Alec tentava se mexer o mínimo possível e quase cirurgicamente cortou o pedaço da planta sem que danificasse todo o conjunto. Sempre ouviu que era melhor cortar a parte doente antes que ela prejudicasse todo o resto. Quase teve que sorrir ao pensar que era exatamente o que seu pai queria fazer com o seu tio, caso os escrúpulos alheios não fossem fortes o suficiente. Sim, por que sabia que o pai não tinha nenhum, mas se importava demais com a opinião alheia.

Ouviu de repente um barulho do lado de dentro do palácio e imaginou o que poderia ser. Limpou a terra no avental e saiu da sua estufa devagar, não tinha pressa nenhuma para voltar ao drama familiar que ele fazia parte sem querer.

Ao caminhar até a entrada principal do palácio viu sua irmã gêmea, Jane, sentada nas escadarias e pela sua cara, ela também não estava muito interessada no que acontecia lá dentro. Ele foi até a ela e sentou-se ao seu lado.

— Pelo jeito o resultado do exame não foi bem o que o papai queria. – iniciou.

— Claro que não seria! Nunca duvidei que o tio tinha dado algumas escapadas por aí.

— O ruim é que o papai já se acostumou com muito poder. Duvido que ele queira largar agora o trono de Volterra.

— Ele foi estúpido, se quer saber! Se tivesse deixado tudo quieto nada disso teria acontecido. Antonius não parecia estar interessado no trono.

— Só não quero que sobre para nós.

Jane olhou para o irmão com um sorriso irônico no rosto.

— Vai sobrar. Você sabe que somos apenas marionetes no jogo do poder. Papai vai querer casar a gente com algum membro de uma família real para se perpetuar por ai. Ele não vai largar o osso e eu só quero garantir que eu me case com um bom partido para não ficar a deriva.

Alec enrugou a testa e observou a irmã entrar no palácio. Não era bem esse os planos que ele tinha feito para o seu futuro. Sabia que como príncipe, e em uma posição secundária, o casamento com alguém de boa condição seria a sua única escapação, mas no fundo ainda tinha esperança de ficar solteiro e traçando a sua vida da maneira como ele queria.

Cada vez que ia adentrando o palácio, ia se lembrando de sua falecida mãe, Sulpícia. Ela era a maior prova que casamentos arranjados não davam certo. Incontáveis vezes viu ela se lamentar e chorar por não ter se quer o mínimo de atenção do seu marido. Alec sempre soube que Aro jamais intencionou ser mais do que um marido para ela. Sulpícia que fora tola demais para acreditar no amor dele. Mas Alec não culpava a mãe. Sabia que ela era ingênua demais quando se casou, ninguém poderia não sonhar com o amor aos 18 anos. Azar dela é que Aro, 22 anos mais velho do que ela, já tinha experiência de vida o suficiente para querer apenas o contrário.

Ao se aproximar do salão do trono viu o pai aos gritos com o advogado do palácio. O bispo apenas observava tudo calado e Caius esperava que a presença do religioso pudesse trazer algum milagre. Alec teve que rir com esse pensamento.

— Não temos como reverter essa situação? – Perguntou Aro ao advogado.

— Os exames são verídicos, vossa alteza.

— Eu sei! Mas quero saber se ele tem alguma chance de usurpar o trono?

— Na legislação real não há nada que impeça filhos fora do casamento assumirem o trono do principado.

— Então, estamos arruinados?

— Não totalmente. Você pode lhe pagar algum valor para ele, algo como uma pensão, apenas para afastá-lo da sucessão ou poderá recorrer na justiça.

— Ele não vai desistir do trono. Se não o quisesse não tinha feito o exame de DNA.

— Papai não seria o caso de tentarmos convencê-lo? – sugeriu Caius sem levantar muito a voz. Sabia que o pai estava estressado o suficiente para se livrar até mesmo dele.

— E termos sempre o risco dele vir nos atacar novamente? Não! Temos que derrotá-lo na justiça!

A monarquia de Volterra passava por uma de suas maiores crises na história. O herdeiro natural do principado era o tio de Alec, Marcus, porém, após um trágico acidente que ele sofrera há 40 anos, o deixara completamente paralisado e fora de si. Por não ter herdeiros, o único irmão dele, Aro, assumiu o trono como regente e tem sido assim desde então. Aro planejava avidamente em preparar o seu filho mais velho, Caius, para assumir a coroa, na esperança que Marcus nunca ficaria bom de sua enfermidade.

