Na noite anterior à tão esperada viagem, o clima entre os Digiescolhidos era de pura empolgação. Cada um deles já havia terminado de arrumar suas malas, separando roupas leves, itens pessoais, acessórios e até lembranças para levar ao resort. Os quartos estavam cheios de sacolas abertas, listas riscadas e Digimons circulando animados, ajudando seus parceiros com os últimos preparativos.


**


Kari: Tai, me ajuda aqui com a minha bolsa, por favor.

Tai: Já tô indo.

Tailmon: Kari, você conferiu se está levando tudo que precisa?

Kari: Sim! Aquele lugar é lindo, tenho certeza que vou me divertir bastante.

Tai: Só toma cuidado pra não exagerar na piscina, hein?

Sra. Kamiya: Isso mesmo, Kari. Escuta seu irmão.

Kari: Relaxem, gente. Eu sei nadar, tá tudo sob controle.

Sra. Kamiya: Mesmo com seus 15 anos, você ainda é minha menininha.

Tai: E eu vou ficar de olho em você, mocinha.

Kari: Ai, não comecem a pegar no meu pé... — Disse, saindo em direção à cozinha com Tailmon logo atrás.

Sra. Kamiya: Tai, além das suas coisas, separei mais alguns itens pra você. Estão naquela bolsa pequena ali.

Tai: Valeu, mãe. Acho que tô levando mais do que preciso.

Sra. Kamiya: Nunca é demais, filho. Sempre tem algo que a gente acaba usando.

Tai: Verdade.

Sra. Kamiya: Que horas vocês vão sair amanhã?

Tai: Bem cedinho, por volta das seis. A Sora vai passar aqui pra ir com a gente.

Agumon: E quem vai fazer o café da manhã amanhã, Tai?

Tai: Eu faço, Agumon. Pode deixar comigo.

Agumon: Capricha, hein! Quero um café digno de resort.

Tai: Vai ser melhor que o da minha mãe.

Sra. Kamiya: Olha só... se for melhor que o meu, você vai ser o responsável pelo café todo dia, viu?

Tai: Brincadeira, mãe! — Disse com um sorriso irônico.

Sra. Kamiya: Só espero que a Sora não tenha que te acordar amanhã.

Tai: Que isso, mãe. Vou estar pronto antes dela chegar.

Sra. Kamiya: Espero mesmo, Tai.



Kari estava na cozinha, mexendo distraidamente em uma xícara de chá enquanto Tailmon observava seu semblante pensativo. A conversa com sua mãe e com Tai ainda ecoava em sua mente. Ela sabia que eram superprotetores, mas às vezes isso a deixava desconfortável — como se não enxergassem que ela havia crescido.


Tailmon: Você tá meio quieta... ainda incomodada com o que eles disseram?

Kari: Um pouco, sim. É estranho... eu sei que eles se preocupam, mas às vezes parece que não enxergam que eu já não sou mais uma criança.

Tailmon: Eles só querem te proteger. Principalmente o Tai. Você sabe como ele é com você.

Kari: Eu sei... mas ele exagera. Fica dizendo que vai ficar de olho em mim, como se eu fosse sair escondido com alguém ou estivesse apaixonada.

Tailmon: E você não tá?


Kari hesitou, desviando o olhar e mexendo na xícara com mais força do que precisava.


Kari: Eu... não sei. Talvez. Mas não quero falar sobre isso agora.

Tailmon: Kari... você pode confiar em mim. Eu sou sua parceira, lembra? Se tem alguém que entende você, sou eu.

Kari: Eu sei, Tailmon. E agradeço por isso. Só que... é confuso. Às vezes eu sinto coisas que nem sei explicar. E com o Tai agindo como se eu fosse frágil o tempo todo, fica difícil até pensar com clareza.

Tailmon: Você não é frágil. Você é forte, sensível, e tem um coração enorme. Talvez seja isso que assuste o Tai — ver que você está crescendo, mudando, e que ele não pode mais controlar tudo.

Kari: Talvez... — Disse com um sorriso tímido. — Mas ele precisa entender que eu posso cuidar de mim. E que, se eu estiver gostando de alguém, isso não é o fim do mundo.

Tailmon: E esse “alguém”... é alguém próximo?

Kari: Tailmon... — ela riu, tentando disfarçar o nervosismo. — Vamos voltar pro quarto. Ainda tenho que terminar de arrumar minhas coisas.

