Renesme olhou-se no espelho e viu que estava em um estado deplorável. Seu cabelo e roupa estavam ok, mas seu rosto estava em um estado de palidez quase fastasmagórico. Ela segurou-se bem firme na pia para não perder o equilíbrio. A náusea estava lhe atacando. Sentia o seu corpo esfriar, não tinha jeito ela teria que vomitar. Pôs a mão na boca e tentou segurar. Não queria aparecer daquela forma diante dos empresários que ela iria ter uma reunião.

— Alteza, eles já estão quase todos na sala de reunião. Logo poderá entrar. – Emily falou do lado de fora.

Ela tentou responder, mas não conseguiu. Apressou-se em abrir a tampa do vaso e se derramou nele. Era incrível como podia o tempo passar como fosse que ela nunca deixaria de ter aquela gastrite nervosa. Suas mãos sempre tremeriam e a insegurança seria a sua eterna inimiga. Vomitou novamente e sentiu alguém segurar os seus cabelos, ao mesmo tempo que havia uma mão alisando as suas costas. Ela agradeceu aos céus por essa alma amiga!

Quando terminou de vomitar. Teve coragem de se virar e ver quem estava ali lhe ajudando. Ao ver que William era o seu cavalheiro da armadura brilhante sentiu vergonha. Não queria que ele a visse naquele estado. Se reencostou na pia e ele foi em busca de um papel para que ela pudesse se limpar. Na pressa acabou esbarrando na bolsa dela e se impressionou ao encontrar um calmante dentro. É claro que aquilo o deixara preocupado. Não tinha ideia se quer que a princesa pudesse consumir medicamentos como aquele para se manter calma. Não queria que ela tivesse que passar por isso. Preferiu não comentar nada e guardou tudo dentro da bolsa.

Renesme respirava fundo já sentindo-se um pouco melhor quando William lhe ofereceu o papel para que ela se limpasse. Procurou fazer isso com o máximo de descrição para tentar acalamar a sua vergonha diante dele. Mas ele não parecia nada incomodado. Sem menor receio, passava as mãos em seus cabelos e a olhava com ternura. Deus! Que homem era aquele?

— Não temos um bebê real a caminho, não é?

A princesa balançou a cabeça e reprimiu a ideia. Vinha tomando regularmente seus anticoncepcionais e vez outra tomava a pílula do dia seguite escondida. Não queria se quer pensar na possibilidade de ter um filho com Alec. Não queria ligações com os Volturi e nem daria esse gostinho a Aro.

— Nem pensar! – ela respondeu com repulsa. – Isso aqui é gastrite nervosa. Eu sempre tenho essas crises quando eu tenho algo muito importante a fazer.

William assentiu aliviado. Sabia que Renesme era casada e naturalmente um bebê poderia vir a ser gerado a qualquer momento, ainda mais estando na posição em que ela estava. Mas ele sentia um certo ciúme daquela possibilidade, o que era ridículo! Porém, vê-la ali tão ansiosa e estando diante daquela informação nova de que sua timidez chegava a tal extremo que a fazia querer tomar calmantes e vomitar daquele jeito o deixava mais preocupado. Naquele instante ele entendeu bem por que ela agira daquela forma que ele achara detestável logo no início em que ele a viu pela primeira vez.

— Olhe pra mim, ok?

Renesme levantou os olhos e tentou parecer mais firme.

— Não tenha medo deles. Você não está pedindo nenhum favor a eles. Tem uma ideia maravilhosa que vai ser benéfica para eles também. Fale com a mesma naturalidade que você fala comigo, certo? Eles vão te ouvir.

A princesa apenas assentiu e desejou profundamente ter a confiança que William tinha nela.

— Você é uma princesa, eles vão te ouvir e mesmo que não fosse você tem que mostrar a eles sua competência. Fale com firmeza e com toda a certeza que tem que esse projeto vai dar certo que eles vão sentir a verdade em suas palavras. Confie no que eu digo e confie que você vai conseguir, certo?

— Certo. Obrigada William.

