Diga Adeus à Inocência
9 Capítulo 8
Notas iniciais
Acordo com batidas na porta, encaro a parede e respiro fundo. Merda! Hoje é o primeiro dia. Levanto em um salto e corro para o armário, pego uma roupa apresentável e vou direto para o banheiro. Enquanto escovo os dentes coloco minha blusa, não arrisco pentear meu cabelo para não o armar, coloco minha calça jeans e saio. Desço a escada correndo e vou para a cozinha.
– Por que a pressa? – ela me encara enquanto coloca suco no copo.
– Estou atrasada. – falo, óbvia.
– Suas aulas começam que horas? – ela franze o cenho.
– Umas oito, por quê? – vou até a mesa pegar uma banana.
– Porque são seis e meia. – ela dá um sorriso.
Por conta de apenas uma frase meu corpo desacelera e meu cérebro volta ao estado de dormência. Sento e relaxo. Se eu fosse para a faculdade na velocidade que estava, ia dar com a cara na porta. Posso aproveitar o café, porém, não sou muito de comer de manhã.
Como minha banana forçadamente e dou alguns goles no suco de maracujá.
– O que eu faço com o resto de lanche? – ela pergunta abrindo o embrulho.
– Joga fora. – cuspo as palavras.
– Que pecado – ela lamenta – Você devia aprender a comer o que pede.
Nem queira saber o motivo da minha falta de fome, vó, você irá rir da minha cara.
– Sei lá, achei que era menor, pelo menos na foto do cardápio parecia menor. – explico.
Ela suspira.
– Até nisso lembra a sua mãe. – ela murmura.
– Bom, já vou indo. – mando um beijo para ela e pego minhas coisas, calço o sapato e saio.
Antes de entrar no carro, paro e respiro. É agora, finalmente chegou a tão esperada faculdade, está na hora de crescer. Entro no carro.
Não há quase ninguém na faculdade, mas eles já abriram os portões, aproveito a antecedência para cuidar de minhas coisas acadêmicas e passo quase uma hora dentro da secretaria. Assim que tiro todas as dúvidas e resolvo o que estava pendente volto para o pátio.
Encontro Matthew sentado em um banco lendo um livro, aproximo-me devagar e sento ao seu lado.
– Oi. – murmuro e sorrio.
Ele fecha o livro e me encara.
– Oi. – sorri. Meu deus, eu adoro o sorriso dele.
– Não sabia que vinha tão cedo. – comento.
– O curso começa cedo, meio período. – ele guarda o livro em sua mala – Ansiosa?
Dou de ombros.
– Talvez.
– Está pronta para começar sua vida adulta? – ele dá um sorrio de lado.
Encaro o chão. Quando somos crianças não acreditamos que vamos crescer, nunca acreditei que viraria uma adulta igual a minha mãe, que teria filhos e uma casa própria, que ficaria longe de minha família para construir outra, sempre acreditei que aquilo seria minha vida. Entrar na faculdade é como se despedir e se apresentar; estou me despedindo de minha infância e adolescência e me apresentando para a minha futura vida adulta – mas ainda posso arriscar estar no meio termo, não sou adulta o suficiente para trabalhar, gerar renda e criar uma família e também não brinco mais de boneca. Então estou no caso de: posso trabalhar e ter meu dinheiro, mas não tenho maturidade para ter uma família e ainda quero curtir minha vida.
– Não, absolutamente não. – sorrio.
– Que bom. – ele tomba a cabeça pra trás.
– Que bom? – franzo o cenho.
– Sei lá – ele dá de ombros -, não estar preparado para uma coisa é a forma mais solene de se preparar, nenhum imprevisto pode te derrubar ou te deixar de mãos atadas, você não decorou o que tem que fazer, apenas sabe que fará alguma coisa.
Matthew pode parecer meio louco, mas às vezes ele fala coisas com sentido.
Aos poucos o pátio vai enchendo de veteranos e calouros, todos animados. Quanto mais pessoas entram, mas vida a faculdade vai tendo. O barulho aumento, o movimento ganha vida – assim como a desordem. A secretaria lota e não há mais bancos para se sentar.
