Diga Adeus à Inocência
5 Capítulo 4
A ponte foi concertada, voltei para casa sem nenhum problema. Paro o carro, mas continuo dentro.
Encosto a cabeça na direção e respiro fundo. Seria legal ir nesse festa hoje, conhecer mais gente e quem sabe até conhecer um pessoa da faculdade, mas ir nessa festa é sinônimo de dar a deixa para o Malic, no entanto não quero mostrar que estou gostando dele ou qualquer coisa do tipo, porque não estou! É só uma pequena atração controlável e sei que vai passar, vou conhecer outros caras na faculdade e vou esquecer dele. Aliás, a faculdade vai me salvar dele, não vou ter tempo de sair e isso vai acabar me afastando – pelo menos foi isso que aconteceu com o meu último namorado, os estudos sempre atrapalham e em situações como esta, me salvam.
Alguém bate no vidro. Dou um sobressalto e olho para a janela, vejo minha vó estreitando os olhos.
– Dormiu na direção?
Sorrio.
– Só estava pensando. – explico.
– Muitos problemas? – ela ergue uma sobrancelha – É a faculdade?
– Não tem problema nenhum – tranquilizo-a e abro a porta do carro -, só estou com frio na barriga de começar a faculdade.
– Isso faz parte. – ela sorri.
Saio do carro e respiro fundo. Preciso descarregar o carro e arrumar meu quarto.
– Vamos ao trabalho, — ela abre o porta-malas e começa a retirar minhas malas.
***
Um pouco antes das 16;00 hrs eu já tinha descarregado o carro e começado a arrumar o quarto, ainda falta alguns objetos de decoração para eu transformar esse quarto em algo meu de verdade, mas por hora está ótimo, aconchegante, com as minhas coisas, arrumado no meu esquema. Sento da cama e observo. Preciso de alguns enfeites para as paredes, talvez eu até as pinte de uma cor mais vive, esse creme é meio depressivo demais.
– Bianca, o almoço está pronto. – minha vó grita do andar de baixo.
Posso resolver isso depois, terei anos para arrumá-lo ao meu gosto. Desço a escada rapidamente e vou para a cozinha.
– Coloca a mesa? – pergunto.
– Por favor.
Enquanto eu arrumo a mesa, minha vó vai servindo o almoço e nós trocamos algumas palavras fora e o assunto principal é se eu já conheci alguém da faculdade. Atualmente só conheci o Malic e o esquisito do Matthew.
Sentamos e começamos a comer, em completo silêncio. Isso é tão inconstante, uma hora falamos demais e na outra, estamos caladas. Ela liga a tv e quebra o silêncio entre nós. Olho por cima do ombro para a tv e identifico o canal de notícia.
– Sempre a mesma coisa. – ela resmunga.
– O quê? – pergunto.
– O assunto do momento são os assassinatos. – ela revira os olhos.
– Assassinatos?! – olho novamente para a tv.
– Faz uns três meses que vem ocorrendo assassinatos de algumas jovens e a polícia desconfia que seja o mesmo assassinato, estão até falando em serial killer. – ela explica – Tenho pena das famílias que perderam as jovens e ao mesmo tempo raiva das vítimas.
– Raiva? – que sentimento mais inoportuno para um luto.
– Sim – ela confirma-, pense comigo.
– Estou pensando. – sorrio.
– Não seja idiota. – ela ri – Voltando ao assunto, todas foram mortas na área de preservação da cidade, ou seja, no meio da floresta, um pouco mais afastado da trilha que você pegou. O horário do assassinato é previsto para a madrugada. Agora me diga, quem vai fazer caminhada de madrugada? Com certeza elas tinham caso com o assassino e foram se encontrar com ele.
Encaro o meu prato. Ela pode ter razão em acusar as vítimas de cooperarem com o próprio assassinato.
– Mas e se elas foram sequestradas? – pergunto – É uma hipótese.
– E ninguém daria queixa? – ela me encara óbvia – Não viaje, elas foram fumar um baseado.
– Baseado? – rio – Aonde você aprende essas palavras modernas?
– Tenho meus contatos.
Rio.
Ela volta a prestar atenção no noticiário. Será que devo comentar da festa? Nem sei se quero ir.
Limpo a garganta.
– Então – murmuro -, me convidaram para uma festa.
– Quem? – ela me encara e abaixa o volume da tv.
– O Malic. – mordo o lábio inferior – É do pessoal da faculdade.
Ela respira fundo.
– Onde vai ser?
– Vai ser aqui perto. – garanto – Não vou fazer nada de errado, confia em mim.
– Confio em você – ela sorri -, não confio nas outras pessoas.
– Sei cuidar de mim e outra, é só uma confraternização, nada demais, só pro pessoal se conhecer antes do curso.
