Dilemas

44 Capitulo 44


SEXTA FEIRA (NEGRA?)


Aline acordou pedindo misericórdia divina. Parecia que estava sofrendo de uma ressaca de marca maior. Olhava para os lados na esperança de acordar no domingo e não ter que passar pelos próximos dois dias que viriam. Não pelo comercial. Esse sim era o seu maior tesouro. Tinha ficado exatamente do jeito que queria.

Não queria enfrentar Dennis, nem Tiago, nem qualquer outra pessoa que a lembrasse que era uma tremenda idiota. Olhou para o celular ao lado da cabeceira e sem nenhuma mensagem de Dennis, sentiu que algo estava mesmo errado entre os dois. Ele não ligou e ela por consequência, e birra de adolescente também não. Orgulho nessas horas era um dos seus piores defeitos, mas não conseguia se desvencilhar com tanta facilidade.


Letícia por outro lado estava ansiosa. Já tinha levantado desde as cinco da manha e adiantou tudo que podia no apartamento. Colocou roupa pra lavar, preparou o café da manha das duas, tomou banho, arrumou a sala e trocou a roupa de cama de seu quarto. Isso primeiro antes de colocar tudo para lavar.


Assim que sentiu o cheiro do café fresco, Aline sentiu forças para levantar. Não estava nem ligando se parecia uma bruxa, ou uma doente envolvida no cobertor e foi do mesmo jeito para a cozinha. Letícia apenas ria. Balançou a cabeça apenas, na esperança de que ela lhe desse bom dia, ao invés de começar falando e tomar uma boa bronca.


- Não quero ir pra empresa hoje.

- O que aconteceu entre você e o Dennis? – virou já com o café em uma caneca e encostada ao balcão – Acho que está assim por causa dele.

- Estou é com uma baita dor de cabeça, cheia de dor no corpo, acho que vou ficar doente.

- Que fique. – Aline a olhou chocada – Mas não hoje, nem amanha. – olhou para o relógio – Vai logo tomar banho, quente por sinal, relaxa o corpo e depois termina de tomar café. – acabou tomando da mão de Aline – Temos um dia longo pela frente.

- Eu quero minha mãe.

- Todas nós queremos querida. – sorriu compadecida – E não foge do assunto. Teve algum problema com o Dennis?

- Vou tomar banho.


Letícia sabia que ela estava fugindo. E isso era motivo suficiente para querer se enfiar embaixo das cobertas e querer ficar por lá o dia todo. Aproveitou que ela estava em seu quarto, pegou seu celular e foi para varanda. Nada melhor que saber da historia, que não por Tiago.


CONDOMINIO MARTIN


- Sério mesmo Le? – ele olhava para o irmão sentado a sua frente tomando café com a maior cara de cachorro morto do mundo – A gente não tem nada a ver com isso. – Dennis levantou o olhar para ele já imaginando o que estavam conversando.

- Eu to achando ela estranha, só isso. Afundou a cara no trabalho ontem e ate entendo, porque tínhamos muita coisa pra fazer, mas depois que chegou no apartamento se fechou no quarto e nem deu boa noite direito. Hoje acordou com um humor que faria inveja ao zangado.

— Engraçadinha você. – ele riu e olhou para Dennis. Ele negou com a cabeça pedindo para não contar nada e Tiago o ignorou – Eles dois brigaram sim. – Dennis fechou a cara para ele. Tiago olhava as unhas fingindo que não estava vendo nada – Mas não to sabendo de muita coisa não. Dennis nem sempre me conta as coisas .

- Entendi. Então nos vemos de tarde na empresa. Quem sabe hoje podemos jantar.

- Seria ótimo. – olhou para o relógio e apontou para o irmão, que ignorou – Depois nos falamos. Beijo.

- Beijo.


Eles continuavam a tomar café da manha até que Dennis teve a ideia de ir ao apartamento delas. Já que pelo visto ela não estava bem, não poderia começar o dia, e logo uma sexta feira tão ruim assim com ela.


CONDOMINIO ANIMALE


Highway to Hell – AC/DC


Aline entrava em seu quarto depois de tomar um longo banho quente. Ligou o rádio e colocou na rádio que tocasse rock e esperava ter sorte na musica assim que ligasse. Agradou-se assim que ouviu os primeiros acordes. Se o dia era pra começar punk, que fosse uma musica mais pesada para tirar toda a negatividade que estava sentindo. Não parava de pensar que ela e Dennis nem tinham se falado ainda e a saudade dele era enorme. Tinha pecado um pouco em sair aceitando as ideias de Caio. No fundo, todo mundo tinha razão. Ela não o amava mais, isso era uma invenção descabida, mas queria mesmo esfregar na cara dele que tinha o superado, ainda mais depois dele tê-la agarrado naquele dia na garagem do prédio. Deus a perdoasse por aquilo, mas não pretendia contar aquilo pra Dennis, mas nunca!


Começou a se arrumar e Leticia apenas foi chegando devagar para ver a cena que se passava. Já ria da amiga que balançava a cabeça e com o pente fingia de microfone. Assim que ela fingia o som da guitarra, Leticia ia se empolgando e chegando perto. Quando Aline jogou outra escova para ela, as duas não paravam mais e cantavam e balançavam as cabeças que nem loucas pelo quarto. Subiram na cama e fingiam que estavam cantando para milhares de fãs.

Voltaram aos tempos de faculdade, nos karaokês da vida, onde se esbaldavam e bebiam a vontade. Riam de si mesmas, pois os cabelos já estavam estilo punk de tão bagunçados que ficaram.


A musica ainda rolava e Aline escolhendo a roupa no guarda roupa enquanto Leticia ainda arrumava o cabelo. Contaram o dia anterior uma para outra. Leticia aconselhou Aline a resolver logo o problema com Dennis antes que ficasse pior, e Aline pediu encarecidamente que Leticia não se envolvesse com Antony. Ele sabia ser muito persuasivo quando queria.


