Renesme se lembrava bem do dia em que chegou ao hospital e viu o pequeno pacote azul nos braços de sua mãe. Quando seus pais anunciaram que esperavam um novo bebê, ela achara a ideia um máximo! Tinha sonhado tanto com aquele momento e ali estava. Porém, lembrava bem de sentir um tremendo ciúme à medida que a barriga de sua mãe crescia. Durante os nove anos de sua vida tivera toda a atenção e carinho dos pais somente para ela. Era maravilhoso ter Henry como o seu irmão postiço. Tinha com ele toda a relação fraterna, mas seus pais eram outros. Não havia incômodo. Mas ali estava aquele pequeno ser que nem havia nascido ainda e já ameaçava tudo dela.

Lembrava bem de percorrer esse mesmo percurso para a fazenda de seu padrinho em Seraf para passar alguns dias antes da chegada do bebê e de se sentir aterrorizada com a ideia de ter um irmão mais novo. Foi Jacob que a convencera do lado bom de tudo isso, da responsabilidade que ela deveria ter e desde o momento que seus olhos tocaram os do pequeno Antony. Quando o viu pela primeira vez soube que havia um compromisso com ele. Assim foi até o presente momento. Renesme se sentia como uma grande protetora de seu irmão mais novo.

No minuto que viu o anúncio de seu noivado na postagem de Ashley sentiu um misto de emoções. Estava feliz por ele ter encontrado alguém que ele amasse e que o faria bem, é claro. Nisso ele teve mais sorte do que ela. Porém, não pôde deixar de pensar em mil coisas também. Renée tinha levado em consideração os inúmeros problemas que isso teria dentro da monarquia. Sua vó era muito entendida dos protocolos. Claro que seria um grande infortúnio. Tudo dentro da realeza era muito bem pensado. Tudo calculado para não dar errado. Era uma responsabilidade muito grande ter que representar um país, então todas as decisões deveriam ser bem discutidas antes de serem levadas a público.

Não que Antony se importasse com isso, é claro! Bella tinha muita razão em dizer que Antony tinha a cara de Edward, mas a personalidade dela. Ninguém o segurava, simples assim. Mas ele ainda era o segundo na linha sucessória, o príncipe de Belgonia, sustentado pelo Estado. É óbvio que as ações dele importavam para todos no país, querendo ele ou não.

Mas o que mais atingiu a princesa foi o fato de seu irmão não lhe comunicar de sua decisão. Ela tentou ligar para ele diversas vezes, deixou mensagens e nada. Ele tinha que ao menos atendê-la. Ela era sua irmã querida, não era? Se bem que nos últimos tempos ela duvidava muito que ele ainda penssasse assim. Por isso, pegou o carro e partiu para o sítio de seu padrinho a fim de confrontar Antony. Não era o que ela queria fazer, mas sentiu que era necessário.

Quando desceu do carro logo o viu. Lá estava ele com uma grande máquina fotográfica registrando com sua lente alguma coisa que ela não sabia o que era. Sabia que Antony tinha desenvolvido esse prazer pela fotografia. Na verdade, ele durante toda a sua vida tinha desenvolvido gosto por muitas coisas, mas que desapareciam como um sopro. A única coisa que sobrivivera foi à música. Assim como a pintura e a dança era para Renesme a sua forma de se comunicar, a música era a de Antony.

Ela se aproximou mais da casa e continuou andando até ficar bem diante do plano de visão do irmão. Ele abaixou a câmera e levantou-se.

— Não pense em fazer isso. Precisamos conversar.

— Não temos o que conversar.

— Antony, por favor! Ainda sou sua irmã e mereço no mínimo a sua atenção.

Antony olhou para o horizonte com atesta franzida. O mesmo gesto de Edward quando estava irritado. Ele olhou para ela e fez um sinal para que se sentasse.

— Eu vi a postagem de Ashley. Pensei que seriamos os primeiros a saber da novidade.

O príncipe balançou a cabeça em negação, já sabendo o que a irmã diria a seguir.

— Pedi para ela não postar. Mas foi por impulso, Ashley não está habituada as regras daqui... Ela quis apagar, mas não deixei. Todos já estavam sabendo, então...

Renesme tocou a mão do irmão e pensou que ele iria se retrair. Ficou grata por isso não acontecer.

— Então, se ela não tivesse postado não iriamos saber de algo tã importante como o seu casamento.

— Eu falei pra você que estava pensando em me casar com ela.

