Renesme abriu os olhos devagar e sentiu algo gelado e ardente em sua testa. Ela se afastou um pouco e quis sentir o que havia em sua cabeça, mas uma mão forte a impediu. Ela tentou se lembrar o que tinha acontecido e sentiu o impacto novamente de cair do cavalo. Olhou para os lados e não reconheceu o lugar que estava.

— Está tudo bem princesa?

Olhou para frente novamente e viu aquele homem loiro de olhos azuis a observá-la. Era o seu segurança. Só poderia ser. Mas onde ele a tinha levado?

— Onde estou?

— Em meu quarto.

Renesme olhou para ele assustada e quis se levantar, mas ele a impediu. O homem a olhava com um pouco de vergonha enquanto a segurava. Uma dor latejante em sua perna a impediu dela lutar e tentar se afastar dos fortes braços dele.

— Quem é você?

— Sou Tom Frost, alteza. Seu novo segurança.

— Por que eu estou aqui e não no palácio?

— Desculpe-me por isso, madame. A senhorita estava sangrando muito e aqui era o lugar mais próximo...

— Tudo bem. Mas quero retornar ao palácio.

Renesme tentou se levantar, mas a dor era insuportável em sua perna. Inclinou-se e viu que ela estava toda manchada de sangue. Não poderia andar sozinha até que o ferimento fosse tratado, ao menos.

— Pelo que posso ver, você não fraturou as costelas.

— Acho que não. Posso respirar normalmente.

— Menos mal. Aqui na sua testa só foi uns arranhões. Mas a sua perna vai que levar uns pontos, se não tiver torcido.

Tom pegou o pano e passou na testa dela novamente. Ardeu, mas era mais suportável do que a dor que sentia na perna. Com o rosto dele mais próximo, ela pôde ver todas as linhas que formavam a sua face. Os olhos dele era tão claros que pareciam translúcidos. Tom tinha uma expressão séria, mesmo quando estava sereno. Era como sempre tivesse em alerta. Renesme atribuiu isso a sua profissão.

Enquanto ele fazia um curativo na sua testa, ela não pôde deixar de notar o quanto ele era bonito. Era incrível que mesmo diante de toda a esquisita situação em sua volta, ela não conseguia tirar os olhos de seu rosto. Ele despertava uma curiosidade incomum nela, o que era até engraçado, por que ela nunca parou para prestar muita atenção em seus seguranças. Todos eles sempre foram muito formais, como deveriam ser, mas agora ela se via diante deste numa situação completamente inesperada e diferenciada. Tom seguia seus instintos e não os protocolos, pelo que ela podia perceber.

— Vou dar um jeito de fazer um curativo na sua perna para tentar estancar o sangue. Mas terá que mostrar isso a um médico.

A princesa assentiu e continuou observando o seu segurança habilmente pegar a sua perna e tentar limpá-la de um modo que não saísse ainda mais sangue. Ela gemeu ao toque dele.

— Vai doer um pouco. A ferida está muito aberta. Se quiser você pode segurar no meu ombro toda vez que doer. Lamento não poder fazer isso de uma maneira que não doa.

— Tudo bem. Já está fazendo muito.

Ele deu um minúsculo sorriso, mas que já tinha modificado todo o rosto dele. Sem se dar conta, Renesme desejou vê-lo sorrindo mais vezes. Tom foi passando o pano limpo por toda a área da ferida e a dor se intensificava para a princesa. Porém, de algum modo, ela se via presa nos movimentos dele. Não entendia muito o que estava acontecendo, era uma sensação diferente.

— Onde está Beuty? – perguntou ela.

— Eu comuniquei um trabalhador aqui do palácio para levá-la aos estábulos com segurança.

— Ela é uma boa égua, só ficou assustada. Afinal, você ouviu aquele tiro?

— Ouvi sim. Deve ter sido algum caçador desavisado.

— Devo comunicar ao rei. Não é permitido caças aqui na região.

— Eu não faria isso, princesa. – Renesme olhou surpresa para Tom e ele a devolveu um olhar firme. – Pode ser alguém faminto em busca de comida.

— O que faz ter tanta certeza?

— As coisas em Clarence não estão boas, alteza. A principal fonte de renda da cidade está acabada. Aqui a agricultura nunca foi à base de sustentação e o comércio depende muito do turismo. Algumas pessoas estão mesmo num estado de calamidade.