- Eu ouvi essa mesma frase dele ontem. – bufou.


No hall do prédio, Dominique procurava pelas chaves na bolsa quando o zelador abiu o portão para ela. Quando levantou a cabeça e sorriu, deu de cara com Tiago e Dennis a tiracolo. Deram bom dia uns para os outros e ela preferiu não tocar em nenhum assunto concernente ao relacionamento de ninguém. Os irmãos também preferiram ater-se ao bebe. Perguntaram tudo que podiam sobre a gravidez, para que não tivessem momentos desconcertantes dentro do elevador.


Always – Bon Jovi


Assim que chegaram ao apartamento estranharam o som alto tão cedo assim. Dominique sabia que existiam duas possibilidades para fazerem isso tão cedo num dia de semana: ou algo muito bom estava acontecendo, ou alguém estava muito na merda.


- E vocês podem ouvir musica alta assim aqui?

- Na verdade não. – ela abriu a porta – Mas tem regras que ninguém aqui obecede. O que é uma musica alta? – sorriu sem graça.


Tiago e Dennis não estavam entendendo nada. Na sala, pastas, documentos, assentavam-se pelo sofá, pelo chão, e pela mesa de jantar. O cheiro do café vindo da cozinha era sentido pelo apartamento todo. E o cheiro do pão quase pronto na maquina de pão também. Dominique nem se deu ao trabalho e saiu jogando suas coisas no primeiro espaço que viu.


- Isso é maldade delas. Não posso tomar café. – chiou – Mas posso comer pão. – olhou para eles que ainda permaneciam parados perto da porta – Vou ter que chutar a bunda dos dois pra dentro? – eles a encararam e ela gargalhou – Até parece que nunca estiveram aqui. Bom, vou pegar o pão, acabei de ouvir o barulho da máquina. E vou comer. Quem quiser me acompanhar, já sabe o caminho da cozinha.


E nenhum sinal delas. De repente uma Leticia cheia de livros na mão e cantando animada e alto suficiente para ser ouvido do outro lado da rua saía do quarto e assustava-se com os dois pamonhas parados ali.


- Como conseguiram entrar? – já saiu largando os livros na mesinha de canto ali perto e chegando perto deles.

- Nó... – Tiago não teve tempo de comentar. Ela o puxou pela nuca e o beijou com uma ânsia que deixou Dennis mais sem graça do que qualquer coisa. Ele não era de ficar sem graça – Acho que a musica te deu uma inspirada. – sorriu assim que terminou o beijo com um selinho – Isso tudo é saudade?

- Sempre. – nem Leticia podia dizer se isso era realmente verdade. Mas ela precisava daquele momento para ter certeza de que Antony não invadiria sua mente, muito menos seu coração novamente.

- Aline está ai? – Dennis interrompeu o momento meloso dos dois apontando para o quarto. Tiago ainda a tinha pela cintura e encarava seus olhos tentando focar em algo que ele sabia que Leticia estava escondendo – Hei. – chamou de novo e novamente foi ignorado – Entao vou eu mesmo.

- Não precisa. – Aline chegou logo em seguida terminando de prender a trança do cabelo – Estou aqui.


Definitivamente ela estava, Dennis pensou. E depois Tiago pensou assim que a viu. Leticia, ainda presa entre a realidade de estar nos braços de Tiago e em sua pequena conversa com Antony, não percebeu, mas Tiago olhava Aline com admiração e desejo.

Mas se tinha uma pessoa que tinha percebido tudo e mais um pouco, essa era Dominique. Ela apenas riu sozinha da situação mais embaraçosa que quatro pessoas poderiam se enfiar, foi na geladeira, pegou um suco e partiu para a varanda.


Para ver como o momento era tenso, Dominique passou por todos e nem sequer foi notada.


- Posso falar com você um minuto? – Dennis ainda a olhava. Ela estava ainda mais linda do que nunca.

- Pode. – ela se virou e foi andando em direção ao seu quarto.

- Ainda temos tempo? – Tiago olhava para o relógio.

- Temos sim. Vocês chegaram cedo. – Leticia olhou e viu a grávida sentada na cadeira – Epa, nem tinha te visto aqui.

- E isso porque to grávida. – reclamou e todos riram – Mas eu entendo, com um namorado lindo, um olhar desses, um perfume cheiroso desses, é meio complicado mesmo reparar na amiga com uma melancia na frente do corpo.

- Vou aceitar isso como um elogio. – Tiago riu – E você nem está com uma melancia.

- Ainda. – Leticia comentou – Vamos tomar café.

- Mas eu já tomei.

- E eu to comendo.

- Problema de vocês que não mandei saírem comendo antes de virem para ca. Nem que fiquem sentados me olhando comer, mas vão. – o ar imponente fez os dois baixarem até os ombros e a seguiram para a cozinha.


No quarto de Aline...


- Achei interessante o modo como começam o dia por aqui. – Dennis sorria – Ainda não tinha visto essa situação.

- Pois é. – Aline pegava algo em cima da cabeceira e jogava dentro da bolsa – Há minutos atrás estávamos cantando “highway to hell” em cima da cama e pulando iguais duas doidas.

- Jura? – ele sorriu – Queria ter visto isso.


Aline já estava caminhando em sua direção oposta e de costas. Dennis delicadamente a puxou pelos dois braços e a aconchegou perto do seu corpo. Assim que passou as mãos de cima pra baixo, das mãos ate os ombros, resolveu não aprofundar mais nada. Apenas apertou seus ombros como se fosse massageá-la e a soltou.

Quando ela se virou, ele já estava sentado na beira da cama. Ela sentou ao seu lado e ficaram uns minutos em silencio. Não sabiam mais quem tinha que pedir desculpas primeiro.


Encararam-se e só com os olhares pediram desculpas um para com o outro. Dennis aproximou o rosto do dela e assim que ela fechou os olhos, desistiu. Levantou e sentou do outro lado.