Ela levantou e respirou diante do banheiro. Pegou a escova e ajeitou os cabelos. William preferiu deixá-la sozinha para que ela pudesse se recompor. Alguns membros da equipe o olhavam estranho pelo fato dele ter tido a coragem de ir ao banheiro onde estava a princesa, que era um ser quase imaculado por eles. Queria William ter feito o que eles achavam que ele fez. Mas não disse nada, apenas aguardou em silêncio e acompanhou com os olhos a princesa sair em direção à sala de reuniões. Ele deu uma leve piscadela ao passar por ela.

Renesme tentou seguir os conselhos de William, respirou fundo e entrou com toda à confiança que tentou adquirir. Ele tinha razão, as pessoas se atraiam mais por pessoas que exalavam força. Ela procurou não olhar para aqueles grandes empresários nos olhos, mas viu que eles fizeram-lhe uma reverência e a observavam com muita atenção.

— Quero agradecer profundamente por terem aceitado o meu convite. Sei que são muito ocupados.

— É um prazer, alteza.

— Obriagada. Por favor, sentem.

Ela acenou para as cadeiras ao redor e sentou-se também.

— Estou aqui como parte dos projetos de ação da fundação que acabei de registrar, “Youngs Together”. Porém, não vim falar sobre caridade por que eu não acredito nelas e sei bem que os senhores nem querem me ouvir falar sobre isso. No momento precisamos de mais praticidade do que assistencialismo. Tudo está ocorrendo por que os problemas sociais só foram resolvidos superficialmente e não de forma definitiva com projetos que fossem mais efetivos.

— E o que você sugere? – Perguntou um dos grandes industriais de Milton.

— Eu trouxe vocês aqui na Universidade de Belgonia por que eu soube de uma informação muito triste. Boa parte dos jovens que aqui estudavam, principalmente aqueles advindos das classes mais baixas, estão deixando de estudar para poderem ir em busca de trabalho para sustentarem a si e suas famílias. Sabemos que a taxa de desemprego cresceu 25% desde a crise das minas.

— Estamos bem cientes disso. O problema é que a crise afetou diretamente a gente também. Se não conseguirmos vender, não conseguirmos manter os empregos.

— Entendo perfeitamente. Estamos também trabalhando em alternativas para resolver isso, mas eu quero fazer uma pergunta aos senhores, que tipo de funcionários vocês mantém em suas empresas e indústrias?

— Eu prefiro aqueles que têm mais capacitação. Fiquei com os mais competentes.

— Manti em minhas fábricas a mão de obra bruta, quem faz o trabalho pesado. A qualificada é muito cara de se manter.

— Eu confio mais nos meus funcionários antigos.

— Perfeito! Eu tenho uma ideia para ambos. Você, senhor, me falou sobre mão de obra qualificada ser mais cara. Então, seria maravilhoso para você empregar muitos desses alunos que buscam alternativas para se sustentarem. Acredito que com um pequeno curso de qualidificação, eles logo aprenderão o ofício e trabalharão com eficiência e vocês terão funcionários “baratos” com vocês e eles poderão manter os seus estudos.

— E quem ofereceria esses cursos? Não quero funcionário inútil em minhas fábricas.

— Temos muitos cursos técnicos ofertados desde a época do meu avô que podemos estendê-los para as universidades, escolas de Ensino Médio, associados aos estudos deles. Ao que procuram melhor qualificação de seus funcionários, sugiro um estágio remunerado. Também não gastarão muito com isso e esses jovens terão a oportunidade de crescerem e aprenderem algo sobre suas futuras carreiras.

— É uma ideia alteza, mas...

— Eu sei o que vai dizer. Que temos que resolver o problema da economia e acredite, estamos tentando. Estamos com um plano de investir em setores agrícolas que mais vende no mercado atualmente e está funcionando. A exportação de produtos agricólas belgãos já cresceram em 5%. Não parece muita coisa, mas é uma grande mudança. Estamos em busca de novos mercados e tenho certeza que os senhores também estão buscando alternativas. Só quero que dêem uma chance a esses jovens. Dessa forma estaremos ajudando a diminuir essa crise também. Eu os chamei aqui por que confio em vocês e tenho certeza que aceitarão essa proposta.

