Dilemas

46 Capitulo 46



CONDOMINIO MARTIN


Dennis ainda não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Olhava para o irmão que tinha ficado acuado. Esperava que ele, claro, explicasse que merda era aquela. Eles sempre contavam tudo para o outro, como ele tinha escondido isso?


- E como que eu nunca fiquei sabendo disso?

- Porque eu disse que ela era louca. – deu de ombros – Na época eu não lembrava de ter saído com ela Dennis... Sinceridade. – olhava para a caneca de café como se perdendo em pensamentos – Tinha sido em uma chopada. Mas no mesmo dia fiquei com mais um monte de meninas. Você sabe como é, já fomos em várias festas e ficamos com várias garotas.

- Eu sei cara, mas gravidez é serio. Não vê o drama todo que é? – Dennis já coçava a cabeça nervoso – Olha a Dominique, amiga delas.

- Tá... – reclamou – Eu fui atrás dela depois para saber dessa historia direito. E lembrei que tinha transado com ela. Mas estava bêbado, e muito por sinal. Por isso que na época não lembrava nada. – olhou para Dennis – Ela sumiu das aulas. Fiquei preocupado e dei um jeito de encontrar com ela. Procurei endereço, dei meu jeito.

- Hum...

- Fui ate o apartamento que ela dividia com uma amiga. Ela me recebeu. E disse que tinha perdido o bebe.

- Ai cara. – Dennis jogou o corpo pra trás – Sério isso? Devia ter me contado.

- Eu não me sentia o pai dessa criança. – foi sincero – Mas também não era burro. Se fosse meu mesmo, claro que eu daria o suporte... Pediria o exame de DNA e tudo sairia nos papéis conforme o figurino.

- E ela?

- Eu falei isso pra ela. – bebeu mais um gole de café e suspirou – Mas ela não acreditou. E deu graças a Deus que tinha perdido a criança para nunca mais ter que olhar na minha cara.

- Caramba! – Dennis parou para pensar – E depois você seguiu com sua vida, como se esse incidente nunca tivesse acontecido na sua vida?

- Queria que eu remoesse uma historia que nem sabia que tinha envolvimento direito? – se revoltou – Cara, eu tinha 19 anos. Estava no auge da faculdade, me divertindo. E se a criança tinha morrido, eu não tinha mais responsabilidade.

- Essa sua praticidade pras coisas, as vezes, me irrita.

- Nem sempre sou tão pratico assim. – levantou – Hoje eu penso mais nas coisas.

- Hoje. Na época...

- Dennis... – cortou o irmão – Eu sei que deveria ter te contado isso na época. Mas era idiota demais para pensar em outras pessoas... E se você não se lembra, demorou um pouco pra superar a morte da mamãe...

- Eu sei. – levantou também – Você não foi o único que sofreu. – largou o guardanapo na mesa – Mudando de assunto drasticamente... – Dennis pensava que era melhor mesmo. Eles não conseguiam ter uma conversa sobre a mãe que não os deixassem deprimidos – Charles mandou um e-mail. Pediu que assinássemos os contratos na empresa e mandássemos pro cliente por e-mail.

- Sei. Então vamos logo que ainda temos essa tal festa a noite.

- Ah, fala não. – chiou – Não estou com a mínima vontade de encontrar o ex-namorado da Aline.

- Ah é. Tem problema não, se ele tentar alguma gracinha, a gente mete a porrada nele.


Riram. Enquanto saíam para seus quartos para se arrumarem, Ariana e Marta voltavam pra cozinha depois de ouvir a conversa toda.


- Voce sabia dessa historia? – Ariana apontou para Marta.

- E por que me pergunta isso? – Marta pegava as roupas dobradas em cima da cadeira e ira para are passá-las.

- Porque o Tiago sempre contou tudo para você.

- Eu não pergunto da sua intimidade com o Charles, Ariana. Não vem perturbar por causa disso.

- Como ousa?

- Ousando. – Marta largou as roupas na mesa – Eu sei muito bem que você tem seus segredinhos com ele e com Manoel, mas me vê perguntando o tempo todo?

- Já perguntou.

- E você me cortou. – as duas cruzaram os braços – Estou fazendo o mesmo com você.

- Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

- Faz o seguinte Ariana... – Marta se revoltou – Eu vou ao mercado. Tenta descobrir sozinha. – pegou a lista na geladeira e bateu em retirada.

- Isso, vai lá ao mercado com o zelador. – se irritou quando ela bateu a porta com força – Insolente.


