Diga Adeus à Inocência
6 Capítulo 5
Abro os olhos, desperto com a claridade do lugar. Estou em um quarto com o teto branco, uma parede de vidro, um armário espelhado e a cama, na qual estou deitada. Coloco a mão em minha cabeça e ofego com a dor que sinto. Sento e esbarro em alguma coisa, olho para o lado e vejo Malic. Suprimo um grito e sinto um aperto no peito.
Não pode ser verdade, eu não.... Não! Não posso ter feito isso! Coloco a mão na cabeça e forço minhas memorias sobre a noite anterior. Por favor... Por favor. O que vou falar pra minha vó? Eu não voltei da festa! Ela vai suspeitar. Meu deus. Mais que merda.
Levanto da cama o mais silenciosamente que consigo, pego meus sapatos e noto que estou vestido, estou de calcinha e sutiã. Estou vestida. Franzo o cenho e olho para Malic, ele está sem a blusa, não tenho coragem de tirar o cobertor para ver se está de cueca.
Antes de sair do quarto, encontro a porta do banheiro. Entro vagarosamente e jogo meus sapatos no chão. Curva em cima da pia e lavo meu rosto, faço um bochecho e jogo um pouco de água no meu pescoço. Mas o que aconteceu aqui? Não posso ter dormido com ele, não assim, desse jeito, bêbada e o pior de tudo, nem lembro o que aconteceu. Tenho vontade de chorar. Ergo o corpo novamente e pelo espelho, encontro o olhar amarelado um pouco sonolento.
Grito e viro-me rapidamente.
– Você... Da onde... Mais que merda!
Ele franze o cenho.
– Acordou de tpm? – ele cruza os braços e encosta no batente da porta.
Passo por ele e paro no meu quarto.
– Preciso saber o que aconteceu ontem. – informo – Eu dormi com você?
– Sim. – ele diz meio óbvio.
Minhas pernas amolecem e tenho ânsia. Aos poucos vou abaixando até sentar no chão de madeira, mordo o lábio inferior e finco meus dedos em meu cabelo. Isso tem que ser um sonho, um pesadelo, a merda que for. Não posso ter sido tão irresponsável, esperei tanto por isso pra ser em uma noite de festa?! Onde supostamente eu bebi mais do que devia, por favor, você tem que ser melhor que isso Bianca.
Em um reflexo, levanto do chão e retiro o coberto da cama. Não há mancha de sangue no lençol, olho em volta, pode não ter sangrado. Minha mãe falou que algumas meninas não sangram. Afasto-me da cama e começo a procurar por um envelope de camisinha.
– Você está agindo feito louca. – ele volta a deitar na cama – O que está procurando?
– Camisinha – ajoelho não chão e olho embaixo da cama -, você usou, não usou? – sento em cima de meus joelhos e o encaro, está usando cueca.
Ele começa a gargalhar, reviro os olhos e bufo.
– Não transei com você. – ele me encara – Não transo com meninas bêbadas.
Um alivio passa pelo meu corpo e me deixa mole, sorrio de minha preocupação. Eu sabia que era melhor que isso.
– Estava à beira de um colapso. – debruço na cama e o encaro – O que aconteceu?
– Você estava tonta e alegre demais. – ele dá um sorriso de lado – Achei melhor não te deixar voltar dirigindo e pedi pra você dormir aqui, foi só isso.
Mordo o lábio inferior e estico o braço, acaricio seus cabelos. Ainda bem que foi só isso.
– Preciso ir embora. – levanto.
– Fica mais um pouco. – ele pede.
Sorrio.
– Não liguei para minha avó, ela deve estar preocupada. – vou buscar meu sapato no banheiro.
– Você já é de maior, não precisa mais dar satisfação pra ninguém. – ele rebate.
– Sim, mas ela precisa saber que estou viva.
– Só mais cinco minutos. – ele senta na cama.
Passo por ele e tenho meu braço agarrado.