Renesme observava nervosa os homens em sua frente olharem uns para os outros e discutirem o que ouviram com apenas olhares. Tinha noção que eles imaginavam que era uma ideia extremamente utópica vindo de uma princesa muito privilegiada que pouco sabia sobre economia. Mas ela não estava disposta a desistir.

— Eu quero fazer um teste primeiro. Vocês empregam alguns de nossos alunos. Faremos uma seleção com eles aqui na universidade, tenho certeza que os melhores passarão, e custearemos as funções que eles exercerem na empresa de vocês por três meses e em seguida, se gostarem do trabalho deles, vocês continuam com eles por conta própria. O que acham?

Os homens pareciam abismados com aquela proposta, mas Renesme já podia ver alguns sorrisos se formarem. Era algo arriscado. Sabia que não havia muito dinheiro para isso. Mas seria o primeiro grande projeto dentro da “Youngs Together”, tinha que dar certo. Esperava que as vendas do livro sobre sua mãe vendesse bastante para ajudar. Não podia aceitar o fato de tantos jovens perdessem seus sonhos e futuros por conta de uma crise desgraçada como aquela.

— Eu topo. Acho que não temos nada a perder.

— Obrigada. Todos concordam?

Cabeças balaçaram positivamente e Renesme sorriu em satisfação.

— Está indo um projeto de lei que irá ser desenvolvido nessa área para o parlamento. Tenho certeza que será aprovado pelos nossos políticos. Assim teremos cada vez mais jovens empregados e qualificados no mercado de tarabalho. Mas os senhores estão dando um passo importante e agaredeço o apoio. Por favor, queiram assinar esse termo de compromisso por gentileza.

Renesme deu um sorriso triunfante e não teve como não se lembrar de sua mãe. Tanto que ela cobrou a sua presença mais ativa em causas sociais e agora lá estava ela. Era o primeiro passo. Sabia que tinha um longo percurso pela frente. Mas já estava com o projeto de lei quase todo montado em sua cabeça. Escreveria e mandaria para o parlamento. Faria tudo para que fosse aprovado e aquele se tornasse o primeiro projeto bem sucedido de sua fundação. Respirou fundo contente quando todos deixaram a sala de reuniões. Sentia a ansia de crescimento. Sua mente não só turbilhava de ações, mas como seu corpo parecia querer colocá-las em prática. Mal podia esperar para tirar tudo do papel.

Saiu da sala se sentindo menos claustrofóbica como sentia-se sempre. Procurou por William e ele já a esperava com um sorriso no rosto. Ele parecia saber que tudo tinha saído como deveria. Era um sorriso orgulhoso e ela podia até pedir para ver aquele sorriso sempre. Aquele pequeno gesto a motivava.

O jornalista a pegou pelo braço e a conduziu para fora da Universidade, mesmo com os olhos reprovadores da equipe dela. Renesme se deixou ser conduzida sem pensar muito. Era como se William vienhesse cortar todos os seus nós e ela gostava disso.

— Eles aceitaram a minha proposta!

— Eu sei. O sorriso deles denunciou. Você foi certera! Soube chegar na mente deles, o que é muito importante. Precisamos mais de projetos assim, que realmente vão mudar as coisas na prática.

— Estou muito feliz. Eu sei que há um longo percurso ainda. Mas é primeiro passo. E de pensar que tudo começou nesse lugar.

William a olhou com curiosidade.

— Foi aqui que a vida da minha mãe começou a mudar. Não foi só por que aqui ela conheceu o meu pai, mas por que ela descobriu quem realmente ela era. Eu quero que muitas pessoas, como ela foi um dia, bolsista e cheia de neceissidades, possam também encontrar os seus destinos.

— Você vai conseguir. Eu tenho certeza disso. Mas antes, se me permite, quero te apresentar uma pessoa.

— Quem?

— Você vai ver.

Renesme olhou com curiosidade para William e nem imaginou o que poderia ser, mas deixou-se levar ao entrar no carro dele e o segui-lo. Sabia que tinha outros compromissos, mas quer saber? Não importa! Sentia aquela sensação boa de novo de liberdade e queria um pouco mais disso.