— Acha mesmo que a situação chegou ao ponto das pessoas invadirem propriedades privadas para procurarem comida?

Tom desviou o olhar da perna dela e a olhou com serenidade e respondeu com firmeza.

— As pessoas fazem qualquer coisa quando estão com fome, madame.

Renesme abaixou a cabeça envergonhada. Claro que tinha ouvido falar sobre o que estava acontecendo nas cidades mineiras e até arrependeu-se da sua pergunta ao seu segurança. De certa forma, se sentia culpada por estar numa posição tão privilegiada e poder fazer tão pouco para resolver a situação dessas pessoas que estavam tão próximas dela nesse momento.

Tom voltou a trabalhar na perna dela e passou um pouco de algo para limpar a ferida. Renesme fechou os olhos com força devido a grande dor que sentira. Ele juntou a pele dela para que a ferida ficasse fechada e ele pudesse pôr o curativo em cima. A dor era tanta que a princesa se sentiu obrigada a fazer o que ele a dissera. Segurou o ombro dele com força, quase o abraçando. Mesmo com a proximidade de ambos, ele não desviou nenhum instante a atenção dele da perna dela.

— Tem muita habilidade com isso para apenas um segurança.

— Eu servi ao exército por alguns anos e se aprende muitas coisas por lá.

— Posso ver isso.

Ela virou o rosto para o lado e observou o interior do quarto para que pudesse se distrair da dor e da presença atraente de seu novo segurança. Percebeu que o lugar havia muitos livros espalhados em vários lugares. Ela se surpreendeu com isso também. Era bastante raro um homem como ele gostar de leitura, assim ela pensou. Bateu nela a imensa vontade de tentar descobrir todos os títulos que havia ali.

— Também gosta de leitura.

— Gosto. Por que não é algo que um segurança faça? – perguntou ele rispidamente.

— Não é nada disso. Acho louvável. O que tem aí?

— Só alguns clássicos.

— Como?

— Romances policiais.

— Pensei mesmo que fosse. Já leu a coleção de Robert Galbraith? São os meus preferidos!

— Não. Estou procurando o primeiro para começar a ler, mas parece que ele anda meio raro. Não gosto muito de ler no digital.

— Eu tenho. Se você...

— Terminei com a sua perna. Deixe-me ajudá-la a levantar.

Renesme se ressentiu um pouco pela interrupção dele, mas achou que deveria ser melhor assim. Ela sendo a princesa e ele o segurança que trabalhava para ela não poderiam as coisas irem mais longes. Segurou a mão dele e levantou-se com cuidado. Ele a levou até o cavalo dele e a colocou em cima, montando nele em seguida.

Durante o caminho os dois permaneceram em silêncio. Mas para Renesme, a presença dele estava sendo muito marcante e não estava gostando nada da reação interior que estava se formando dentro dela por causa disso. Tinha que se manter firme!

Quando chegaram ao palácio, foi aquele alvoroço. Todos vieram olhá-la. Carlisle mandou providenciar o médico com urgência e Edward foi ao encontro da filha.

— O que aconteceu Ness?

Renesme olhou bem para Tom e lembrou do que ele disse a respeito do possível caçador. Sabia que outras pessoas tinham ouvido o tiro também e iam informar o rei disso, mas ela não queria que essa informação partisse dela e por isso resolveu mentir.

— Beuty se assustou com uma cobra e saiu em disparada me pegando completamente de surpresa. O meu segurança que conseguiu controlá-la, mas eu fui arremessada para longe e me machuquei.

— E esses curativos? Foi ele quem fez também?

— Foi o Tom, pai. Ele foi muito bom comigo.

Edward olhou pela primeira vez para o segurança atrás dele e deu-lhe um sorriso agradecido.

— Obrigado Tom. Serei eternamente grato pelo que fez pela minha filha.

— Não foi nada, senhor.

Edward assentiu e pôs a analisar a filha para ver se realmente ela estava bem. Renesme se viu obrigada a contar a história do acontecido diversas vezes para todos os seus familiares até a chegada do médico local. Como Tom havia dito a ela, a sua perna realmente precisou de muitos pontos. Mal podia ver como a ferida era grande e que poderia estar bem pior, caso o segurança dela não tivesse sido tão atencioso.