APARTAMENTO CHARLES


Charles admirava a paisagem que tinha naquela manha ensolarada de sábado. Diana estava sentada ao pé da cama passando um creme no corpo já saída do banho. O roupão caindo displicentemente o deixava ainda mais excitado por ela. Aquela visão era de matar.


- Se continuar fazendo isso, não vou deixar você ir embora. – chegou perto do seu pescoço e puxando-a para mais perto dele pela cintura – Você ainda vai me matar.

- Ainda não. – virou de lado se apoiando em seus braços. Deu-lhe um selinho – Tenho muita coisa pra aproveitar.

- Ah mulher! – virou-a para ele e assim que o roupão abriu, sorriu safado – Se quiser entrar nesse jogo, te garanto que sou capaz de vencer... – foi beijando seu pescoço e dando delicados beijos em seu colo, até ficar entre seus seios. Aspirou o perfume dela ali mesmo, fazendo-a arquear as costas e se arrepiar toda – Sou capaz de te fazer morrer e renascer várias vezes, se eu quiser.

- Amor... – tremeu novamente assim que ele desceu as mãos – Eu sei que a gente pode apostar e tentar vencer um ao outro... – gemeu ao seu toque – Mas eu preciso mesmo encontrar a Helena. – mordeu os lábios sem conseguir raciocinar.

- Helena pode esperar... – puxou-a delicadamente pelos cabelos na nuca e a encarou – Esperei por você por mais de dez anos... – sorriu sacana – Tenho prioridade.

- Safado!


Meia hora depois, Charles tomava banho sozinho. Diana assegurou que eles dois não estivessem juntos para que ela não se rendesse novamente ao seu charme. E não ligaria. Se renderia sempre que ele quisesse, era sua sina. Não podia mais negar que tudo o que queria na vida era estar em seus braços.


Assim que o viu com a toalha enrolada na cintura, e aquela definição toda que muitos homens naquela idade gostariam de ter, e dele secando os cabelos com a outra toalha, mordeu novamente os lábios. Ele era sexy demais.


- Não me olha assim de novo não. Se não eu entro e tomo banho de novo com você. – ela gargalhou.

- Isso é que é gostar de estar limpo!

- Pode ser. Mas refrescar o corpo nesse calor e ainda te ter de bônus... Eu fico com a pele enrrugada no chuveiro. – deu um selinho de novo nele.

- Vou logo lá, que já recebi uns dois e-mails dela.

- Vai lá.


CONDOMINIO ANIMALE


Dominique chegava com Bruno a tiracolo. Mesmo depois da conversa, preferiram deixar aquele assunto de lado. Pelo menos, naquele momento.


- Tem alguém em casa? – olhou para os lados procurando por alguém, quando viu Leticia saindo do banheiro com um monte de roupas na mão.

- Eu não tenho nada pra vestir Aline. – quase gritou da sala e jogou tudo no sofá – Ah. Oi! – riu sem graça quando viu os dois parados sem entender nada – A festa é de gala.

- To sabendo. – Bruno entregou a bolsa a Dominique, que agradeceu – Vou buscar o meu terno na casa de um amigo meu. Vai se arrumar aqui mesmo?

- Vou. – riu – Vem me buscar?

- Claro. – sorriu e deu um beijo em sua testa. Letícia ficou olhando a cena e querendo rir – Cuida bem do bebe.

- Pode deixar.


Assim que Bruno saiu e fechou a porta, Dominique olhou para Leticia que tinha os braços cruzados olhando diretamente para ela.


- Que foi? – Aline ia chegando na sala com dois vestidos na mão.

- Vocês transaram! – Leticia apontou e Aline olhou chocada para ela.

- Eu não.

- Dormiu com quem?

- Com meu irmão!

- Mentira?!

- Eu não transei com ninguém! – ela cruzou os braços.

- Vocês dois estão se olhando diferente. – chegou mais perto com Aline – E nem vem dizer que a sua pele está mais bonita por causa da gravidez, que eu não vou acreditar.

- Finalmente se acertaram? – Aline perguntou e Dominique foi abrindo caminho em direção a cozinha.

- Estamos na mesma. – pegou um iogurte e começou a comer. Olhou para as duas paradas em frente a ela e esperando uma resposta e suspirou – Ta plantando verde pra colher maduro, é Leticia?

- Eu não! – ela riu – Tenho certeza.

- Se tem tanta certeza, porque você quer que eu fale?

- Porque sim. – deu de ombros – Ficaria muito feliz que vocês dois casassem logo.

- Isso não vai acontecer. – encostou na geladeira e ficou um tempo comendo o iogurte e encarando a colher que comia – Ficar com ele ou não, daria na mesma. – foi andando em direção ao quarto, e quando Leticia fez menção de ir atrás, Aline a segurou.