— Não pensei que seria tão em breve. Por que apressar as coisas? Vocês são tão jovens, podem fazer tantas coisas antes de assumir um compromisso desses.

E tudo explodiu! Renesme sabia que isso poderia acontecer. Bastava um pouco para que Antony virasse um touro. Ele se levantou e começou a mexer os braços para cima já alterado.

— Quem diabos você pensa que é? Você acha que todo mundo pode ter um casamento fracassado que nem o seu? Odeio quem se mete em minha vida. Eu sei bem o que quero. Eu amo Ashley, ok?

Claro que aquelas palavras ofenderam Renesme em cheio. Ela não vivia um casamento e sim um grande sacrifício. Por que sempre ela era quem pagava o preço alto enquanto ele reclamava de barriga cheia? Então foi a vez dela de se levantar e falar mais alto, algo que ela detestava fazer.

— Você sabe por que eu aceitei essa droga de casamento? Sabe por que eu aguento todos os dias esse inferno? Por que ao contrário de você que só sabe reclamar, eu estou tentando buscar ajuda para resolver a bagunça lá fora, estou buscando todo o apoio que eu posso conseguir com os Volturi para colocar o assassino da mamãe na cadeia. Mas obviamente você não sabia disso, não é? Nunca sabe! Onde você estava quando a mamãe estava passando pelos seus momentos mais difíceis da vida, hã? Ao lado dela é que não era!

Antony a olhava com os olhos esbugalhados, abismado, e sem palavras. Renesme poderia se sentir vitorisosa poder ter conseguido isso, mas não. Se sentia aliviada por finalmente poder desabafar. Queria podemos poder gritar tudo que sentia. Colocar tudo pra fora e agora não pararia mais.

— Me quiseram impor sim um casamento. Mas eu jamais aceitaria algo assim. Eu pedi o meu preço e ele está sendo pago. Todas as pessoas descobriram sobre o assassinato por que Aro vazou para a imprensa. As pessoas têm cobrado da polícia tanto quanto eu e todos que querem que esse caso ganhe justiça. O último depoimento revelador só saiu por que eu cobrei de Aro.

Renesme sentiu a voz ficar rouca, sabia que as lágrimas iriam logo descer. Por que ela era uma maldita molenga! Deixou-se sentar nos batentes novamente e viu Antony a seguir sempre olhando para ela. Ele era assim, metido a revolucionário, mas com um coração doce.

— Qual foi o preço que ele cobrou?

A princesa olhou para o lado e enxugou as lágrimas que começavam a cair.

— Tudo que o patriarcado quer que uma mulher faça.

— Eles não podem te obrigar a nada. – Antony falou enquanto apertava as mãos em punho e já se aproximando de sua irmã.

— Trocamos um acordo não foi? Regras são regras! Ficou impressionado? O que tem feito para mudar isso? Onde você esteve quando eu te pedi para ficar?

— Eu pensei que tinha se deixado levar...

— Entenda Antony que mudanças só ocorrem com ações. Você pensa que irá mudar tudo escapando e indo morar em Londres, mas não é bem assim. Você ainda é um príncipe sustentado por essa mesma monarquia que você odeia. É para esse lugar que você irá arrastar Ashley. É isso que você quer?

— Não é isso que eu quero. Eu não sou mais sustentado pela monarquia. Papai cortou a verba. Estou fazendo uns bicos.

— E acha que vai começar uma nova vida com Ashley assim? Com nada fixo. Sim, por que ela está começando uma carreira que pode deslanchar e você? Vai continuar vivendo de bicos? Será que Ashley não vai passar isso na sua cara depois?

— Eu não pretendo viver só de bicos. Eu estou tentando encontrar trabalho.

— A vida, Antony, não é mil maravilhas como está pensando. Nós não formos preparados para vivê-la como qualquer outra pessoa. Temos um mundo paralelo que espera por nós. Mamãe não gostaria de vê-lo fugindo. Ela sim tentou mudar as coisas e o que estamos fazendo para continuar o que ela parou? Pense bem no que está fazendo.

Renesme não esperou a resposta de Antony. Pegou a bolsa e se levantou. Já tinha dito tudo que queria dizer. Pretendia sair dali antes que seu avô percebesse que ela estava ali e pedisse que ficasse mais um pouco. Não queria ter que figir que estava tudo bem para poupá-lo. Queria no momento um escape.