O médico já estava terminando o seu trabalho quando Bella chegou ao palácio. O coração dela quase parou ao ver a filha sendo costurada por um médico. Sem pensar, correu até ela e a averiguou, mas não pôde escapar dos olhares interrogatórios do marido.

— O que aconteceu, filha?

— Eu estava cavalgando quando Beuty se assustou com uma cobra e começou a correr rápido demais. Tom, o meu novo segurança, conseguiu controlá-la, mas acabei sendo arremessada para longe dela e me machuquei.

Bella abraçou a filha e depois começou a prestar atenção em todos os detalhes de seu corpo como Edward tinha feito anteriormente, lamentando muito não ter estado lá antes.

— Sério, mãe! Eu estou bem agora.

— Tenha mais cuidado, querida, por favor!

— Onde esteve Bella? – Edward perguntou desconfiado.

Ela olhou firmemente para Edward e tentou pensar em algo rápido para responder. Sabia que ele não deixaria passar nada por despercebido. Mas ela não queria contá-lo o que realmente aconteceu e tudo sobre o que ela planejava. Sabia que ele jamais a apoiaria.

— Tive que resolver uns problemas de última hora.

Edward nada respondeu. Estava desconfiado. Sabia que Bella estava escondendo algo dele e não gostava nada disso. Já teve alguns problemas com ela sobre não compartilhar um com outro determinadas coisas em suas vidas e sinceramente, não queria ter que discutir com a esposa pó causa disso.

Bella não quis dar mais margem para discurssão, ao lembrar do propósito da viagem a Clarence, levantou-se, foi até o seu sogro e o saudou com uma reverência.

— Feliz aniversário Carlisle! Muitas felicidades e vida longa!

— Obrigado, querida.

O médico terminou de dar os pontos em Renesme e fez os curativos novamente. Depois da saída dele, todos seguiram para a sala de jantar para terem um grande almoço de aniversário em homenagem a Carlisle. Edward não tirava os olhos de Bella. Iria com certeza descobrir o que se passava. Odiava o fato de Bella, mesmo depois de anos casados, ela ainda esconder coisas dele. Mesmo não querendo criar caso com a esposa, não estava aguentando essa sensação de que algo errado estava acontecendo. Bella sabia que Edward estava desconfiado e estava ficando desconfortável com os seus olhares constantes, mas não abriria mão de seu silêncio. Alice ao perceber a tensão que estava começando a se formar tratou logo de relembrar histórias engraçadas de família e o almoço pôde seguir agradavelmente.

— Eu gostaria de agradecer imensamente pela presença de todos vocês aqui hoje. – iniciou Carlisle, após o almoço estar quase no fim. — Sinceramente, não existe melhor presente para mim do que ter as pessoas que eu mais amo ao meu lado. Gostaria de propor um brinde a vida. Não só a minha que está sendo celebrada hoje, mas a de todos vocês. Que ela sempre seja plena!

— À vida! – complementou Esme levantando a taça.

— À vida! – responderam todos brindando entre si.

Após o almoço, todos seguiram para o cômodo ao lado para poderem aproveitarem mais tempo juntos. Edward foi ao piano e começou a tocar a música que ele compôs para os pais. Em seguida, Alice propôs um dueto com Edward e o som das suas vozes começaram a ecoar por todo o lugar. Esme observava os filhos cantando com emoção. Se aconchegou nos braço do marido e Carlisle a recebeu com um sorriso.

— Eu adoro esses momentos em que podemos estar todos juntos!

— Eu também, Essie. Mesmo estando mais velho e meio obsoleto, tenho orgulho por ter chegado até aqui para ver a nossa família crescer.

Esme fez uma careta para o seu marido e ele deu um sorriso de leve.

— Pare de se diminuir, Carl! Se não fosse por nós dois não existiria essa família linda. Veja o quanto fizemos a diferença?

— Sim e eu sou muito feliz por isso!

No fim da canção, Antony propôs também tocar e cantar uma música ao piano. Edward deu lugar ao filho e sentou-se ao lado de Bella.

— Gostaria de tocar uma música que escuto muito em Londres. Tenho certeza que o vovô irá adorar ouvir um pouco de Elton John.