William mesmo dirigindo, não deixava de olhar para a mulher ao seu lado de instante em instante. Estava preocupado com ela. Os calmantes não saiam de sua cabeça. Sua mente poderia listar inúmeros motivos para ela recorrê-los. A sua princesa vivia uma vida de merda, mas ele não queria que ela se destruísse daquela forma e sabia que tinha conversar com ela a respeito. Isso só o fazia pensar que havia tanto nela que ele desconhecia. Queria conhecê-la, era certo. Queria saber tudo sobre todas as suas nuances. Ele sabia que já estava viciado nela e não havia outro jeito. Isso o deixava mais protetor. Queria fazer de tudo para que ela ficasse bem e isso o faria feliz.

Ambos pararam em frente a uma estação de rádio. Renesme olhou surpresa para William e ele não disse nada. Ela o acompanhou com curiosidade. Eles seguiram até um estúdio e entraram silenciosamente. Havia uma garota negra fazendo um programa com um outro rapaz. A princesa ficou prestando atenção no que eles diziam. A moça falava sobre temas interessantes. Destacava o legado de mulheres negras na história da sociedade. Falava de preconceito racial e problemas sociais. Renesme não podia deixar de se encantar com todos aqueles temas. Havia tanta coisa que ela nem se quer sabia que poderia existir. Estava tão entretida no que ouvia que deu um pulo quando William susurrou em seu ouvido.

— Você quer conhecer Zara?

— Claro!

O programa já havia acabado e Zara conversava animadamente com o homem em sua frente. Renesme seguiu com William até a cabine de isolamento e Zara deu um longo sorriso ao ver o jornalista.

— Tio!

— Zara!

Então a mulher viu Renesme e ficou sem jeito. A princesa já estava bem acostumada com aquele tipo de reação, mas o que a surpreendia era o fato de Zara ser sobrinha de William.

— Zara, meu bem, trouxe essa mulher aqui para te conhecer.

— Será um prazer. – Zara falou ainda sem jeito e tentou fazer uma reverência que saiu um tanto desengonçada. – Me chamo Zara, alteza.

— Por favor, me chame de Renesme. Vim aqui por que fiquei encantada com o que disse no programa. Acho que tem muito a me ensinar.

Zara olhou para William e depois para Renesme e finalmente falou.

— No que eu puder ajudar...

— Zara, Renesme está desenvolvendo uma fundação que abrange causas sociais e acredito que você pode muito bem guiá-la.

— É verdade, Zara. Será um prazer conversar com você. Tenho muito a aprender e realmente fiquei interessada em ver na prática tudo que falou no seu programa.

— Então, sigam-me. Estou indo para o lugar perfeito para você conhecer.

Renesme assentiu e mais uma vez se deixou ser conduzida por William. Os dois pareciam saber bem o que faziam. Zara seguiu de moto na frente e William a seguiu no carro. Quando ambos estavam sozinhos, ela não pôde deixar de saciar a sua curiosidade.

— Zara é sua sobrinha.

— Não consegue desenhar o cenário?

— Não.

— Ela é minha primeira sobrinha. Filha do meu irmão Frederick. Eu praticamente a considero como minha filha.

— Por quê? Não sabia que era tão próximo do seu irmão... Da maneira que fala parece que são bem distantes.

— E somos. Zara foi um fruto de um caso dele com uma funcionária de serviços gerais que tinhamos na fazenda. A mãe dela era uma imigrante africana e era muito jovem para cair na conversa do meu irmão. Quando ela engravidou, ele fez de tudo para que ela abortasse e ela se recusou. Frederick a expulsou da fazenda e nunca assumiu Zara.

— E você tomou as dores da mãe de Zara.

— É claro! Meu irmão é idiota! Eu não podia deixar aquela pobre mulher com uma criança pequena, ainda mais sendo minha sobrinha, passar por necessidades, não é?

— Claro que não. Foi muito nobre de sua parte.

— Não foi por nobreza.