- O que houve?

- Você não me ligou ontem. – constatou um fato. Ela engoliu em seco e virou para olhar o rádio.

- Você também não. – pegou o controle remoto e diminuiu o volume – O que nos deixa quites.

- De certa forma sim. Eu fiquei meio louco com o que tinha acontecido. – já que parecia que ela não iria ceder primeiro, resolveu começar logo. Orgulho de homem? Que fosse tudo pro espaço. Chegou perto e agachou-se em frente a ela – Desculpa vai. – pegou suas mãos e beijou uma de cada vez – Eu não devia ter reagido daquela maneira, não depois do que fiz você passar.

- Tudo bem. – tirou uma das mãos e passou em seus cabelos, depois pelo seu rosto – Eu também não deveria ter feito o que fiz. Acho que foi só uma reação a raiva intensa que sentia por dentro. – tentou disfarçar.

- Tem certeza que é só isso mesmo? – ela assentiu incerta. Mordeu o lábio inferior e não o encarou – Aline? – sentou ao lado dela – Tem certeza?

- Por que fica me pressionando Dennis? – puxou as mãos e tentou se levantar, mas ele não deixou – Para com isso.

- Para de fugir. – fê-la encará-lo – Olha nos meus olhos e me conta a verdade.

- Eu não amo o Caio, entenda. – tentou segurar o olhar – Mas eu preciso que ele entenda que segui em frente. Preciso disso para continuar minha vida feliz, sem ficar imaginando que cada vez que eu tiver uma briga, um problema, ele sempre vai ser a minha receita de desastre.

- Ele te traumatizou tanto assim? – Dennis percebeu a angustia dela. Aline segurou o choro e tentou esboçar um sorriso.

- Eu achava que ele era o amor da minha vida. Droga, eu aceitei casar com ele. Tem noção disso? – Dennis assentiu, mais para tentar compreender do que de fato sendo conhecedor daquele tipo de sentimento. Ele a amava sim, mas ainda não tinha cogitado essa possibilidade tão pra frente na vida deles dois.

- Aline. – acariciou seu rosto – Ele é passado. Você está comigo agora. E nós vamos lutar para continuarmos juntos. Ok?

- Vamos mesmo? – perguntou incerta novamente – Mal começamos um relacionamento e já quase nos engalfinhamos duas vezes.

- Pelo menos não caímos na rotina. – tentou ser engraçado e não deu certo – Desculpa. Desculpa. – chegou mais perto fazendo com que sentasse em seu colo. Acariciou novamente seu rosto tentando dar algum tipo de conforto – Só fiquei chateado porque tínhamos decidido tomar decisões juntos e deu no que deu. Mas já passou. Principalmente depois do que disse, não tem como eu ficar bravo nem nada disso.

- Eu que tenho que te pedir desculpas. Devia ter conversado sobre isso com você. – pegou o rosto dele entre suas mãos e deu um beijo em sua testa – Meus problemas não tem nada a ver com nosso relacionamento.

- Mas claro que têm. – apertou-a mais forte contra si – Nós somos um. Entenda isso. Eu estou aqui pra te ouvir, conversar, aconselhar, para que possamos caminhar juntos.

- Eu te amo. – falou já encarando-o ternamente.

- Eu também te amo. – replicou, passou novamente a mão pelo rosto dela e a puxou pela nuca.


Um beijo sempre era bom para tentar aliviar a tensão. Aline queria mesmo que esse assunto terminasse ali para não ter que prolongar a situação. Já era muito difícil ter que se lembrar que tinha uma parcela grande de culpa naquela história toda, mas contar a Dennis sobre o que tinha acontecido com Caio seria demais. Provavelmente eles terminariam, e ela não queria isso.

Dennis sabia que ela o correspondia mais para aplacar a situação do que por amor mesmo. O beijo era gostoso, não podia negar, mas era diferente do que costumavam dar. Assim que ela se ajeitou mais em seu colo, puxou os dois para cama para que deitassem um ao lado do outro. Queria começar do zero. Queria outro beijo sem significados e desculpas. Queria um beijo sincero, terno... Da parte dos dois.


- Amor... – tentava terminar, mas ela estava determinada naquele momento – Precisamos trabalhar.

- O trabalho pode esperar um pouco. – ficou a centímetros do seu rosto – Se não fosse pelo comercial hoje... – deu um selinho – Nós iríamos ter que nos atrasar bastante. – já falava perto de sua orelha. Soltou um ar quente que o fez acordar. Em todos os sentidos. Assim que ela mordiscou de leve e puxou um pouco seu lóbulo, foi as alturas. Ela queria provocar. E estava conseguindo.


Não era a maneira mais própria para selar um acordo. E no fundo não estava se sentido a melhor das mulheres por agir daquela maneira, mas ou fazia aquilo, ou teria que passar por sessões de interrogatório. O que não queria no momento mesmo. E provavelmente, nem tão cedo.


- Isso tudo é pra me convencer a ir a festa do seu ex com você? – ela parou automaticamente o que estava fazendo e tentou se fazer de ofendida, mas o olhar dela não conseguia enganar o que Dennis já tinha sacado – Depois da nossa conversa, você não precisa fazer isso pra me convencer. – ele estava um pouco decepcionado. Poderia dizer que seu lado homem-biológico estava pouco lixando pro que ela fazia. Podia terminar o serviço ali mesmo, que ele se atrasaria para o trabalho com o maior gosto possível. Mas seu lado homem-racional com certeza já tinha entendido desde o inicio o que ela pretendia.

- Acha que sou esse tipo de mulher?

- Não sei. – eles dois já se encaravam novamente e mais afastados – Me diga você.


Ela levantou rapidamente. Passou as mãos pelos cabelos tentando não surtar novamente, mas cada coisinha que ele fazia não lhe ajudava nem um pouco.


