Notas iniciais
Gostaria de começar agradecendo a quem gentilmente me deixou alguns comentários no capítulo anterior. Saber o que pensam realmente importa para mim. Espero que gostem desse capítulo também. Boa Leitura!

01 de fevereiro de 2044

Carlisle andava devagar em direção ao seu escritório. Era engraçado como tantas vezes já tinha feito esse mesmo percurso, mas nunca a velha paisagem compostas por paredes grossas, e pinturas que davam um ar mais sombrio por todo o ambiente, tinha lhe causado tanta atenção antes. De repente, ele sentiu o peso da idade lhe abater e isso fez com que ele desacelerasse um pouco mais em seus passos. O fato de estar comemorando 88 anos nesse dia, o fazia pensar que ele já estava fazendo, de certa forma, parte desse cenário antiquado do palácio. De repente, pouco lhe fazia sentido. Talvez Esme tivesse razão, ele estava mesmo ficando mais rabugento.

Quando abriu a porta do escritório logo avistou de costas a sua neta mais velha. Não teve como não sorrir ao vê-la ali. Ele nunca tinha conhecido alguém que tivesse tanto gosto para o trabalho antes! Isso lhe deu certo alívio. Sentia que o país, que fora a sua obrigação maior durante toda a sua vida, estaria seguro e ele estava finalmente ficando livre para fazer o que sabe lá os velhos de sua idade faziam. Nunca esteve preparado para chegar numa idade onde sobrassem tantas poucas coisas as serem feitas, e disposição para fazê-las. Era como se os anos, aos poucos, tirassem dele um pouco mais do que o desejado de sua energia vital. Mas estava satisfeito por ter chegado tão longe.

Ao se aproximar da neta sentiu que ela se assustou um pouco com a sua presença. Ele sorriu mais uma vez, era como se ela fosse aquela garotinha, que ele conhecera anos atrás, sendo pega fazendo alguma coisa errada.

— Não se assuste! É só o seu velho avô.

— Vovô, feliz aniversário! – Renesme o abraçou e beijou levemente a bochecha dele. – Levantei mais cedo para terminar de arrumar esses papéis aqui. Deixe alguns mais importantes na sua mesa para você assinar e depois disso... Tudo terminado! Não quero vê-lo trabalhando no dia do seu aniversário. Temos que comemorar a altura!

— Muito obrigado, querida, você é a melhor pessoa do mundo! O que eu faria sem você aqui? – Carlisle sentou-se e olhou pensativo para a sua neta. — Sabe, eu já estou ficando velho demais para essa coisa de rei. Mal vejo a hora de ver o seu pai e você aqui no meu lugar.

— Não diga isso vovô! Isso significaria que você não estaria mais entre nós e não queremos isso.

— Mas pode ser antes de eu seguir para o outro plano, querida. Eu já estou com quase 90 anos e já sou o monarca mais velho de Belgonia, mereço umas férias prolongadas e sem data para retorno.

Carlisle pôs-se a assinar os documentos separados em sua mesa. Renesme olhou bem para o avô esperando que ele tivesse brincando, mas ao ver que não era isso, encostou-se à mesa dele e perguntou seriamente:

— Você teria coragem mesmo de fazer isso?

Carlisle levantou os olhos e olhou firmemente para a neta. É claro, que nessa altura do campeonato, abdicar seria uma tarefa fácil e possível na prática, mas que na teoria era bem mais difícil. Olhos de Renesme denunciavam além de surpresa, mas também um certo medo. Ninguém estava preparado para um cargo como esse até chegar o dia de ocupá-lo.

— Ando pensando muito nisso nesses últimos tempos. Não é justo deixar Edward esperando muito tempo. Tenho certeza que ele dará conta. – piscou.

Renesme se encostou com mais força na mesa ao refletir as consequências que isso haveria. Seu pai viraria rei e ela se tornaria oficialmente a princesa herdeira. Não tinha medo dos trabalhos que deveria assumir, mas das consequências que isso iria acarretar. Havia tantas coisas que ainda andavam confusas na sua cabeça. Não sabia bem o que as pessoas esperavam dela e como se conectar da maneira correta com eles. Ela sempre teve dificuldade de ter tato para esse tipo de relação. Na verdade, ela não queria estar tão perdida, desejava ter a coragem de sua mãe e a força de expressão de sua madrinha, Rosalie. Tudo isso junto ao fato de que ela teria que finalmente ter que se casar para produzir herdeiros para a monarquia. Ela se arrepiou com esse pensamento e balançou a cabeça para afastá-lo.