— Com certeza, querido. Nos dê esse prazer.

Antony virou-se para o piano e começou os acordes de “Your Song”. Logo ele perfeitamente colocava sua voz grave na canção. Bella o observava admirada. Antony tinha mesmo muito talento. Para ela, era como se estivesse vendo o seu próprio marido de costas cantando. A semelhança entre eles era enorme! Era como se ela tivesse dado a luz a um clone de seu marido. Isso a fez lembrar de quando era mais jovem, de quando se apaixonou perdidamente pelo seu príncipe e achou que junto com ele poderia mudar o mundo! Tolice é claro! O Edward de hoje não poderia estar mais distante daquele rapazinho que ela conheceu. Não sabia onde o tinha perdido ou se ela apenas o idealizara. Lamentava muito não poder contar com o apoio dele e nem do restante da família. Mas era por eles que estava determinada a fazer a diferença, e ela não mudaria de ideia.

Ao lado da esposa, Edward só tinha atenção para ela. Não conseguia esquecer o que tinha acontecido. Quando Bella se dirigiu para Belgravia, ele mesmo não tinha acordado ainda e ele ficara se perguntando o que tinha de tão urgente e secreto para ela sair tão cedo e sorrateiramente. Mas ao vê-la tão encantada observando Antony tocando, sabia que não iria obter as respostas tão facilmente.

Já Renesme escutava o irmão cantando e deixou-se perder na letra da música. Sua cabeça estava longe e nela só aparecia imagens do homem de belos olhos azuis cristalinos que a tinha salvado nesta manhã. Se deixou levar pelos seus pensamentos, deixando que todas as lembranças dele fossem e voltassem, analisando cada gesto ou fala. Estava tão distraída que nem percebeu que a música já havia terminado e que havia uma mão estendida diante dos seus olhos.

— Nos acompanha até a sala de jogos, Ness?

Renesme olhou para as mãos e depois para Henry e deixou-se ser conduzida por ele. Lá estavam todos os seus primos juntos e sabia que dali não iria sair sem um pouco de diversão.

— Assaltei um pouco de bebida! – anunciou Marlowe animada.

Henry tratou de pegar os copos e servir a todos. Marlowe pegou o seu e se jogou na poltrona ao lado de Renesme com bastante satisfação. Se uma coisa poderia afirmar era que os primos Cullen eram bastante unidos. Desde pequenos, eles cresceram juntos e nutriam um grande carinho uns pelos outros. A princesa amava esses momentos que podia compartilhar com eles.

Marlowe era a segunda filha do príncipe Emmett. Apesar de ter muita semelhança física com a mãe, ela era internamente mais parecida com o pai em certos aspectos de sua personalidade. Assim como Henry, Marlowe era adepta a diversão. Era advogada, mas sonhava mesmo viver a vida a maior parte do seu tempo sem muito trabalho e nem preocupações. Com certeza, ela era a pessoa certa para se recorrer quando se queria se entregar a todos os prazeres que o mundo poderia oferecer. Muitos a chamavam de “socialite” e acusava de sempre está atrás dos melhores partidos de Belgonia para ter alguma ascensão, já que não havia ganhado títulos reais. Renesme não podia afirmar com certeza se isso era verdade. Mas sabia que Marlowe era uma verdadeira amante das paixões. Não durava em seus relacionamentos e certamente os seus objetos amorosos não tinham mesmo uma conta bancária casta.

Dos três filhos do príncipe Emmett, Melany, a mais nova, era a mais reservada. Queria distancia da monarquia e de seus compromissos. E nem tinha nenhuma obrigação quanto a isso. Ela preferia trabalhar como veterinária e viver a sua vida ao lado de George, seu primo de terceiro grau e noivo, longe dos holofotes. Renesme a compreendia e a invejava por ter uma vida tão tranquila e doce.

— Há quanto tempo não estamos aqui todos juntos! – afirmou Marlowe.

— É verdade. – concordou Renesme. – Não é por falta de querer. Vocês estão sempre em todo lugar.

— A vida é muito curta para ficar parado em um só lugar, queridinha. – respondeu Marlowe.

— Verdade. – concordou Henry.

— Vocês lembram quando foi à última vez que estivemos aqui nessa mesma sala? – perguntou Marlowe.