- Eu sei que eles ficaram juntos. Eu vi o olhar que ele lançou a ela.

- E deixá-la emotiva por causa disso, não vai ajudar na gravidez dela. – bufou – Agora vamos, deixa ela se arrumar, que nós temos que nos arrumar também.

- Eu já disse que não tenho roupa.

- Mas eu tenho. – pegou os dois vestidos largados em um canto – Vê se você gosta desses dois.


CONDOMINIO MARTIN


Tiago e Dennis voltavam para o apartamento para se arrumarem. Estavam conversando sobre um lugar para viajarem no final do ano, quando deram de cara com Marta.

- Tiago, posso falar com você, meu querido? – levou-o para a cozinha, deixando Dennis parado na entrada – E você fica ai.

- Por que?

- Porque tem visita.

- E...? – Dennis colocou as chaves em cima do aparador – Por causa disso temos que falar quase sussurrando?

- Tem sim. – Ariana chegou e ficou parada em frente a ele, enquanto Marta sumia com Tiago pela cozinha adentro – É pro seu irmão.

- E o que eu tenho a ver com isso? – Ariana ficou séria enquanto Tiago voltava branco – Quem é?

- Helena.

- Mas hein? – andou um pouco pra perto da sala e a viu sentada de costas, olhando para o outro lado – O que ela está fazendo aqui?

- Eu que pergunto. – Ariana cruzou os braços – Seu pai sabia que você tinha um filho, seu Tiago?

- Eu não tenho filho. – engoliu em seco – Que droga, cara!


Tiago não tinha muito tato para lidar com as situações, e isso todo mundo sabia. Dennis ia andando atrás dele, quando Ariana o segurou e o levou para cozinha. Marta bebia um chá de camomila, pedindo aos céus que parasse de tremer. Ariana chegou com Dennis e os dois a encararam, como que esperando uma resposta.


- Eu não liguei pra ninguém, eu não dei o endereço de vocês, nem nada disso. – sentou em um banco alto – O menino tinha me contado isso na época, porque estava aflito. E como ela tinha dito que perdeu o bebe, claro que ele seguiu com a vida dele. Eu o aconselhei a esquecer o assunto.

- Poderia ter me contado Marta. – Dennis chegou ao lado dela e afagou suas costas para que se acalmasse – E acho que ela mentiu.

- Você acha? – Ariana ria em deboche – Só quero saber quando Manoel descobrir isso.


Assim que chegou em frente a Helena e ela o viu, engoliu em seco. Assim como o reencontro anos atrás, vê-lo ainda mais bonito, mais elegante, mais maduro, era fazê-la se arrepender de tudo o que fez.


- Oi.

- O que faz aqui? – ele cruzou os braços, já querendo levá-la embora – Aliás, o que faz trabalhando na empresa da Diana?

- Tiago, não quero brigar com você, e você não é nada meu para dizer onde devo trabalhar ou não. – ajeitou-se mais no sofá – Eu me formei na mesma área que você. E lá é um dos melhores lugares para crescer na carreira.

- Ok, ok. – sentou-se na cadeira em frente – Desculpa. Mas não imaginou em nenhum momento que iria me reencontrar?

- Não sou idiota a esse ponto. – respirou fundo – Queria ter vindo falar com você antes de ir trabalhar lá, para que não tivéssemos a surpresa que tivemos.

- Mas não foi.

- Não. – respirou fundo novamente – E acho que já sabe porque vim aqui.

- Tenho quase certeza. – encostou-se a cadeira – Por que mentiu pra mim naquela época?

- Porque eu não queria me envolver mais com você. Sabia que tinha culpa na historia também, contei para os meus pais, e preferi não passar por nenhuma humilhação.

- Mesmo eu contando que daria todo o suporte necessário?

- Daria mesmo? – ela o olhou – Você falou logo em exame de DNA, justiça, papéis...

- Porque é o certo. – levantou revoltado – Queria que eu tivesse te pedido em casamento?

- Não. – se ofendeu – Já disse que não sou idiota a esse ponto. Mas você tinha dezenove anos! – sentiu que lágrimas viriam – Eu tinha dezoito. Não sabia nada da vida.

- E essa criança é minha mesmo? – olhou para ela que engoliu em seco – Isso você nem sabe.

- Não sei. – secou uma lágrima que começou a cair – E acho justo que façamos o teste. – parecia nervosa, olhando para as mãos e as esfregando fervorosamente – Meu filho não pode ficar sem um pai.


Tiago não queria admitir. Era demais para sua cabeça. Reviver o que tinha sido deixado para trás há seis anos, era mais um problema que a família dele não precisava passar.