- Não precisa ficar insegura, meu amor. – ele levantou e a puxou pela cintura de novo – Fica calma.

- Não é insegurança Dennis. – tentou se soltar, mas ele não deixou – É que... É que...

- Eu vou com você. – ele setenciou – Se é isso que não esta te fazendo dormir. Que seja, nós vamos. – deu de ombros o que a fez se sentir ainda mais mal. Por que diabos foi inventar aquela historia de festa?

- Não ficamos muito tempo. Eu falo com minha ex-sogra, ela faz o discurso dela e a gente vai embora.

- Nada disso. Se a festa estiver boa, eu vou aproveitar. Não é todo dia que temos essa boca livre não.

- Engraçadinho. – beijaram-se novamente. Ainda não era o beijo que costumavam dar, mas pelo menos foi mais sincero do que o anterior.


Chegaram a sala, e Dominique estava com as pernas pra cima, enquanto Leticia e Tiago terminavam de arrumar a mesa de café da manha e secar a louça.


- Deu pra ser acertarem? – Dominique comentou – Acho que sim. Estão de mãos dadas e sorrindo.

- Deu sim sua grávida intrometida. – Aline a puxou para levantar e lhe deu um abraço.

- Agora vamos, que temos muita coisa pra arrumar antes da apresentação. – Leticia comentou – E vocês dois marmanjos vão nos ajudar a levar esse monte de caixa para o carro da Aline.


Richard Marx – Now and Forever


Após se despedirem, Aline entrou no carro, Leticia no banco do lado e Dominique no banco de trás. O silencio ainda imperava, já que não queriam comentar sobre o ocorrido. Letícia não sabia o que tinha acontecido, achou que estava tudo bem entre eles, e sim que o problema seria com Tiago. Pelo visto, não.

Dominique, por outro lado, olhava pelo retrovisor para saber se Aline estava bem. O engarrafamento se estenderia por uma hora, no mínimo. Afinal, toda sexta-feira no Rio de Janeiro o transito era o verdadeiro caos.


- Eu sei que ninguém aqui está com vontade de tocar no assunto, mas aconteceu alguma coisa entre você e Dennis? – Leticia a encarou. Aline apenas bufou – E foi de ontem pra hoje, porque eu não percebi nada de diferente até hoje.

- Nós brigamos e já nos resolvemos. – Aline respondeu seca. Dominique preferiu pegar seu celular e fingir que não estava ali.

- Foi por causa do Antony? – Aline fez que não – Então foi por que?

- Por nada Leticia. Já está resolvido.


Tudo bem que ela não queria comentar o assunto, mas tinha algo estranho. Eles estavam tão bem no começo da semana, porque agora estariam assim? Letícia olhava pela janela e pensava em todas as possibilidades. Aline não era tão indecifrável assim para esconder com toda essa facilidade. Não tinha conseguido esconder do Matias.... Ponderou mais um pouco e xingou mentalmente Aline e Dominique que ficavam ouvindo JB fm. Essas musicas depressivas logo de manha cedo estavam acabando com seu bom senso. Dava vontade de chorar com Richard Marx sendo o homem impossível da vida das mulheres. Eureca! Homem perfeito, Aline, Dennis, amanha era sábado!


- Dennis se irritou com você por causa da festa do Caio não é? – Aline freou o carro quase batendo no da frente.

- Não é pra matar a grávida aqui não! – Dominique quase berrou e Aline se acuou. Olhou para ela pelo retrovisor e pediu desculpas com os olhos – Tá, desculpo. Mas presta atenção. Não pode deixar ponta solta, ela vai descobrir.

- Entao é isso mesmo não é? – Leticia ria vitoriosa – Achei que tinha falado com ele antes de aceitar.

- Eu fiz besteira. E foi braba! – prendeu o cabelo em um coque malfeito, porque mesmo com o ar condicionado, Leticia a encurralou, deixando-a sem ar – Mas ele já me desculpou. Conversamos e resolvemos o problema. Ele vai comigo, falo com a mãe do Caio e acabou.

- Como se fosse fácil assim. – Leticia largou o celular perto do porta luvas – Caio está doido para voltar para você.

- Eu falei isso pra ela, mas ela não me ouve.

- Não é bem...

- Claro que é. – Leticia a cortou e enfatizou mais – A mãe dele sempre gostou de você. Sempre te achou a mulher certa para ele se ajeitar na vida. E agora que te perdeu de vez, está doido para consertar a besteira e vai usar a mãe dele de trunfo.

- E os pais dela também.

- Olha, não estou aqui para ficar ouvindo ninguém me dar sermão. – chiou e trocou a radio – Eu não amo mais o Caio. Eu amo o Dennis. Ponto.


Mal sabia Leticia e Dominique que a semana estava indo de mal a pior para os dois. Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Ela estava conseguindo destruir seu mundo no mesmo espaço-tempo. Será que no sétimo ela teria alguma recompensa produtiva?


MP


Diana já estava na empresa desde as sete da manha. Depois de muito pensar por onde deveria começar, e depois de ter organizado um pouco as ideias, conseguiu se focar em um cliente. Stolt que a desculpasse, mas ele não era o único cliente da empresa.

Quando se deu conta, a servente já entrava com algo para ela comer.


- Desculpa dona Diana, mas Helena pediu para trazer esse sanduiche pra senhora. Ela disse que a senhora está aqui desde as sete.

- Ah obrigada! – sorriu e a servente levou direto para a mesinha perto da janela – Pode deixar ai que já como. A Helena ta ai?

- Sim.

- Pode chamá-la?

- Claro.


Assim que ficou sozinha novamente, tirou os óculos e encostou-se a cadeira. Percebeu que já estava há quase duas horas naquela posição. Seu celular tocou e checou a mensagem. Era Charles, claro.


“Passei a noite pensando em você. Acho que nem dormi.”