– Por favor. – ele implora.
Sorrio.
– Só mais cinco minutos.
Ele me puxa para a cama, deitamos.
– Você gostou da festa? – ele murmura, enlaçando minha cintura e me puxando para mais perto.
– Embora eu não lembre de nada – aproximo-me -, gostei de ficar um tempo com você.
Malic aconchega o rosto na curva de meu pescoço e respira fundo. Levo minha mão até suas costas e a arranho devagar, vendo sua pele se arrepiar.
– Gostei que você veio.
Observo mais seu corpo e noto suas tatuagens; uma caveira perto da nuca, uma frase em outra língua nas costelas, uma tribal no braço seguida de uma cobra, a palavra fuck soletrada no dedos de sua mão, uma caveira mexicana no outro braço rodeada de flores e cores, um dragão que rodea de seu cotovelo até o pulso, um lobo perto da cobra.
– Você gosta de tatuagem. – comento.
– Ainda vou cobrir meu corpo de tatuagem. – posso sentir seu sorriso.
– Você é um menino rebelde. – sussurro – Rebelde sem causa.
Ele ri.
– Besta. – resmunga.
Fecho os olhos e encosto minha bochecha em sua testa, ele beija meu pescoço.
– Você vai fazer faculdade? – murmuro.
– Já estou na faculdade.
– O que você está fazendo?
– Engenharia civil. – ele murmura – Meu pai tem uma empresa de construção, então se eu for engenheiro, já tenho um emprego fixo.
– Fez engenharia só por causa disso? – franzo o cenho.
– Sim.
Respiro fundo. Bem típico.
– Não sabia o que eu queria ser, nunca quis ser nada, nunca admirei nenhuma profissão. Meu pai fez engenharia, meu irmão entrou em economia e acabou com os sonhos do meu pai em ter um filho que seguisse sua profissão, mas calma ai! Ele ainda tinha o filho caçula – ele suspira -, todas as expectativas perdidas no meu irmão caíram sobre mim e eu não sabia o que eu queria da vida, então só segui o que me falavam e realizei o do sonho do meu pai.
– Eu te entendo. – murmuro.
– Você acha que me entende. – ele sussurra.
Sorrio.
Ele encosta os lábios em meu pescoço e os deixa lá. Sinto um arrepio percorrer minha espinha.
Não sei quanto tempo ficamos deitados, possivelmente dormi novamente e acordei com o barulho de um chuveiro. Sento na cama e passo a mão em meu cabelo, procuro o meu celular e para variar está sem bateria.
Puxo o meu sapato com o pé e calço-o, pela tela escura do celular dou uma rápida olhada em meu rosto. A maquiagem saiu... rímel a prova da água é um salvador de vidas.
No mesmo instante que levanto, a porta do banheiro abre e o vapor quente inunda o quarto, Malic sai trocado enxugando o cabelo na toalha.
– Já vou indo. – informo.
– Te levo até o carro. – ele joga a toalha na cama.
Saímos do quarto em completo silêncio, caminho a sua frente e desço as escadas segurando na parede. Há uma equipe de limpeza contratada limpando a casa e um pequeno grupo de adolescente sentados em roda perto da piscina. Identifico alguns amigos de Malic e algumas meninas.
– Ah, o casal passou a noite na função. – um dos amigos dele ri e os outros o acompanha.
Coloco uma mexa de meu cabelo atrás da orelha e continuo caminhando, sem dar importância para o comentário, Malic toca em meu ombro e dá um pequeno aperto. Descemos a escada e me mantenho alguns degraus na frente. Meu carro está no outro lado da rua, paro e viro para encará-lo.
– Hm... Obrigada. – murmuro.
– Não precisa agradecer, sei que sou o cara mais gato que pegou na vida. – ele me lança uma piscadela.
Dou um tapa em seu ombro e rio.
– Não me refiro a isso – sorrio -, estou agradecendo por você não ter se aproveitado da minha situação ontem.