Sentou ao lado dela. Assim que a abraçou de lado, percebeu que ela se deixou levar ainda mais pelo choro. Se ela estava mentindo ou não, não sabia dizer. Mas parecia que tinha arrependido do que fez.


Dennis queria soltar fogo pelas ventas. Acabou descobrindo como que Ariana e Marta ouviam a conversa deles. Não sabia se ficava irritado por elas sempre ouvirem as conversas pelas paredes, ou se pelo que ouvia do outro lado da sala.


- Eu vou esquecer que vocês duas ficam igual duas fofoqueiras com o ouvido perto das paredes finas dessa casa. – chiou e voltou para a cozinha.

- Olha o respeito, menino! – Ariana deu um tapa em sua cabeça.

- Respeito é algo que se conquista. – pegou um copo de água, virou-o como se fosse cachaça. Não começaria a beber cedo daquele jeito – Mas converso com vocês duas depois. To mais preocupado com o que acontece lá na sala.

- Acho melhor conversar com seu irmão. – Tiago entrava pela cozinha com o ar preocupado.

- Leva um copo de água com açúcar pra ela na sala, por favor, Marta.

- Pode deixar.


Ele encostou-se em frente ao balcão da cozinha. Dennis o encarou sério. Jogou a cabeça com força medida no balcão e começou a respirar com certa dificuldade.


- Esse filho é seu? – Tiago apenas levantou um dedo pedindo um tempo – É ou não?

- Minuto.


Tiago queria mesmo se jogar pela janela. Pesadelo era pouco. Ele não merecia um pouco de paz não? Por mais que Dennis não concordasse com metade dessa história, se compadeceu um pouco do irmão. Não tinha necessidade de ela voltar anos depois para contar algo que estava enterrado.


- Ela está lá na sala?

- Está. – falou um tempo depois. – Está. – olhava para as mãos sem nem conseguir formar uma frase direita em seu pensamento.

- Vai fazer o exame de DNA?

- Vou. – o olhar dele era distante.

- E se for o seu filho?


Tiago encarou Dennis. Aquele interrogatório não estava ajudando em nada. Ele precisava pensar. Nem ele sabia como tinha que agir... Se fosse mesmo filho dele, como a própria criança reagiria ao conhecer o pai só sei anos depois?


- Já volto.


Voltou para a sala. Helena continuava tomando o copo de água e Marta já se retirava e a deixava sozinha de novo.


- Filho... – parou-o no meio do caminho – Não se precipita. Não precisa tratar ela mal só porque ela escondeu isso de você. Ela teve suas razoes.

- Marta, agradeço o conselho, mas preciso mesmo resolver isso sozinho.

- Tudo bem. – lhe deu um beijo na testa e se retirou.


Voltou para a sala. Não sabia nem por onde começar.


- É menino ou menina?

- Menino. – sorriu – Quer ver a foto?

- Olha... – parou-a assim que colocou a mão na bolsa – Não quero me precipitar. E se for para conhecê-lo, que seja pessoalmente.

- Tudo bem.

- Eu vou falar com o meu advogado, pedir para que marque o exame, deixar tudo agendado, e quando estiver tudo resolvido, eu o conheço.

- Tem certeza mesmo que não quer ver nenhuma foto dele? – ela falou apreensiva e ele a encarou sério.

- Pra que? Pra no final eu criar algum tipo de esperança e descobrir que não é meu filho?

- Davi.

- Oi?

- O nome dele é Davi.

- Ah sim, sim. Davi. – acabou sorrindo junto com ela. Não tinha como negar que o nome, aos seus ouvidos, soava bem.


Tiago acompanhou Helena pela porta da frente, e assim que a fechou e se virou, deu de cara com uma Ariana de braços cruzados e emburrada.


- Vou falar para o seu pai.

- Não vai falar nada. – Dennis e Tiago falaram ao mesmo tempo.

- Ele precisa saber.

- Sim Ariana. E ele vai saber. – Tiago se irritou – Olha, eu te amo, amo a Marta também, e sei que vocês querem fazer isso pro nosso bem, mas eu preciso muito desse tempo sozinho. Muito mesmo.

- Ok. – contorceu o rosto – Aceito, se prometerem que não vão demorar muito para contar a ele. Isso não é brincadeira, não são namoradinhas entrando e saindo e muito menos aquelas noites libertinas que aconteciam aqui.

- Nunca teve nada disso aqui. – Dennis riu – Só chegávamos bêbados e com algumas amigas a tiracolo.

- Querem que eu conte tudo mesmo? Porque deram sorte que só contei 90%. – virou e foi andando para a cozinha.

