Diga Adeus à Inocência
10 Capítulo 9
O lanche terminou e voltamos para a rotina de aulas um pouco mais animados. Escrevi resumos próprios até não conseguir mais abrir a minha mão de tanta dor nos dedos e Amiony para variar dormiu mais algumas aulas. Tivemos uma hora de almoço e podíamos sair da faculdade, o que fez Juliana convencer todo mundo a ir almoçar em um restaurante.
Encontramos com Matthew e Jonas no portão da faculdade e eles estão acompanhados de outro menino.
– Ruffles. – Amiony sorri assim que o vê – Achei que faria o curso fora.
– Minha mãe encheu o saco falando que queria ficar perto de mim, então cá estou eu. – ele abre os braços para abraça-la.
Um pouco mais afastado da cena amorosa está Matthew e Coraline, me parece que eles estão discutindo.
– Quantos casais. – murmuro e Monique ri.
– Ruffles e Ony pode até ser, mas o Matthew e a Coraline não. – ela comenta.
– Por que eles não? – volto a encara-los e olho no momento em ele dá um leve na cabeça de Coraline.
– Eles são primos. – Monique me encara – Não rola a química necessária para sair romance.
Primos?! Encaro os dois novamente e não encontro nenhuma semelhança para levar a tal genética, Coraline nem sequer tem os olhos verdes que Matthew tem. Dou de ombros, eles são primos e não irmãos.
– Vamos logo. – Camila resmunga – Estou com fome!
Sorrio e caminho para perto dela.
– Posso ir com você enquanto eles ficam aqui. – informo.
– Ah, obrigada. – ela agarra meu braço e me arrasta para fora do pátio.
Camila tem a beleza que minha vó apreciaria até de olhos fechados, das mulheres naturalmente belas. Ela tem cabelo cacheado loiro, volumoso e exuberante, que chega até quase a metade de suas costas. É branca, mas não branca como leite, sua pele tem um tom mais queimado que o branco de Jonas, digamos que ela tem mais vivacidade. Alta e com corpo – não é magra e nem gorda, tem cintura, coxas grossas e peitos medianos. Seus olhos são castanhos claros.
Chegamos no restaurante depois de 15 minutos de caminhada pela avenida principal, ela nem espera que o garçom venha até nós e já senta na primeira mesa vaga que encontra. Sento e pego o cardápio.
– O que você vai querer? – pergunto enquanto leio o cardápio.
– Acho que vou pedir um executivo. – ela estreita os olhos- Quer rachar o prato comigo? Ele serve duas pessoas.
– Pode ser. – sorrio e coloco o meu cardápio de lado.
– Perfeito. – ela ergue a mão para chamar o garçom.
Fazemos o pedido e ficamos em silêncio.
– Então, me fale mais de você. – ela dá um sorriso doce.
– Hm... Estou morando com a minha vó e eu vim de uma cidade grande, não tenho irmãos, passei na federal.. – sou interrompida por Camila:
– Não nesse sentido. – ela ri – Você já namorou?
– Não, mas já fiquei. – sinto minhas bochechas esquentarem – E você, já namorou?
– Já. – ela suspira – Quer adivinhar quem é o meu ex?
Por favor, não seja o Malic.
– Malic? – mordo o lábio inferior.
– Não. – ela ri — o Matthew.
– Matthew? Nossa.
– O que? – ela sorri – Eu tinha quinze anos.
Ah, então é algo passado.
– É que ele parece ser meio estranho, não sei explicar, mas esse curso que ele faz, o jeito que ele encara as pessoas...
Ela ri.
– Ele sempre foi meio crânio, sabe? – ela encara a toalha – Ele sempre foi meio estranho, inteligente e sabia de assuntos muito estranhos para um adolescente normal, mas esse é ele, um diferencial digamos e quem pode julgar aquele sorriso?
Não sou a única apaixonada pele sorriso dele.
– Bom, acabaram com respeito ou baixaria? – sorrio.
– Respeito, lógico, não estava mais funcionando. – ela dá de ombros – Termino de relacionamento é sempre uma merda, mesmo com respeito, você chora, grita e não quer mais sair do quarto.
Não posso palpitar em nada, nunca namorei ou terminei com alguém para saber como é, o mínimo que posso fazer agora é escutar.