“Vai estar super revigorado para a reunião mais tarde.”


Helena entrou em sua sala e ela pediu que sentasse. Sorriu involuntariamente quando viu outra mensagem dele. Preferiu apenas dizer que estava atolada em suas pastas e que conversariam mais tarde.


- Bom dia. – sorriu para assistente – Teremos um dia corrido hoje.

- Sim. – Helena sorriu – Precisei rever a agenda apenas para uma reunião, consegui trocar para terça –feira, mas o cliente Carlos Medeiros, aquele que Aline teve reunião outro dia, vai vir com uma hora de atraso.

- Isso quer dizer que vamos atrasar a reunião do comercial.

- Isso. Eu estava apenas esperando dar uma certa hora para poder ligar para o Sr. Roich...

- Não precisa. – Diana a cortou naturalmente – Eu falo com ele. Só avisa a Aline que a reunião mudou.

- Ok.

- Preciso que reserve o Le Chic para um jantar hoje as oito horas. Duas pessoas.

- Ok. – Helena ia anotando.

- Depois, preciso que já reserve duas passagens para uma viagem no final do ano. Natal e Ano Novo. Estou pensando em Fernando de Noronha. Dez dias.

- Algum hotel específico? – ela continuava a anotar – Volta então dia 2 entao.

- O hotel você pode ver com Aline. Porque tem uma questão de pagar por estadia por lá, ela que viu da outra vez que fiquei, mas foram apenas três dias. Não sei como vai ser com dez. Ela te explica e daí você reserva. Se for muito complicado, três dias eu sei que dá. – riram – Ai você me vê o hotel que fiquei em Fortaleza, só não lembro o nome, mas muito bom também.

- Eu vejo com Aline. – levantou-se assim que viu Diana concentrada no computador – Mais alguma coisa?

- Por enquanto não. – olhou para ela – Quando Aline chegar, pede para ela vir aqui.

- Ok.


PP


Charles também tinha chegado cedo. Depois de conversar com Diana por mensagem, e saber que a reunião atrasaria por causa de outro cliente dela, resolveu se concentrar um pouco em seu trabalho. Falou com seu tio, já querendo saber que horas chegaria para a reunião.


- Aconteceu alguma coisa?

- Diana me ligou. Disse que tem uma apresentação para um cliente, mas que ele atrasou por causa de engarrafamento... Enfim... Como eu liberei nosso dia por aqui, tenho uma teleconferência com um fornecedor e depois fico esperando o senhor.

- Esse engarrafamento está atrasando todo mundo mesmo. Devo chegar ai mais ou menos com uns quarenta minutos de atraso.

- Os meninos não chegaram também. – Dennis e Tiago adentravam a sala – Esquece o que eu disse. Acabaram de chegar.

- Te vejo daqui a pouco.


Dennis e Tiago já entraram rindo de assuntos aleatórios. Os amigos da faculdade queriam fazer uma festa e estavam chamando todos que ainda moravam no Brasil. Depois fofocaram sobre a viagem de Diana e Charles e apostaram se ele estaria de bom humor pela apresentação do comercial, ou se por ele ter ficado com Diana. Pronto, Dennis já tinha propagado sua dúvida sobre o relacionamento dos dois.


- Bom dia primo. – Tiago começou – Já estava falando mal da gente pro pai?

- Ainda não me deram motivos pra isso. – sorria – Todo mundo está chegando atrasado por causa do engarrafamento.

- Normal. – falaram os três ao mesmo tempo e riram.

- Pois bem. – Charles puxou uma pasta – O dia de vocês está tranquilo?

- Sim. – Dennis respondeu – Você pediu que deixássemos tudo livre para poder focar nessa reunião com Diana.

- Com ela e comigo. Eu vou resolver uma pendência com um dos nossos fornecedores e depois quero um relatório do que fizeram na minha ausência.

- Sr. Roich. – a secretária adentrou a sala – Marcos esta esperando na linha. Já está tudo pronto na sala de reunião.

- Pois bem, já estou indo.

- Já posso adiantar que consegui a campanha de tênis. – Dennis já se levantava com Tiago.

- Que ótimo! – Charles sorriu – Isso é bom para você e ruim pro Tiago.

- Ruim pra mim, porque?

- Por que seu irmão vai ficar atolaod e você vai ter que pegar o trabalho dele na campanha do Stolt!

- É... – olhou pra Dennis ainda meio a contragosto – To sabendo.


MP


As meninas chegaram com quase uma hora de atraso. Diana já tinha se preparado para tudo isso. Carlos Medeiros estava na sala de reunião terminando a reunião com ela. Helena a avisou sobre e ela apenas assentiu.


- Tudo bem. – deu as chaves do seu carro – Pede, por favor, para um dos meninos da expedição buscar as caixas que estão no meu carro e levar para a produção. Entrega a Jen, elas sabem o que fazer.

- Ok. Vou ver se acho a Amanda pra fazer isso, porque Diana me pediu um monte de coisas para a reunião com o Sr. Medeiros.

- Tá.

- Bom, eu to indo para o meu setor, que já deve estar um verdadeiro caos. – Dominique passou batido e foi para sua sala.

- Eu vou checar meus e-mails. – Leticia pegou a bolsa de Aline – Passa lá da produção e vê se está tudo ok.


Antes de conseguir sair, Amanda encontrou com Aline e mais um monte de pastas para assinar. Enquanto ela analisava o que tinha mais urgência, Carlos saiu com Diana para comerem alguma coisa na cafeteria.


- Querida! – ele chegou já de braços abertos com Diana – Muito transito?

- Nem fala Carlos. – o abraçou em retorno – E a reunião?

- Ótima. – ele sorria – Diana apresentou as ideias de vocês. Gostei de muitas delas. Mas estou sabendo que há uma reunião grande vindo mais tarde, então vamos tomar café.

- Claro. Que pena que não consegui chegar antes.