— Mas não vamos pensar nisso agora! – anunciou ao avô. – Hoje é seu aniversário e temos que celebrar! Afinal de contas, não se faz 88 anos todos os dias.

Carlisle sorriu e se concentrou em terminar de assinar os seus papéis enquanto deixava a neta remoendo o que tinha acabado de dizer. Carlisle sabia da tamanha timidez de Renesme e tinha ciência de o quanto ela se assustava com o fato de finalmente ter que assumir na prática os seus compromissos com o público. Mas sabia também que ela iria se responsabilizar por tudo quando o tempo certo chegasse. Renesme mais do que ninguém sabia de suas obrigações e o quão bem elas deviam ser desempenhadas. De certa forma, se sentia culpado por ter contribuído com essa noção, quase robótica, de perfeição que a neta sempre buscou tentar. Por isso, quando terminou com os papéis oficiais, tratou de tirá-la do escritório e seguiu com ela até o lado de fora. Não queria, pelo menos por hoje, que ela se sentisse na obrigação de ser perfeita em tudo.

— Só não entendi por que tiveram que me sequestrar ontem para que eu pudesse estar aqui em Clarence hoje.

— Se não tivéssemos feito isso, o senhor não viria. Clarence é o lugar perfeito para descansar e, além disso, consegui reunir todo mundo. Imagina como isso foi difícil?!

— Eu sei. Estou muito feliz que temos a nossa família toda reunida aqui, pelo menos por hoje. Obrigado!

— Você merece o melhor, vovô.

Os dois se abraçaram carinhosamente, mas foram interrompidos pela chegada de um visitante. Renesme deu um grande sorriso ao ver o homem alto, loiro e de brilhantes olhos azuis em sua frente.

— Henry!

— Ness!

Ela correu para ele e o abraçou com tanta força que quase o derrubou. Henry a abraçou de volta e sorriu. Ele tinha esquecido como Renesme era calorosa em suas recepções.

— Que bom que você veio!

— Eu não podia perder o aniversário do vovô, podia? – Henry se dirigiu ao avô e lhe fez uma pequena reverência, esquecendo por um momento que não precisava ser tão formal em momentos íntimos como aquele. — Aliais, vô, feliz aniversário! Tudo de melhor em sua vida sempre!

— Obrigado, filho. Estou muito feliz em vê-lo aqui.

Carlisle vendo tanta vitalidade estampada em seus dois netos mais velhos, sentiu a mesma agonia que vinha sentindo desde cedo. A velha noção que podia estar ficando ultrapassado lhe abatia, inconvenientemente, demais hoje.

— Bom... Vejo que vocês dois precisam matar a saudade um do outro e não precisam do seu velho avô aqui com vocês. Nos vemos mais tarde.

Carlisle seguiu para a escada e Henry olhou para Renesme com um olhar questionador. Em toda sua vida, não tinha a lembrança de ver o avô assim tão pra baixo.

— Crise de aniversário. – Renesme o respondeu. — Ele não está muito conformado por estar chegando próximo aos noventa.

— Bobagem! O vovô está interasso! Você vai ver, é só darmos a ele aquele velho uísque que ele gosta e logo mudará de ideia.

Renesme revirou os olhos e Henry sorriu. Ele sempre tinha as soluções mais simples. Ela adorava essa maneira tão prática que ele encarava cada detalhe da vida.

— É bom te ver, Ness.

— Eu senti sua falta, sabia? – Renesme declarou dando um pequeno soco no ombro do primo. — Você parece que quer ficar longe da gente. Nem preciso dizer como a tia Rosalie fica toda vez que você inventa uma viagem diferente.

— Não é isso. Vocês todos sabem que eu tenho um espírito livre.

— Mas está bom de fixá-lo um pouco mais aqui, hoje, principalmente. Ainda quero apostar umas corridas a cavalo com o meu primo preferido.

Henry sorriu e fez um sinal para que ela falasse mais baixo.

— Silêncio! Os outros podem ouvir!