– Ele terminou comigo, depois de uma indireta que dei em uma briga falando que era melhor terminar, não sei se dei a deixa para ele sugerir aquilo no dia seguinte – ela suspira -, ele só falou que não estava mais funcionando e que estava terminando comigo, nem tive o que argumentar, só fiquei lá parada, escutando e tentando assimilar que ele estava mesmo terminando comigo... Ás vezes repasso aquela cena e crio situações aleatórias, coisas que eu podia ter falado para fazê-lo mudar de ideia, eu podia até ter agarrado ele – ela ri -, mas ele estava decidido, não se soltaria daquela ideia tão cedo, então eu deixei ele ir.
– Você ainda gosta dele? -
– Não, minha fase apaixonada passou. – ela sorri – E o Malic?
Não deveria ter sugerido ele, agora tá na cara.
– Ele foi a segunda pessoa que conheci depois que cheguei aqui – comento -, achei ele bonito e carismático. Ficamos em uma festa e depois e então acabou.
– Por que acabou? Ele também não é de se jogar fora.
– Eu acho... Não sei... Não consigo entender o que aconteceu de verdade, simplesmente ele sumiu, mas não o mandei embora, talvez sim, não sei o que eu fiz de errado. Só falei que não queria nada sério.
Ela me encara por alguns segundos e depois dá um sorriso de lado.
– Ele está te testando, esperando você correr atrás dele e pedir para ele voltar, esperando para você mudar de ideia, então não mude. – ela fala e depois acena para alguém.
Viro na cadeira e olho na direção do aceno, encontro o grupo que faltava. Matthew não está com eles, talvez ele tenha ido para casa, o período de aula dele já acabou mesmo, faria a mesma coisa. O tal Rafael senta ao lado de Camila e Amiony senta ao seu lado, Monique e Juliana ocupam as cadeiras ao meu lado e Jonas é o último a sentar.
– Já fizemos o pedido. – Camila informa.
– Já esperava isso de uma morta de fome. – Juliana ri e pede o cardápio ao garçom.
Comemos falando de assuntos aleatórios que surgiam de comentário e que se estendiam para assuntos que não tinha nada a ver com o primeiro mencionado. Amiony parece estar loucamente apaixonada por Rafael, pois depois de comer fez questão de encostar em seu braço, mas não sei se posso dizer isso dele.
Monique levanta e anuncia que vai ao banheiro, perguntando se alguma das meninas a acompanha, por falta de resposta, me voluntario.
– Você é uma alma caridosa mesmo. – ela comenta.
– Fazer o quê né. – acompanho- a.
Quando estamos quase chegando ao banheiro feminino, somos surpreendidas por Rafael.
– O que você quer? – ela o encara, com urgência.
– Preciso fazer uma proposta pra vocês. – ele dá um sorriso de lado.
– Diga. – ela cruza os braços.
– Sou estudante de fotografia e tenho um trabalho semestral para entregar agora, sobre a beleza. – ele explica – Como falar de beleza sem citar mulheres? É impossível! Por isso iria fazer uma seleção de fotos mostrando a beleza natural das mulheres, sem maquiagem, sem photoshop ou qualquer alteração e vocês são as modelos que faltavam.
Modelos? Odeio tirar foto.
– Por que não convida a Amiony? – Monique estreita os olhos.
– Já convidei, assim como a Camila e a Juliana. – ele informa – Mas só a Camila aceitou, Amiony tem vergonha do corpo e Juliana nem quis ouvir.
– Tudo bem então – Monique dá de ombros – e você? – ela me encara.
– Não sou muito fã de foto. – sorrio amarelo – Acho que vou recusar.
– Ah por favor. – ele implora – Não tenho mais ninguém.
Mordo o lábio inferior, ele e Monique me encaram e isso faz uma pressão recair sobre meus ombros.
– Vão ser só algumas fotos? – encaro–o – E só seu professor vai ver? E não vai der nudez, certo?
– Apenas algumas fotos, só o meu professor verá e você não vai precisar mostrar nada que não queira. – ele garante.
– Tudo bem. – concordo – Me avise o dia que for tirar as fotos.
Ele comemora contidamente.
– Obrigado, vocês são demais! – ele volta para a mesa comemorando.