- 90% do que ela sabe. – olhou para Tiago e acabaram rindo – Vamos nos arrumar.


CONDOMINIO ANIMALE


Aline ainda estava em seu quarto aproveitando o pouco tempo que tinha para terminar de arrumar suas roupas no armário. Com a porta fechada e uma musica ambiente, estava feliz por estar tendo um momento só seu.

Ouviu o celular tocando e estava torcendo para não serem os seus pais. Não aguentaria mais sua mãe falando sem parar sobre a festa de Lorena. É, Lorena Matos, mãe de Caio, sua ex-sogra.

- Alô. – atendeu displicente.

- Oi Aline. – assustou-se com a voz. Olhou para o telefone e viu o numero de Tiago.

- Ta precisando falar com a Leticia? De repente o telefone dela está desligado. O daqui de casa também ta ruim? – desatou a falar e ele esperou pacientemente.

- Não. Eu queria falar com você. – ela parou o que estava fazendo – Não quero que me entenda mal, mas é um assunto sério e queria alguém para desabafar. – sério que ela estava ouvindo aquilo?

- Tiago, eu não acho certo...

- Por favor, me dá só cinco minutos, não tenho como falar isso com Leticia. Pelo menos não agora.

- Minuto.


Pronto. Aline achou que ele estava doente. Seu coração parou uma batida. Trancou a porta do quarto, sentou-se em sua cama e esperou que viesse o pior.


- Pode falar. Se for do meu alcance, eu posso ajudar.

- Desculpa mesmo te incomodar. – ele suspirou – Principalmente depois do que aconteceu com a gente...

- Esquece isso, é passado. – ou não era? Só se ouvir a voz dele daquele jeito, seu coração se apertou, e ela sabia que não era por questões fraternais.


Tiago contou a historia toda. Aline ainda tentava entender porque ela tinha sido escolhida para ser seu confessionário, mas a primeiro instante, preferiu não comentar nada. E pelo visto, ele parecia mais perdido que cego em tiroteio, já que foi jogado no meio daquela história do nada.


- Olha... – ela tentou começar – Acho que você fez bem sendo sincero com ela. Não é todo mundo que reage de braços abertos a descoberta de um filho. Se é que é seu mesmo.

- Eu sei... – ele andava de um lado para o outro no quarto – O que me incomoda ainda mais. Se ele for meu filho, o que vou contar pra ele? Que a minha reação foi a pior de todas?

- Não. Que você ficou surpreso com a novidade, que não esperava, mas que foi bem vindo.

- Como consegue? – riram.

- Na época que viajava com meus pais, que eles faziam pesquisas pelo mundo todo, convivi com muitas crianças sem pais, sem mães. Ouvia e via todo o tipo de coisa. E os psicólogos sempre incentivavam os pais a não mentirem, mas também a não desanimarem as crianças.

- Você esta no ramo certo?

- É... Bruno me fez a mesma pergunta. – riram de novo.

- Então não preciso enlouquecer?

- Enlouquecer é necessário, Tiago. – tentou abaixar a voz na hora que falou seu nome – Nós não temos sangue de barata.

- Acredite, muitos têm.

- Pessoas normais não têm.

- Mas eu não sou normal. – falou de novo tentando desestressar e ela se irritou.

- Então, tá. Você é um ser humano anormal que tem direito de se estressar.

- Voce também não é normal. – ele já ria do outro lado e ela batia com a mão na testa.

- De fato não sou, para te aturar por mais de cinco minutos, com certeza eu não sou.


Ele ia falar algo ligado aos dois. Mas preferiu se calar para não acabar com aquele momento bom. Não imaginava que teria uma conversa tão boa com ela depois de tudo. Seria até ilusão pensar que a partir dali ficariam amigos, mas só de pensar em ouvi-la, conversar com ela o pouco tempo que fosse, já sentiu um alivio enorme em sua frustração.


- Tiago? – Aline chamava do outro lado.

- Oi. Desculpa. – olhou para o relógio – Obrigado mesmo por ter me ouvido Aline. Só de conversar com você já me sinto melhor.

- Que isso! Quando precisar...

- Ok. – ele estranhou. Ela ficou mesmo feliz com a ligação dele ou só estava sendo legal? – Acho melhor eu ajeitar as coisas aqui para me arrumar.

- Só não deixa de contar pra Leticia.

- Pode deixar.

- Até mais tarde.

- Te.


Mandar beijo seria demais para os dois. Abraço seria ridículo. Aline desligou a ligação e ficou encarando o celular por alguns segundos. Deitou-se na cama e ficou olhando para o teto. O que ela estava pensando? Ficaria amiga mesmo dele? Já não bastasse Caio de volta em sua vida, Tiago também iria atormentá-la?