Renesme riu. Era incrível como a presença de Henry mudava o seu humor e áurea exterior. Estar ao lado dele era para ela como estar sempre em casa e em paz com tudo a sua volta. Desde o princípio, Henry, o filho mais velho do seu tio Emmett, sempre fora para ela como um irmão. Isso muito antes de Antony nascer. Os dois se conectavam de um jeito incrível! Eles se entendiam entre si e sabiam que sempre podiam contar um com o outro em qualquer situação. Ninguém nunca conseguiu compreendê-la tão bem quanto sua mãe e ele. Isso fez com que o relacionamento dos dois sempre florescesse mesmo diante da distancia e das diferenças de personalidade.

Enquanto Renesme fazia o gênero mais reservado, Henry era aberto ao mundo. Sorria e se divertia sempre e em qualquer lugar. Quando criança era um menino levado que custavam a detê-lo e como adulto vivia pelo mundo conhecendo coisas novas. Renesme sentia falta de tê-lo sempre por perto, morando no mesmo lugar, mas sabia que nunca iria poder prender aquele passarinho na gaiola e nem queria. Desejava sempre que ele fosse feliz como quisesse.

Não foi uma surpresa para ninguém quando ele decidiu cursar a faculdade de Jornalismo. Henry era bastante observador, além de ter um olhar apurado para tudo. Escrever notícias e crônicas era apenas uma consequência desse talento que ele tinha. Mas a princesa sabia que o jornalismo era apenas um trampolim para que ele pudesse ganhar o mundo e vivenciar as experiências que ele nunca teria se encontrasse alguma função que fosse dentro do palácio.

Ele sempre gostava de dizer que o seu lugar era o globo terrestre e sua companheira era a máquina de fotografia. Mas hoje, Renesme estava disposta a trazê-lo para o passado um pouco e o levou para os estábulos para pegarem seus cavalos para um passeio.

Ao se aproximarem da entrada do recinto, Beuty, a égua de Renesme, relinchou ao sentir a sua presença. A princesa se orgulhava de ter um animal tão sensível e inteligente. Ela foi diante dela e passou a mão nos sedosos pelos negros de sua égua e sentiu ela se aproximar ainda mais.

— Oi Beuty! Pronta para dar um passeio?

A égua relinchou novamente e Renesme beijou a face dela. Por anos, sempre amou cavalos, mas depois de conhecer Beuty, sua paixão só aumentou. A égua era considerada difícil de ser adestrada quando foi adquirida pelo palácio e Renesme foi à única pessoa que conseguiu se conectar com ela. Diziam que os cavalos escolhiam os seus donos e a princesa tinha certeza que Beuty a tinha escolhido.

Renesme a montou e seguiu Henry pelos vastos campos de Clarence. Os dois corriam em disparada sem um destino certo. Ela sabia quanto Henry era competitivo e adorava uma aposta. Ele faria tudo para vencê-la, mas ela não deixaria. Beuty era fantástica correndo e, sem modéstia nenhuma, podia admitir que era uma ótima amazona. Ela sorriu ao ver que Beuty estava ganhando vantagem do cavalo de Henry, acariciou os pelos da égua carinhosamente em agradecimento.

— Muito bem garota! Vamos fazê-los comerem poeira.

Beuty correu ainda mais e Renesme viu a testa do seu primo franzir. Sorriu ao vê-lo tentar se aproximar dela, mas ela saiu em disparada ganhando a corrida. Ambos pararam no topo duma colina e ficaram observando a vista do palácio lá de cima.

— Acho que está enferrujado, primo.

— Não estou, sabe como é, precisava deixar você ganhar.

— Admita! Que eu sempre fui melhor do que você em corridas de cavalo.

— Você é melhor em muitas coisas. Mas tenho fé que um dia eu irei ganhá-la pelo menos nas corridas.

Renesme sorriu e pôs a observar a vista do palácio em baixo do morro. Ele ficava tão lindo quando o sol batia em suas paredes. Parecia até brilhar. Olhou para Henry e algo começou a surgir em sua mente. Algo que antes já havia lhe ocorrido, mas agora fazia bem mais sentido.

— Henry?

— Hum?

— Já passou pela sua cabeça que poderia ser você no meu lugar agora se seu pai não tivesse abdicado anos atrás?

Henry pensou um pouco e mudou de posição. A abdicação do príncipe Emmett sempre fora um tabu na família. Um caso que devia ser deixado no passado e nunca mencionado. Porém, ambos sabiam que nunca iria ser esquecido.

— Já pensei sim. Mas afirmo com total certeza que as coisas estão melhor como estão. Ness, você sabe que eu nunca desejei ser rei um dia. Nunca tive inveja da sua posição e até acho que você será ótima quando a sua vez chegar. Eu estou vivendo a vida que sempre quis, acredite.