Tailmon: Tá bom, tá bom... mas só pra constar: eu ainda acho que tem mais aí do que você tá dizendo.

Kari: Você é impossível. — Disse, rindo enquanto se levantava e seguia para o quarto com Tailmon ao seu lado.


Enquanto isso, Joe conferia o relógio e se preparava para sair. A sacola esquecida por Mimi ainda estava no banco de trás do carro, e ele sabia que aquela entrega seria mais do que uma simples devolução. Com o coração um pouco acelerado, ele pegou a sacola em seu carro, sem saber que aquela noite também guardava emoções inesperadas.


Gomamon: Pronto, Joe! Já tô preparado. E você?

Joe: Terminei aqui também, Gomamon. Vai ser rapidinho — só vou entregar a sacola da Mimi e esperar os pais dela chegarem. Ela disse que não devem demorar.

Gomamon: Tranquilo. Ainda bem, porque amanhã temos que acordar cedo, né?

Joe: Exatamente. Melhor não enrolar. Vamos lá.


Os dois saíram de casa e atravessaram a rua em direção ao prédio da Mimi, que morava bem em frente ao apartamento de Joe. A noite estava calma, com uma brisa leve e o céu limpo. Ao chegarem, Joe tocou a campainha. Poucos segundos depois, a porta se abriu e Mimi apareceu, sorrindo ao ver os dois.



Mimi: Verdade! E, Gomamon, a Palmon tá lá no quarto. Se quiser ir lá, ela vai adorar te ver.

Gomamon: Sério? Então vou lá! Faz tempo que não conversamos direito. — Disse animado, correndo pelo corredor.

Joe: E seus pais? Saíram pra onde?

Mimi: Foram visitar uma tia da minha mãe. Coisa rápida. Devem voltar logo.

Joe: E você não quis ir?

Mimi: Preferi ficar. Tinha que terminar de arrumar minhas coisas pra amanhã. E... confesso que estava esperando por essa visita também. — Disse, olhando para ele com um sorriso tímido.

Joe: Ah... que bom. Fico feliz por ter vindo. — Respondeu, um pouco surpreso com a sinceridade dela.

Mimi: E... obrigada de novo por ter me ajudado hoje. Aquele cara me deixou bem desconfortável.

Joe: Não precisa agradecer. Você é minha amiga, Mimi. Não ia deixar ninguém te tratar daquele jeito.

Mimi: Você foi incrível. Sério. Me senti segura quando te vi chegando. — Disse, se aproximando um pouco mais.

Joe: Eu só fiz o que qualquer um faria. Mas... ouvir isso de você... significa muito.

Mimi: Você é um fofo, Joe. Sempre foi. Só que às vezes você não percebe o quanto é especial.

Joe: Mimi... — ele hesitou, olhando para ela com um misto de surpresa e emoção. — Eu... fico meio sem jeito com essas coisas.

Mimi: Eu sei. Mas não precisa ficar. Eu gosto de conversar com você assim. Sem pressa.

Joe: É... eu também gosto. — Disse, sorrindo de leve. — E amanhã, no resort... acho que vamos ter tempo pra conversar mais, né?

Mimi: Com certeza. E quem sabe... descobrir algumas coisas que ainda estão meio escondidas.



Depois de um tempo conversando, Mimi decidiu deixar o clima mais descontraído e colocou um filme para eles assistirem. Preparou alguns petiscos, encheu uma tigela de pipoca e ajeitou tudo na sala com carinho. A escolha do filme, no entanto, surpreendeu Joe — era de terror, cheio de cenas tensas e sustos repentinos.

Conforme o filme avançava, cada aparição assustadora fazia Mimi se encolher no sofá e se agarrar ao braço de Joe, como se ele fosse seu escudo contra qualquer coisa que saísse da tela.


Joe: Calma, Mimi... não precisa ter tanto medo. É só um filme. — Disse, rindo da situação enquanto tentava tranquilizá-la.

Mimi: Eu sei, mas esse filme é assustador demais. Sério, acho que vou tirar.

Joe: Tem certeza? — Perguntou, confuso com a mudança repentina.

Mimi: Claro! Não vou ficar aqui passando medo à toa. — Disse, pegando o controle e encerrando o filme sem hesitar.

Joe: Tudo bem... — Respondeu, compreensivo, enquanto ela se acomodava novamente ao lado dele, agora mais tranquila


Naquele instante, a chuva começou a cair com força, acompanhada de trovões que ecoavam pela cidade. O som da tempestade invadia o apartamento, criando um clima inesperadamente intenso. Mimi, sentada no sofá, sentiu um arrepio percorrer seu corpo — o frio havia chegado junto com a chuva.

