Diga Adeus à Inocência
4 Capítulo 3
Não me lembro de ter dormido, porém desperto com o praguejo de minha vó no andar de baixo. Esfrego os meus olhos e bocejo, que horas são? Tenho preguiça de levantar, então continuo deitada, olhando para a parede. Deixo minha mão pender para o chão e suspiro. Acho que não estou pronta para começar a faculdade, tudo passou tão rápido, nem tive tempo de aproveitar direito. Gostaria que o tempo parasse um pouco, só um pouco.
Posso escutar minha vó subindo as escadas e ascendo a luz do corredor, permaneço em silêncio. Se eu mostrar que acordei, ela vai querer descer de novo para fazer o jantar e não quero incomodá-lo, posso comer o resto do almoço ou qualquer besteira que achar nos armários. Assim que a luz é apagada e escuto a porta do quarto ser fechada, levanto e saio.
Caminho na ponta dos pés até a escada. Ascendo a luz da sala e vou para a cozinha, para a minha sorte, há sobras do almoço na geladeira. Pego um prato e sirvo-me, esquento e sento-me à mesa.
Muitas vezes acho que tudo o que faço é baseada nos que as outras pessoas querem de mim, por exemplo, minha faculdade. Meus pais passaram minha adolescência inteira falando que eu deveria cursar aquilo por que eu seria bem-sucedida com isso, teria uma vida boa e dinheiro, no entanto eles nunca perguntaram o que eu queria fazer. O mais engraçado é que eu não sei o que eu quero ser, passei tanto tempo sob a influência deles que não tive tempo de pensar no que eu me interessava e acabei indo por embalo no que escutei e no que as pessoas tinham fé que eu faria bem.
Respiro fundo.
Agora é tarde para me arrepender, não posso desistir, principalmente pela faculdade que consegui e pelas horas de estudo. Posso aprender a gostar disso.
– Achei que estivesse dormindo.
Levo um susto e quase caio da cadeira.
– Nossa vó, por que não faz barulho? – viro para encara-la – Assim sei que tem alguém se aproximando.
– Desculpa – ela se aproxima-, fui no seu quarto te dar boa noite e notei que você não estava na cama. – ela explica.
– Estava com fome. – dou um sorriso mínimo.
– Por que não me chamou? – ela franze o cenho.
– Não queria te incomodar. – dou de ombro.
Ela suspira.
– Você me lembra a sua mãe na sua idade, sempre preocupada em agradar. – ela sorri.
– Já sei da onde puxei essa minha caridade nata. – sorrio.
– Se quiser ver tv, a sala é sua. Boa noite. – ela se retira.
– Boa noite. – volto a comer.
Depois de comer, lavo a louça e vou ver um pouco de tv.
Acordo com a luz na cara e percebo que dormi com a tv ligada. Desligo e viro para o outro lado no sofá, abraço a almofada e tento voltar a dormir.
– Bom dia. – minha vó passa por mim.
Bufo. Deve ser bem cedo, para minha avó estar acordada.
– Que horas são? – pergunto.
– Quase meio-dia. – ela abre a porta da entrada.
– Você acordou só agora? – falo incrédula.
– Claro que não – ela ri-, já vi o jornal, tomei café e assisti ao meu programa.
Então eu não dormi com a tv ligada. Levanto do sofá.
– Tenho que ir pegar meu carro. – levanto.
Vou pegar umas roupas e ir para a faculdade, lá tem um vestiário.
– Coma alguma coisa. – ela ordena.
Passo na cozinha e pego uma maçã, coloco meu sapato e guardo a chave do carro em meu bolso.
– Tchau vó. – falo enquanto abro o portão.
– Tchau. – ela grita de volta.
Aproveito a caminhada para fazer cooper e passo pela trilha, até que bem acelerada. Encontro outras pessoas fazendo o mesmo que eu. Assim que saio da trilha, dou de cara com o meu carro. Destravo o carro e entro, engato e volto para a cidade. Vou direto para a minha faculdade e paro no estacionamento, pego uma muda de roupa, toalha, escova e pasta de dente. Junto tudo dentro de uma sacola e vou para quadra. Entro e atravesso-a até a outra entrada, que dá no vestiário.
Por favor, eles têm que estar abertos.
Forço um pouco a porta para descobrir se ela está fechada e então ela abre. Sorrio e entro, coloco minhas coisas no banco e abro o chuveiro, tranco a porta e dispo-me. Entro no chuveiro e inicio meu banho, aproveitando para fazer minha higiene matinal. Termino o banho, seco-me e visto-me. Dou uma rápida arruma no cabelo enfrente ao espelho e destranco a porta.
Enquanto me aproximo do carro vejo que tem uma pessoa encostada na parede, à medida que vou me aproximando da figura, a identifico: Malic. Passe reto, passe reto. Passo por ele como se eu não o conhecesse e vejo o efeito disso em seu rosto. Sorrio.
Destravo o carro e guardo minhas coisas, quando viro-me para fechar a porta, dou de cara com Malic. Pequeno ataque cardíaco. Coloco a mão no peito e solto o ar dissonante.
– Está me evitando? – ele inclina a cabeça.
– Claro que não, por que acha isso? – minto.
– Você passou por mim e nem seque olhou pra mim. – ele explica.
Sabia que o havia atingido.
– Nem tinha te notado ali. – dou de ombros – Bom dia. – abro a porta da frente e ele a fecha, arregalo os olhos e volto a encara-lo – Você podia ter arrancado minha mão.
– Odeio esse tipo de joguinho. – ele resmunga.
– Que jogo? – ergo uma sobrancelha.
– O mesmo jogo que toda mulher faz. – ele morde a lateral de seu lábio – Não sou de ficar jogando.
– Que pena – finjo lamentar -, jogos são tão divertidos.
Ele se aproxima, recuo e bato contra o carro, ficamos frente a frente, a centímetros de distância.
– Então você gosta de jogos? – ele sussurra.
Sinto minhas bochechas esquentarem.
– São meu tipo de passatempo preferido. – sussurro.
– Então por que não dá uma passada na festa do meu amigo hoje? – ele sugere.
– Depende, onde vai ser? – mordo o meu lábio inferior.
– Perto da casa da sua avó, um pouco mais a frente. – ele informa- Vai descobrir pela música.
– A ponte foi liberada? Se não terei que ir a pé, claro, se eu for.
– Acho que foi sim. – ele parece pensativo.
– Então isso foi um convite? – sorrio.
– Está mais para um desafio. – ele se afasta.
Abro a porta do carro. Desafio...
– Talvez eu apareça. – entro no carro e abaixo o vidro.
– Talvez eu te espere. – ele debruça na janela.
– Talvez eu goste de sua companhia. – rebato.
– Talvez eu goste de seu jogo. – ele sorri de lado.
– Talvez eu goste de ser desafiada. – sorrio.
Engato a ré. Enquanto saio do estacionamento observo a figura de Malic ficar para trás.
Talvez eu esteja cometendo um erro.

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