Ouviu a batida na porta e levantou rapidamente. Tinha esquecido que tinha trancado a porta.


- Tá fazendo o que ai trancada? – era logo Letícia pra incomodar.

- Nada.

- Hum... – olhou safada para amiga – Não vou julgar.

- Hei... – fechou a porta de novo e resolveu começar a se arrumar.


SABADO A NOITE


Finalmente elas estavam prontas. Dominique terminava de acertar a maquiagem no banheiro. Leticia servia duas taças de vinho e uma de suco na mesa, e Aline terminava de colocar sua sandália. Assim que pegou seu celular e ia colocar na bolsa, achou por bem tirar a ligação de Tiago de seu histórico. Não que Dennis fosse mexer, mas do jeito que estava com sorte aquela semana, preferiu não arriscar.


Quando todas se encontraram na sala, sorriram de satisfação e riram das cores que usavam. Parecia que iriam para uma festa de ano novo.


- Sério mesmo que vamos no degradê? – Aline comentou e Leticia deu de ombros.

- Esse vestido aqui é seu, o que posso fazer se você só tem vestidos nesse mesmo tom? – Aline deu a língua e riram.

- No meu caso é o único que serviu e ainda ficou soltinho. Meus vestidos já não cabem mais em mim.

- Impossivel, você ainda tá magra.

- Claro que sim.


Rapazes


Bruno já chegava ao prédio e estacionava logo em frente. Assim que olhou para o lado, Tiago e Dennis também chegavam.


- Estamos indo a um casamento é isso mesmo? – Bruno olhou para eles, que riram.

- Vai saber. Elas disseram que é gala.

- Dominique queria que eu viesse de Black-tie.

- Mentira? – Dennis gargalhou – Apesar de que é no Jockey Club. Não vai ser difícil mesmo encontrarmos gente assim, por lá.

- Está pronto para dar na cara do safado? – Tiago comentou e Dennis riu.

- Ai dele se tentar alguma coisa com ela.

- Estou perdendo alguma coisa? – Bruno perguntou perdido na conversa.

- O ex da Aline. – Tiago comentou – Dennis não gosta dele.

- Cara, ele é meu amigo. – Bruno olhou para os dois e ficou sério – O que ele fez dessa vez?

- Eu acho que ele quer Aline de volta. – Dennis falou logo, e Tiago apenas o olhou de rabo de olho – E acho que esse foi um dos motivos de ter convidado ela.

- Entendi.

- Desculpa cara. – Tiago começou – Mas mesmo sendo seu amigo. Nós sabemos que ele fez mal pra ela e não queremos que aconteça de novo.

- Entendi. – Bruno percebeu o tom de ciúme de Tiago. Fingiu-se de idiota e olhou para Dennis. Ou ele também estava se fazendo, ou estava sendo inocente com o próprio irmão. Sua irmã pelo visto não tinha ganhado nada no final das contas – Eu sei como o Caio é como já foi. Infelizmente eu também não acredito muito nessa mudança repentina dele, mas acho que todo mundo merece uma segunda chance.

- Isso é verdade. – Dennis comentou – Mas mesmo assim vou ficar por perto. Porque não quero que a segunda chance dele seja com ela. Não por mim, se no final ela achar que tem que ficar com outra pessoa, eu respeito, mas mais pelo que ele fez com ela.

- Entendi, entendi. – Bruno comentou – Eu vou falar com ele também.

- Ele não sabe que a gente sabe dessas coisas.

- Sem problemas. Eu tenho meu jeito de falar com ele.


Tiago tocou a campainha e tomou um susto quando Aline atendeu. Ela estava linda. Mesmo que não tivessem sido explícitos quanto a não contarem nada pra ninguém sobre a ligação, mantiveram a postura. Ele a cumprimentou normalmente e entrou. Letícia já o esperava e ele não podia negar que a namorada dele também estava linda. Dennis entrou logo em seguida, e Bruno, por ultimo. Quando ele viu Dominique, os olhares pararam. Ela estava linda. O vestido podia não parecer, mas ela parecia uma princesa grega. E não sabia dizer porque.


- Uau! – ele chegou e a beijou na testa – Voce está linda!

- Obrigada! – sorriu envergonhada e viu Letícia apontando pra ela – Que foi?

- Voce ficou com vergonha! – bateu palmas – Que lindo!

- Sério isso Le? – Tiago cutucou-a e ela riu.

- Mas é claro. Você não tem noção como é difícil conseguir uma coisa dessas com ela.