Na verdade, Aro sempre sonhara em ter todo o poder que o trono de Volterra poderia lhe proporcionar. O acidente de seu irmão tinha sido um golpe de sorte inesperado, mas promissor. Ambicioso e estrategista como era, na hora que soube que seu irmão não tinha chances reais de se recuperar, tratou logo de encontrar uma esposa que pudesse lhe dar herdeiros para colocar na linha de sucessão da coroa. Do casamento dele com Sulpicia lhe rendeu três filhos, Caius, o seu grande tesouro, como ele sempre se referia ao primogênito, e os gêmeos Alec e Jane.

Tudo parecia promissor demais, até surgir um suposto filho de Marcus reivindicando do palácio um reconhecimento de paternidade. Aro não levou muito á sério esse fato. Claro, que seu irmão mais velho tivera as suas aventuras quando mais jovem, porém, não achava que tinha sido tão estúpido a ponto de ter um filho bastardo! Mas para o desespero dele, estava bastante óbvio que o rapaz era um concorrente promissor.

— Acho que seu filho está certo, alteza. – declarou o bispo. – Temos que tentar todas as alternativas passivamente primeiro.

Aro virou- se para o bispo. Alec imaginou que ele seria capaz de esganá-lo, mas ao ver que estava diante de uma santidade da “sagrada Igreja Católica”, resolveu beijar as mãos dele e negar gentilmente a sugestão. Aro estava certo que Antonius queria guerra.

— Não vejo essa possibilidade. Mas com certeza tenho que me resguardar. Vossa Excelência Reverendíssima me aconselharia pensar em um casamento para os meus filhos?

— É claro, alteza. O sacramento do casamento é uma benção divina.

— Então, está decidido! Não vou deixar que esse usurpador tome o sagrado trono de Volterra e suje como um bastardo que ele é algo que foi enviado e abençoado por Deus. Concorda bispo?

— Claro, alteza! Seus filhos são frutos de um casamento e de uma família sacramentada pelo Senhor.

— Exatamente e é pensando nisso que eu também vou garantir que eles se casem logo com pessoas boas e bem abastardas para garantirem o prosseguimento de nosso nome para outras gerações.

— Bem pensado, alteza. – concordou o advogado. – É melhor prevenir do que remediar.

— Mas garanta que seja com um rapaz e mulheres fiéis a santa Igreja.

— Com certeza! Já vou agora mesmo atrás disso. Preparem-se, meus filhos, em breve terei a felicidade de vê-los casados e alegres!

Alec arrepiou-se com o comentário do pai. Jane tinha razão, Aro não ficaria por baixo e ainda colocaria os seus filhos na linha de frente em sua batalha desenfreada pelo poder. Sinceramente, ele tinha pena da garota escolhida que entrasse para essa família que ele mesmo considerava de “lobos”, e não podia deixar de sentir pena de si mesmo. Teria que dar adeus aos seus sonhos e viver uma vida amarga num casamento sem amor.

Em Belgonia, há milhas de distancia, a princesa Renesme deixava mais um compromisso oficial. Sentia-se satisfeita por ter conseguido. Tinha cumprido todos os tópicos que ela criara em sua mente. “Fale baixo, pense antes de responder, cuidado como se comporta, elogie e sorria.”. Riu de leve ao ironicamente pensar que tinha sido a funcionária perfeita hoje, porém, ao mesmo tempo sentia-se cansada. Suas pernas tremiam e ela sabia que estava suando mais do que o normal. Era adrenalina pura. Era duro tentar ser perfeita o tempo inteiro.

Caminhou devagar até o carro, não queria passar a imagem de que estava apressada demais para ir embora. Era uma vida de aparências e protocolos que criava um cenário imaginário. Ela sorriu ao ver que Tom a esperava já com a porta do carro aberta.

— Obrigada Tom.

— Por nada, alteza. Como foi o seu dia?

Renesme olhou para ele com curiosidade. Estranhava a sua simpatia, geralmente os seus seguranças pareciam ter medo até de tocar nela, talvez com receio que ela quebrasse. Sorriu ao pensar isso e gostou mais do que o normal da atitude de Tom com ela.

— Foi desafiante e monótono, ao mesmo tempo. Obrigada por perguntar Tom.