— Como esquecer! – falou Pietro com a mão no rosto.

Pietro era o único filho da princesa Alice. Quando ele nasceu era considerado um milagre. A sua mãe tinha problemas graves de endometriose e quase a impossibilitou de conceber e ter filhos. Fora uma grande surpresa quando ela engravidou e precisou ter uma grande força para enfrentar os duros e sofridos oito meses para que o seu menino nascesse com saúde. Pietro, assim como Renesme e Antony, obteve o título de príncipe e era o quarto na linha sucessória ao trono. Por anos recebeu uma educação para as suas funções e era um dos mais dedicados em servir a realeza e ao seu avô. Muitas vezes Carlisle deixou escapar que se a monarquia tivesse nas mãos de Renesme nos bastidores e Pietro junto ao público tudo estaria seguro. A princesa admirava muito o seu primo. Apesar dele ser bastante reservado, tinha um grande talento em lidar com os projetos e com povo de Belgonia. Tinha muito senso de responsabilidade necessária ao cargo e uma visão única para questões mais logísticas e para o marketing da família diante da população.

— Acho que foi há uns dez anos... – deduziu Henry.

— Foi exatamente isso. – confirmou Marlowe. – Eu tinha 16 anos na época e conseguir pegar umas bebidas escondidas para a gente lembra?

— Foi a primeira grande bebedeira da minha vida. – falou Pietro envergonhado. – A primeira e a última.

— E eu que só tinha 14 anos na época. – afirmou Melany. – Vocês me corromperam!

— Detesto ficar fora de tudo! – falou Antony.

— Você era apenas um moleque na época, Antony. – disse Marlowe. – É incrível como vocês só lembram das coisas ruins! Bebemos sim, mas passamos horas nos divertindo, jogando e rindo muito!

— Foi divertido. – falou Renesme num tom mais baixo.

— Me impressiona você dizer isso, Ness! Eu sempre considerei que eu, Henry e Antony somos o lado negro da realeza. E você, Pietro e Melany eram as ovelhinhas brancas. – afirmou Marlowe sorrindo.

— Nós não somos da realeza, Lowe. – disse Henry.

— É claro que somos! Somos netos do rei, não somos? Só não temos títulos por causa do papai, mas eu nunca vou abrir mão da minha descendência real!

Renesme pensou em como as relações familiares podiam ser mais complicadas dentro da monarquia. Todos eles se davam muito bem até a questão burocrática entrar em cena. Ela costumava pensar que se pudesse partir ao meio ficaria a “família” de um lado e o “real” de outro para que não houvesse mais conflitos entre eles. Muitas vezes o dever com a instituição pesava demais e ia além de quaisquer sentimentos que poderiam haver entre os membros, como foi o caso da famosa abdicação de seu tio Emmett há muitos anos atrás. Ele nunca aceitou o fato de por ter nascido primeiro ter que cumprir inúmeras obrigações e viver uma vida controlada como lhe ordenava a sua posição na instituição monárquica. Ao abdicar do trono em nome do pai de Renesme acabou gerando um conflito com todos na família e mesmo que essa história tenha ficado no passado, a princesa podia sentir alguns ressentimentos ecoarem aqui e ali.

— Mesmo assim, Lowe. – respondeu Renesme voltando ao assunto anterior. – Temos os dias em que deixamos a nossa pele de cordeiro de lado.

— Concordo super. – falou Marlowe levantando o copo de bebida e cruzando as pernas em cima da mesa de centro. – Eu, por exemplo, sou uma boa garota agora.

— É mesmo, Lowe? Isso me impressiona! – afirmou Henry.

— As coisas mudam em dez anos!

— Com certeza! – Renesme concordou. – Eu mal posso acreditar que Melany e George já vão se casar.

Melany sorriu e trocou olhares com George. Ele era o filho da princesa Kate, a filha da princesa Carmen, irmã de rei Carlisle. Os dois se conheciam desde criança, mas só ficaram próximos quando ambos foram fazer faculdade em Estocolmo. Eles dividiam um apartamento por lá e acabaram ficando juntos. No início, foi muito difícil que a família aprovasse a relação pelo fato de eles serem primos, mesmo que mais distante. Mas no final tudo dera certo para os dois.