Sem pensar duas vezes, ela se levantou e foi até o quarto. Vasculhou o armário rapidamente e pegou uma coberta macia, buscando um pouco de aconchego para enfrentar aquela noite chuvosa. Enquanto voltava para a sala, o som dos trovões parecia mais distante, mas o clima entre ela e Joe começava a se aquecer de um jeito diferente.


Joe: E justo agora essa chuva resolve cair... ótimo timing.

Mimi: Voltei, Joe! Você acredita que o Gomamon acabou dormindo com a Palmon no meio do filme?

Joe: Sério? Esse Gomamon é mesmo um folgado. Dorme em qualquer lugar, a qualquer hora.

Mimi: Ah, não tem problema. Eles estavam tão tranquilos... até combinou com o clima.

Joe: E então, mocinha... vai continuar fazendo mistério ou vai me contar de vez sobre aquele assunto de hoje?

Mimi: Ah, desculpa... —Disse com um sorriso tímido. — Imagino que você esteja curioso pra saber quem é a pessoa que eu mencionei, né?


Joe olhou para Mimi com um sorriso curioso.


Joe: Tá bom... você disse que é alguém que eu conheço. Isso já reduz bastante as opções. É alguém do nosso grupo?


Mimi riu, desviando o olhar.


Mimi: Talvez...

Joe: Hum... não é o Izzy, né? Ele tá sempre ocupado demais pra isso.

Mimi: Não, não é o Izzy. — Disse, rindo mais alto.

Joe: Matt? Ele tem aquele estilo misterioso que muita gente gosta...

Mimi: Também não. — Respondeu, balançando a cabeça.

Joe: Então... sou eu?


Mimi ficou em silêncio por um segundo, surpresa com a pergunta direta. Depois, sorriu com leveza.


Mimi: Quem sabe?


Joe, agora visivelmente mais tímido, coçou a nuca e tentou disfarçar o sorriso.


Mimi: Bom... eu só conto se você prometer dizer também.

Joe: Tá certo. Prometo.

Mimi: Mas antes... você deve estar com frio. Quer dividir a coberta comigo?

Joe: Ah, tudo bem... se não for incômodo.

Mimi: Claro que não. — Disse com um sorriso gentil, estendendo a coberta e se aproximando.


Os dois se acomodaram no sofá, lado a lado, envoltos pela manta macia e pelo som da chuva lá fora. A luz suave da sala criava um clima acolhedor, e o silêncio entre eles era confortável.


Mimi: Agora sim... bem melhor.

Joe: É... — respirou fundo, tentando encontrar as palavras. — Tem alguém que eu gosto. E essa pessoa... é bem diferente de mim. Ela é espontânea, cheia de energia. Onde ela chega, tudo muda. Ela ilumina o ambiente, faz todo mundo sorrir. É alguém incrível.

Mimi: Uau... ela parece ser perfeita. — Disse, com um misto de curiosidade e leve tensão na voz.

Joe: Ela é. — Respondeu, virando o rosto para encará-la. — Mimi... essa pessoa é você.


Mimi ficou em silêncio por um instante, surpresa com a confissão. Seu coração acelerou, e uma mistura de pensamentos invadiu sua mente. Mas, ao mesmo tempo, havia algo doce naquela revelação — algo que ela nunca havia sentido antes.

Ela olhou para Joe, ainda sem saber exatamente o que dizer, mas com um brilho diferente nos olhos. Pela primeira vez, ela sentia que algo novo estava começando ali — algo que talvez nem os dois soubessem como explicar.


Mimi: Nossa, Joe... eu não esperava que fosse assim. — Disse com um sorriso tímido, desviando o olhar. — Lembra que eu disse que ia te contar quem era a pessoa que eu gostava?

Joe: Lembro sim. Estava esperando por isso.

Mimi: Então... essa pessoa é você.


Joe ficou em silêncio por um instante, absorvendo cada palavra. Um sorriso sincero surgiu em seu rosto, e ele se aproximou um pouco mais.


Joe: Então... a gente sente o mesmo. Isso é incrível. Posso te perguntar uma coisa?

Mimi: Pode, claro.

Joe: Você já... beijou alguém?

Mimi corou imediatamente, apertando a coberta entre os dedos.