- Não se preocupe. Diana é um tesouro. – sorriu.

— Carlos, pode esperar só um segundo? Eu preciso ver um assunto de um minuto com Aline antes de descermos.

- Pode deixar.


Diana e Aline foram para a sala dela. Enquanto Aline ainda tentava organizar as pastas em sua mão, Diana pegou mais uma e colocou em seu colo.


- Como não estamos com muito tempo, preciso que reveja esse contrato com Dominique. Já esta assinado pro caso de já estar certo. Depois pode enviar para São Paulo.

- Ok.

- O comercial?

- Vou na produção checar se já enviaram para finalização. Pelo que conversei ontem com os meninos, está tudo certo.

- Que bom. Vou tomar um café com o Carlos na cafeteria aqui embaixo. Ele quer me falar algo sério e não acho prudente conversar aqui na empresa. O clima hoje está tenso e corrido demais para atrapalhar um assunto sério.

- Pode deixar. Vou deixar tudo pronto.


Uma hora depois já estavam todos na empresa. A correria era normal nesses tipos de empresa, mas hoje a coisa ia muito mais além. Manoel foi o primeiro a chegar com Charles. Ficaram um tempo esperando na recepção, quando Amanda os encontrou. Apresentou-se e os encaminhou para a sala de reunião. Quando viram o projetor já terminando de ser instalado no local, acharam que tinham chegado até cedo.


- Não se preocupem. É que precisamos trocar por esse, porque o outro deu crise e não quis funcionar de jeito nenhum. Querem um café, uma água?

- Aceito um café. – Manoel pediu e Charles apenas negou com a cabeça.

- Já volto.


Acomodaram-se nas cadeiras, que estavam dispostas em forma de plateia.


- Só tem mulher bonita nessa empresa, ou é impressão minha?

- Tio. – Charles advertiu – Ela é assistente de Aline. Vamos com calma.

- Você é pai dela, por acaso? – Manoel o advertiu – E ela bem ficou olhando pra você que eu percebi.

- E daí? – a essa altura já sussurravam – Voce sabe que Diana não vai gostar nada disso.

- Eu só estou comentando Charles. Deixa de chatice. – Manoel sorria – Não tem problema, eu posso chamá-la para sair.

- Tio. – falou um pouco mais alto chamando a atenção dos empregados a frente – Desculpa.


Aline ainda estava conversando com Dominique e Mariana no financeiro. O contrato já tinha sido encaminhado para São Paulo via fax, já que estava todo certo e só estavam esperando uma resposta da diretoria para que pudessem liberar o documento original pelos correios.

Amanda as chamou, indicando que Manoel e Charles já estavam na empresa e Aline pediu a ela que avisasse Diana.


Na porta do prédio, Dennis e Tiago conversavam sobre o ocorrido. Tiago não queria muito se preocupar com o irmão, muito menos se envolver no relacionamento dele, mas ficava compadecido dele estar perdido com relação a Aline.


- Mulher é um bicho complicado cara. – entravam no prédio – Quanto mais a gente tenta entender, mais dar merda.

- Eu sei que deveria ter conversado mais sobre isso ontem, mas é que fiquei tão irritado, que preferi dormir.

- Bom, quando te vi na sala já achei que tinha problema. – deu de ombros – Mas a gente se conhece e sabe quando um o outro não querem falar. Resolveu pelo menos?

- Resolvi.

- Que bom! – pegaram seus crachás e já se encaminhavam para o elevador – E o Antony?

- Ele é gente boa. Mas acho que tem alguma coisa estranha. Depois das exigências dele, do nada aceitar a campanha?

- Acho que ele quer Leticia de volta. – a porta se abriu – Mas não vou deixar ele ficar com ela não.

- Tá certo. – Dennis ria – Tem que cuidar do que é seu.

- Falo o mesmo pra você. – olhou para o irmão – Aline já tinha comentado comigo sobre esse cara. – Dennis olhou de canto de olho pra ele – Antes de ficar com você, cabeçudo. – bufou – Ele também não vai desistir dela.

- Por isso que vamos a festa dele. – sorriu malicioso – Ele não me conhece. Tenho meus meios.

- Claro que vamos. LEticia disse que vai ser uma festa enorme. Acha mesmo que vou perder essa boca livre? – gargalharam – Mas não vou mesmo.


Tiago não estava mentindo. Ele queria mesmo ir aquela festa. No fundo sabia que não podia estar pensando aquelas coisas, mas o desejo dele era conhecer o cara que deixou Aline daquele jeito. Foi por causa dele que ela fez o que fez. Ele já não se isentava mais de culpa com relação aos dois. Na verdade, queria mesmo era voltar no tempo e consertar a burrada que fez com ela, mas as coisas não eram mais tão simples assim. Mesmo assim, era bom conhecer de perto aquele ser humano imprestável. Sim, ele já não ia com a cara dele sem conhecê-lo, quiça agora que sabia de toda a confusão.


Chegaram ao andar e assim que deram dois passos, Helena os encontrou. Assim que o viu, ela engoliu em seco. Como poderia estar mais bonito do que na época da faculdade? Ele, obviamente não a reconheceu. Já tinham se passado alguns anos e agora ela já tinha feito plástica no nariz e tinha deixado o cabelo crescer, clarear mais...


- Bom dia. – chegou sorrindo – Tiago Palmas. – esticou a mão e ela apenas sorriu esticando a mão para não dar mais bandeira. Dennis já tinha desconfiado assim que ela arregalou os olhos.

- Bom dia.


Touché. Não era por nada ligado a reunião, nem a empresa, ela conhecia Tiago. Olhou para tentar descobrir se a conhecia também, mas não tinha como se lembrar de todas as mulheres que Tiago teve. Não lembrava direito nem das dele....


- Já estão todos indo para sala de reunião, vou deixá-los lá. – virou-se para indicar o caminho, quando Leticia chegou.