Renesme assentiu e pôde sentir a raiva de William sair pelos poros. Era um assunto delicado e por isso preferiu se calar. Mas sentia-se orgulhosa dele. Quem no mundo poderia fazer algo assim por alguém que nem mesmo era sua filha? William realmente era um homem de uma grandeza infinita.

Quando o carro parou, a princesa pôde ver que estava num bairro que não conhecia em Belgravia. Era bem pequeno, aparentemente. Parecia uma pequena vila. Tinha corredores estreitos e um amontoado de apartamentos bem próximos um dos outros. Tudo era bem colorido. Haviam bandeiras de países africanos nos fios e toalhas multicoloridas nas janelas, o que tornava o ambiente bem alegre. O som tocava alto em algum lugar e de alguma forma, Renesme sentiu sua energia se acender.

Zara a conduziu para um dos apartamentos. Era no térreo e ficou agradecida por isso. Pois as longas e curtas escadas pareciam bem desafiadoras. Ela entrou no ambiente e viu que tudo era bem bonito. O espaço era pequeno, mas bem arrumado. Era o tipo de lugar que ela adoraria viver. Tudo parecia bem confortável e fofo.

— Sente-se, por favor. Posso lhe oferecer alguma coisa?

— Um copo de água, por favor.

— Ok. Num instante!

Zara se afastou para a cozinha e Renesme olhou ao redor. No mesmo instante, seus olhos foram chamados para a série de fotos no mural em sua frente. Haviam muitas de Zara com uma mulher, que ela deduziu que fosse a mãe dela. Porém, as que mais lhe chamaram atenção foram às fotos em que William aparecia. Haviam muitas delas. Uma com ele bem mais jovem com Zara pequenina em seu colo e outra de formatura em que o jornalista aparece com um sorriso orgulhoso ao lado de sua sobrinha e uma série de outras com momentos diversos.

— Acredito que deve ser difícil imaginar que William é meu tio, não é?

Renesme virou-se e viu Zara atrás dela com o copo d´água em suas mãos.

— Na verdade não é no sentido em que está pensando. Eu sei pouco sobre o seu tio e tudo nele me surpreende muito.

— Eu imagino. O tio Will não é mesmo desse planeta. – Zara sorriu e entregou a água para a princesa. – Eu devo muito a ele. É meu pai postiço.

— Ele me contou sobre o que aconteceu. Lamento muito.

— Eu também. Mas não por mim. Eu não estou nem ai para a riqueza dos Lamb, sabe? Mas pelo que fizeram a minha mãe sofrer. O que fizeram com ela não se faz com ninguém.

Renesme assentiu e nem podia imaginar como aquela mulher da foto poderia ter sofrido, num lugar tão distante do seu, com poucos recursos e uma filha pequena para criar.

— Ela tinha 16 anos quando saiu do Mali. Disseram pra ela que aqui era um país promissor e que podia ganhar uma grana boa e coitada, ela se iludiu com isso e veio.

— Deve ter sido difícil os primeiros anos dela por aqui.

— Foram os piores. Ela não falava bem inglês, mas encontrou um emprego de faxineira num restaurante daqui e foi ai que ela conheceu o meu pai. Se é que eu posso chamá-lo assim... – Zara balançou a cabeça enojada e continuou a história. – Ele se atraiu pelo corpo dela, essa é a verdade. Infelizmente a mulher negra tem esse esteriótipo.

Todas as mulheres tinham, Renesme pensou. Quantas vezes não fora tratada assim, apenas um corpo numa cama pronto para se reproduzir? Mas preferiu dizer nada e contiunou ouvindo a história de Zara em silêncio.

— Ele a convenceu a vir trabalhar na fazenda e lá a conquistou. Minha mãe achava que tinha conseguido o seu príncipe encantado. Mas para ele, ela era apenas uma mulher fácil que estava disponível pra ele. Quando ela engravidou de mim, ele fez de tudo para que ela abortasse e foi daí que minha mãe se deu conta que esteve enganada esse tempo todo. Ele a expulsou da fazenda e foi o meu tio William que a salvou por que ela não tinha absolutamente nada.

— Eu posso imaginar.