- Tá. Tá. Vamos embora. – saiu puxando Bruno pela mão e todos riram.

- E depois ela diz que não transou com ele. – Leticia sussurra para Aline, que apenas revira os olhos.


De fato, não foi difícil encontrar pessoas com Black tie. Quando chegaram e viram o salão nobre decorado da maneira que estava, os três arrumaram as gravatas. Não eram os únicos que tinham ido com os ternos, mas também não eram a maioria. Olharam automaticamente para as meninas, que se fizeram de desentendidas e depois apontaram para Aline.


- A culpa não foi minha. Formal não quer dizer Black tie.


Os casais acabaram se juntando. Dominique mais puxou Bruno para ir direto ao Buffet. Quando viu a comida, ficou louca. Tiago acabou encontrando um amigo da faculdade, e acabou levando a namorada com ele. Aline, por sua vez, não saiu do lugar. Rodeava o local com o olhar, procurando pela presa. Não podia deixar as coisas fugirem do controle, e ter Dennis ao seu lado era essencial.


- Já te falei que você esta linda essa noite? – como Aline estava de braços dados com Dennis, este aproveitou e a puxou mais pra si – Tão linda que vou ter que te roubar depois para te apreciar todinha. – sussurrou e Aline estremeceu da cabeça aos pés.

- Não tem noção de como isso vai ser ótimo! – saiu puxando-o, procurando um local próprio para isso, quando deu de cara com um grupo de pessoas de seus quarenta, cinquenta anos conversando.

- Aline? – ouviu a voz familiar e engoliu em seco. Ela poderia ter tido um tempo para beber mais um pouco antes de chegar perto daquelas pessoas – Querida, quanto tempo!

- Lorena! – puxou Dennis para o seu lado e assim que a abraçou, viu seus pais parados e sorrindo – Mãe! Pai!


Dennis teve um alerta na cabeça assim que ouviu as palavras. Não teve muito tempo para se preparar, como que ia se apresentar?


- Só assim para a gente se ver, não é minha filha? – Tereza, mãe de Aline a soltou do abraço – Nós precisamos conversar depois. – Aline já sabia que viria bomba. A mãe dela a olhava de um jeito que só ela conhecia.

- Deixa pra falar depois mulher. – Felix, pai de Aline a puxou também para um abraço.

- Mas é depois.

- Gente, esse aqui é o Dennis. – ele chegou mais perto e Aline parou ao seu lado – Já que não consegui apresentar no jantar, apresento aqui mesmo. Amor, meus pais. Felix Resende e Tereza Resende.

- Muito prazer.

- O prazer é meu querido. – Tereza já o chamou para um abraço – Dennis Palmas não é?

- Isso.

- Herdeiro do Manoel? – Lorena olhou para eles finalmente prestando atenção a conversa – Desculpa, estava falando com outra conhecida – Quer dizer Aline, que você desistiu do meu filho de vez?

- É Lorena! – eles sorriram sem graça.

- Ninguem precisa ficar com essa cara não! – olhou para todos – Eu sei o que meu filho perdeu. – olhou novamente para Dennis – Voce tem uma menina de ouro nas mãos!

- Eu sei. E agradeço todo dia por ela ter entrado na minha vida.

- Que bom! – Felix comentou – E já que não tivemos nossa conversa de sempre, que tal irmos tomar um drinque?

- Claro. – Dennis concordou. Mal não ia fazer ele conversar com seu sogro.


Letícia já tinha reencontrado Dominique e Bruno. Os dois discutiam o que ela podia ou não comer, e ela só fez rir. Procurou por Tiago, que também estava perdido em conversas com pessoas que ela não conhecia, e nem fazia muita questão de conhecer.


- Onde está seu namorado? – Dominique começou perguntando para sair da discussão.

- Ele está conversando com umas pessoas ai. Não tenho nada a ver com isso.

- Claro que não.

- Fala pra ela que ficar comendo gordura vai fazer mal ao bebe. – Bruno virou para a irmã que riu de novo.

- Claro que não.

- Voce só...

- Ora, ora! – Caio chegou e mesmo não querendo, Leticia engoliu em seco. Ele poderia ser tudo de ruim, mas ele era tudo de bom também – Quem eu vejo aqui. – já falaram com minha mãe? – cumprimentou a todos e assim que Leticia ia cumprimentá-lo, Tiago apareceu a tiracolo.

- Caio, quero te apresentar meu namorado, Tiago Palmas.

- Oi Tiago. – Caio esticou a mão e ele educadamente aceitou – Já ouvi falar muito de você.

- Eu também já ouvi falar muito de você.