— Eu sei. Mas não é gozado? Uma escolha muda tudo.

— É verdade. Quando eu era mais novo, eu ficava pensando que o cara lá de cima queria compensar de alguma forma a bagunça que ele fez mandando o papai primeiro. – sorriu. – Nós não deveríamos estar ligados a isso, Ness.

— Já eu pensava que você era perfeito para ser rei. Nasceu menino, é popular... Eu era que estava no lugar errado e na hora errada.

— Ainda pensa essa bobagem? – Henry perguntou incrédulo.

— Não. Eu não me diminuo pelo fato de eu ser mulher. Eu não tenho medo do meu destino.

— Isso mesmo! Não vamos considerar a bagunça que os nossos pais fizeram. O que aconteceu é passado!

— Mas o que você faria se estivesse no meu lugar?

— Bom... Eu levaria minha bunda para fora do escritório do vovô e vivia as vibes.

Renesme olhou com surpresa para Henry e ele sorriu. Ela não sabia como ainda se surpreendia com as respostas que recebia do seu primo.

— Admita que no momento está sendo covarde, Ness. O vovô não precisa de você vinte quatro horas por dia. Você é que está com medo de alguma coisa.

Renesme recebeu aquilo como uma facada. Abaixou a cabeça e tocou os cabelos. Um gesto que Henry interpretou como um ato nervoso. Ele estava certo, como sempre.

— Acho que é o que todos pensam de mim no momento... E vocês tem razão. Estou mesmo sendo covarde e indecisa demais.

— As pessoas precisam saber quem você é, Ness, e principalmente que você não é qualquer princesinha por aí. Você tem muita personalidade e talento para ser mostrado para o mundo. Só não sei o que você teme.

— Eu temo o fato de as pessoas não gostarem do meu verdadeiro eu e de eu não conseguir reverter isso. O que eles pensam é muito importante para mim, na verdade, para todos nós.

— Eles não pensam nada, Ness. Eles imaginam coisas a seu respeito apenas. Mas eu estou sacando esse seu lance. Se você não se deixa transparecer muito, não há o que desaprovar. Isso é uma das coisas que eu acho bizarro na monarquia.

— Mas esse é o maior princípio que rege a realeza, neutralidade e moderação sempre.

— Bom, tai duas coisas que eu não gosto.

— Eu sei. Com você sempre é oito ou oitenta.

— Exato. Mas a monarquia é assim, não é? Cheia de bizarrices! – Henry olhou para os lados e viu que estavam acompanhados. Um segurança á cavalo os observava com uma certa distância. Ele cutucou a prima e apontou. – Isso é outra coisa que eu jamais me acostumaria.

Renesme olhou para o rapaz loiro que estava atrás deles e percebeu que nunca o tinha visto antes. Devia ser algum segurança que foi contrato recentemente e destinado a ela. Henry, como não tinha herdado títulos reais, não tinha que andar vinte quatro horas por dia ao lado de seguranças, isso só acontecia em ocasiões bem específicas.

— Eu já me acostumei com isso. Eu nem noto que estou sempre acompanhada. Aliais, é menos solitário.

— Não quando você está com alguém especial fazendo coisas que não devem ser vistas em público.

Henry bateu de olhou e Renesme gargalhou.

— Você só pensa nisso, Henry!

— Eu tenho um espírito livre demais para estar preso as essas convenções.

— Não sei como pôde se acostumar tão rápido com o outro lado. Durante sua vida inteira a realeza era o seu mundo.

— Quando se come mel pela primeira vez se lambuza. Não sabe a sensação que eu senti quando finalmente eu pude sair do palácio e viver a minha própria vida. Eu amo trabalhar, pegar a minha moto e andar por aí sem medo de estar sendo seguido por alguns paparazzi. Adoro o meu apartamento, a minha liberdade, as minhas escolhas... Aqui é muito...

— Claustrofóbico. Eu sei como é. Quando eu fui morar nos Estados Unidos, eu senti a mesma sensação. Porém, é difícil se adequar ao mundo real também. É aquela coisa, você não pode pertencer aos dois mundos.

— Verdade. Temos apenas que saber como viver com o que nos foi destinado.

— Destinado... Eu no fundo ainda espero saber o que está escrito pra mim.

