Deixo meu braço pender ao lado do corpo e solto o ar devagar. Meu Deus, prenderam ele. Então não haverá mais vítimas, não haverá mais mortes, finalmente essa cidade ficará normal novamente. Preciso ligar para minha mãe.

Depois de falar com minha mãe, recolho o cobertor do corredor e a mascará da mesa, deixando tudo em cima do sofá. Sento por cima das coisas e observo a janela, deve ser cedo. Ainda não consigo assimilar que foi o Jonas que fez tudo isso, por quê? Não vejo nenhum motivo que explique esse comportamento, nada explica o que ele fez com aquelas meninas. Talvez ninguém nunca saiba o motivo pelo qual ele agiu assim durante os últimos meses, quem pode entender a mente de um assassino?

A campainha toca e me faz levar um susto. Pulo do sofá e encaro a porta. O Malic está esperando alguém? Em um lapso lembro de sua mãe. Ai cacete. Corro até a porta e olho pelo olho mágico, dando de cara com uma mulher. Mordo o lábio inferior. Merda.

Respiro fundo, sorrio e abro a porta. Ela me encara da cabeça aos pés e ergue uma sobrancelha.

– Você, quem é?

Ela parece com ele. Possuem os mesmos olhos amarelados, o mesmo tom de pele – mas a dela não parece ser marcada por tatuagens. Usa brincos de argolas dourados e vários anéis de pedra, a bolsa pende em seu ombro e seu terno branco está perfeitamente arrumado.

– Bianca. – murmuro, dando-lhe passagem.

Os saltos ressoam pelo apartamento. Fecho a porta e fecho os olhos por alguns segundos. Do jeito que o Malic falou dela ontem, parecia que seria um pouco mais simpática.

– Onde está o Malic? – ela me encara por cima dos ombros.

– Está dormindo.

Ela revira os olhos.

– E você parece que estava dormindo também.

Minhas bochechas esquentam.

– Tivemos trabalho da faculdade ontem e ficamos acordados até tarde. – invento qualquer desculpa.

Ela ri, debochada.

– Sei muito bem que tipo de trabalho meu filho faz e meninas como você também. – ela rebate.

Franzo o cenho.

– Não estou entendo o que a senhora quer insinuar com isso.

– Estou dizendo, querida, que sei muito bem o tipo de garota que você é. – ela se aproxima, cerrando os olhos – Quero deixar bem avisado que se você estive tentando dar o golpe da barriga no meu filho, será muito burra. Você é o tipinho mais básico das vagabundas por aí.

Arregalo os olhos. O que?! ela acha mesmo que sou esse tipo de garota?! Logo eu que ontem a defendi e que quase morri ao saber que ele não usou camisinha. Quem ela pensa que é para me julgar assim? Agora entendo o “sorria e acene” do Malic, não é por tratá-la como idiota, mas porque ela realmente fala coisas que devem ser ignoradas.

Limpo a garganta.

– Você reparou na gravidade da acusação que fez? – encaro-a, séria – Tem noção do que está falando? A senhora mal me conhece e já chega falando que sou tipinho de vagabunda? Quem é a senhora para falar isso a meu respeito?

– Olha aqui, garota, não admito que fale assim comigo.

– Só tenho respeito com quem tem por mim. – retruco.

Ela coloca a mão na testa e sai andando.

– Aonde meu filho foi meter. – ela resmunga – Cada dia ele me aparece com uma pior, já não basta a outra lá.

Onde o filho dela foi meter?!

– Olha aqui – exalto-me -, realmente eu tentei ser gentil com a senhora e eu até teria me arrumado para receber você, mas agora vejo que nem se eu tivesse me vestido de lixo você seria digna de minha presença.

– Eu? Digna? Ah! Por favor. – ela joga a bolsa no sofá.

O que eu estou fazendo aqui? Vou pegar minhas coisas e ir embora. Ando na direção do corredor, quando sou chamada:

– Bianca. – ela me encara – Antes de você dar o golpe da barriga no idiota do Malic, precisa saber de uma coisa.

Encaro-a, esperando a continuação.

– Uma ex-namorada dele entrou em contato comigo informando que ela teve um filho dele ontem. – ela diz, seca – Na verdade, foi a mãe da menina. Então pense bem, pois você terá que dividir a pensão.