– Tudo bem. – ela cede- Só não chegue muito tarde e espero não te encontrar jogada no chão, em coma.
Rio.
– Em coma talvez não. – brinco.
Depois de comer, ajudo-a a arrumar a cozinha e lavar a louça. Assistimos um pouco de tv enquanto eu verifico os horários de meu curso pelo telefone e faço uma lista do que comprar de material.
Perto das 18hrs e 30min subo para me arrumar. Tomo uma ducha rápida, escovo os dentes e pego minha maletinha de maquiagem. Produzida ou natural? Vai ser uma festa à noite, então ficar uma pouco mais produzida não tem problema, mas o meu vestido tem uma cor forte, então não pode ficar algo muito “CHEGUEI!”, não quero ser um farol ambulante.
Opto por uma sombra escura e um batom um pouco sutil, coloco meu vestido vermelho e penteio o meu cabelo. Dou uma rápida olhada no espelho. Não estou exagerada. Desço as escadas com meu salto na mão e paro na sala.
– Então... ? – dou uma rodadinha para minha vó apreciar a transformação.
– Estou achando esse vestido curto – ela resmungo -, está quase mais de três palmos acima do joelho.
– E a proposta. – rebato sorrindo.
– Proposta do que? – ela franze o cenho – Proposta de um caminho mais curto para a sua calcinha?
Engasgo com minha saliva e sinto minhas bochechas esquentarem.
– Não sou dessas garotas. – resmungo e reviro os olhos.
– Mas o Malic é desse tipo de cara. – ela estreita os olhos.
– Para de cismar com ele! – cruzo os braços – Não temos nada.
Ela dá de ombros.
– Já estou indo. – vou até a porta – Tchau.
Odeio quando ela fica achando que não sou uma pessoa descente, por favor né, todos sabem muito bem que não dessas que dormem com qualquer um. Entro no carro e engato a ré.
Okay, a festa é aqui perto, vou descobrir pela música.
Após umas cinco casas já posso cogitar em estar escutando uma música alta e já posso notar um número considerável de carros estacionados. Vou me aproximando devagar e observo todas a casa e finalmente encontro o local da festa.
O andar debaixo da casa é apenas a garagem. A casa só começa, propriamente, no andar superior depois de um lance de escada que dá para uma larga varanda com uma pequena aérea de lazer onde eles implantaram o bar da festa. Há algumas mesas e sofá a disposição. Estaciono o carro e coloco o sapato.
Respiro fundo. Aja naturalmente, seja sociável, sorria.
Aproximo-me da festa e desvio de algumas pessoas em um pré-coma. Sorrio ao lembrar de minha vó falando sobre me achar em coma. Olho para a escada e dou passagem para algumas pessoas que descem e sobem.
Aja naturalmente.
Começo a subir a escada e ergo a cabeça, nada de timidez. Chego ao andar superior e olho rapidamente pelo local, não encontro Malic. Tantos rostos desconhecidos me encarando que chego a ficar desconfortável. Mordo o lábio inferior e cogito em voltar pra casa. Ele deve estar com outra menina.
Seja sociável.
Misturo-me com as pessoas e tento fingir que fui uma convidada oficial da festa. Pego meu celular e finjo estar enviando uma mensagem para alguém e olho em volta mais uma vez. Por favor, alguém venha falar comigo. Encosto na grade da varanda, que na verdade não é uma grade, está mais para um parapeito de vidro. Droga. Vou ficar aqui igual idiota. Vejo uma menina se aproximar de mim com um copo.
– Você é a única convidada que está sem copo. – ela fala, com a voz um pouco enrolada.
– Obrigada. – pego o copo e disfarçadamente o jogo no chão.
– Está esperando alguém? – ela encosta ao meu lado.
– Sim.
– Qual o seu nome? – ela dá um gole em seu copo.
– Bianca e o seu?
– Lana.
– Vai cursar alguma coisa aqui? – guardo o celular.
– Passei na federal e você? – ela retira um cigarro preto do bolso.
– Também.
Repentinamente ela dá um grito de entusiasmos, me abraça e sai andando. Ergo uma sobrancelha e rio da situação. Não dá para encontrar alguém descente em festas.
Sorria.
Ergo o olhar e instantaneamente encontro os olhos amarelados. Perco o ar e sinto minhas bochechas esquentarem. Dou um tímido sorriso e ele faz um aceno para eu me aproximar de sua rodinha de amigos. Abaixo um pouco a barra de meu vestido e me aproximo.
– Essa é a Bianca. – ele me apresenta enquanto me aproximo.
Sorrio.
Nenhum dos amigos dele disse alguma coisa, apenas me encaram.
– Parem de babar em cima dela. – Malic sai da rodinha.
– Já vai rápido assim. – um dos amigos diz, com certa malicia.
– Tenho que aproveitar. – ele sorri de lado e finalmente se aproxima de mim.