Mimi: Se selinho contar, já. Mas beijo de verdade... nunca. — Disse com a voz baixa, quase como um segredo.


Joe olhou para ela com ternura, sentindo o coração acelerar.


Joe: Então... talvez esse momento especial aconteça hoje.


**


Mimi olhou nos olhos de Joe com um misto de nervosismo e ternura. Havia algo no silêncio entre eles que falava mais alto do que qualquer palavra. Quando ela assentiu com um leve sorriso, os dois começaram a se aproximar, lentamente, como se o tempo tivesse desacelerado só para aquele instante.

Seus rostos se encontraram com suavidade, e quando seus lábios finalmente se tocaram, Mimi sentiu uma onda de calor e emoção que nunca havia experimentado antes. Era seu primeiro beijo — e mesmo com o coração acelerado e as mãos um pouco trêmulas, ela se sentia segura nos braços de Joe. A chuva lá fora caía com força, mas dentro daquele abraço, tudo parecia calmo.

O beijo começou tímido, mas logo ganhou confiança. Mimi se entregava ao momento, sentindo o carinho nos gestos de Joe, o cuidado em cada toque. Suas mãos se entrelaçaram, criando um calor reconfortante entre os dois. Quando se afastavam por breves segundos, o gosto que ficava era doce e suave, como uma promessa de que aquele sentimento era real.

O filme já havia terminado há muito tempo, mas Mimi mal percebia. Para ela, tudo ao redor havia desaparecido — só existia aquele instante, aquele sofá, aquele coração batendo junto ao dela. Os beijos se tornaram mais intensos, mas ainda envoltos em delicadeza. Joe acariciava seu rosto, passava os dedos por suas costas com ternura, e a envolvia como se quisesse protegê-la do mundo.

Mimi sentia algo novo florescer dentro de si. Era mais do que paixão — era conexão, era descoberta. Ela soltava pequenos suspiros, não por impulso, mas por sentir que estava vivendo algo verdadeiro. Quando finalmente pararam, seus rostos se afastaram devagar, e os dois se olharam com sorrisos suaves, como quem sabe que algo especial havia acabado de acontecer.

Ela percebeu que o cobertor havia caído no chão, pegou-o com cuidado e o estendeu novamente sobre os dois. E ali, sob o som da chuva e o calor do afeto, Mimi e Joe se abraçaram — não com pressa, mas com a certeza de que aquele momento ficaria guardado para sempre.


**


Joe: Então... o que você achou?

Mimi: O que foi isso? — Disse com os olhos arregalados e um sorriso surpreso. — Sempre imaginei como seria meu primeiro beijo... achava que ia ser estranho, talvez até desajeitado. Mas foi muito mais incrível do que eu poderia sonhar.

Joe: Fico feliz que tenha gostado. E olha... para quem nunca beijou, você foi surpreendente.

Mimi: Eu só... deixei acontecer. Fiz como nos filmes, sabe? Fechei os olhos e quando percebi... já estava te beijando.

Joe: Que bom. Só espero que você não esteja constrangida. — Disse com um sorriso gentil, tentando quebrar qualquer tensão.

Mimi: Claro que não! Foi uma das melhores experiências da minha vida. Mas... vamos manter isso só entre nós, tudo bem? Acho que os outros não precisam saber. Pelo menos por enquanto.

Joe: Concordo. Esse momento é nosso. — Disse com um olhar cúmplice. — Mas acho que já está ficando tarde... seus pais devem estar chegando e amanhã temos que acordar cedo.

Mimi: Você tem razão. Você não muda mesmo, sempre tão responsável. — Disse rindo, com um olhar carinhoso.

Joe: Você vai ficar bem sozinha?

Mimi: Claro que sim. Vou subir para o meu quarto já..

Joe: Tudo bem.


Joe se aproximou e deu um beijo suave de despedida em Mimi, desta vez mais breve, mas cheio de significado. Em seguida, foi até o quarto acordar Gomamon, que ainda dormia profundamente ao lado de Palmon. Com passos leves, os dois deixaram o apartamento e seguiram para casa.

Joe caminhava com um sorriso no rosto, o coração leve e a mente cheia de lembranças daquela noite. Gomamon, mesmo sonolento, percebeu que seu parceiro estava diferente — mais calmo, mais feliz. Mas preferiu não comentar. O sono falava mais alto.

Mal sabiam eles que aquele beijo seria apenas o começo de algo muito maior.


Continua...