Sinto minhas bochechas esquentarem. Nunca fui de beber tanto, nem lembro o que aconteceu depois que eu o beijei perto daquele vaso de orquídeas, é como se eu tivesse morrido e ressuscitado naquele quarto. Ele podia ter feito qualquer coisa... Dá até arrepio pensar nisso.
– Você tem muitas impressões erradas sobre mim, Angel. – ele pega nas pontas de meu cabelo e dá um sorriso de lado.
Mordo o lábio inferior e abaixo o olhar. Realmente, tenho muitas impressões sobre o Malic.
– Aprenda a ver sozinha. – ele se aproxima e me dá um selinho.
Será que ele está se referindo a minha vó? Minha vó!
Vou rapidamente para o carro e dou um rápido aceno para Malic.
Fico um tempo parada na porta, respirando fundo, vou escutar reclamações para o resto da semana. Não quero nem pensar na confusão que ela lá causou, espero que não tenha ligado para os meus pais. Prendo a respiração e abro a porta.
Posso vê-la sentada no sofá da sala, com uma xícara de café na mão e olhando para a televisão, que está desligada. Retiro os meus sapatos e me aproximo devagar.
– A festa foi boa? – ela pergunta, sem me encarar.
Limpo a garganta.
– Foi, fiz muitas amizades.
– Por que não voltou? Fiquei preocupada com você.
Ela está falando de um jeito mecânico, vidrado.
– A dona da casa ofereceu um quarto pra mim, acho que posso ter bebido demais e os pais dela não quiseram que eu voltasse dirigindo. – explico, ficando de joelho na sua frente.
– Só você estava no quarto? Ou mais alguém te acompanhou? – ela ergue uma sobrancelha e dá um gole no café.
– Será que vocês não podem acreditar em mim? – falo, frustrada – Tudo o que eu faço vocês conseguem ver malicia e segundas intenções! Não sou nenhum tipo de puta que dorme com qualquer um nas festas, não tão fácil assim! Vocês chegam a me ofender.
– Vocês quem? – ela franze o cenho.
– Você acha que ainda sou idiotinha? – levanto e vou para o meio da sala – Sei muito bem que você liga para a minha mãe e a deixa atualizada de tudo o que eu faço aqui e sei que vocês ficam pondo ações em minhas atitudes, ações que não acontecem! Já não estão satisfeitos que passei no curso que vocês queriam?! Não estão satisfeitos que faço tudo o que vocês mandam?! Não sou marionete e já estou ficando cansada dessa desconfiança e autoridade em cima de mim!
– Você abaixe o tom mocinha. – ela levanta e coloca a xícara de lado.
– Não estou gritando! – grito.
– Chega. – ela eleva a voz – Você já é adulta, mas ainda mora sob o teto dos seus pais e no momento, sob o meu. Tenho todo o direito de desconfiar do que você faz e com quem anda, então vamos baixar a bola.
Passo a mão em meu rosto.
– Quer saber, não vou mentir para a senhora. – faço um coque em meu cabelo – Dormi sim com o Malic, a noite inteira e quer saber de outra coisa?
– Não, basta. – sua feição fica mais séria – Vou ligar para os seus pais, não admito esse tipo de comportamento na minha casa. – ela caminha até o telefone, vou até ela e seguro em sua mão.
– Eu não transei com ele – estreito os olhos -, mas a senhora saberia disso se conhecesse melhor o meu caráter, ou melhor, se acreditasse mais em minhas atitudes. – solto sua mão e vou até as escadas, subo.