Entrou no carro e seguiu dirigindo observando a estrada. Muitos pensamentos passaram por sua cabeça, ela fez uma pausa, percebendo que precisava de alguém para conversar. Só uma pessoa passou pela sua mente. Observou a estrada e viu a palavra “Bem – Vindo a Genove” e pensou, por que não? Lembrou que Joel havia dado o endereço de Broken Hall para caso de precisão. Não deveria ser longe. Queria ver William. Mas é claro que não poderia fazer isso. Quantas vezes se deixara levar pelo sentimento e caiu exatamente na cova dos leões? Não podia deixar-se levar pelo impulso.

Parou o carro no acostamento e ficou olhando para o tempo. Que mal podia William fazer a ela? Estava casada, não corria riscos. Ele tinha os galanteios dele, mas não podiam ser um sinal que ele realmente queria algo com ela. O interesse de ambos era sobre o caso de Bella e só. William era apenas um bom amigo. Então, decidiu que iria sim vê-lo. Pegou o celular e botou o GPS para guiá-la. Deu a volta e seguiu o caminho.

Não lembrava de antes vir para essa redondeza. Pelo que sabia, Brocken Hall era uma casa campestre. A paisagem era tão bonita ao redor! Estavam no verão, mas as folhas já tinham um tom alaranjado em cima das grossas árvores. A grama era verde e bem aparada. A brisa batia no rosto e ela sentiu uma tranquilidade abençoada! Devia ser muito bom viver ali no meio daquela paz.

Quanto mais se aproximava mais calma e determinada sentia-se. Parou em frente a um enorme portão de ferro com um imenso L em meio a um brasão. Havia uma segurança refoçada ali. Renesme imaginava que devia ser por precaução de William devido aos ataques dos Águias. Ela abaixou o vidro e o guarda da frente reconheceu o seu rosto e logo abriu o portão sem fazer muitas perguntas. Ela era a princesa herdeira, mas suspeitava que William devia ter preparado eles para uma ocasional visita dela.

Ela seguiu dirigindo até chegar à sede da propriedade. Brocken Hall era imensa e extremamente bela. Havia um bonito lago com uma enorme ponte neoclássica. Mas o mais espetacular era a natureza ao redor. Havia uma floresta e campos grandiosos. Renesme abriu os vidros e pôde sentir o cheiro de terra molhada. Podia ali sair a qualquer momento um personagem de livros de Jane Austen e ela poderia acenar para eles. Era tudo muito romântico!

Olhou para cima e já pôde avistar o imenso casarão a frente. Mesmo já estando bem acostumada com imensos lugares, aquele era simplesmente surpreendente. Parecia um pouco de Londres em Belgonia. Renesme não pôde resistir em parar o carro e dedicar alguns segundos de apreciação. Olhou para as nuvens no céu e sentiu a calma que precisava. Deixou o ar puro entrar em seus pulmões e os musculos relaxarem na respiração. Nunca tinha sentindo tanta paz antes.

Acionou o alarme do carro e seguiu em frente. O prédio do casarão dos Lambs era um verdadeiro palácio vitoriano, com grossas paredes de tijolos marrons que dava um ar de força mais do que de superioridade. Parou diante da imensa porta e hesitou por alguns instantes. Será mesmo que devia fazer isso? Já se sentira bem somente em estar ali. Respirou fundo e resolveu tocar a campainha de vez. Demorou alguns minutos para ter uma resposta e quase decidiu dar meia volta, mas a pequena anfitriã a impediu.

— Meu Deus! A princesa está aqui!

Renesme sorriu diante daquele comentário. Aquela devia ser Katlyn, a filha de William. Tinha esquecido completamente do fato de que ela estaria ali com ele e se arrependeu por estar incomodando.

— Sim, sou eu. Você deve ser Katlyn, isso?

— Sou sim. Meu Deus! Eu nem acredito que você está aqui!

William tinha razão em dizer que ela era a sua pequena fã. A menina parecia impressionada demais e a princesa já podia sentir a sua timidez lhe abater.

— Quem está ai, katy?

— Pai! Você não vai acreditar!

O jornalista nem precisou muito para saber que era Renesme parada bem ali em sua porta. Sua filha estava alétrica e mais só pôde realmente acreditar ao ver que era ela mesma bem diante de seus olhos. Renesme parecia bem tímida e ele procurou ver em seus olhos o que a tinha motivado a fazer essa viagem até ali.

— Eu estava vindo de Seraf e no caminho me lembrei do endereço que Joel havia me dado, então... – Renesme explicou como se tivesse escutado os pensamentos de William.