- Não precisa Helena. – ela sorria para os dois – Já estou indo para lá e vou com eles.

- Ok. – ela sorriu sem graça e Leticia pegou Tiago pelo braço.

- Vamos?

- Claro.


Continuaram andando em direção a sala de reunião. Tiago, alheio ao que o irmão pensava, conversava e marcava com Leticia de saírem no final do dia com o pessoal da faculdade dela. Alguma reunião, festa de despedida, ou qualquer coisa do tipo. Olhou para trás para checar o incomodo em sua nuca e claro que ela estava ali parada e olhando como uma estatua.


Helena se deu conta de que Dennis tinha desconfiado de algo assim que ele se virou para olhar. Engoliu em seco, abaixou a cabeça e virou rapidamente para sair dali.


- Onde está Aline? – Leticia já tinha entrado quando Dennis segurou Tiago pelo braço.

- Posso falar com você um minuto? – acenaram para todos da sala e Tiago estranhou.

- Ela esta na produção. – Diana falou ao fundo – Vai lá buscá-la, Letícia.

- Pode deixar. – olhou para os dois parados ao lado da porta cochichando e estranhou – Fofoca pra mais tarde, por favor. – sorriram sem graça para ela.


Assim que ela saiu do olhar deles, Dennis voltou a olhar o irmão e em volta para checar se tinha alguém ouvindo.


- Acha mesmo que eu vou lembrar do nome de toda garota que fiquei?

- Ah, me poupe, não somos tão canalhas assim... – cruzou os braços e Tiago ergueu a sobrancelha – Ok, nós éramos, mas eu lembro do nome de algumas...

- Eu nem vou comentar isso... – riu – Vai que ela me viu em uma capa de revista, me acha gato, tem uma paixão platônica e tal?

- Desculpa, não sabia que você fazia parte de nenhuma boyband. – falou sério e Tiago riu – Menos Tiago. Menos.

- Ué, não sei cara! – arqueou os braços – Não lembro de ninguém com esse nome.

- Puxa na memória. – cutucou a testa do irmão – O olhar dela não foi dos melhores.

- Vocês dois vão ficar ai fora? – Charles apareceu sério na porta – Vão absorver as coisas por osmose? – acabou rindo – Entrem logo.


Aline e Letícia chegaram logo em seguida. Todos se cumprimentaram e entraram na sala de reunião.


MEIA HORA DEPOIS


A reação de Charles e Diana eram essenciais. Depois de todos apresentarem suas ideias e projetos ao que Stolt queria, veio o tão esperado comercial.

Era menos de um minuto, mas que pareciam uma eternidade para Aline. Dennis e todos os outros estavam impressionados com o resultado final. Ele pegou sua mão e a colocou em seu colo, como forma de tentar aliviar sua tensão. Manoel sorria orgulhoso. Todo aquele trabalho resultou em um dos melhores comerciais que ele já tinha visto.


Terminado o comercial, Diana e Charles se entreolharam sorridentes. Seus garotos tinham conseguido o marco que necessitavam para fechar a parceria de vez.


Tiago estava orgulhoso dela. Já tinha percebido que tinha um talento nato, mas a comprovação estava bem ali em sua frente.


Aline levantou e se posicionou em frente ao projetor assim que as luzes se acenderam. Letícia percebeu o olhar admirado que Tiago lançou a sua amiga. Tinha orgulho dela sim, mas sentiu uma pontada de inveja por não ter recebido aquele olhar para ela. Dominique estava feliz pela amiga. Diana e Charles levantaram junto com Manoel e bateram palmas para ela, que ficava sem graça em frente a eles. Acabou chamando Dennis, Tiago e Leticia também. Afinal, todos mereciam aquelas honrarias.


- Obrigado, obrigado. – Tiago agradecia como artista de palco – Os autógrafos são depois que sairmos aqui gente.

- Palhaço. – Dennis lhe deu um tapa na cabeça – Eles bateram palmas pra Aline, não pra você.

- Ah, mas ela me chamou também. – se indignou e todos riram – Eu mereço também.

- Todo mundo merece. – Aline falou – Afinal, todos nós trabalhamos em conjunto.

- Isso é verdade. – Manoel comentou – Estou orgulhoso de vocês. – chegou perto dos filhos e deu dois tapinhas no rosto de cada um – Vamos ver o que o Stolt acha.

- Ele vai adorar! – Diana comentou – Não é Charles?

- Claro que vai. – também estava orgulhoso dos meninos.

- Mas, não podemos ficar cantando vitoria antes. Mas temos que concordar que ficou muito bom mesmo e que tal comemorarmos em algum lugar? Um jantar talvez... – Diana

- Seria ótimo. – Charles concordou – Que tal o Pampa?

- Por que o Pampa? – Dennis olhou para o primo – Ta doido pra dançar não é?

- Que dançar o que! – Charles tentou fugir do assunto e Diana tentou não rir – Vamos ou não vamos?

- Eu já marquei de ir com a Leticia com um pessoal da faculdade dela. – Tiago comentou e puxou Leticia para o lado dele.

- Eu estou grávida e cansada gente! – Dominique se pronunciou – Bruno vai me buscar no final do dia, tenho uma consulta com a médica.

- Eu to velho. – Manoel comentou e todos olharam pra ele – To velho mesmo. Quero musica eletrônica nos meus ouvidos não.

- Eu to falando pra gente jantar. – Charles parecia criança. Dennis olhou pra Aline, que deu de ombros. Não iam mais jantar com os pais dela, então poderiam ir com eles – Podemos ir em outro lugar.

- Conheço um lugar legal. – Diana comentou já pegando suas coisas – Que tal passarem aqui umas sete horas?

- Sete? – Dennis olhou para Aline e ela apenas riu – Vão fazer serão em uma sexta?

- É, vamos. – Diana comentou e Charles riu sem acreditar.

- Vai gostar de trabalhar assim.