Tomo uma rápida ducha e aproveito para fazer minha higiene matinal. Curvo o corpo sob a água quente e suspiro. Acho que fui dura demais com ela, isso tudo é apenas preocupação. Ela é uma segunda mãe para mim e com tal, ela deve ficar muito preocupada com quem eu ando e o que eu faço da vida fora de seu alcance, fui errada de não ter ligado para avisar. Devo desculpas a ela, não deveria ter gritado. Coloco um moletom e desço novamente, pela janela, vejo que ela está mexendo com suas flores. Quando eu era criança, minha mãe me dizia que quando minha avó ia para o jardim, possivelmente ela deveria estar triste ou muito feliz. Pela situação, aposto qualquer coisa que ela deve estar magoada.
Saio e sento na cadeira da varanda, observo-a amarrar sua muda de orquídea branca no tronco de uma pequena árvore.
– Você me desculpa? – murmuro.
– Por que eu estaria magoada com você? – ela me encara e passo as costas da mão na testa.
– Gritei com a senhora, não deveria ter agido daquela maneira.
– Você tinha razão, não devo desconfiar tanto de você. Já é uma adulta e sabe o que está fazendo, eu deveria ficar feliz com a responsabilidade que você tem. – ela se aproxima da varanda – Também devo desculpas ao Malic, o julguei sem nem ter o conhecido direito. Mas no mundo de hoje as coisas estão tão mudadas que na minha época que eu temo por você e sua vida, você é minha florzinha e não quero nada te machuque.
Levanto e vou até ela, abraçando-a.
– Desculpa mesmo. – meus olhos ficam marejados.
Ela acaricia minhas costas.
– Acordamos com os nervos à flor da pele – ela ri -, vamos começar de novo.
– Sim. – sorrio.
– Vá lá pra dentro e ligue no noticiário e eu vou fazer o café. – ela volta a dar atenção para suas plantas.
Entro e liga a televisão, coloque no noticiário da minha vó. A reportagem é ao vivo e parece de certa urgência. Paro para prestar atenção e leio o título da notícia: “ O lobo mau ataca novamente. Corpo encontrado na área de reserva da cidade.”
O apresentador corta um pouco a matéria para falar da vítima e eles colocam uma foto dela, que ocupa metade da tela. É a menina que eu conversei ontem na festa. Deixo o controle cair no chão e fico estática. Pelo documentário, ela morreu com um corte profundo na garganta. A parte artística do assassino se sobressai; o corpo foi encontrado encostado em uma árvore com o braço apoiado sobre a cabeça, como se ela tivesse pousando para uma foto – que no momento são as fotos da perícia. Isso chega a ser doentio, é como se ele estivesse zombando da perícia e da morte dela.
A polícia sabe que é o mesmo assassino, pois ele deixou sua assinatura: uma orquídea branca manchada com o sangue da vítima – de acordo com o que a polícia informou, todas as vítimas dele trajam algo ou seguram algo branco que se mancha com seu sangue.
Minhas pernas enfraquecem e tenho a sensação que vou cair. Aquela casa tinha um vaso de orquídea, eu toquei nas orquídeas. Eu poderia ter sido a vítima.
– Perto do corpo da vítima foi encontrado alguns cigarros de maconhas, os famosos baseados, o que supostamente indica o motivo dela ter vindo para o meio da reserva. – a repórter informa.
A porta abre, levo um susto e quase tenho um infarto.
– Você quase me matou. – ofegou olhando para minha avó.
– Quem morreu? – ela se aproxima.
– Como sabe que foi morte? – franzo o cenho.
– Oras, é a única coisa que passa na cidade ultimamente. – ela dá de ombros.
– Essa menina estava comigo. – murmuro.
Ela me encara surpresa.
– Você a conhecia?
– Não muito, conversamos pouco tempo, mas ela também tinha passado na faculdade.
– Drogada. – ela revira os olhos – É o que dá ir fumar baseado de madrugada.
– Que horror vó! Poderia ter sido eu! – falo.
– É horrível mesmo, mas o que eu posso fazer? – ela me encara – Lamento por uma jovem tão bonita morrer, mas antes ela do que você.
Minha avó tem uns pensamentos estranhos às vezes. Pego o controle e desligo a televisão.

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