Como vou fazer amizades no meio de toda essa gente? Nunca vou conseguir falar com ninguém.
– Que horas é sua primeira aula? – Matthew pergunta.
– Oito. – respondo ainda olhando o movimento.
– É melhor já ir procurar sua sala. – ele aconselha.
– Certo – levanto e pego minha bolsa -, até qualquer hora.
Ele dá um rápido aceno com a cabeça. Pesco o papel que a mulher da secretaria me deu; 2º andar sala 235. Suspiro e olho para a entrada da faculdade.
Lá vamos nós.
Meu celular vibra, olho para o visor e vejo o nome de meu pai, atendo.
– Oi. – falo enquanto caminho e tento passar pela porta, me espremendo entra as pessoas.
– Como está o primeiro dia? – é minha mãe.
– Estou indo para a sala. – começo a subir as escadas – A faculdade é bem grande e ainda duvido que caiba todos os estudantes.
Ela ri.
– É faculdade, magicas acontecem ai. – ela cita o que me falou durante uma vida inteira.
– Sim. – suspiro.
– Já conheceu alguém?
– Não. – minto.
– Mas sua vó falou que você foi até em festas. – ela parece decepcionada.
– Fui e fiquei com um menino. – falo indiferente.
– Então como não conheceu ninguém?!
– Não sei o nome dele, nem sei onde mora ou o que faz, foi apenas um beijo. – minto novamente.
– Você e seus hábitos atuais, não gosto disso.
Você não gostaria de saber como ele é.
– Século 21 mãe. – falo – Está na hora de se acostumar com isso, todos fazem isso, é raro rolar namoro atualmente.
– Só espero que você use camisinha.
– Você sabe que sim. – reviro os olhos – Tenho que desligar, tchau. – desligo.
Guardo o celular no bolso e entro na sala. Ainda há poucas pessoas aqui, mas pela quantidade de cadeiras dá pra ter a ideia de que há mais de 50 estudantes aqui. Há uma menina de joelhos, recolhendo algumas canetas e resmungando.
Amizades.
Ajoelho ao seu lado e ajudo-a.
– Uma alma caridosa. – ela fingi me saudar – Sou Amiony.
– Bianca.
Ela é japonesa, pequena e magra. Cabelos negros chanel e rosto meio redondo, está usando uma roupa tão simples quanto a minha; calça jeans e camiseta, um elástico no pulso e uma tatuagem de borboleta no pescoço.
– Pode sentar na minha frente se quiser. – ela oferece a cadeira.
– Obrigada. – sento.
– Está morando em republica? – retira um caderno da mala.
– Na casa da minha avó e você?
– Você está na faculdade e morando da casa da vovó? – ela parece surpresa – Eu estou vivendo no meio da loucura, muitas festas e bebida, estou quase acreditando que american pie é verdadeiro.
Sorrio.
– Parece ser legal morar em republica. – comento.
– É loco! – ela me corrige – Não tem hora pra chegar nem sair, ninguém enchendo seu saco, você pode fazer o que quiser.
Não acho rui morar com a minha vó, é bem mais aconchegante.
– Meus pais só aceitavam minha vinda pra cá se fosse pra morar com a minha avó. – explico.
–Pais são um pé no saco, os meus queriam que eu fosse para o Japão – ela revira os olhos -, sinceramente, a única coisa japonesa que falo é sushi e eu nem sei se isso é japonês mesmo. – ela ri.
Rio.
– Achei que todo japonês falasse japonês. – franzo o cenho.
– Que preconceito, não é porque sou japonesa que tenho que falar japonês ou andar com quimono – ela cruza os braços – e acho bom você não mandar eu abrir os olhos!
Rio.
– Calma – ergo os braços na defensiva -, só comentei.
Ela sorri.
O sinal toca e todos começam a entrar, a sala começa a encher completamente. O professor chega logo em seguida e quase não apresenta direito, seu nome é Gilvan.
Aulas e mais aulas, é isso que se resume minha manhã. Amiony dormiu durante duas aulas seguida e considerei me juntar a ela, mas não tive coragem. O sinal para o lanche toca, o que serviu de despertador para Amiony.
– Deus. – ela esfrega o rosto – Não presto pra fazer faculdade.