— Seja bem – vinda! É um prazer em tê-la aqui conosco. Não é mesmo Katlyn?

— É sim. Desculpe pelas nossas roupas. Aos domingos costumamos acordar mais tarde.

William corou sem jeito. Nem havia se dado conta das roupas que vestia. Katlyn ainda estava de pijamas e ele apenas usava suas calças velhas e uma larga camisa nada atraente. Se arrependeu amargamente pelo seu desleixo. Já Renesme acreditava que alguém que estivesse usando roupas de dormir e com cabelos desgrenhados não podia parecer tão sexy quanto o homem em sua frente, ela se odiou por achar isso.

— Não se preocupem com isso. Eu devia ter avisado que viria. Vocês estão bem ocupados. Eu volto outra hora.

— Claro que não Renesme. Por favor, fique.

— Sim, por favor, alteza! Eu sou tão fã de suas roupas! Você se veste tão bem! Mistura estilos antigos com novos e ficam simplesmente glamurosos!

— Obrigada. Podemos ter o belo também em algo que consideram ultrapassado.

— Filha, por que você não vai lá em cima e troca de roupa.

— Claro! Pijamas não são nada estilosos. – Katlyn falou sorrindo.

— Eu os acho um máximo! Se eu pudesse passaria o dia inteiro com os meus.

A menina riu, mas não mordeu a isca. Correu para o andar de cima deixando William e Renesme sozinhos no sagão. O jornalista percebeu que a princesa não estava no seu estilo costumeiro. Estava adorável como sempre, mas seu Cardigan e jeans a deixavam bem mais natural do que aquelas roupas formais demais.

— Desculpe- me William! De verdade... Estou me sentindo horrível por estar atrapalhando vocês dois.

— Não está atrapalhando. Como vê, Katlyn está enlouquecida por você.

— Ela é uma fofa!

— Sim, ela é. Modestia a parte. – William piscou e fez um sinal para que Renesme o acompanhasse. – Venha comigo até a cozinha. Deixe-me oferecer algo para você.

— Ok.

Ela o seguiu pelos corredores, observando todos os detalhes. Broken Hall era ainda mais bonita por dentro. Tinha todo um tom neoclássico típico de casarões aristocráticos. Porém, o que mais chamava a atenção de Renesme era o tom pessoal que William tentava dar ao ambiente. Havia milhares de fotos dele com Katlyn, ou somente dela, em todas idades. Havia alguns desenhos e cartões espalhados pelas paredes. Era como se ele quissesse apagar o luxo para dar um lugar a algo mais emocional, mas pessoal.

A cozinha parecia um lugar seguro. Tinha todo o aspecto de um ‘Lar Doce Lar’ deveria ter. O cheiro bom de comida, pratos, bagunça em todo lugar e muitos post its pregados em vários lugares. Renesme não pôde deixar de sorrir.

— Pensando bem... Acho que foi um erro trazê-la aqui. Desculpe a bagunça.

— Não me incomodo nem um pouco. Me sinto reconfortada estando aqui.

— Não havia muito disso no palácio.

— Claro que não. Mas a gente fazia o que podia no nosso apartamento ou na casa de campo.

— Eu também gosto de coisas assim, simples, rotineira.

— Eu então! Busco por isso há anos! – Renesme mordeu o lábio inferior. – Amei a sua casa! É simplismente magnífica!

— Já deve ter visto um monte de Broken Halls em sua vida.

— Vi muitos casarões, mas nada como esse. Senti uma paz tão grande aqui!

— Foi por isso que eu fiz questão de mantê-la. Essa casa está na minha família há anos. Passei bons anos de minha vida aqui. Essa nostalgia me fez querer ficar pelo menos com esse imóvel.

— Como assim?

— Quando papai morreu foi aberto o inventário. Eu havia herdado muita coisa em Gotland, mas sinceramente eu não pertencia aquele mundo. Abdiquei de toda a herança da minha família. Fiquei apenas com essa propriedade.

— Muito corajoso de sua parte.

— Alguns diriam que foi loucura, mas eu não me arrependo. Frederick gosta mais de ser um produtor rural. Eu sou um jornalista e gosto do que eu faço. Melhor termos orgulho de nossas próprias conquistas.

— Pois é... Por isso tem asco de minha família? Foi isso que me pareceu quando nos conhecemos.

— Eu estava mais chateado com a minha família do que com a sua. Não leve minhas atitudes daquele dia a sério... Eu fui um grande idiota!

— Não... Eu é que estava no modo mimada. Você tem razão em detestar muita coisa do meu meio.