— Ele não tinha muito na época. Estava no início da carreira, morava num apartamento alugado e tinha mil e um bicos. Mas mesmo assim fez questão de acolher a minha mãe. Deu tudo que ela precisava durante a gravidez e depois que eu nasci também. Eu pude me formar graças a ele e minha mãe também. Ele sabia o quanto era importante para ela terminar os estudos.

Um orgulho estufou ainda mais o peito de Renesme. Cada vez que conhecia mais William, mais o achava um homem de grandes valores. Era tão bonito por dentro quanto por fora. Lamentou-se horrores por não tê-lo conhecido antes, pela raiva inicial que sentiu dele. Foi uma boba. Em outras circunstâncias poderia dizer que ele era homem que sempre procurou.

— Sua mãe é uma grande guerreira. Um grande exemplo.

— Ela é. Só tinha 17 anos quando me teve. Deu duro danado, mas conseguiu se tornar uma grande socióloga. Essa comunidade, que chamamos de pequena África, foi fundada com a ajuda dela. Aqui estão todos, que como ela, sofreram qualquer tipo de preconceito e vivem essa luta ardualmente. Eu te contei essa história para que saiba como é realdiade de muitos que vivem no país que um dia irá governar.

— E eu agradeço imensamente. Precisava ouvir tudo isso até por que eu estou tentando buscar uma forma de ajudar todos vocês. Minha mãe, como a sua, veio de uma vida bastante dura. As duas não tiveram a mesma história, porém, ela sabia como era o mundo por trás dos muros do palácio. Ela sempre desenvolveu ações para entender os mais necessitados e eu quero seguir com o que ela começou.

— Eu conheci sua mãe. Eu fui uma palestra que ela estava. Lamento muito por tudo que aconteceu. Infelizmente, as pessoas boas tem fim trágico.

Renesme abaixou a cabeça. Era uma triste realidade. No mundo onde cobras comiam cobras, os bons não tem muito espaço.

— Infelizmente. Mas estamos tentando buscar ao menos justiça. Seu tio tem me ajudado muito.

— Eu imagino que sim.

— Enfim, estou fundando uma fundação que busca meios para ajudar de forma real grupos minoritários que infelizmente sofrem demais nessa crise e sempre sofreram, de alguma forma.

— Isso é bom. Mas sabe que é longo caminho, não é?

— Eu sei. Tenho completa noção que não irei mudar o mundo em sete dias. Mas eu realmente quero fazer algo que não seja uma simples caridade temporária. Eu quero conhecer as pessoas e suas realidades para podermos pensar em algo juntos.

— Louvável! Preciso que conheça a minha mãe. Ela pode te ajudar muito com ideias.

— Por favor. Gostaria muito de poder conhecê-la.

Zara sorriu e a conduziu para fora da casa. Enquanto as duas seguiam pelas ladeiras estreitas da rua e conhecia tudo em sua volta. Lamentava muito por ter passado tanto tempo fora de Belgonia. Havia tanto que não conhecia, havia tanto para ser feito!

Quando chegou num ponto alto, pôde ouvir de onde ouvia o som que tinha escutado antes de chegar. Era uma música animada que lembrava muito aquelas que ouviu quando esteve na África. Todos dançavam juntos, batiam em uns instrumentos e se divertiam. Era impressionante como eles conseguiam serem felizes diante todos os problemas que assolavam lá fora.

Renesme seguiu Zara até onde estava William, que conversava animadamente com uma mulher. A princesa logo a reconheceu das fotos. Aquela mulher jovem, linda, era a mãe de Zara.

— Mãe, temos uma visita ilustre.

A mulher virou-se e sorriu ao ver Renesme. Não parecia tão desconfortável e surpresa quanto à filha ao vê-la. Fez uma reverência e estendeu a mão para a princesa e esta a apertou com vontade. Talvez William já tivesse adiantado a ela tudo que pretendia.

— Eu sou Zambia. Acho que não precisamos de apresentações.

— Acho que não. – Renesme falou baixinho com o rosto corado. Com aquela velha sensação de vergonha pela posição em que estava.