— Eu é que tenho que agradecer. – Ele abriu o paletó e pegou o volume de “O Chamado do Cuco” emprestado pela princesa. – Está sendo uma boa leitura!

— Fico feliz por estar gostando!

— Nada surpreendente, mas é bom para passar o tempo.

Renesme olhou para Tom com um olhar de surpresa, com os braços em volta da cintura e a boca em formato de o.

— Eu não acredito! Eu o achei super surpreendente! O início é mesmo muito arrastado para agradar logo de cara, mas o fim... Sem palavras!

Tom sorriu e devolveu o livro para o bolso de seu paletó com todo o cuidado como seu fosse algo bastante precioso.

— Eu já sei mais ou menos como vai ser o final. Espero não estar errado.

— Já parou para pensar que o bom da vida é ser surpreendido?

— Nem sempre...

— Devo imaginar que pela sua profissão nada o surpreenda mesmo.

— Já vivi muitas situações que deixa um homem preparado, mas não sei sobre tudo. Confesso que a minha verdadeira surpresa foi saber que você gostava desse tipo de leitura.

Renesme continuou o encarando com curiosidade. Sabia que as pessoas a viam e achavam que ela era muito boazinha, frágil e inocente. Até achava isso engraçado, ás vezes. Não era a mulher mais forte do mundo, mas não era tão quebrável e ingênua quanto parecia demonstrar para os outros.

— Eu confesso que realmente não sou tanto de leitura como os meus pais sempre foram, mas eu gosto desse tipo de literatura. Gosto de coisas que me desafiam que são misteriosas em provocam a minha curiosidade.

Tom sentiu o olhar tão forte da princesa diante dele e até sentiu um leve tremor. Realmente ela não era exatamente o que aparentava ser. Ela o chamava para mais perto o ligava diante daqueles expressivos olhos verdes e ele sentia uma grande força nisso.

— Alguns mistérios devem continuar sendo um segredo.... Vai por mim.

Ele bateu de olho para ela tentando desviar do intenso domínio do olhar da princesa. Ela silenciou e abaixou a cabeça de leve, um gesto que ele já tinha visto bastante nela. Era como se no seu interior buscasse o refúgio ou se esconder de alguma forma. Tímida e intensa, duas características que ele acrescentou em sua lista.

O carro foi parando aos poucos em frente ao palácio e o segurança apressou-se para abrir a porta para a sua patroa. Renesme agradeceu com um sorriso e voltou a olhar para ele.

— Quer saber? Tome um café comigo. Eu tenho alguns minutos de descanso até o meu próximo compromisso e eu adoraria ouvir algumas sugestões suas de livros realmente impressionantes.

— Eu não posso, alteza... Não é certo.

— Por que? Você será uma ótima companhia.

Tom olhou bem para ela para ver se realmente estava sendo sincera ou apenas dizendo uma frase de conveniência. Mas sim, lá estava a princesa com o seu belo sorriso e ele pensou: por que não?

— Ok, apenas uma xícara.

— Uma xícara.

Seguiram ambos para dentro do palácio sorrindo. A rainha Esme olhava lá de cima para eles com curiosidade. Sentiu que alguma coisa não estava certa. A mão de Renesme de leve tocando as costas de seu segurança acendeu uma luz na mente dela. Não queria imaginar ser possível essa possibilidade que sua mente estava criando. Será? Só que deveria ficar atenta e não deixar que nada desviasse dos seus planos para a sua neta.

Ela já tinha decidido que ajudaria Renesme a encontrar o seu futuro esposo. Detestava o fato de ter que se meter na vida dela de uma forma tão íntima. Lembrou-se de sua sogra e imaginou que ela talvez tivesse feito os mesmos planos para o seu filho. Esme até se sentiu um pouco parecida com ela. Antes até chegaria a se irritar com essa comparação. Mas gora sentia que tempos difíceis estavam chegando e não podiam confiar ninguém. Precisava deixar a sua família ainda mais forte e preparada para as batalhas que já estavam surgindo. E em guerras, sacrifícios deveriam ser feitos para a salvação de todos. Renesme se casaria com alguém que fosse bom o suficiente para garantir não só a felicidade dela, mas a proteção de toda a monarquia. Estava decidido! Cruzou os braços e virou-se para dentro do recinto. Precisava agir rapidamente, antes que tudo desmoronasse.