— Alteza! Você precisa experimentar as panquecas do papai. – Katlyn falou ao entrar na cozinha já com uma aparência totalmente diferente.

— Não são tão boas, filha...

— São divinas!

— É mesmo? Acho que devo experimentá-las.

William deu um sorriso constragido. Era a primeira vez que ela o via assim e achou que ele ficava mais belo com vergonha.

— Olha o que está fazendo Katy? Agora Renesme vai ter que experimentar uma comida horrível e sairá com ódio de mim. Eu vou até perder o meu emprego.

Katlyn olhou assombrada para Renesme. Sua expressão era tão genuína que fez a princesa sorrir.

— Você não vai despedir o meu pai por conta de umas panquecas, não é?

— Depende... – Renesme arriscou um pouco. – Se estiverem realmente ruins... Vou ter que pagar um curso de culinária para ele.

Katlyn sorriu aliviada e a princesa sentiu vontade apertar aquelas bochechas.

— Terá que fazer com a gente! – Ela sugeriu.

— Não! Renesme é nossa convidada, Katy.

— Eu adoraria ajudar em algo.

A menina sorriu e pegou na mão dela para levá-la até a pia. Katlyn era bem baixa para a sua idade. Havia um banquinho na pia para que ela subisse. Renesme pensou que isso havia sido ideia de William e ela achou isso terrivelmente fofo! As duas lavaram as mãos e Katlyn lhe ofereceu um avental todo florido. William já vestia um com a frase “Melhor pai”. Renesme amou tudo aquilo!

— Veja só temos ingredientes nada convencionais! – a princesa observou.

— São veganos.

— Não sabia que eram veganos.

— Katlyn é totalmente vegana desde que nasceu. Eu estou no processo. Veja só a ironia. Logo alguém que vem de uma família que mais vende carne no país.

— Não, eu entendo o conceito.

— Na verdade, foi algo que veio da família japonesa de Katy. Eles têm um ideal, não comer nada que advém do sofrimento. Eu simplesmente amei o conceito!

— Amei também!

— Para ser gostoso não precisa vir da dor. – Katlyn complementou.

Renesme pôde sentir que nada podia ser melhor do que aquilo. William e Katlyn juntos pareciam uma bela dupla. Misturavam tudo com uma grande cumplicidade. Ele era simplesmente um pai extremamente carinhoso, sempre com muitos beijos e abraços. Renesme agradeceu aos céus por ter decidido vir. Precisava daquele cenário familiar para se sentir bem. Estava cansada de tanta obscuridade e fingimento. Ali não havia aquilo. Apenas muito amor envolvido.

— Espero que goste! – William falou enquanto colocava o prato de paqueca em sua frente.

A princesa pegou os talheres e fez um pouco de suspense. William a olhava com um pouco de ansiedade. Ela cortou um pedaço e sentiu a maciez. Colocou o pedaço na boca e sentiu um sabor muito melhor do que esperava. Quem diria que o homem em sua frente não era somente bom com as palavras, mas com os temperos também.

— É ou não é a melhor panqueca que você já comeu? – Katlyn perguntou.

— É a melhor! – Renesme olhou para William e sentiu o forte olhar dele em retribuição. Ele parecia querer entrar em seu íntimo.

— Ela está dizendo isso só por que está em minha frente.

— Não é nada disso. Juro! Katlyn não só vou manter o emprego de seu pai como vou ter que lhe atribuir a função de cozinhar para mim todos os dias.

A menina bateu palmas e William continuava a lançá-la aquele olhar poderoso.

— Eu amaria cozinha para você todas as manhãs se as circunstâncias fossem outras.

Renesme entendeu exatamente o que ele queria dizer e abaixou a cabeça envergonhada. Podia apostar que suas bochechas já estavam todas coradas e preferiu continuar comendo sem dizer nada.

— Princesas cozinham?

— Princesas são pessoas normais, meu anjo.

— Na verdade, eu não sou tão boa cozinheira como o seu pai. Eu sei fazer algumas coisas bem básicas apenas.

— Se eu morasse num palácio eu também não ia querer cozinhar.

— O seu palácio é bem melhor, acredite. Eu trocaria com você, tranquilamente. – Renesme falou olhando para William e depois para Katlyn. – Minha mãe gostava de cozinhar. Ela era muito boa nisso, na verdade.

— Eu soube o que aconteceu com a sua mãe. Meus sentimentos.