— É bom vê-la de perto. Acompanhei você e sua família desde que cheguei aqui. – Zambia falou com um sotaque assentuado. – Vocês eram meio que o meu divertimento nos tempos ruins.

— Acho que somos um pouco disso mesmo.

— William me falou sobre você e de forma bem animada. Estava ansiosa para que finalmente viesse até aqui.

William sorriu nervosamente e Renesme pôde vê-lo ficar vermelho.

— Pare Zambia! O que Renesme irá pensar? No mínimo que sou um maniaco possessivo.

— Não é bem assim.

— Na verdade, estou feliz por ele ter me apresentado vocês duas. Há muito que precisamos conversar.

— Mais antes, por favor, deixe-me lhe oferecer uma bebida.

— Obrigada.

Zambia se afastou com Zara pelo meio da multidão e Renesme olhou para William. Queria abraçá-lo, essa era a verdade. Agradecê-lo por ser assim tão bom. Tinha medo de estar enganada como sempre se enganava. Mas ali estava ele. Havia verdade naqueles belos olhos verdes. Ele não parecia querer se exibir com os seus modos. Tudo nele era real e suas ações eram bem impulsivas. Ele pensava e fazia, não escondia o jogo.

William via o olhar de Renesme nele e sentia o arrepio lhe percorrer. Sabia que ela estava o analisando. Queria saber o que ela estava pensando. Na verdade, estava sendo difícil não resonder aquele olhar tão profundo com um beijo. Há quanto tempo ele não sonhara com os lábios dela? Devia ser tão bom beijá-la... Mas conteve-se.

— Então, pôde conhecer um pouco sobre Zara.

— Ela é uma garota incrível! Teve uma ótima criação.

— Zambia sabia o que fazia.

Renesme assentiu e observou todos a redor. Respirou o ar que vinha do ambiente e sua mente se voltou para quase dois anos atrás. De como esse mesmo ritmo a fez esquecer um pouco de sua própria vida e se dedicar mais as dos outros que precisavam dela. Foi à última viagem que fizera com Bella. Fechou os olhos e quase pôde reviver as suas lembranças. Queria tanto poder voltar aquele momento.

— Por que não nos juntamos a eles na dança? Acho que precisamos comemorar a reunião de hoje.

A princesa abriu os olhos e viu as mãos de William estendidas em sua frente. Ela excitou um pouco, mas pensou: Por que não?

— Tudo bem.

William pegou a mão dela e a levou para onde estavam todos. Balançou os braços dela meio desajeitadamente até que ela resolvesse assumir o ritmo da dança. Depois de um momento de constrangimento quando eles não tinham certeza de como começar, ele deslizou a mão pela cintura dela e estendeu a outra para ela pegar, o que ela fez. Renesme colocou a outra mão no ombro dele e eles começaram a se mexer. Foi uma situação tão extraordinária que ela riu alto. Olhou para William e lá estava aquele olhar novamente. Renesme se sentiu culpada. Era um sentimento estranho para se ter, mas era isso.

Estava casada e não amava seu marido, acabara de sofrer uma grande desilusão com outro cara que ela realmente achara que era o seu homem ideal e agora estava sentindo um formigamento por dentro ao lado de outro. Não tem como não se sentir pior. Não poderia deixar-se levar.

Então, William a rodopiou e a aproximou ainda mais. Porém, como não sentir nada diante de uma situação como aquela? Ele a fazia bem, como muito tempo não se sentia assim. Era seu ponto de fuga para a sua realidade triste.

Ao seu redor, as pessoas estavam felizes, as pessoas haviam esquecido seus problemas, esquecido que viviam em um meio mundo quebrado e Renesme também, mas nesta manhã ela ignorou tudo, olhou nos olhos de William Lamb e deixou que ele a virasse. Ele se moveu com um ritmo natural e, quando a música terminou, girou-a debaixo do braço. Ela gritou de surpresa e caiu na gargalhada com o alívio de não cair de cara no chão. Ele sorriu para ela com os lábios e os olhos.

Zambia se aproximou e cortou o clima.