Filho? O Malic é pai? E então parece que estou em queda livre. Não digo nada. Caminho na direção do quarto e começo a recolher minhas coisas.

Ele pretendia me contar? Ele pretendia saber da criança? Pai! Ele é pai de um recém-nascido! Será que era disso que ele estava falando? De ser uma pessoa ruim? Talvez pelo fato dele abandonar a menina.

– O que você tá fazendo?

Olho para trás e o encontro sentado na cama.

– Bom dia, papai. – falo amargamente – Dormiu bem?

Ele franze o cenho.

– Papai?

– Sim. – cruzo o braços – É assim que o seu filho irá te chamar.

– Você está grávida? – ele arregala os olhos e levanta.

– Graças a Deus, não. – volto a pegar minha bolsa – Sou um tipinho falho de vagabunda.

– Não estou entendo o que você está falando. – ele vem atrás de mim.

– Pergunta para sua mãe.

Aperto o passo pelo corredor e passo por ela na sala, não lhe dirijo o olhar. Malic caminha atrás de mim e tenta me fazer parar de todo jeito.

– Precisamos conversar. – ela o encara.

Abro a porta e o encaro, por cima de seu ombro consigo ver sua mãe.

– É, Malic, você precisa conversar. – fecho a porta e dou a sorte do elevador ainda se encontrar aqui.

Entro o mais rápido que consigo e aperto o botão inúmeras vezes para a porta fechar. Ele vem não atrás de mim. Encosto na parede do elevador e respiro fundo. O que foi isso? O que será disso? O que ele vai fazer? O que eu vou fazer?

**

Pego um táxi, de pijama mesmo. O motorista me fez algumas perguntas, já que conhecia minha vó e me conheceu através das reportagens do crime do beco – essa fama está mais para o pior karma. Chego em casa cansada, mas psicologicamente do que fisicamente. Arrasto minhas coisas até a varanda e nem preciso abrir a porta, Felipe o faz por mim. Lá vem outro demônio.

Entro em casa e minha vó está sentada no sofá junto de Israel vendo alguma coisa.

– Agora você se deu mal, gatinha. – ele sussurra e sai andando.

Mas hein?! Largo minhas coisas e me aproximo dos dois na sala. Consigo visualizar o que minha vó tem em mãos: são fotos de minhas fotos para o trabalho do Rafael. Mordo o lábio inferior.

– Bom dia. – me aproximo, com receio.

– O que é isto? – minha vó em entrega as fotos – Virou garota da playboy?

Posso escutar o riso de Felipe nos fundos.

Sorrio. Calma. Se eu explicar para ela, logicamente, irá entender a causa e até ficará orgulhosa.

– Preste atenção. – sento na poltrona e início a história.

– Então essas fotos são um protesto? – ela ergue uma sobrancelha – E são a realização de um trabalho da faculdade?

Suspiro e meneio a cabeça. Graças a Deus, ela entendeu. Não estou nem um pouco com vontade de debater os fatos e contra-atacar o idiota.

– Foi um manifesto e aí aproveitaram aquele meu envolvimento com o crime do beco e fizeram uma alusão a chapeuzinho vermelho. – explico – Não há nada pornográfico. Qualquer dia trago as fotos das outras meninas para a senhora ver.

– Vocês deviam ser premiados por isso. – Israel comenta – É um trabalho genial e aborda temas importantes e do cotidiano.

– Uma revista local nos chamou para uma matéria, tanto que já fiz uma sessão de fotos.

– E você não me conta nada disso? – ela pergunta, incrédula.

– Ah. – dou de ombros – Não achei algo super importante.

Levanto.

– Depois podemos conversar? – encaro-a.

– Claro.

Pego minhas coisas e subo para o quarto, sem antes lançar um olhar vitorioso sobre Felipe – não foi dessa vez, querido, não foi dessa vez. Subo arrastando a mala e quando chego no quarto, a única coisa que consigo fazer é me jogar na cama.

Ele é pai e a mãe dele me odeia. Nunca fui tão ultrajada na minha vida e o pior é que não havia motivo para tamanha grosseria, deveria ter falado mais, ter sido mais grossa. Sou tão idiota que nem sei brigar. Quem é a mãe do filho dele? Não deve ser da cidade, se não o boato já tinha corrido.