Henry olhou nos olhos de Renesme e entendeu tudo. A sua prima era uma sonhadora, coisa que não devia acontecer no mundo monárquico. Você nunca devia dar vazão à emoção, mas sempre a razão. Ela tinha dificuldade de decidir em quanto a isso. Estava repartida. Ele tocou o queixo dela e disse:

— Não tem que esperar para saber o que está escrito, mas escrever você mesma.

Ele bateu de olho para ela e Levantou-se. Renesme o olhava de cima profundamente.

— Mas sabe que eu sempre estarei ao seu lado para descobrir qualquer coisa que esteja guardado pra você, o que quer que seja.

— Eu sei.

— Agora vou indo. Tenho que dá um alô para o restante do pessoal. Depois vão dizer que eu só lhe dou atenção. – Henry estendeu a mão para a prima e lhe perguntou: -Vem comigo?

— Não. Eu vou cavalgar mais um pouco.

Renesme observou Henry se afastar pelos campos verdes e pelas altas árvores da floresta que preenchia o em torno do palácio. Levantou-se e foi até Beuty ainda pensando no que seu primo lhe dissera. A égua relinchou ao ver a aproximação de sua dona. A princesa acariciou as belas crinas da égua e apreciou a beleza dela.

— O que você acha de tudo isso, ein Beuty?

A égua colocou a sua cabeça entre o pescoço de sua dona e a cheirou. Esse era um carinho que ela gostava de fazer. Isso poderia parecer incompreensível para os outros, mas Renesme sentia que poderia compreender os bichos ao seu redor, especialmente os cavalos e sentia que eles a compreendiam também.

— Eu queria ser assim como você. Tão forte, corajosa, tão livre. Eu sei tudo que teve que passar para chegar até aqui e eu a admiro tanto.

Beuty vinha dum bando de cavalos rebeldes das florestas de Balemont. Todos os anos eram adquiridos novos cavalos e éguas para os palácios. Renesme nunca tinha se interessado muito antes em acompanhar como eram escolhidos os animais que serviam para os eventos reais e dessa vez resolveu ir. Ao chegar ao acampamento logo avistou a bela égua negra separada dos outros por sua rebeldia. Lhe informaram que ela tinha aquela pose e beleza por que era fruto de dois cavalos bastante especiais. Sua mãe era uma égua de raça que havia fugido de uma fazenda e seu pai era o chefe do bando e o mais selvagem. De alguma forma, a princesa achou essa informação interessante e quis se aproximar dela. Era como se fosse, mesmo de uma maneira bizarra ou torta, a sua própria história também.

Todos diziam que a égua era um caso perdido, mas quando Renesme a olhou nos olhos pela primeira vez sabia que poderiam se dar muito bem juntas. Era algo que Bella sempre dizia para a filha que ela sempre via o lado melhor das pessoas, mesmo que esteja muito escondido.

— Sabe Beuty, eu acabei de ter uma ideia. Acho que sei onde eu posso começar nos meus trabalhos fora do palácio... Por vocês. Há tantos abusos e violências feitas aos cavalos em plena luz do dia e ninguém faz nada. Os desprezam apenas por serem animais. Não é justo e é algo que eu realmente quero combater.

Beuty relinchou alto e Renesme ficou confiante. Parece que Henry tinha mesmo plantado uma semente fértil em sua mente, pois ela borbulhava de ideias. Ela subiu na égua e deixou ser conduzida no ritmo dela. A égua corria sem destino e sem condução e Renesme se deixava levar pelos seus pensamentos. Conhecia todos os caminhos dos campos de Clarence e sabia que se Beuty a levasse para longe, ela saberia como voltar.

Porém, a princesa não esperava ouvir um grande som de tiro no meio da floresta. Renesme foi puxada de seus devaneios e ficou procurando quem tinha atirado. Era estritamente proibido caçar nas terras do rei. Sem muito tempo para fazer nada, Renesme foi puxada pelos fortes e rápidos galopes da assustada Beuty. Ela tentou fazer algo, mas a égua estava em alta velocidade. O terror lhe bateu fundo e já imaginava que o pior poderia acontecer.

— Princesa! – alguém gritava atrás dela.

— Pare Beuty! – gritou.