– Ignora ele – Monique entra no banheiro -, ele acredita que vai virar um fotografo famoso. Nunca ouvi falar de fotógrafos famosos. – ela debocha.
Encosto na parede ao lado da porta. Ela não está errada, fotografia virou mais um hobbie que uma profissão reconhecida, mas minha vó sempre me falou que se fazemos coisas de que gostamos, sempre ganhamos créditos positivos e reconhecimento.
***
O resto do dia foi o normal, tive aula até falar chega e desse Amiony não dormiu. No final do período, fiquei um tempo a mais para tirar uma dúvida com o professor e acabei sendo a única estudante dentro da faculdade.
Quando saio do prédio, o pátio está vazio e escuro o que dá um contraste com a avenida a sua frente. Caminho apressadamente até onde deixei meu carro e já deixo a chave em mãos, para facilitar minha entrada. Destravo o carro e jogo minhas coisas lá dentro.
Um grito rompe o silêncio do local, percorre minha espinha e me causa arrepio, meu coração dispara e fico paralisada. O grito pede por socorro desesperadamente, mas não consigo sair do lugar, não sei o que faço, só fico parada escutando os gritos por socorro.
O último grito é mais longo, o que me desperta e me faz correr em sua direção. Dobra a esquina e entro em um beca e então posso ver a cena.
É um homem vestido de preto e segurando uma faca, não consigo ver seu rosto, pois está sendo tampado pela má iluminação do lugar. A mulher está lutando para se soltar de sua mão e se esquivando da faca. Minhas pernas travam e então a mulher me vê.
– Me ajude! – ela grita e ergue a mão para mim.
O que eu faço?! Não posso enfrenta-lo! Meu corpo fica mole.
Pego meu celular e disco para a policia.
– Estou ligando para a policia! – ameaço – É melhor você ir embora!
Meu celular começa a chamar e a atendente atende.
– Preciso de uma viatura. –falo, apressadamente.
– Qual a emergência? – ela fala, calmamente.
O homem deferi um golpe contra a mulher e por pouco não a acerta.
– Pelo amor de Deus, ele vai mata-la! – grito – Você precisa mandar alguém rápido!
Minhas mãos tremem e não consigo me concentrar no que a atendente diz, apenas olhar a cena e rezar para que ele não venha para cima de mim.
– Estou em uma rua paralela da avenida, meu carro é um optima prata. – respondo – Mas você precisa mandar alguém o mais rápido possivel!
A mulher consegue se soltar do braço do homem e corre em minha direção, sinto um alivio por ela e esse sentimento acaba assim que vejo o homem correr na direção dela. Dou um grito, o homem difere um golpe no pescoço da mulher, fazendo-a cair no chão. Derrubo o celular no chão e minhas pernas ficam moles.
Posso sentir seu olhar sobre mim, porém, ignoro-o, apenas encaro a mulher no chão. Ele corre para o final do beco, o que me faz descobrir que isso não um beco e sim uma viela. Arrasto-me na direção da mulher e viro-a.
Ela ainda está viva, mas o corte é profundo. Preciso estancar o sangue. Retiro minha blusa e aperto-a contra o golpe.
– Moça, olhe pra mim. – peço – Vai ficar tudo bem, a polícia já está vindo.
Seus olhos castanhos me encaram e ela aperta meu pulso.
– Ele – ela sussurra e cuspe sangue – Ele...
– Por favor, poupe forças. – imploro.
Minha blusa começa a ficar encharcada de sangue e minha mão começa a ser umedecida pelo sangue.
– Ele tinha – ela força as palavras – olhos...
– Que cor era os olhos dele? – pergunto.
Ela respira fundo e tenta forçar a resposta, porém, seu corpo sofre um espasmo, ela suspira e seus olhos ficam vidrados.
– Moça. – chamo-a – Moça.
Tento achar seu pulso.
– Moça. – meus olhos começam a ficar marejados.
Escuto as sirenes da viatura, tenho vontade de chorar. Retiro minha blusa do corte e tento achar o pulso, não há mais nada, não há mais vida.
Um feixe de luz me deixa cega por alguns segundos, posso vislumbrar os policias se aproximando enquanto mandam eu me afastar. Arrasto-me para trás e abraço meus joelhos.
Eu podia ter salvado ela, podia ter feito alguma coisa, mas não fiz nada, apenas a observei morrer.

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