- Que bom, então não precisamos de formalidades não é? – riu e virou para Bruno – Cara, depois nós precisamos conversar.

- Precisamos mesmo. – Bruno apontou um canto e ele negou com a cabeça.

- Não posso. Tenho um monte de convidados para cumprimentar. Minha mãe convidou todo mundo que podia e mais um pouco.

- Vai lá então, depois a gente se encontra por aqui.


Tiago não gostou dele. Só não deixou tão claro em seu semblante, para que Leticia não perguntasse nada. Pediu para que ela esperasse um pouco, que iria procurar o irmão. Combinaram de se encontrar nas mesas reservadas.

Dennis ainda batia um papo animado com Felix. Ele parecia ser uma ótima pessoa, e formalidades foram deixadas de lado, assim que descobriram que gostavam de pescar.


Aline já tinha fugido da conversa. Não queria mais ter que ficar se explicando o que tinha que fazer, como deveria agir... Já não bastasse sua mãe falando, agora sua ex-sogra também? Não era com o filho dela, o que ela tinha a ver com aquilo?

Aproveitou que todos estavam distraídos, pegou uma taça de champanhe que passou por ela e foi procurar um lugar para descansar.


Encontrou um canto perto do palco, perto de uma das janelas. Não deu muito tempo, Tiago acabou chegando e encostando-se no mesmo canto, mas sem a ver. Aline o olhava e admirava. Teria que falar que estava ali em algum momento, mas depois da conversa que tiveram, o som da voz dele... Tiago sentiu-se observado e olhou para o lado. Tomou um susto quando a viu. Ter a chance de ser a única pessoa ali a admirá-la era uma sensação prazerosa. Ela era linda, em todos os sentidos. E ele, claro, um perfeito idiota.


- Não queria te atrapalhar.

- Não atrapalha não. – encostaram-se ao mesmo e colocaram as taças de lado. A janela estava entreaberta e a luz noturna só a favorecia. O olhar dela sempre seria hipnotizante para ele. Estava quase se jogando em algum arbusto para parar de pensar nela – Tá mais calmo?

- To. – sorriu – Obrigado de novo por ter me ajudado a raciocinar. Eu estava sufocado com tudo aquilo.

- Sem problemas. – pegou a taça de novo – Eu só queria entender porque você conversou logo comigo.

- Porque de alguma maneira você me traz paz. – falou de supetão. Ela se engasgou com a bebida e ele chegou perto para ajudar – Não to falando no outro sentido não. Desculpa. Mas é que, não sei explicar cara, acho que muito por você estar por fora de tudo, consegue pensar melhor.

- Ok. – respirou fundo e conseguiu parar de tossir – Eu não...

- Olha, você está com meu irmão. Eu, estou com sua amiga. Não tem porque ficarmos inventando coisas que não existem mais, certo? – ela apenas assentiu – Eu vi apenas como um braço amigo, que eu precisava encostar a cabeça e desabafar.


Esse era um lado de Tiago que Aline ainda não tinha conhecido. Um lado mais frágil, carente... Pedindo por ajuda. E por algum motivo, ela gostou dele daquele jeito. Ele era mais humano e mais sincero, do que o cara que queria fugir de um relacionamento. E agora com filho, a responsabilidade teria que vir de qualquer maneira.


- Vamos fazer o seguinte? – ela chegou perto, fazendo ele se afastar – Eu não vou morder. – falou entediada.

- Vai saber. – deu de ombros, olhou para ela e acabaram rindo – Pode falar.

- Que tal tentarmos ser amigos? – ele arqueou as sobrancelhas – É serio. Olha a situação em que a gente se encontra. Se ficarmos cheios de dedos para falar qualquer coisa, ligarmos escondidos, as coisas podem ser mal interpretadas.

- Verdade.

- Que tal?


Dennis estava rindo com Felix e suas historias. Tereza chegou junto ao marido, deu um beijo em sua bochecha e olhou para Dennis.


- Aline fugiu de mim. – fez um muxoxo, e os dois riram – Você ri? – apontou para Dennis – Vai ver só quando ela quiser fugir de um assunto, ou de você. Ela consegue, ela da o jeito dela, mas consegue.

- E pra onde ela foi?

- Boa pergunta. – olhou para o genro – Vai lá procurá-la, meu filho. Eu conheço o Caio. E ele já deve estar procurando por ela.

- Pode deixar.



Dennis se apressou o máximo que podia. O salão era grande e estava cheio, demoraria mais do que queria para encontrar com ela. Quando se deu conta, olhou para o lado, e ela e Tiago estavam apertando as mãos. O que eles dois estavam fazendo?