— Obrigada Katlyn. Eu tenho que agradecer vocês por esse momento, me ajudou a ter boas lembranças dela.

Katlyn sorriu e pulou de sua cadeira para surpreender a princesa com um abraço. Renesme recebeu aquele gesto inesperado com gratidão e abraçou a menina com força. Estava começando a amar a naturalidade daquela pequena. Ninguém agia assim com ela a não ser William e seus familiares mais próximos. Isso lhe dava uma sensação boa de como ser uma pessoa comum.

— Quer saber de uma coisa que duvido que saiba, Katy? – William iniciou.

— O que?

— Renesme é uma excelente dançarina.

A menina olhou com surpresa para a princesa e Renesme tentou imaginar o que William estava aprontando.

— Você dança?

— Sim. Eu amo dançar!

— Então você devia concorrer comigo no Just Dance! Você já ouviu falar nesse jogo, não é?

— Claro que sim, mas eu mesma nunca joguei.

— Vamos jogar? Eu posso te ensinar.

— Vamos lá Renesme. Mostre-nos o seu talento! – William piscou para ela.

— Ok? Se insiste, pequena lady!

— Eba!

Katlyn pegou a mão de Renesme e a levou para a sala de estar. Lá havia uma enorme TV com um vídeo — game ligado. Porém, a menina nem pareceu ligar para ele. Ela foi em direção a um aparelho que parecia um de realidade virtual e entregou uns óculos para a princesa. Ela pôs e parecia que realmente estava dentro do cenário do jogo.

— Podemos começar com um fácil se quiser...

— Não. Coloque o nível em que você está.

E assim foi. Renesme pôde notar que a menina não era ruim naquele jogo. O seu nível era bem alto para os padrões e a princesa até teve uma certa dificuldade de acompanhá-la no início. Porém quando pegou jeito logo entrou nos trilhos e quando mal podia se dar conta já dançava animadamente os ritmos escolhidos por Katlyn. Era tão magnífico poder se libertar um pouco na dança.

William observava as duas do sofá e via que elas estavam tão empolgadas juntas que nem viram o dia passar. Já era quase de noite quando tiraram os óculos de realidade aumentada.

— Agora é sua vez papai. Já ficou ai olhando por muito tempo.

— Eu passo, querida. Não tenho esse talento para a dança.

— Não é verdade! Ele dança muitas vezes comigo.

— Não vamos testar o seu pai, Katlyn! Ele claramente é um covarde.

— Covarde, hã. – William falou enquanto se levantava do sofá. – Katlyn coloque aquela que eu gosto no nível lento, por favor.

— Lento! Isso é bem covarde de sua parte, senhor. – Renesme falou sorrindo.

— Essa música fica mais difícil quando está no ritmo lento.

Katlyn assentiu concordando e colocou “Can’t take my eyes off you”. Renesme entendeu a mensagem e era bem mais do que esperar. William se aproximou dela e a pegou pela cintura sem tirar os olhos dela. Renesme sentiu o calor subir, mas era incapaz de tirar as mãos dele de seu corpo. Enquanto dançava, ela sabia que os passos eram outros que estavam sendo pedidos no jogo. Ele sabia bem disso. Queria estar perto dela. Quaria ter o prazer de senti-la ali junto ao corpo dele ao menos numa dança. Tinha a observado dançar todo aquele momento e tinha a admirado. Sentia uma inveja louca de Alec por poder fazer tudo que ele não podia. Queria abraçá-la, beijá-la e tê-la aqui todos os dias. Mas não podia.

Renesme sentia o seu corpo se arrepiar. As mãos de William em sua cintura lhe prendia no corpo dele e ela podia sentir o seu perfurme que a entorpecia. Ela olhava para os olhos dele e sentia a luxúria em suas pupilas verdes. Naquele momento ela sentiu que ninguém a tinha lhe dado um olhar como aquele. Tão profundo, tão desejoso!

— Vocês dançaram tudo errado! – Katlyn afirmou após o fim da música e quebrando o encanto que os envolvia.

— Acho que nos empolgamos, não é mesmo Renesme?

— Sim. – Renesme respondeu com a voz estrangulada.

— Papai, você sempre rouba!

— Não preciso desse jogo para saber dançar.

Katlyn revirou os olhos aborrecida.

— Acabo de me lembrar que você marcou de conversar com a sua mãe.

— É verdade. Que horas serão em Londres, agora?

— Uma hora a menos que aqui. Ela deve estar enlouquecida para vê-la.