Beuty só corria não importava o que Renesme dissesse para ela. O som de galopes atrás dela começou a acalmá-la. Alguém se aproximava rapidamente e ela rezou para que fosse o seu segurança e não o atirador. Em um curto espaço de tempo, o cavaleiro se aproximou mais e ela viu uma mão segurar as redias de Beuty. A égua parou tão abruptamente devido a força depositada que arremessou a princesa para uma determinada distancia. A única coisa que Renesme pôde ouvir antes de tudo se apagar ao seu redor foi: “princesa!”.

...

Bella parou determinada em frente à casa de Elton Rust. Não tinha dúvidas que era exatamente isso que tinha que fazer. Elton era o presidente da instituição Multicores e lutava sobretudo a favor dos direitos da comunidade LGBTQIA+ e pelo combate ao preconceito. Depois da morte de Pierre, o mínimo que ela poderia fazer era se juntar a luta, tentar entrar naquele universo que não era dela. Ainda não tinha esquecido o que acontecera com o seu amigo e o namorado dele. As imagens do corpo mutilado de ambos no velório e do triste enterro que se sucedera não saiam da sua mente. Estava certa que tinha que fazer algo pelos dois de alguma forma.

Em sua mente, desde sempre, pensava que nunca podia se calar diante de uma injustiça. O silêncio era uma forma de apoio e ela tinha a percepção que como um ser humano não podia deixar se perpetuar a maldade. Nunca se sentira e nem queria ser uma mártir, mas tinha a capacidade de entender o quão injusto era o mundo. Como duquesa ela tinha a missão e a voz para tentar fazer com que a vida das pessoas lá fora fosse mais confortável, até por que, elas esperavam tanto dela e de todos na família, então por que não tentar ajudar um pouco?

Ela colocou os óculos escuros e desceu do carro. Andou até a porta da frente e tocou a campainha. Esperou alguns minutos e foi atendida por um homem negro, alto e surpreso. Bella sabia que essa era a reação de quase todos que a viam, um brinde indesejado da realeza. Fora o fato de que ela não avisou a ninguém que iria até ali, nem mesmo ao dono da casa, então a surpresa era ainda mais justificada.

— Você é Elton Rust?

— Sim.

— Muito prazer. Eu sou Isabella.

Bella estendeu a mão e esperou que ele a apertasse. Demorou alguns segundos para que ele caísse na real e apertasse a mão dela de volta. Ela retribuiu com um caloroso sorriso.

— Eu gostaria de poder conversar um pouco com você se não for nenhum incômodo.

O rapaz ainda a olhava surpreso como se não tivesse acreditando no que estava em sua frente. Bella teve que esperar alguns minutos por uma resposta. Ela olhou para os lados e temeu que alguém a tivesse a seguindo.

— É realmente importante o que tenho a dizer. Se não se incomoda, acho que poderíamos fazer isso lá dentro. Ser parte da família real nos traz companhias desagradáveis, ás vezes.

Elton assentiu e abriu espaço para que Bella entrasse. À medida que foi entrando ia observando o recinto e achou o interior bastante agradável. Ele apontou o sofá para que Bela sentasse e ela assim o fez.

— O seu marido não se importa com a sua visita aqui? Ou qualquer outro membro da família real?

Bella tirou a sua aliança do dedo e colocou em cima da mesa de centro em sua frente. Elton a observou impressionado com a sua ousadia.

— Hoje estou aqui como Isabella. Apesar da duquesa de Richmond puder ajudar bastante.

Elton sentou na frente dela e viu que ela não estava mentindo e resolveu ouvi-la.

— Estou escutando.

— Ótimo. – Bella abaixou a cabeça e respirou fundo, após lembrar de seu amigo. – Há uns dias atrás eu perdi um grande amigo que foi brutalmente assassinado por imbecis preconceituosos.

— Pierre Roy, eu soube.

— Sim. Depois que eu soube o que realmente aconteceu no dia da morte dele, eu me senti na obrigação de tentar fazer alguma para ajudar a comunidade que ele pertencia. Eu quero ajudar vocês, em honra a ele.

— Alteza, nós não precisamos de compaixão nenhuma. A instituição multicores apenas tenta barrar uma onda de conservadorismo que vem querendo tirar os nossos direitos. Muitas pessoas sentem pena da gente, mas ninguém realmente tem coragem para fazer alguma coisa de concreto. Nós sabemos que o preconceito existe, mas nós temos força o suficiente para barrá-lo.