— Acho que vou ser a primeira dos netos do vovô a se casar. Na verdade, mal posso esperar!

George a beijou e Renesme os obsevou com adoração. Ela poderia sentir a felicidade deles à distância! Sentia inveja, de certa forma. Mesmo sabendo que devido a sua posição dentro da monarquia não permitisse que ela pudesse pensar em esperar para encontrar o amor de sua vida, nunca pôde deixar o romantismo de lado. Ela desejava ardentemente estar na posição de sua prima mais nova no momento. Não ter que sempre se preocupar se podia confiar nas pessoas, se aquele cara que estava gostando se encaixava na lista de requisitos para ser o futuro consorte de uma rainha, ou se ele não estaria apenas interessado em se aproveitar da situação. Renesme suspirou. Era duro não ter liberdade na vida.

— Vão ser os primeiros e os únicos por um tempo, acho. Pois eu e Marlowe estamos longe dessa jogada de casamento. – afirmou Henry, tirando Renesme de seus devaneios.

— Não fale por mim, Henry! Quem sabe eu também não coloque uma aliança no dedo também? – disse Marlowe, causando surpresa em todos.

— Quem é a sua vítima dessa vez?

— Vocês vão saber em breve!

— Cuidado, ein?

Marlowe ignorou o irmão e olhou para Renesme. A princesa sabia que ela seria a próxima a entrar na berlinda. Não era nada agradável para ela estar sempre cobrada com relação a casamentos.

— E você, futura rainha? Como está coraçãozinho?

Renesme lembrou-se sem querer de seu segurança e o seu coração se aqueceu com a lembrança, mas quase imediatamente sentiu-se culpada. Não podia pensar nele dessa forma!

— Digamos que à deriva.

— Ness, eu em seu lugar aproveitava bastante. Por que você sabe, depois que te obrigarem a se casar, não vai poder sair namorando quem você quiser. – Marlowe batendo de leve nas costas da prima.

— Está dizendo que eu saia fazendo sexo, beijando qualquer um até eu encontrar o cara perfeito para se casar comigo? – Perguntou Renesme meio abismada.

— Claro queridinha! Você sabe que vão querer que você se case com um cara bem chato e viva um casamento de aparências, então, meu bem, pegue a geral enquanto pode.

— Nem sempre é assim, Marlowe. – Henry discordou ao ver a cara de descontentamento da prima. – Temos exemplos o suficiente de casamentos por amor em nossa família para rebaixar essa sua teoria.

— Não podemos sempre contar com a sorte.

Renesme pensou em Tom novamente. Era incrível como ele não saia de seus pensamentos. Ela não se lembrava de ter sentido tanta atração por alguém antes. Mas também, quantas vezes ela tinha se permitido se atrair sem esperar muito por alguém? Nunca! Sempre proletara demais, pensara muito antes de fazer qualquer coisa, porém agora, ela estava começando a se cansar disso. Marlowe tinha razão em certo ponto, não podia deixar de aproveitar o quanto podia de sua vida.

— Quer saber? Acho que vou acabar seguindo os seus conselhos amorosos, Lowe.

— Ahoy! – gritou Marlowe levantando o copo de bebida.

Mais tarde, Renesme se revirava na cama e só pensava no que Marlowe a dissera, ao mesmo tempo, começava a se imaginar ao lado de Tom. Ela bateu no colchão revoltada, como se quisesse bater em si mesma por pensar nele numa forma nada adequada para a relação que deveria haver entre os dois. Se sentia dividida e perdida. Não sabia se a bebida já estava fazendo efeito em sua cabeça, mas de repente teve muita coragem para fazer algo que provavelmente em sua sã consciência não faria. Ela esperou que todos fossem dormir para ir ao outro lado do palácio, na área dos funcionários, com um exemplar de “O Chamado do Cuco” em suas mãos. Ao chegar em frente ao recinto desejado, ela se abaixou e deixou o livro na frente da porta sob o tapete e saiu. Independente do que acontecesse, não queria Tom longe dela.

No dia seguinte, o segurança abriu a porta do seu quarto e viu o livro no chão com um pequeno bilhete.

Para o meu herói.”.

Tom pegou o livro e o levou para dentro sorrindo.

Notas finais
Não deixem a história morrer! Por favor comentem bastante!