A porta do meu quarto abre. Sento na cama e observo minha vó se aproximar e sentar aos meus pés.

– O que aconteceu?

Suspiro e me coloco a falar, desabafar e chorar.

– Que sujeita mais grossa! – ela se admira – Onde já se viu falar assim com você? Uma moça tão educada e de família. Oras, se eu encontra-la na rua, quebro a cara dela.

Sorrio, melancolicamente.

– Nem consegui revidar a altura, pareci uma idiota falando. – resmungo, baixo.

– Claro que não. – ela me abraça – Você é uma menininha, menina de apartamento. É lógico que não vai saber brigar ou revidar.

Ficamos em silêncio.

– Ele tem um filho. – murmuro.

– Essa foi a gota da água, Bianca. – ela sussurra – Desista desse moço. Você já viu que não dá certo, ele tem muitos problemas e acabará trazendo-os até você. Há muitos jovens por aí para conhecer, não se apegue ao primeiro.

Continuo em silêncio.

– E o filho vai ser o problema maior dele. – ela continua – Já imaginou? Ele terá que pegar nos fins de semana, fazer papel de pai e criar. Você não vai querer participar, principalmente sabendo que é da outra, não me surpreende se tiver ciúmes. Então, por favor, esqueça esse moço.

Desistir dele? Parece até absurdo, mas ela está certo. Ficar com ele agora será diferente, vai ter a criança entre nós, ele terá que agir diferente e a outra sempre irá interferir. Se já não somos estável sem criança, imagina com ela.

– Tudo bem. – concordo – A senhora está certa.

Ela beija o topo de minha cabeça.

– Nessas horas é ótimo conversar com a mãe da gente.

Indireta bem-sucedida.

Assim que minha vó saí, ligo para mim e conto sobre o encontro com a mãe do Malic. A reação dela não foi diferente, mas o assunto sobre isso durou pouco, voltamos a falar do Jonas na cadeia.

Malic não me procurou mais.

**

A porta do quarto abre novamente, largo o meu notebook para contemplar a pessoa que entra. É Matthew.

– Quanto tempo. – sorrio.

– Pois é.

Está abatido.

– Senta. – abato no lugar ao meu lado e ele se aproxima, hesitante – Aconteceu alguma coisa?

– O Jonas foi preso.

Encaro minhas mãos.

– Pois é. – murmuro – Você foi ver ele?

– Estou sem coragem. – ele encosta em minha escrivaninha.

– Por quê?

– Tipo, conheço o Jonas desde sempre, somos amigos há tanto tempo que perdi a conta e ele sempre foi um cara legal, tímido, mas super extrovertido e cheio de piadinhas. Ele até fez o curso de anatomia comigo, só pra fazer companhia.

O que nós conhecemos das pessoas é apenas a ponta do iceberg.

– Depois que falaram que ele era o Lobo Mau, me recusei a acreditar. – ele continua – Porra, estavam falando que o meu amigo matou todas aquelas meninas. O Jonas matando? É impossível acreditar; a única coisa que matava era os carinhas no videogame.

A decepção é a doce amargura.

– Também não consegui acreditar. – murmuro – É tão estranho. E olha que eu o conheço a pouco tempo e não o imaginava como um assassino cruel assim.

– É difícil pensar nele e projetar essa ideia para o assassino que matou aquelas meninas que apareciam no jornal.

– É difícil acreditar que ele fez aquilo. – complemento – Sendo o Jonas que era com a gente.

Concordamos em silêncio. Pesaroso e frio.

– Quer ir comigo? – ele me encara.

– Onde?

– Na delegacia vê-lo. – ele fala, óbvio.

– Pra que?

– Para escutar da boca dele que ele fez aquilo tudo, para olhar nos olhos dele e ter a confirmação.

Respiro fundo. Não acho uma boa ideia ir, mas o Matthew parece atormentado pela ideia do Jonas ser o serial killer, então para ele será bom.

– Tudo bem. – levanto – Vou me trocar.

– Podemos ir com o seu carro?

– Claro. – pego uma muda de roupa e vou para o banheiro.

E lá vamos nós... Encontrar com o Lobo Mau.

Notas finais
Então... O que está achando?