— Vocês são tão naturais juntos! Acho que devemos chamá-los toda vez para se apresentarem como nossos dançarinos.

William sorriu e Renesme sentiu que as mãos dele não havia saido de sua cintura.

— A dançarina aqui é Renesme. Eu sou um boneco de pano.

Ela olhou para ele com um sorriso, mas negando.

— Você dança?

— Sim. Não profissionalmente, é claro. Mas é um dos meus grandes prazeres.

— Temos tantas garotas aqui que gostam de dançar, mas não tem oportunidade de terem aulas. Zara me contou do seu projeto e eu achei muito louvável. Porém, não acredito que deva ser apenas um plano de marketing. Desculpe-me por referir dessa forma. Mas o que a maioria de vocês, realeza, políticos, fazem algo que fica bonito apenas nas fotos. Mas realidade é bem diferente.

— Eu não quero isso. Juro! Quero ações de verdade. Estou começando a trabalhar nisso. Por isso estou conhecendo várias comunidades pelo país. Conversando com as pessoas para saber o que realmente podemos fazer. Eu acredito que podemos mudar muita coisa.

— E podem. Pequenas ações já fazem grande diferença. Por aqui o que mais queremos é oportunidade. Temos muitos imigrantes que sofrem com vagas de trabalho que são quase escravos. Muitos jovens se perdem para a criminaldiade por se deixarem iludir pelo crescimento rápido e pela sedução que essa vida traz. Meninas, como eu, engravidaram muito jovens. Sofremos preconceitos, não temos visibilidade. Mas aqui estamos nós, prontos para sermos cenário de visitas para os políticos que querem se eleger para o cargo de primeiro ministro.

— E o que eu posso fazer por vocês? Acredite! Eu quero fazer algo.

— Cuide dos jovens primeiro. Os meninos cantam hip hop, criam som, letra. As meninas dançam informalmente. Transforme esse talento em oportunidade. Acredito que vai ser um grande passo para eles sentirem que tem um futuro.

— Uma escola de dança. É uma ótima ideia!

— E não custa muito caro, Renesme. Você pode procurar incluir isso no projeto de lei que está mandando para o parlamento. Nós temos uma academia de arte poderosa aqui em Belgonia, mas muito elitista, precisamos torná-la acessível. – Sugeriu William.

— Sim, perfeito! É algo que eu mesma quero conseguir. Adoro dança e vou adorar pessoalmente participar das aulas e incentivar que haja essa mudança por lá.

— É só isso que eu te peço, princesa. Eu sei que sozinha não pode mudar tudo, mas peço apenas que tente. Converse com o pessoal aqui. Pode haver muitos professores e certeza que alunos talentosos não faltarão.

Renesme sorriu já com mil ideias em sua mente. Sabia exatamente como conseguir tudo aquilo. Bastava que seu pai lhe desse o título de patrona das artes e teria acesso a muitos espaços públicos. Conversaria com os candidatos a primeiro ministro e os convenceria a assinarem um termo de compromisso com a educação dos jovens e mandaria seus projetos de lei para o parlamento. Sabia bem que em tempos eleitorais conseguiria tudo deles.

William acariciou o ombro dela e lhe dirigia um olhar orgulhoso. Diante disso não tinha como não se sentir em paz. Continuou assim até chegar ao palácio no início da noite. Agradeceu por encontrar tudo silencioso. Entrou no quarto e não encontrou Alec. Passou para a cama e se sentou. Em sua mente ela refletia tudo que havia acontecido durante o dia e não teve como não sorrir. Desviou o olhar e viu algo inacreditável! Se aproximou da cômoda e pegou a caixa que lá estava. Era um teste de gravidez. Sua cabeça deu um nó e sua única ação foi jogar a caixa longe de sua vista. Sentiu raiva, mas depois se deu conta do quanto aquilo era substancial. Pegou o celular e ligou para William. Mal esperou que ele falasse e despejou o seu questionamento.

— William, quem mais estava do lado de fora enquanto eu estava no banheiro nessa manhã?

— Bom, eu, James e Emily.

— Ótimo. Um deles é o traidor que estamos procurando. COMENTEM BASTANTE!