Na empresa de Bruno


Estavam todos reunidos na grande sala do escritório. Duas garrafas de champanhe abertas na mesa e todos os funcionários envolvidos no projeto com taças em suas mãos. Em frente a todos, o diretor geral e Bruno olhavam a todos orgulhosos por mais um projeto conquistado.


- Hoje é mais uma etapa que vencemos aqui. – o diretor começou – Estamos felizes por termos trazido Bruno Costa para o nosso time... – olhou para o funcionário ao seu lado – Felizes pela matéria que tivemos na revista de engenharia e a repercussão que teve no Evento Nacional de Engenharia... – chegou mais perto de Bruno – E mais ainda por termos conseguido mais duas obras, dois clientes grandes para nossa empresa!


Todos vibraram. O diretor ergueu a taça e todos fizeram em sucessão. Assim que Bruno terminou de tomar a sua, o diretor o puxou de novo. Chegou mais para o canto enquanto todos eram servidos e comemoravam mais dois projetos.


- Já que estamos em clima de comemoração... – Bruno colocou a taça de lado e parou para prestar mais atenção a ele – Você já esta chefiando essa área.

- Sim.

- Gostaria de saber se você quer ser sócio! – ele arregalou os olhos. Uma coisa era ser gerente da filial no Rio de Janeiro. Outra coisa era se tornar sócio! Novo como ele era – Claro, que isso demanda mais tempo, mais horas de trabalho, pelo menos até você ter completa noção do funcionamento da empresa aqui e em outros países.

- Isso quer dizer que eu vou precisar viajar muito mais? – Bruno perguntou da forma mais calma que poderia falar naquele momento. Dominique não ficaria nada feliz com isso.

- Seria algum problema?

- Não necessariamente. – resolveu ser franco – É que a Dominique está grávida Alvaro. E tem sido uma gravidez difícil, complicada, não queria deixar ela de lado quando mais precisa.

- Entendo. – Alvaro ficou serio por um momento – Clarice também ficou chateada quando consegui a promoção. Disse que eu ia viajar demais. Passei por quase o mesmo problema, a diferença é que Melissa tinha apenas dois meses.

- Eu fico muito feliz pela sua oferta, mas não sei se sou capaz de dar conta assim tão rápido.

- Dar conta eu sei que você vai. – ele já sorria – Mas não pretendo perde você pra mais ninguém no momento. Ou pelos próximos quinze anos. – riram – Só que para o que estou pretendendo, você precisa de um cargo mais alto do que o que tem. Mais autonomia para controlar coisas que não vou poder mais controlar.

- Vai se aposentar?

- Claro que não! – gargalhou – Acho que morro nessa empresa! – riram novamente – Vou falar com os outros sócios. Temos uma reunião na segunda-feira em Londres. Vou ver se te dou o meu cargo e finalmente assumo o meu.

- Como assim? – ele se assustou – O seu cargo?

- Sim. – olhou para os outros funcionários e se afastou ainda mais com ele – Acontece que eu sou sócio. Você sabe disso. Acho que todos sabem. Mas sou sempre tratado como diretor geral, porque tomo conta de duas filiais aqui no Brasil. A do Rio e a de São Paulo.

- Eu to sabendo.

- Só que também tomo conta da Espanha. E isso está ficando pesado. Pra mim e para o Omar. Ele toma conta dos outros estados aqui no Brasil e ainda cuida do México.

- E você pretende que eu fique com o Brasil só pra mim?

- Por ai. – ele ria – Claro que você vai precisar indicar duas pessoas para te ajudar. Porque como sócio, ao longo do tempo, você vai receber os países próximos ao Brasil. Essa é nossa intenção final. Eu já to ficando velho. Melhor ficar com um país só e o Omar também.

- Falando assim, parece que estamos jogando War. – gargalharam.

- Não deixa de ser verdade. A empresa é mundial. Te considerar como sócio foi unanime, porque sabemos que você já viajou para vários países e trabalhou em vários projetos. Mesmo tendo ficado um bom tempo na Inglaterra.

- Alvaro, você não sabe como fico feliz com isso! – ele o abraçou – Mas para ser sócio, não precisaria entrar com algum capital?

- Não vamos pensar nisso no momento. Nem é necessário. Estou tentando mudar umas coisas com os sócios antigos. Fazer como firma de advocacia. Seu capital é seu trabalho. Eles ainda estão meio avessos, mas sei que vão aceitar.

- Se der certo comigo...

- É um passo para colocarmos mais alguns como você nessa empreitada. Ficamos com menos serviço, e todos saem ganhando. – sorriu – De qualquer forma, você ainda responde aos sócios mais antigos, nesse caso, a mim e ao Omar.

- Depois de toda essa conversa, não tem como não aceitar não é? – Alvaro o puxou para um abraço.

- Vamos fazer assim. Dominique vai ter o bebe quando?

- Até o meio do ano que vem.

- Ah você tem tempo então! – ficou todo feliz – Eu consigo segurar ainda por um tempo. De qualquer forma, vou precisar que viaje um pouco mais. Mas te falo com antecedência para poder programar com ela.

- Ok.


Bruno não poderia ficar mais feliz. Mesmo trabalhando para conseguir uma promoção, nunca imaginou que conseguiria chegar tão alto. Nem era seu objetivo na vida chegar a tanto, a não ser que abrisse sua própria firma. Mas aquilo era alto demais. Visualizar isso a frente o deixava extasiado.


Pensou em logo ligar para Dominique e contar a novidade. Mas algo o impediu. Olhava para o celular imaginando como seria sua reação. Nenhum dos seus colegas sabia ainda e ele prometeu manter segredo até ter tudo acertado no final de janeiro. Não tinha com quem conversar e queria desabafar. Se contasse para Leticia, ela abriria a boca grande e contaria tudo para todo mundo. Não poderia confiar nela nesse ponto, mesmo sendo sua irmã.


Continua....