Ele não cheira a álcool como a maioria dos caras aqui, está cheirando a perfume a perfume cítrico. Sua camisa social preta está totalmente aberta, deixando o peitoral a mostra, cabelos bagunçados, cigarro entre os dedos. A aproximação de seu rosto faz meu coração parar, mas antes que ele consiga me beijar, viro o rosto e sorrio de lado. Não será fácil assim.
Os amigos dele começam a gargalhar.
– Acho que não. – um deles grita.
– Sinto muito, não foi dessa vez. – outro brinca.
– Você quer beber alguma coisa? – volto-me para Malic.
– Estou fumando. – ele dá uma tragada no cigarro – Você quer?
– Por favor.
Caminhamos na direção do bar e enquanto caminhamos Malic envolve minha cintura, um calafrio percorre minha espinha. Sem desespero. Debruço no balcão e espero ser atendida, a mão de Malic desce mais um pouco. Limpo a garganta.
– Você tem certeza que não quer beber? – viro-me de frente para ele e interrompo o contato de sua mão com meu corpo.
– Não gosto de beber. – ele responde, impassível.
– Hm... O baseado te dominou. – sorrio.
– Completamente. – ele se aproxima novamente.
– O que vão querer? – o barmen aparece.
Viro para o balcão e me afasto um pouco de Malic. Não sei o que pedir e começo a gaguejar e olhar para o copo de outras pessoas, no fim aceito uma sugestão do barmen. Ele me serve um pequeno copo um vodca dentro.
– Pura? – encaro Malic.
– É pra você tomar de uma vez. – ele explica.
Encaro o copinho, depois Malic e depois olho em volta. Respiro fundo e viro o copo. O álcool queima minha garganta. Faço uma careta.
– O que você quer fazer agora? – ele pergunta.
Olho em volta. Minhas opções estão diminuindo.
– Dançar. – falo exasperada.
Vamos para dentro da casa e noto que ela está sem a mobília e onde deveria ser a sala é a pista de dança com o dj. Seguro na mão de Malic e vou entrando no meio da pequena multidão quando sou contida por ele.
– Não quero dançar. – ele sussurra em meu ouvido.
Mordo o lábio inferior.
– O que você quer fazer? – pergunto, com a voz tremula.
Ele segura em minha cintura e me faz virar, chocando nossos corpos. Suas mãos passeiam pelas costas até a nuca, ele me faz erguer a cabeça e encara-lo. Meu coração dispara e tenho dificuldade para respirar, aproximo mais meu rosto e toco levemente meus lábios nos dele. Iniciamos o beijo calmamente.
Seguro em suas costas e deixo nossos corpos mais próximos, o beijo fica mais intenso. Ele começa a me guiar e eu apenas o acompanho até sentir algo sólido e gelado contra minhas costas; parede. Finco minha mão em seus cabelos e coloco uma mão dentro de sua camisa, acariciando suas costas. Ele desce os beijos para meu pescoço. Suspiro. O que estou fazendo?!
Afasto-o e desvencilho-me de suas mãos. Ele franze o cenho.
– Quero dançar agora. – sussurro me aproximando, contorno seu maxilar com o indicador e mordo seu lábio inferior, dando uma leve puxada.
Rapidamente saio de perto dele e vou até a pista de dança, até onde seu campo de visão alcança. Permaneço de costas para ele e danço, lentamente. Passo a mão no cabelo e em minha cintura, encaro-o por cima do ombro, seus olhos estão fixos em mim.
Continuo dançando e me afasto ainda mais de seu campo de visão. Aproximo-me da escada e olho mais uma vez para a pista de dança, ele está me procurando. Sorrio e encaro o vaso de orquídeas que está perto da escada em um pequeno pedestal de mármore, alguma mulher deve morar aqui. Mãos fortes envolvem minha cintura.
– Achou que podia se esconder de mim? – ele sussurra e beijo meu pescoço.
– Essa nunca foi minha intenção. – sorrio.
Viro e fico de frente para ele, início outro beijo. Passo minhas duas mãos para dentro de sua camisa e arranho suas costas. Sua mão alcança a barra de meu vestido e por ali fica, segurando o tecido enquanto a outra segura minha cintura. Recuo alguns passos e puxo-o comigo, bato minhas costas contra o canto de uma parede. Ele desce os beijos mais uma vez para meu pescoço e me faz ficar arrepiada. Mordo o lábio inferior e retiro minha mão de dentro de sua camisa, levando-a até seus cabelos. Ele volta a beijar meus lábios, afasto o meu rosto e abro os olhos, ele faz o mesmo. Encosto levemente meus lábios no seu e continuo mantendo o contato visual.
– Eu poderia devorar você. – ele sussurra.
Sorrio e fecho os olhos.
– Então devore. – sussurro de volta.
Ele volta a me beijar.
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