— Eu quero ajudar de verdade. Eu sei que eu posso mesmo ser leiga em muita coisa. Mas eu estou disposta a mudar. Me deixem entrar no mundo de vocês, nem que seja apenas para poder sentir o que sentem e ajudá-los nessa luta.

— Acho que não será muito bom para a senhora se envolver com a gente. Geralmente a família real não costuma aprovar que seus membros apoiem esse tipo de causa.

— Você tem razão. Mas eu ando pensando muito na situação desse país. Está tudo ligado, não é? A candidatura do Donalson, a onda de conservadorismo, o aumento de casos de crime racistas e homofóbicos. A mesma doença, o mesmo preconceito repugnante e tudo isso vem do mesmo lugar. Causa e consequência. E como eu fazendo parte da família que ajuda a governar esse país posso fechar os olhos para isso?

— É verdade. Você chegou a um ponto importante. Mas essa é apenas a ponta do iceberg. Há muito mais escondido que você nem consegue imaginar. E as consequências podem ser graves.

— Eu realmente não me importo. Eu quero ajudar. Passei anos da minha vida fazendo o que os outros queriam que eu fizesse. Me calando, me reprimindo, porém agora é diferente. Eu vou fazer algo que eu realmente quero fazer. Não pelo ego da Isabella, mas pelas pessoas que precisam de mim. Ás vezes eu penso que tudo é tão frívolo ao meu redor. Deixe me fazer algo importante dessa vez.

Elton cruzou as pernas e colocou a mão no queixo observando os movimentos da mulher em sua frente. Por anos, ele acompanhou a trajetória da menina que se apaixonou por um príncipe. A imagem que ele tinha da Isabela, duquesa de Richmond era completamente oposta. Ele a via como submissa e não com esse ar de revolta que estava saindo de sua boca e estampado em seus olhos. Ele tinha mesmo se enganado com ela.

— Devo dizer, alteza, que o seu espírito ainda não está correto. A sua motivação deve vir além do que você me disse agora. Mas se quer mesmo fazer algo importante e ajudar pelos motivos certos, venha até o centro e conheça a nossa escola. Lá você vai entender o que estou dizendo.

Bella assentiu animada. Estava finalmente chegando a algum lugar. Pegou um pedaço de papel em sua bolsa e entregou a Elton para que ele escrevesse o endereço. Daria um jeito de sua secretária colocar a visita na agenda. Ela sabia que teria que fazer mudanças em sua equipe e o primeiro passo que daria era conhecer essa escola. Elton escreveu o endereço no papel e entregou de volta a Isabella.

— Obrigada.

— Tenha cuidado, alteza. Uma vez dentro não há como sair.

— Essa é intenção. – a duquesa falou decidida. — Vocês não irão se arrepender!

Bella pegou a aliança e recolocou no dedo. Levantou-se e apertou novamente a mão de Elton. Ele sabia que tinha ganho um grande apoio para a causa. Em tempos como aquele que estavam vivendo, que a comunidade LGBTQIA+ eram mal vista apenas por levantar o dedo, ter uma pessoa no porte de Isabella ajudando seria um grande passo.

A duquesa seguiu até o carro sem olhar para trás. Estava decidida e nada mudaria isso. Enquanto dirigia para Clarence pensava que sim haveriam consequências para ela. Quantas vezes durante esses anos todos ela não tinha tentado fazer algo diferente. Chegara a passar dias elaborando projetos que seriam importantes demais para várias classes discriminadas de Belgonia, mas todos eles foram rejeitados por motivos mais absurdos. Ela tinha certeza que os funcionários do palácio não queriam que ela fosse além. Queriam proteger a família de polêmicas. A impediam a qualquer custo de sair da linha e até mesmo de chegar até Carlisle e conversar pessoalmente com ele sobre seus projetos. Queriam vê-la na geladeira.

Já tinha conversado com Edward sobre isso e ele sempre pedia cautela para ela. Bella sabia que nem ele tinha muita coragem para atravessar a linha. Edward era um dos maiores seguidores dos protocolos e do politicamente correto. Mas ela estava disposta a reunir a sua equipe e ditar ela mesma as regras, independente do valor da conta no fim do dia. Sabia que haviam outros meios de conseguir recursos financeiros para os seus novos projetos filantrópicos e a família real seria apenas um trampolim para o que ela realmente queria fazer. Deu sorriso de orelha a orelha e sua mente começou a trabalhar em seus novos planos.

Notas finais
Comentem bastante e não deixe a minha inspiração morrer por favor!