assim que o orfanato fechou Ardan e Arthur não tiveram escolha a não ser morar na rua, até o destino lhes entregar algum teto. Isso aconteceu um ano depois, quando já tinham moedas o suficiente para isso.

— Agora sou um assassino de aluguel, ganho dinheiro matando as pessoas – Arthur falou baixinho para as estrelas enquanto a fumaça do charuto subia pelo ar. – Ao menos não são inocentes, até onde sei. Preciso usar isso para algo, mas não descobri nenhuma escolha o suficiente bem que não seja matar ou transar com uma mulher casada.

Sentiu-se ruim. Seu coração lhe dizia que foi errado, mas Arthur tinha dificuldade em interligar os fatos. Estaria se tornando um psicopata?

Foi para sua verdadeira casa, ainda no corpo de Riston. Encontrou Ardan estirado na cama com uma vela ainda acesa. Desceu até o porão e seu corpo estava adormecido. O olhou. Era difícil acreditar como poderia fazer algo tão surreal. Ali estava seu próprio corpo, habitado por outra mente, e ele habitando outro corpo. Por vezes parecia informação demais para o jovem, mas já estava acostumado a não se ouvir.

— Qual a necessidade disso? – Riston, aprisionado em correntes, subiu a cabeça e olhou para seu próprio rosto. – Como ousa penetrar em minha esposa, depois de juras de amor, depois de tantas coisas. Como você pode ter uma mentalidade tão horripilante assim?

— Eu poderia ter te matado ao invés de fazer isso – Arthur sentou-se na mesma cadeira onde outrora Ardan estava. – Mas eu não tenho culpa pelas decisões que você toma.

— Eu nem te conheço, nunca vi você em algum lugar sequer nesta cidade.

— Meu presente não, mas meu passado – Arthur apanhou uma faca que Ardan havia usado para cortar o queijo. – Não se lembra de quando trabalhava no orfanato? Não se lembra destes cabelos brancos como a neve? Ou você se recusa a lembrar de um fato que lhe aperta o coração da mesma forma que apertou o meu algumas horas atrás?

— Do que você está falando?

— Estou falando dela, Yris. Eu lembro muito bem quando você a possuía, ainda jovem, no orfanato. – Naquele momento os olhos de Riston se petrificaram. – Eu fui obrigado a assistir você surrupiar a virgindade dela enquanto ainda estava tão nova. E depois?

— Pare!

— Eu senti na pele o que ela estava sentindo – Arremessou a faca no chão, fazendo um estrondo. – Você me usou como ela. Senti toda a dor que ela sentiu, se não mais. Você mais velho, nós indefesos perante você. Eu poderia ter te matado, mas eu precisava amá-la de uma forma que você jamais a amou.

— Você não sabe de nada. Está muito enganado!

— Ela não merece uma pessoa como você, portanto esta noite você ainda vive, mas sua hora chega em breve. Prometo-lhe que te matarei da pior forma possível e você sentirá a mesma dor que sentimos. – Voltou a amordaça-lo já que Ardan havia desfeito isso.

Deixou a casa e foi deitar-se com Yris. Estava tão confortável e quente, sentir a jovem ao seu lado lhe proporcionava uma felicidade eterna.

No outro dia levou o café da manhã até ela, para deliciar-se na cama mesmo. Não importava se estava sendo o oposto que Riston, mas Yris era inocente o suficiente para imaginar que os homens podem mudar de uma noite para outra. A viu comendo o pão quente que havia comprado na padaria e beber o leite de cabra. Deitaram-se um ao lado do outro e novamente ele a penetrou, fazendo-a ir às alturas.

Após o almoço foram juntos para a feira, onde tomaram sucos exóticos, compraram algumas verduras em falta na casa dela e também a presenteou com um anel, tão reluzente quando o reflexo em uma água. No fim da tarde ele a levou para assistirem à chegada da lua e o sumiço do sol. O céu alaranjado era radiante.

— Você está tão romântico. – Ela disse, com sua voz delicado, o abraçando como nunca havia feito com o marido.

— Acho que finalmente descobri o valor do amor e de ter uma esposa tão linda como você. – Se beijaram, mas agora de uma forma tão mais intensa que ambos terminaram deitado, olhando para um céu já escurecido.

Voltaram para casa já tarde da noite. Deitaram-se e depois de um tempo Arthur se levantou. Pegou mais um charuto, observou um relógio na parede da casa, faltavam quinze minutos para a meia noite. Tragou e viu a fumaça subir pelo ar. Olhou para os muros que cercavam Farfália e depois a lua avantajada lua que brilhava tão intensamente. Veria Yris novamente, sentia isso, mas agora deveria retomar. Achou que o que tinha feito naquela noite poderia ser errado, mas persistiria no erro até concertar as coisas.

— Arthur Beorn Goddery! – Sua visão escureceu e depois de poucos segundos sentiu o frio das correntes percorrer seu corpo e viu um Ardan sonolento com uma chave em mãos.