— Eu vou lá em cima fazer uma vídeo chamada com ela.

— Vá.

Katlyn subiu as escadas correndo e William tratou de desligar o jogo. Renesme sentou-se na poltrona, ainda sentindo as pernas amolecidas. Estava começando a ficar com medo dos sentimentos que estava sentindo. Estava tão inerte que nem viu quando William colocou uma tarça de vinho em sua frente.

— Vamos fazer algo adulto agora.

Ela apenas sorriu e se controlou para não tomar o vinho logo de uma vez. Renesme se esgueirou no sofá estofado, não particularmente perto dele, mas perto o suficiente para que ele lhe oferecesse um leve arquear de uma sobrancelha sobre a borda de seu copo enquanto tomava um gole lento.

— Então me diga Renesme, que tipo de garota você era quando crescia? Cheio de travessuras e criatividade, como Katlyn?

— Na verdade não. Eu sempre fui bem retraída. Eu não tinha tanta liberdade como tem Katlyn de viver a infância.

— Isso me preocupa, às vezes. Katlyn é uma menina muito sonhadora. Tenho medo de como irá encarar o mundo lá fora.

— Ela vai saber levar numa boa. Responsabilidade demais corta o prazer de sonhar. Precisamos um pouco disso de vez em quando.

— Lamento que não tenha podido ter muito disso.

— Sim... E quando tive... Apenas me levou ao precipício.

— Não diga isso. Todos nós erramos. Fazemos boas e más escolhas, quebramos a cabeça e nos levantamos. É natural da vida.

— Foi o que aconteceu com Helen?

William deu um longo supiro. Nem ele entendia bem o que tinha acontecido entre ele e sua ex-esposa. Se fosse comparar a algo, compararia ao fato de pular de um helicóptero em direção ao vazio. Pura adrenalina que acabou tão rápido quanto chegou.

— Eu tive grande responsabilidade no fim do meu casamento.

— Mulheres?

William deu um sorriso zombeteiro.

— Todos pensam isso, não é? Bela fama que eu tenho.

— Desculpe-me. Boa parte dos homens parecem não se conformar com a monogamia.

— Eu sou um homem de uma mulher só, acredite! – E lá estava aquele olhar intenso novamente. – O que aconteceu é que quando conheci Helen, eu estava numa rápida ascenssão na minha carreira. Me deixei levar tanto por isso que esqueci o principal.

— Então a decisão de se separarem foi dela?

— Foi. Eu trabalhava feito um louco naquela época e na minha cabeça nada que eu fizesse parecia ser o suficiente. Helen estava grávida do nosso segundo filho e ela acabou nascendo antes do previsto, não sobreviveu, infelizmente. Nós ficamos muito mal por isso, eu me sinto culpado até hoje, mas o que aconteceu com Helen foi horrível. Ela entrou em depressão e resolveu sem me consultar que o nosso casamento havia acabado.

— E levou Katlyn com ela.

— Sim. Fiquei maluco quando cheguei em casa e não as vi. Não culpo Helen por ter me largado, mas separar a minha filha de mim? Eu não podia admitir isso. Larguei tudo para procurá-las e ela sempre que sabia que eu estava perto fugia. Perdi anos de convivência com Katlyn por conta disso. Até que eu resolvi ir na justiça cobrar os meus direitos. Agora a tenho aqui comigo. Não é suficiente, mas é o que temos para hoje.

— Depois disso não esteve com mais ninguém?

— Fiquei com algumas mulheres, mas nada sério. Eu não tinha encontrado a minha princesa da capa brilhante.

Renesme sentiu novamente a indireta e corou.

— Acho que nós somos definitivamente azarados no amor.

— Só estavamos com as pessoas erradas apenas isso. Nenhum deles era homem o suficiente para você.

E quem seria? A princesa ficou com vontade de perguntar, mas conteve-se. Não queria dar mais ouro ao ladrão.

— É uma pena que as coisas não saiam da maneira que queremos.

— Nem sempre é para ser. Mas, enfim... Você parecia chateada quando chegou. Há alguma coisa que eu possa ajudar?

— É só mais uma bomba que estorou na minha família. O usual de sempre...

— Tem alguma coisa a ver com a postagem de noivado que todos estão comentando?

— Antony e seus impulsos... É o que conversamos. Você se preocupa com Katlyn e eu com Antony. Mas como condenar algo que queriamos ter a mesma coragem de fazer?