– Nem eu. – levanto e estico as costas – O que quer fazer?
– Tenho que encontrar minhas amigas. – ela sorri – Quer vir?
Maneio a cabeça positivamente.
Descemos para o pátio da entrada e nos aproximamos de um grupo de meninas, ao todo são quatro.
– Essa é a Bianca, uma alma caridosa. – ela me apresenta.
As outras quatros sorriem.
– Camila, Coraline, Monique e Juliana. – Amiony as apresenta.
Sorrio.
Eles estão com lanches na mão, o que me faz dar a sugestão de sentarmos nos bancos.
– O que vocês estão fazendo? – encaro-as.
– Letras. – Camila responde.
– Engenharia de produção. – Coraline fala com certo orgulho.
– E você? – encaro Juliana.
– Advocacia, mas sei lá. – ela dá de ombros – Sinto que não vou durar muito tempo. – ri.
– Psicologia. – Monique fala e dá uma mordida em seu lanche – Mas não peça para fazer uma análise de você.
– Nunca ouvirá isso de mim. – garanto.
– Seremos ótimas amigas então. – ela sorri.
Elas começam a falar da suposta semana de férias que passaram juntas e sobre um incidente que aconteceu, o assunto é até engraçado e me limito a dar pequenos sorrisos e escutar. Vejo Matthew passar acompanhado de mais um menino e curiosamente eles se aproximam.
– Canibal, você por aqui? – Coraline o encara – Achei que seu curso fosse nas férias.
– Você não presta atenção no que eu falo para você. – ele suspira.
– Essa é a Bianca. – Amiony me apresenta. Acho que ela se encarregou de me apresentar para todas as pessoas que vem falar com a gente.
– Eu sei. – ele sorri – Já conheço ela.
– Eu também. – o menino ao seu lado me encara.
Franzo o cenho.
– Da onde você conhece ela, palito? – Coraline franze o cenho.
– Da festa que a menina morreu, lembra? – o suposto “palito” a encara – Ela estava lá acompanhada de um menino.
– Sim – confirmo -, vocês estavam?
– Lógico! Não perdemos nenhuma festa. – Juliana fala- Mas não lembro de você, na verdade, não lembro de merda nenhuma.
Amiony ri.
– Foi foda. – ela complementa – Nunca bebi tanto.
– Sim. – Monique concorda – Foda mesmo.
– Tão foda que teve até morte. – o palito ri e todos o acompanha.
Rio, porém, não acho legal ficar brincando com coisas tão sérias, mas não sei controlar o riso quando outras pessoas riem, mesmo não tendo graça.
O palito de palito não tem nada. É gordo – digamos que ele é cheinho, branco igual leite e com algumas espinhas espalhadas na cara redonda, tem cabelo tigela enrolado castanho claro e olhos castanhos.
– Sou Jonas. – ele se apresenta.
– Bianca, mas acho que você já sabe. – sorrio.
– O que você faz Jonas? – pergunto.
Saímos um pouco da roda de conversa sobre a festa.
– Estou fazendo o mesmo curso que o canibal. – ele informa – Acho legal essas paradas de corpo humano e abrir um deve ser irado.
– Você só está fazendo isso para abrir um corpo? – ergo uma sobrancelha.
– Não, por conhecimento. – ele me corrige – Abrir um corpo posso abrir em qualquer lugar e não preciso de um curso para isso, é só eu chegar na rua e pegar qualquer um, igual o Lobo Mau anda fazendo.
De fato.
– E o que você faz por fora? – tento puxar assunto.
– Jogo vídeo-game e participo de festas.
– Interessante. – murmuro. Na verdade, isso não tem nada de interessante, eles só pensam em beber e cair, qual a graça disso?!
Eles voltam a falar de outra coisa, acho que sobre a mesma viagem que elas já estavam falando. Finjo que estou prestando atenção e de vez ou outra dou um sorriso para disfarçar, mas nem sei qual o rumo do assunto.
– Bianca, quer ir comprar um refri? – Matthew pergunta, me tirando do transe.
Limpo a garganta.
– Claro. – levanto e sigo-o.
Caminhamos em silêncio, ele está um pouco mais a frente que eu.
– Qual o motivo do silêncio? – ele me encara por cima do ombro.
– Estou pensando. – falo indiferente.
– Sei que você está pensando – ele sorri -, está pensando no que?
Encaro-o. Lembro da primeira vez que o encontrei na trilha, sorrio.
– Você é tão bipolar. – sorrio.
– Eu? – ele pergunta surpreso – Você que ri do nada.
– Não – aproximo-me – Lembra da trilha?
– Sim. – ele coloca a mão no bolso.
– Você me assustou, assustou mesmo, achei que ia morrer.
– Percebi pela sua cara; olhos arregalados, respiração pesada e depois saiu correndo. – ele ri.
– Isso tem uma justificativa! – rebato – Você aparece do nada, falando igual robô sobre como o galo podia ter partido minha cabeça, quem não teria medo? – limpo a garganta – Poxa. Você. Podia. Ter. Se. Machucado feio. Se. O galho. Tivesse. Caído. Na. Sua. Cabeça... Merda. Eu. Tenho. Uma. Pontaria ruim. – imito-o.
Ele ri.
– Teria esmagado a sua cabeça. – ele resmunga.
– Tá! Mas eu não precisava saber disso.
– Da próxima vez vou deixar cair e te deixar morrer sem saber por que morreu.
– Se eu morrer, não vou querer saber por que morri, porque vou estar muito puta por ter morrido. – rebato.
Ele solta o ar dissonante.
– Enfim, uma hora você é todo robô e na outra o cara mais simpático da Terra. – volto ao assunto.
– Questão de afinidade. – ele explica – Somos colegas agora, então nada de falas mecânicas.
– Ah obrigada, elas me assustam.
Ele dá um sorriso de lado.
Um pouco mais a frente vejo um grupo do qual Malic participa. Respiro fundo e ergo a cabeça, me aproximo mais de Matthew. Assim que passo por ele, não deixo de notar seu olhar.
Para a minha surpresa ele não está rodeado de pessoas o aplaudindo ou de garotas o agarrando, está apenas na rodinha de amigos conversando ou escutando a conversa, está normal.
– Quer leva-lo pra casa? – Matthew comenta.
– O que? Não! Nem estava olhando. – olho pra frente.
– Sim – ele confirma -, você estava lanchando ele.
– É que sempre achei que ele fosse o popular da faculdade. – comento – E não é bem assim.
– Ele é popular, na roda de amigos deles. – Matthew o encara por cima do ombro rapidamente – Não existe o termo popular na faculdade.
Encaro-o.
– Estão todos se fudendo pra você, ninguém sabe o nome de ninguém e se há algum cumprimento é por educação. É impossível conhecer todo mundo na faculdade e ter alguma fama duradoura, são muitas pessoas, o que forma muitas pessoas populares entre as rodinhas de amigos e muitos populares impedem a formação do mais popular, o que gera as pessoas com mais amigos e as com menos amigos. – ele explica – Você não está em um filme americano. – ele empurra minha cabeça com o indicador – Isso é a vida, daqui alguns anos essas pessoas serão seus rivais.
– A época do vestibular já passou, não somos mais rivais. – rebato.
– São sim, o vestibular é apenas o inicio da rivalidade. Depois de sua graduação você irá precisar de um emprego e advinha? – ele me encara – Seus antigos colegas de turma também vão precisar de um emprego.
Odeio quando o pensamento dele faz sentido.
Encontramos a máquina de refrigerante um pouco mais a frente.
– Vai logo lá. – resmungo.
Ele ri e se aproxima da máquina. Cruzo os braços e continuo parada, olho distraidamente para o grupinho de amigos do Malic e o olhar felino encontra o meu. Prendo a respiração e trinco o maxilar.
Já ouvi dizer que quando um leão ameaça te atacar, você não deve recuar porque assim mostrará a ele que tem medo, você deve continuar parado e o encarar, para mostrar que você é tão forte quanto ele e que se ele vier pra cima, será para bater contra o seu peito e não contra as suas costas em fuga.
Respiro fundo e sustento o olhar. Eu também sei brincar de atacar.

Fale com o autor