— Complicado. Mas eu acho que isso não é a bomba que estão achando que é. Vocês precisam entender que o príncipe não é mais um menino. Deixo-o viver e ter as suas próprias experiências. A monarquia é complicada o suficiente para pôr mais problemas sem ter necessidade.

— Eu também acho. Uma boa conversa entre papai e Antony resolveria tudo, mas ambos são cabeças duras.

— Sabe, Reneme, você leva muito os problemas para si. Você não é responsável por tudo que acontece no mundo. Hoje as pessoas não veem a família real da mesma maneira que antes. Aposto que um pouco menos de regras de vez em quando faz com que vocês sejam mais humanos. As pessoas gostam disso. Vocês só precisam se organizar e definir quem são aqueles que realmente querem servir, sem tantas formalidades, e prisões.

— Eu sei. Mas vai dizer isso ao meu pai. Ele anda muito teimoso de uns anos pra cá. Eu acabo tendo que me meter.

— Seu pai, no fundo, só está assustado. Creio que a duquesa tinha muita influência sob ele, não é?

— Tinha. Ele dependia muito dela e agora que ela se foi... Todos nós ficamos muito perdidos. Ele se prende nos protocolos como uma forma de se segurar em algo seguro. As regras da realeza sempre foram às mesmas por anos e vão continuar sendo. É algo sólido, entende?

— Sim. Porém, algumas mudanças, mesmo que pequenas são importantes. A família real precisa ser agora o instrumento de ação. Alguém que as pessoas possam realmente contar quando precisarem. Por isso eu acredito tanto no seu projeto.

— É isso que realmente desejo. Mais ação. – Renesme deu um longo suspiro. – Mas eu ando tão cansada, sabe William? Eu montei todo um projeto, ele está de pé, foi aprovado, mas é tão difícil fazer as pessoas que realmente podem ajudar fazerem algo. É tão difícil chamar a atenção delas... Agora eu entendo toda a frustração que a mamãe sentia.

— O problema é que sua mãe e você acham que podem sozinhas mudar tudo e não podem. Ela adoeceu por isso e é ai que está. Eu quero que entenda que você não tem que ser a princesa perfeita, a futura rainha dos sonhos e puxar todas as expectativas para si mesma.

— Eu sei. Mas eu não sei como mudar isso dentro de mim.

— Tem que fazer uma coisa de cada vez e deixar que as pessoas se resolvam por conta própria. Você não irá curar as inseguranças de seu pai, os impulsos de seu irmão, resolver o caso de sua mãe e nem acabar com os problemas lá fora sozinha. É muito pra uma pessoa só.

— E o que eu devo fazer? Por que eu sempre me achei muito despreparada pra tudo, por mais que eu tentasse me capacitar parece que tudo era em vão. Eu sei que as pessoas querem que eu apareça, aja e eu realmente estou tentando. Mas não é o suficiente.

— Você está tentando e é isso que as pessoas precisam no momento. Ações concretas. Um pouco é melhor que nada.

— Tem razão.

Renesme abaixou a cabeça. Palavras eram muito mais fáceis de serem ditas do que praticadas, mas ouvir William a dava mais acalento. Ainda mais quando sentiu as mãos dele esticarem e tocarem as suas. Ele sempre parecia ter um efeito calmante sobre ela, apesar de sentir uma certa agitação de excitação em seu estômago. Ela tentou imaginar William como namorado. Ele deveria ser o sonho colorido de todas as mulheres. Bonito, galanteador, romântico e ainda mais carinhoso. Mas o que ela poderia querer? Já estava casada.

— Acho que é melhor eu ir embora.

— Quer que eu peça alguém para ir deixá-la?

— Sim, eu adoraria. Detesto dirigir de noite.

— Vou providenciar. Eu mesmo iria, mas preciso ficar com Katlyn.

— Entendo perfeitamente. Mande um beijo para ela por mim, ok?

— Eu mesmo os darei.

William a acompanhou até o carro e pediu para um dos seus seguranças acompanhá-la lembrando de que ela mesma estava andando sem o dela. Um tanto preocupante devido ao acontecido com sua mãe, mas prefiriu não pensar nisso.

Renesme entrou no carro e ficou olhando para William até o carro se afastar de vez da casa grande. No caminho ela foi repassando tudo que tinha acontecido em sua cabeça com um sorriso que ela não conseguia reprimir. Ela estava recebendo mensagens confusas de seu cérebro, mas hoje ele parecia bem claro. William estava lhe fazendo ter sentimentos bons demais para o seu próprio bem. COMENTEM BASTANTE!